Álvaro Siviero publica hoje em seu blog aqui no Estadao.com notícias vindas da Paraíba. Músicos da sinfônica mandaram uma carta ao secretário de cultura Chico César, pedindo a saída do maestro Alex Klein do posto de regente titular. “Em Assembleia Geral realizada na noite do dia 24 de agosto de 2012, (…) músicos e servidores de apoio-artístico da Orquestra Sinfônica da Paraíba decidiram por unanimidade o afastamento do senhor Alex Klein da função de Regente Titular e da Direção Artística da OSPB. Por meio de abaixo-assinado e usando o exercício da democracia e em concordância com a legislação estadual”, diz o documento.
“Os músicos e servidores alegam imposição unilateral de perfil e gestão do maestro, que desconsidera sistematicamente a participação do Conselho Artístico da OSPB nas decisões e planejamento das atividades. (…)Eles questionam também que o maestro estabeleceu no primeiro semestre de 2012, uma programação artística arbitrária sem conhecimento prévio do conselho artístico, como também a não consideração das condições físicas, materiais, técnicas e principalmente orçamentárias da Orquestra, que acarretou a inexecução do cronograma da temporada, resultando nos cancelamento de concertos, sem devido aviso prévio, promovendo o constrangimento dos músicos e do público, que desinformado compareceu ao local onde estes seriam realizados. Os músicos e servidores contestam ainda a conduta ética do maestro em relação ao trato pessoal com os músicos, algum dos quais foram constrangidos públicamente em assembléias realizadas com a sua participação, bem como a ausência de um projeto coerente que atenda aos anseios dos músicos no que diz respeito à manutenção e revitalização deste conjunto sinfônico”, diz a carta.
Klein, em carta enviada a Siviero, responde os comentários dos músicos. “Não há muito o que revelar na verdade. Há muitas falsidades, sim, mas são um grito de desespero de um sistema falido, que findou. É certo que eu fui chamado para liderar uma “renovação” da orquestra, e que em outras partes do país tal palavra levanta medos diversos em músicos. Como eu mesmo sou músico orquestral experiente, eu não acredito em demissões em massa nem audições internas ou a eliminação de músicos devido à sua idade e ‘percepção’ de baixa produtividade. (…) Ao contrário do que foi mencionado, não houve ‘unanimidade’ na decisão dos músicos em excluir seu maestro que acaba de chegar há poucos meses (!). Houve sim coação, e diversos músicos e administradores vieram falar comigo ou me escreveram alegando que foram coagidos, pedindo-me desculpas, e explicando que devido aos muitos anos de interação com seus colegas eles se encontraram em situação constrangedora. Alguns foram ameaçados com assédio ou pior. Mas nada disso realmente tem valor, pois a OSPB não pertence aos músicos (…) Quem manda é o povo, o contribuinte da Paraíba, não os músicos ou o maestro.”
Ele, em seguida, nega uma a uma as acusações da orquestra. E conclui: “A OSPB abrirá concursos em breve, para dezenas de músicos. Sua temporada funcionará como qualquer outra orquestra no Brasil, com atividades regulares, concertos educativos, repertório emocionante e uma prioridade no povo da Paraíba, incluindo concertos regulares no interior do estado. Não está prevista nenhuma demissão ou reaudição de músicos efetivos, salvo, é claro, se houver justa causa. A atuação da OSPB está sendo revista de ponta a ponta, e a atual liberdade de expressão não será limitada ou regulada. Ela será, sim, estruturada de modo a servir os interesses do povo da Paraíba com uma orquestra onde as reuniões são feitas de maneira educada, sem truculência ou ameaças físicas nem porte de armas (!!), e estão previstas três Comissões de Músicos, com voto direto e secreto por parte de todos os músicos da orquestra, sem coação, pressão ou ameaças. Nosso país é democrático, e estes princípios valem de cima a abaixo de nossa sociedade. A Comissão de Músicos em si representará os assuntos relativos às condições de trabalho gerais, a Comissão Artística tratará de assuntos relativos a repertório e funcionalidade da orquestra, e tenho o desejo de criar também uma Comissão de Viagens, para melhor estruturar as diversas incursões do grupo para o interior do estado.”
