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João Luiz Sampaio

O maestro Christoph Eschenbach/Divulgação

O maestro Christoph Eschenbach/Divulgação

Cheguei agora há pouco de meu primeiro concerto aqui em Salzburgo – Filarmônica de Viena com Christoph Eschenbach (maestro) e Tzimon Barto (piano). Programa dedicado a Schumann: na primeira parte, eles uniram três peças buscando um todo coeso – “Introdução e Alegro Appassionato Op. 92”; as “Variações Fantasma”; e o “Allegro com Introdução Op. 134”. No meio, piano solo; nas pontas, duas espécies de concertos para piano e orquestra sem o primeiro movimento. Na segunda parte, “Ernster Gesang”, homenagem de Wolfgang Rihm, compositor residente desta edição do festival, a Brahms; e mais Schumann, a “Sinfonia nº 2″.

As peças de Schumann escolhidas giram em torno de um momento difícil, seus últimos dez anos de vida, quando explosões criativas conviviam frequentemente com ataques de nervos que eventualmente o levariam à internação em um sanatório em Endenich, nas proximidades de Bonn. Sobre a Sinfonia nº 2, ele dizia em uma carta: “Eu a escrevi ainda doente e me parece que as pessoas devem ouvir isso. Apenas no último movimento comecei a me sentir uma vez mais como eu mesmo. Só voltei a me sentir inteiramente bem depois de completar toda a obra.” Há a sugestão, nessas palavras, da força de criação como a responsável por levar o homem da escuridão à luz. O que me fascina, no entanto, é o modo como ambas conviveram dentro do compositor. Às vezes acho que seria estranho falar em superação. Por meio da música, da criação, me parece que ele articulou luz e escuridão a todo instante, fazendo da arte a medida de um equilíbrio talvez inatingível. Nesse sentido, são emblemáticas as Variações Fantasma – que levam esse nome pois o tema inicial lhe foi sugerido durante um sonho pelos fantasmas de Schubert ou Mendelssohn. O compositor acabara de tentar o suicídio, se jogando nas águas do Reno – como explicar, então, a clareza e a simplicidade da melodia? É desconcertante. De arrepiar, mesmo, em especial quando colocada na sequência do Allegro triunfante com que se encerra o Op. 92 – e ali também há algo a ser dito sobre a melancolia contida e resignada da introdução, em que o tema é enunciado pelo clarinete, em diálogo com os arpejos do piano.

Tzimon Barto era um pianista que só conhecia de nome e saí com boa impressão – seu Schumann flui, ele não acrescenta nenhuma carga à música, retirando dela e de sua lógica interna os contrastes e uma enorme riqueza de coloridos. A peça de Rihm é muito interessante –ao receber a encomenda de uma homenagem a Brahms, evitou a pura citação e, quando relembra temas como o do primeiro movimento da Sinfonia nº 2, é para desconstruí-los de maneira radical, os ressignificando no conjunto de sua obra, que tem tom lúgubre, denso, pesado – “vozes nebulosas”, para usar as palavras do compositor. Na Filarmônica de Viena o que impressiona não é apenas a sonoridade e qualidade individual e dos naipes: incrível é o equilíbrio entre eles e o modo como você ouve simplesmente tudo o que eles estão fazendo! Isso foi particularmente interessante na sinfonia: a leitura de Eschenbach, repleta de urgência, leva a orquestra ao limite – e nós junto com ela, ouvindo cada detalhe da partitura em uma mistura sonora estimulante! É música viva, orgânica, dinâmica, que fica na memória justamente porque nasce e termina na fugacidade de um momento.

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A Osesp abriu agora há pouco a sua programação 2010, na Sala São Paulo, sob regência de Yan Pascal Tortelier, e deu a largada na temporada sinfônica do País. Apesar de um ou outro momento, a sensação que ficou para mim foi de certa decepção. Gostei da “Fantasia Sobre o Hino Nacional Brasileiro“, de André Mehmari, que substituiu a tradicional interpretação do hino no primeiro concerto do ano – e foi interessante a reação da platéia, com pessoas se levantando mesmo assim para acompanhar a execução da peça, encomendada pelo novo diretor artístico do grupo, Arthur Nestrovski. Confesso que esperava mais de Lars Vogt e do Concerto de Schumann – solista e orquestra pareciam muito pouco integrados. Não estou falando de falta de apuro técnico, muito pelo contrário – pianista e Osesp demonstraram estar em excelente forma; mas faltou a comunicação que pode fazer do Schumann um momento mágico de diálogo musical, entre os músicos e com a platéia. Na segunda parte, o “Prelude à L’après-midi d’un Faune“, de Debussy, soou burocrático. Já no “Salmo” de Florent Schmitt, a leitura de Tortelier tem achados interessantes. Mas na peça o balanço é fundamental na revelação de uma teia de texturas – e, no geral, a interpretação mostrou desequilíbrio entre coro, orquestra e solista, a soprano Susan Bullock, inaudível em boa parte de suas intervenções. O ano está só começando. E é bom ter a Osesp de volta à Sala São Paulo. O melhor, no entanto, ainda está por vir.

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