Quando não está ensaiando ou no palco, Rudolf Buchbinder se diverte colecionando partituras. De preferência, primeiras edições – e, se possível, ainda manuscritas. Nada como estar diante, literalmente, das intenções originais de um compositor – ainda que isso, ele garante, o deixe cada vez mais livre na hora de buscar sua própria interpretação. Essa é apenas uma de muitas idiossincrasias de um intérprete que, no panorama europeu, representa um elo entre a grande tradição dos pianistas do passado e a modernidade, encarnada na atenção às pesquisas recentes sobre o grande repertório e, talvez aí esteja mais um paradoxo, no interesse por um amplo leque de períodos, compositores e estilos. À frente de orquestras como as filarmônicas de Viena ou Berlim, lhe é dado o direito raro de atuar como solista e reger, direto do piano. Reconhecimento concedido a poucos, assim como o recente prêmio Echo Klassik, da indústria fonográfica alemã, por The Sonata Legacy, caixa com a sua leitura para todas as 32 sonatas para piano de Beethoven. É o compositor o eixo de seus dois recitais na Sala São Paulo, no dia 30 de julho e 1º de agosto, como parte da temporada do Mozarteum Brasileiro. No segundo dia, encerrando a noite, há também um Chopin – a Sonata em Si Menor Op. 58. No mais, Beethoven e algumas de suas sonatas – as de nº 6, 8 (Patética), 14 (Ao Luar) e 23 (Appassionata). Da última vez que esteve no Brasil, em 2009, Buchbinder tocou sonatas de Haydn e Mozart. Se é possível estabelecer uma genealogia do gênero, Beethoven seria a geração seguinte. Mas Buchbinder rechaça qualquer ideia de continuidade. “São mundos completamente diferentes e meus recitais de agora nada têm a ver com os de três anos atrás”, diz, por telefone, de sua casa na Alemanha. E continua. “É como dizer que os primeiros concertos para piano de Beethoven, ou suas duas primeiras sinfonias, são mozartianos. Isso me incomoda profundamente. E não só a mim. Já tive a chance de conversar sobre o assunto com maestros como Nikolaus Harnoncourt ou Wolfgang Sawallich e, mesmo sendo músicos bastante diferentes, eles concordam: Beethoven já é Beethoven desde o início. Simples assim.” Nascido em dezembro de 1946 em Leitmeritz, na Checoslováquia, Buchbinder estudou em Viena com Bruno Seidlhofer, mestre, entre outros, da argentina Martha Argerich e do brasileiro Nelson Freire. Aos 20 anos, venceu um prêmio especial no Concurso Van Cliburn, que lhe deu passe de acesso para as principais temporadas de concerto da Europa e dos Estados Unidos.
Sua discografia, além da integral de Beethoven (ele registrou recentemente em DVD com a Filarmônica de Viena os concertos para piano e orquestra do compositor), estão todas as sonatas de Haydn e todos os concertos para piano de Mozart. Ele se incomoda, no entanto, que os críticos considerem estes autores como sua especialidade. Desfia, então, um rosário de autores, incluindo um ou outro autor contemporâneo; e diz que atualmente está interessado em gravar Schumann. Reconhece, no entanto, a importância do repertório tradicional. “O que acontece com gente como Haydn, Mozart ou Beethoven é que não há como diminuir a importância que esses autores têm. Eu costumo dizer que um dos aspectos mais fascinantes é que não há uma interpretação autêntica. Você pode pegar dez versões da Quinta de Beethoven, as dez serão fantásticas. Você pode gostar mais de uma, mas é possível que todas elas sejam coerentes e interessantes. Isso é fascinante.” Especificamente sobre as sonatas, ele faz questão de questionar algumas ideias preconcebidas que, diz, amarram o intérprete e lhe tiram a liberdade. Primeiro, a filiação mozartiana – e, na sequência, a ideia de que há uma “noção equivocada” de evolução segundo a qual, de uma sonata a outra, o compositor torna-se mais interessante, culminando na riqueza da proposta musical de suas últimas obras do gênero. “Elas são interessantes desde o começo. Uma sonata como a Appassionata, mesmo com este nome infeliz que, aliás, não foi dado por Beethoven, não pode ser considerada menor que qualquer outra delas. Ele escreveu sonatas durante toda sua vida e elas sempre serão um exemplo bem acabado do momento que ele vivia. Nem sempre com a maturidade vem o refinamento. E, veja, há jovens de 20 anos muito mais maduros que senhores de 60.” Se Buchbinder relativiza desta forma a noção de tempo, é natural que não considere que sua interpretação para essas peças, depois de mais de 50 anos de carreira, tenham evoluído. A questão, acredita, está mal colocada. Não se trata de tempo. “Um intérprete precisa ser livre, acima de tudo. Mas a grande liberdade só se atinge com o grande conhecimento. É por isso que me interesso por edições originais. O conhecimento, mais do que tudo, é libertador.”
