
O maestro Simon Rattle, diretor da Filarmonica de Berlim/Divulgacao
Acabo de chegar do ensaio que a Filarmonica de Berlim fez agora pela manha com o maestro Simon Rattle. É um programa ambicioso, que tem as Quatro Últimas Cancöes de Strauss e Webern (Seis Pecas para Orquestra), Schoenberg (Cinco Pecas para Orquestra) e Berg (Tres Pecas para Orquestra). A solista do Strauss, Karita Mattila, nao chegou ainda a Salzburg e por isso ficou fora do ensaio, decepcionando quem estava louco para ouvi-la cantar (sim, tö falando de mim mesmo). No restante das pecas, foi estimulante ver Rattle construindo a interpretacao nos detalhes, fazendo os músicos repetirem à exaustao algumas passagens em busca de equilíbrio entre os naipes e, principalmente, precisao sonora. E soltando comandos como “Este silencio precisa ser mais ensurdecedor”, no Webern, preparando a parada da orquestra após a explosao da percussäo; ou “Por que entregar este esboco de melodia se podemos simplesmente insinuá-lo?”.
Acabei de falar com Bernard Haitink. Falamos de Mahler, Bruckner, da juventude dele – assistindo em Salzburg concertos de Furtwangler com a Filarmonica de Viena, que ele rege amanha aqui, com a Quinta de Bruckner. Sobre Mahler, interessante – ele, que foi um dos primeiros a abrir espaco para sua música, acha que suas sinfonias säo tocadas demais nos dias de hoje, sendo pervertidas em suas mensagens. Contou que recebeu tres convites para fazer integrais do compositor ao longo destes anos comemorativos, mas recusou. Em troca, se ofereceu para integrais sinfonicas de Beethoven. Acabou de terminar uma com a Sinfonica de Chicago, da qual foi diretor até dois meses atrás. “Está tudo ali, humano em todas as suas possibilidades”. Depois conto mais, agora vou correr para ver a Orquestra Jovem Gustav Mahler tocando Brahms, com Hillary Hahn de solista, e Hindemith, Mathis der Maler. Regencia de Herbert Blomstedt.

O compositor alemäo Wolfgang Rihm/Divulgacao
Tive uma longa conversa hoje pela manha com o compositor alemao Wolfgang Rihm (desculpem a falta de acento mas estou no media center, onde os computadores tem uma logica toda própria e näo acho todos os sinais). Às vésperas de completar 60 anos, ele é cada vez mais figura relevante no cenário internacional, recebendo encomendas de obras de grandes orquestras americanas e européias – para se ter uma ideia, aqui em Salzburg ele näo apenas estreou sua nova ópera, Dyonisio, como teve programacao especial dedicada à sua producao sinfonica em dez concertos da Filarmonica de Viena. A conversa foi agradável e falamos longamente sobre o estado atual da composicäo, seu processo criativo, os desafios de se escrever hoje uma ópera, o fascínio pela obra em prosa de Nietzche (“é aqui e näo na poesia que ele se revela um grande poeta”). O mais interessante, porém, foi o papo sobre a necessidade de equilíbrio entre o caos e a disciplina, na vida e na criacäo – e sobre como o artista näo pode se considerar acima da obra que cria. Näo entro em mais detalhes para reservar algo para a matéria do Caderno 2. Daqui a pouco vou conversar com mr. Netrebko, Erwin Shrott, que vi fazendo Leporello ontem aqui no Don Giovanni. E, mais tarde, mrs. Netrebko canta Romeu e Julieta, ao lado do tenor Piotr Beczala, a mesma dupla daquela Lucia do Metropolitan exibida nos cinemas. Depois falamos mais.

