Estive ontem na Sala São Paulo para assistir à Osesp comandada por John Nelson em um programa Mahler/Schumann. Eles começaram com Manfred, versão musical do poema de Lord Byron sobre o herói romântico que se refugia nos Alpes, atormentado por desejos, à espera da morte. Na sequência, o Ruckert Lieder. Há toda uma relação interessante entre a figura romântica de Lord Byron/Schumann e a desconstrução romântica de uma canção como Ich Bin der Welt. Mas achei o Manfred pesado, embolado, pouco preciso – e a regência para o Mahler um pouco apressada, superficial, desconectada do canto da incrível mezzo Petra Lang. Gente, que voz! Um timbre bonito, com graves cheios e ainda assim delicados, e uma região aguda brilhante. E ela é excelente intérprete, atenta à construção das frases, inteligente na exploração dos contrastes e capaz de pianíssimos que ainda não me saíram da mente! Enfim, uma lição de técnica e de expressividade. Na segunda parte, Nelson compensou em grande estilo e fez uma excelente Sinfonia nº 2 de Schumann, transparente, fazendo a Osesp soar como nos seus melhores dias.
E hoje tem Virada Cultural, que pela primeira vez está oferecendo uma programação erudita mais ampla. O site da revista Concerto fez um favor a todos nós e separou, em meio ao caos da programação, uma lista dos concertos e recitais do evento. Vou começar às 18 horas com o Quaternaglia, na Pinacoteca, assistir às orquestras no palco da Luz e acompanhar os recitais de piano na praça Dom José Gaspar. Só uma interrupção, no meio do caminho, para ver a Sinfônica da USP na Sala São Paulo, com programa com obras de Silvio Ferraz, Rachmaninoff e Schumann. Regência de Lígia Amadio.
Há diversas possibilidades de leitura da Tosca, de Puccini. Em sua narrativa das desventuras amorosas entre a personagem-título e o pintor revolucionário Mario Cavaradossi, atazanados pelo chefe de polícia Scarpia, cabem considerações sobre a natureza do amor, ciúmes, ódio; sobre os caminhos do desejo; e até mesmo sobre a relação entre o indivíduo e a política. Seja como for, a ópera, que abriu na semana passada a temporada do Teatro São Pedro, entrou para o repertório como símbolo da investigação da relação teatral entre texto e sons na construção do drama musical – e ajudou a fazer de Puccini um marco fundamental no desenvolvimento do gênero operístico, na companhia de Mozart, Verdi e Wagner.
Talvez por isso decepcione um pouco a montagem assinada por Fernando Bicudo, sem grandes atrativos na concepção ou direção de atores. E, nos cenários e figurinos, peca pelo excesso – menos, afinal, pode ser mais, em especial em um palco pequeno como o do São Pedro e em uma ópera que já carrega na música e no texto tantos significados. Talvez aqui haja um paradoxo, é verdade. Mas Bicudo passa batido por ele em uma leitura em alguns momentos anacrônica.
É preciso, portanto, voltar à música para encontrar o que o espetáculo teve de melhor, oferecendo olhar repleto de frescor à partitura. Em boa forma e desenvoltos em cena, o tenor Rubens Medina, como Cavaradossi, e o barítono Rodrigo Esteves, como Scarpia, foram o que de melhor o espetáculo ofereceu vocalmente. Medina tem um timbre de cor escura, que garante belos efeitos, em especial nas passagens mais líricas, mas se sai bem nos momentos de tom mais heroico, no primeiro e segundo atos. Esteves é um Scarpia de voz mais leve do que o comum. Mas é um cantor inteligente, musical, que constrói de maneira equilibrada a personalidade do chefe de polícia, elegante e sinuosa, seja na ária do primeiro ato como em toda a sequência do segundo ato, em que tortura psicologicamente Tosca. O ponto mais fraco foi a Tosca da soprano Ana Paula Brunkow. A voz é bonita, corre bem nos agudos, mas na região mais grave tem problemas de emissão que levam a um uso excessivo do parlando – a técnica de falar cantando -, que acaba soando um pouco artificial, como na última cena, em que Tosca se joga do alto do castelo para fugir da polícia. E a pouca desenvoltura como atriz acaba comprometendo momentos musicais de resto interessantes, como a célebre ária Vissi D”Arte.
Drama. A boa surpresa veio do fosso orquestral, com a presença da Sinfônica da Universidade de São Paulo em sua primeira ópera completa no teatro. À frente do grupo que assumiu no final do ano passado, a maestrina Lígia Amadio mostrou-se muito à vontade com o repertório operístico. Ela constrói bem os grandes momentos musicais, solta a orquestra quando deve, dá espaço aos cantores na hora certa e conduz com eficácia o passo dramático do espetáculo. Há momentos de tirar o fôlego, como a construção do clímax do segundo ato ou toda a sequência que vai da ária do tenor no terceiro ato até a cena final, passando pelo dueto de amor, em que contrastes surgem do lirismo que compete a todo instante com o clima tenso da fuga dos amantes. A leitura de Ligia, no final das contas, tem a urgência que falta à concepção cênica.
Por isso mesmo, Tosca foi um início de temporada auspicioso. A presença de uma orquestra profissional no fosso fez diferença. E a partir do próximo título – um Rigoletto, de Verdi, em junho-, já estará em funcionamento, promete o governo do Estado, a orquestra residente do Teatro São Pedro, o que tem tudo para dar consistência musical à temporada. É uma reivindicação antiga. E chega em boa hora. Afinal, com o Municipal ainda fora de combate, resta ao público seguir em caravana para a Barra Funda.
(Caderno 2, 5/5/10)
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