Crítica: Uma leitura construída a partir de extremos
Com suas 32 sonatas para piano, Beethoven não apenas reinventa formalmente o gênero, mas o faz à luz de um senso bastante pessoal de arquitetura que ecoa as dores, alegrias, dúvidas e angústias de alguns dos momentos mais marcantes de sua biografia. Escritas entre 1795 e 1822, ou seja, durante toda a sua vida adulta, elas são vistas como uma espécie de autobiografia do compositor – ainda que a legitimidade do relato extramusical tenha muito a ver com a imagem do autor construída por quase dois séculos de releituras. Seja como for, o conjunto das sonatas é um monumento da cultura ocidental – e o modo como se dá a aproximação a ele diz muito a respeito de um intérprete. O segundo registro de Rudolf Buchbinder foi feito ao vivo, durante uma série de recitais em Dresden. Entre a delicadeza quase espiritual e a força rude, com virtuosismo indiscutível, ele trabalha a partir dos contrastes. Os momentos mais interessantes de sua leitura, no entanto, se dão justamente quando abre mão de construir a interpretação a partir dos extremos. Revelam-se, então, breves instantes de transcendência em um todo, no geral, correto.
No final da semana passada, pouco antes de embarcar para o Brasil, a pianista canadense Angela Hewitt estava preocupada. Recebeu uma ligação de São Paulo com uma notícia preocupante: o hotel em que ficaria hospedada não autorizou a colocação em seu quarto de um teclado onde ela pudesse estudar. Estavam preocupados com o barulho. “Eu falei para eles colocarem o maestro no quarto ao lado, mas acho que eles não gostaram da brincadeira”, escreveu ela no sábado em seu blog. A solução seria um teclado com fone de ouvido – e Angela resolveu acionar todos os conhecidos brasileiros para a tarefa.
A tática deu certo? “Parece que amanhã de manhã vão me entregar um teclado, bem cedinho”, diz ela já em São Paulo, na tarde de segunda, quando conversou com o Estado. No domingo, não teve jeito, usou o piano do bar do hotel. “O gerente disse que bastante gente comentou que o som estava agradável”, brinca. “Eu sei que parece chatice de pianista, mas não é. Tenho muito repertório a preparar e é importante ter um piano à disposição”, explica, divertindo-se. Ainda em agosto, ela vai tocar pela primeira vez a Sinfonia Turangalila, de Messiaen, peça-chave do repertório para piano do século 20. Precisa estudar, diz. Mas, antes, faz a primeira viagem ao Brasil. De hoje a sábado, toca Schumann e Mozart com a Osesp regida por Hannu Lintu; e, no domingo, sobe ao palco da Sala São Paulo para um recital solo que está entre os mais aguardados do ano, no qual vai interpretar as Variações Goldberg, de Bach.
Hewitt e Lintu estão no meio de um projeto de gravações dos concertos para piano de Mozart. A princípio, ela não vê relação imediata entre o de nº 27 e a Introdução e Allegro de Schumann, as duas peças de seu programa em São Paulo. Mas, aos poucos, estabelece paralelos. “Elas são bastante diferentes entre si, mas ao mesmo tempo combinam bem com a Sinfonia nº6 de Beethoven, que a orquestra toca na segunda parte. O Schumann é muito pouco tocado, uma peça bastante virtuosística, mas de um virtuosismo que funciona a serviço da musicalidade, da beleza musical. O Mozart é também muito especial, seu último concerto. É sempre curioso pensar o que ele teria feito em seguida, para onde sua música iria. A peça tem várias atmosferas, temperamentos. E um senso de melancolia muito grande, que perpassa até os trechos mais alegres. No fundo, há uma tristeza comum. E o mesmo vale para o Schumann. Talvez as peças tenham este clima em comum, e o fato de serem da fase final de seus autores.”