Christoper Maltman como Don Giovanni/Divulgação
Diz a piadinha que, na visão de Mozart e do libretista Lorenzo Da Ponte, Don Giovanni era um péssimo conquistador – afinal, ao longo de quase três horas de ópera, o personagem tenta, tenta, mas não pega ninguém. O diretor Claus Guth resolveu o problema na montagem que dirigiu para o Festival de Salzburg, que assisti hoje à noite na Haus für Mozart, palco que faz parte do complexo de teatros do evento. Logo na primeira cena, quando mata o comendador, pai de Dona Anna, a quem tenta conquistar, Don Giovanni é ferido. Passa toda a ópera sob o efeito da dor do ferimento. Não está, portanto, em sua melhor forma. Justo, então, que não consiga conquistar nenhum de seus alvos. Não há nenhuma alusão a um ferimento de Don Giovanni em Mozart. Mas essa liberdade está no cerne da concepção do diretor. É claro que a piadinha nem de longe é a motivação de Guth. O recurso, na verdade, se presta à defesa daquilo que, em sua concepção, é a mensagem que o compositor quis passar na obra – o que pode ser extravazado para uma percepção mais ampla de todo o ciclo de óperas com libreto de Da Ponte, nas quais, para Guth, que as está montando ano a ano aqui em Salzburg, estão as ideias principais de Mozart a respeito do ser humano.
Em “As Bodas de Fígaro”, diz ele, “estão testadas todas as possibilidades de Eros de maneira divertida e sem julgamentos, ainda que possam ser dolorosas”; em “Cosi Fan Tutte”, “o que era diversão vira cinismo e as possibilidades vistas nas Bodas agora são previsíveis e clichês”. Já em “Don Giovanni”, diz o diretor, o tema é a obsessão – e Tanatos, o deus da morte, entra em ação. “Eros não se revela de maneira divertida, mas desenvolve uma luta poderosa, densa, em direção ao movimento, à ação”. Em outras palavras, Don Giovanni está fugindo da morte – e quer extrair da vida tudo o que for possível. O que a gente vê no palco, portanto, muda de figura: – a luta de Don Giovanni não é pelo puro prazer da conquista mas, sim, uma obsessão pela relação entre desejo e mortalidade. O conceito me parece estimulante, mas traz algumas consequências – o tom de comédia se esvai e dá lugar a um sentido trágico que domina toda a cena e leva a andamentos mais lentos e pesados, em especial nos recitativos. O palco se transforma em um espaço lúgubre, uma floresta no meio do nada, que vai sendo desconstruída com o passar das cenas e no qual o texto de Da Ponte perde um pouco da espontaneidade e ganha cores de absurdo. Ainda assim, oferece novas camadas de leitura para um personagem fascinante, do qual já se escreveu e falou tanto. E isso me parece bem estimulante.
As escolhas cênicas redimensionam o espetáculo também vocalmente. São todas vozes poderosas, grandes, importantes. Mas entram também no universo de absurdo a que se propõe o diretor. Christopher Maltman fez Don Giovanni; Erwin Shrott foi Leporello; Aleksandra Kurzak cantou Donna Anna; Joel Prieto foi Don Antonio; Dimitri Ivashchenko, o Comendador; Anna Prohaska, Zerlina; e Adam Plachetka, Masetto. A única leve decepção, para mim, foi a Elvira de Dorothea Roschmann – leve demais, sofrendo nas regiões mais graves, ainda que no meio e no alto seja capaz de criar belos coloridos. Boa regência de Yannick Nézet-Séguin à frente da Filarmônica de Viena. Em tempo – o diretor optou pela versão de Viena da ópera, ou seja, sem o final moralizante entoado pelos personagens depois que Don Giovanni é tragado pelo inferno.
*** Rápidas
- Você está sentado em um restaurante ao ar livre, na praça em frente do teatro, e, de repente, alguém se levanta da mesa ao lado e pede para usar a sua mostarda – e você se dá conta de que se trata de ninguém menos que o barítono Mathias Goerne, que amanhã faz recital aqui com Christoph Eschenbach.
- A montagem da “Elektra”, de Strauss, é o assunto do festival – conversei com pessoas que já estão aqui há algumas semanas e todas dizem que foi o que de melhor se fez em ópera este ano. Estou curioso, vou ver a montagem só no sábado. Uma coisa é fato – a Unitel Classics resolveu na semana passada gravar a produção em DVD e hoje os caminhões de equipamentos de filmagem já estavam estacionados ao lado da casa do festival.

O maestro Christoph Eschenbach/Divulgação
Cheguei agora há pouco de meu primeiro concerto aqui em Salzburgo – Filarmônica de Viena com Christoph Eschenbach (maestro) e Tzimon Barto (piano). Programa dedicado a Schumann: na primeira parte, eles uniram três peças buscando um todo coeso – “Introdução e Alegro Appassionato Op. 92”; as “Variações Fantasma”; e o “Allegro com Introdução Op. 134”. No meio, piano solo; nas pontas, duas espécies de concertos para piano e orquestra sem o primeiro movimento. Na segunda parte, “Ernster Gesang”, homenagem de Wolfgang Rihm, compositor residente desta edição do festival, a Brahms; e mais Schumann, a “Sinfonia nº 2″.
As peças de Schumann escolhidas giram em torno de um momento difícil, seus últimos dez anos de vida, quando explosões criativas conviviam frequentemente com ataques de nervos que eventualmente o levariam à internação em um sanatório em Endenich, nas proximidades de Bonn. Sobre a Sinfonia nº 2, ele dizia em uma carta: “Eu a escrevi ainda doente e me parece que as pessoas devem ouvir isso. Apenas no último movimento comecei a me sentir uma vez mais como eu mesmo. Só voltei a me sentir inteiramente bem depois de completar toda a obra.” Há a sugestão, nessas palavras, da força de criação como a responsável por levar o homem da escuridão à luz. O que me fascina, no entanto, é o modo como ambas conviveram dentro do compositor. Às vezes acho que seria estranho falar em superação. Por meio da música, da criação, me parece que ele articulou luz e escuridão a todo instante, fazendo da arte a medida de um equilíbrio talvez inatingível. Nesse sentido, são emblemáticas as Variações Fantasma – que levam esse nome pois o tema inicial lhe foi sugerido durante um sonho pelos fantasmas de Schubert ou Mendelssohn. O compositor acabara de tentar o suicídio, se jogando nas águas do Reno – como explicar, então, a clareza e a simplicidade da melodia? É desconcertante. De arrepiar, mesmo, em especial quando colocada na sequência do Allegro triunfante com que se encerra o Op. 92 – e ali também há algo a ser dito sobre a melancolia contida e resignada da introdução, em que o tema é enunciado pelo clarinete, em diálogo com os arpejos do piano.
Tzimon Barto era um pianista que só conhecia de nome e saí com boa impressão – seu Schumann flui, ele não acrescenta nenhuma carga à música, retirando dela e de sua lógica interna os contrastes e uma enorme riqueza de coloridos. A peça de Rihm é muito interessante –ao receber a encomenda de uma homenagem a Brahms, evitou a pura citação e, quando relembra temas como o do primeiro movimento da Sinfonia nº 2, é para desconstruí-los de maneira radical, os ressignificando no conjunto de sua obra, que tem tom lúgubre, denso, pesado – “vozes nebulosas”, para usar as palavras do compositor. Na Filarmônica de Viena o que impressiona não é apenas a sonoridade e qualidade individual e dos naipes: incrível é o equilíbrio entre eles e o modo como você ouve simplesmente tudo o que eles estão fazendo! Isso foi particularmente interessante na sinfonia: a leitura de Eschenbach, repleta de urgência, leva a orquestra ao limite – e nós junto com ela, ouvindo cada detalhe da partitura em uma mistura sonora estimulante! É música viva, orgânica, dinâmica, que fica na memória justamente porque nasce e termina na fugacidade de um momento.