A euforia que ronda a passagem de Angela Hewitt pelo Brasil, porém, não está nos seus concertos com a orquestra mas, sim, no recital que ela faz domingo. A expectativa é justificada. Em 1994, Hewitt começou a gravar a obra completa de Bach para teclado para o selo Hyperion. Onze anos depois, o projeto chegava ao fim – e ela recebia a alcunha de grande intérprete, em nossa época, da música do compositor, responsável por gravações que a colocariam em um panteão repleto de pianistas de peso. Ela não aceita ou nega o veredicto, prefere falar da relação pessoal que desenvolveu com Bach – o que nos leva ao início de seu contato com a própria música. “Com ele eu fiz minha carreira, com ele, eu fiz a minha vida.” O pai de Hewitt era organista da Catedral de Ottawa e, portanto, “a música de Bach era uma constante desde a infância”. Nessa época, a menina se divertia estudando violino e dançando balé. Chegou a dançar coreografias a partir de partituras de Bach, lembra. “Mas eu sempre soube que era com o piano que me saía melhor e, aos 15 anos, quando passei a estudar com Jean-Paul Sévilla, um homem extremamente apaixonado pelo repertório para piano, resolvi então me dedicar a ele exclusivamente.”
Hewitt define como uma viagem o processo de gravar toda a obra de Bach. Onze anos de trabalho depois, diz que descobriu a importância enorme que um certo sentido de alegria e de dança que perpassa sua música. “E, claro, a profundidade, a expressividade que essas obras têm. E, com o passar dos anos, elas foram importantes para que eu entendesse a mim mesma e crescesse com elas emocionalmente.” Sobre as Variações Goldberg, ela diz que estão entre “as obras musicais mais completas da história”. “As 32 variações sugerem uma estrutura conjunta e, ao mesmo tempo, têm uma vida própria, a qual é importante estar atento. Depois de anos tocando elas em recitais, percebo que poucas obras são capazes de tocar tanto as pessoas. O motivo? Não sei, é um mistério e tenho a sensação de que é melhor deixar assim.”
Estive ontem na Sala São Paulo para assistir à Osesp comandada por John Nelson em um programa Mahler/Schumann. Eles começaram com Manfred, versão musical do poema de Lord Byron sobre o herói romântico que se refugia nos Alpes, atormentado por desejos, à espera da morte. Na sequência, o Ruckert Lieder. Há toda uma relação interessante entre a figura romântica de Lord Byron/Schumann e a desconstrução romântica de uma canção como Ich Bin der Welt. Mas achei o Manfred pesado, embolado, pouco preciso – e a regência para o Mahler um pouco apressada, superficial, desconectada do canto da incrível mezzo Petra Lang. Gente, que voz! Um timbre bonito, com graves cheios e ainda assim delicados, e uma região aguda brilhante. E ela é excelente intérprete, atenta à construção das frases, inteligente na exploração dos contrastes e capaz de pianíssimos que ainda não me saíram da mente! Enfim, uma lição de técnica e de expressividade. Na segunda parte, Nelson compensou em grande estilo e fez uma excelente Sinfonia nº 2 de Schumann, transparente, fazendo a Osesp soar como nos seus melhores dias.
E hoje tem Virada Cultural, que pela primeira vez está oferecendo uma programação erudita mais ampla. O site da revista Concerto fez um favor a todos nós e separou, em meio ao caos da programação, uma lista dos concertos e recitais do evento. Vou começar às 18 horas com o Quaternaglia, na Pinacoteca, assistir às orquestras no palco da Luz e acompanhar os recitais de piano na praça Dom José Gaspar. Só uma interrupção, no meio do caminho, para ver a Sinfônica da USP na Sala São Paulo, com programa com obras de Silvio Ferraz, Rachmaninoff e Schumann. Regência de Lígia Amadio.
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