Chegar em uma cidade como Salzburg deixa minha cabeça maluca, viajando vertiginosamente entre passado, presente e, por que não, futuro. Não dá para passar em frente da Casa do Festival e não pensar em tudo o que já foi realizado ali, em todos os artistas que passaram por este palco – e o que ainda vão passar, levando a uma reflexão sobre como se transformou o mundo dos concertos ao longo das décadas. E, de repente, damos de cara com a Praça Herbert Von Karajan; seguimos mais um pouco, a via Toscanini. É como se aquela pilha de discos que temos na estante, com o selo do festival, começassem a tocar todos ao mesmo tempo na nossa cabeça, criando uma música indistinta, caótica e extremamente familiar. E, ao mesmo tempo, tudo é novo. Não seria esse mesmo, afinal, o sentido da tradição?
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A ideia era só caminhar um pouco no final de tarde de temperatura agradável, o sol se pondo ao fundo da paisagem cortada pelo rio Salzach. Mas, depois de uma salsicha com cerveja local no Alter Markt, dei de cara com a Mozart Gebursthaus – a casa em que nasceu Mozart. Não deu para resistir e entrei correndo. Você sobe ao terceiro andar e, algumas salas depois, a placa, discreta, avisa: quarto do nascimento. Vai parecer absurdo, eu sei: mão nem sei o que sentir em um lugar como esse! Os sentimentos são tantos e tão diferentes que fico meio perdido e deixo de articular qualquer percepção – parado, absorvendo, absorvendo. Mas parei frente à janela e ali fiquei fascinado com a paisagem angulosa que ela revela, muros, paredes entrecortadas, um pequeno pátio, de onde hoje chega um cheiro forte de gordura, que vem dos fundos de um restaurante no prédio ao lado. Ali cheguei perto de enxergar o pequeno Mozart. Será que ele corria por ali? Será que brincava? E me dei conta de que, na verdade, por mais que se ouça sua música e se conheça os locais por onde passou, o que somos capazes de entender da genialidade daquela cabeça é realmente muito pouco. Enfim, nem sei por que me marcou tanto esta imagem. Mas com certeza será difícil ouvir sua música a partir de agora sem ela.
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Andei distante do blog. Não gosto de fazer isso, mas as últimas semanas foram corridas demais. Além do trabalho na redação e da participação em um interessante simpósio sobre ópera promovido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (sobre o qual ainda pretendo escrever), estou terminando de escrever, com a jornalista e amiga Luciana Medeiros, um livro sobre o violoncelista Antonio Meneses. A notícia já saiu em alguns cantos, então posso contar para vocês do projeto. No começo do ano, estivemos com o Antonio durante cerca de um mês, o que nos rendeu dezenas de horas de entrevistas sobre sua vida e suas ideias a respeito de música. Desde então, temos trabalhado em cima desse material. O livro sai agora em outubro, pela Algol, com um disco gravado especialmente por ele para o lançamento. Estamos colocando os pontos finais no texto, já sentindo falta do projeto. Mas outros virão. O fato, enfim, que a rotina aos poucos vai voltando ao normal e pretendo estar por aqui com mais frequência.
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Fico aqui uma semana. Serão dias agitados, com mais de dez atrações entre óperas, concertos e recitais. Amanhã, Don Giovanni; na segunda, Romeu e Julieta com a Netrebko; tem Elektra com Waltraud Meier; Filarmônica de Viena com Eschenbach, Concertgebouw com Mariss Jansons, Filarmônica de Berlim com Simon Rattle; Orfeu e Eurídice com Riccardo Muti; canções de Schubert com Jonas Kaufmman. Ao longo dos dias, vou dando notícias para vocês. Ah, e prometo voltar à casa de Mozart – e, quem sabe, contar algo sobre ela que faça um pouco mais de sentido. Ou não.
P.S. Já estava esquecendo. Fiz várias fotos mas trouxe o cabo errado e não consegui passar as imagens para o computador. Amanhã vou tentar resolver isso e então posto as imagens aqui.
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