A íntegra do texto de Klein você lê também no blog de Álvaro Siviero.
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Não chega a ser novidade que a relação entre músicos e maestros nem sempre é das mais tranquilas – ainda mais em momentos de reestruturação. Casos recentes, aqui mesmo no Brasil, são prova disso: o caso Osesp, no final dos anos 90, e, no ano passado, todo o imbróglio envolvendo a OSB e o maestro Roberto Minczuk. O próprio Klein deixou a direção do Teatro Municipal de São Paulo, em 2010, pouco depois de assumir o posto – e vale lembrar que sua chegada se deu após os músicos da Sinfônica Municipal pedirem a substituição do regente titular Rodrigo de Carvalho. Cada caso tem sua especificidade, mas me parece que há sempre uma questão de fundo comum: todo um universo rançoso de relações e jogos de poder – dos dois lados – que fragmenta qualquer iniciativa e debilita as condições de trabalho. É certo que esta é uma questão histórica, que não se transforma de uma hora para outra – e nesse processo, traumas como esses todos vão mesmo acontecer. Agora, enquanto não se pensar na atividade sinfônica como um todo orgânico, que deve ser fruto do diálogo em torno de um projeto comum (seja ele qual for), não vamos chegar a lugar algum…
Enquanto esperamos advogados, músicos e diretores chegarem a um desejado acordo final no caso OSB, posto aqui o que está em jogo nesse momento, ou seja, a proposta da Fundação Sinfônica Brasileira e a contraproposta dos músicos demitidos. Em tempo: Lorin Maazel já está no Rio.
Proposta da fundação OSB
1 – Todos os 33 músicos serão reintegrados imediatamente à FOSB, através de um novo corpo artístico que será criado pela Fundação, sem a regência do maestro Roberto Minczuk, sem a necessidade de avaliações de desempenho e mantendo o mesmo regimento interno e piso salarial originais. A Instituição também cuidará de realizar o pagamento dos salários retroativos referentes a todo o período de negociações, descontando apenas um mês de suspensão. Os músicos deste grupo não necessitam ter dedicação exclusiva à OSB, podendo participar de outras atividades e orquestras, desde que cumpram o número de funções estabelecidas pelo Regimento Interno.
2 – Todas as demissões por justa causa serão revertidas em demissões sem justa causa, com o recebimento das indenizações cabíveis, para os músicos que optarem por não retornar à Fundação OSB.
3 – Reintegração de 12 músicos pré-selecionados pela direção artística em conjunto com a Comissão de Músicos da OSB, levando em consideração as necessidades atuais da orquestra. Este retorno ao corpo orquestral se dará mediante a adesão ao novo regimento interno e a realização de avaliações de desempenho em formato de música de câmara. Todos os demais poderão escolher entre as duas primeiras opções.
Contraproposta dos músicos
1 – Reintegração imediata dos 33 músicos demitidos, com reversão da justa causa, sem a regência do maestro Roberto Minczuk, sem avaliação de desempenho e mantendo o mesmo regimento original;
2 – Os sete músicos veteranos, atualmente afastados das atividades artísticas, poderão optar por qual dos conjuntos orquestrais irão atuar;
3 – A musicista Larissa Coutrim, já oficialmente reintegrada, igualmente teria a possibilidade de optar por uma das orquestras da FOSB;
4 – Manutenção das mesmas condições contratuais anteriores: gratificações por função (spalla, concertino, etc), anuênios, plano de saúde e turno de trabalho;
5 – Garantia das condições de trabalho indispensáveis à manutenção e funcionamento do novo corpo orquestral, bem como o aporte de recursos humanos e financeiros para a captação e desenvolvimento de projetos, de maneira isonômica as duas orquestras;
6 – Diretor artístico específico, eleito pelos músicos do novo corpo orquestral;
7 – Estabilidade no emprego até o ano de 2016;
8 – Incorporar ao salário o valor de R$ 2.166,00 (dois mil cento e sessenta e seis reais), que tem sido pago a título de cessão de direitos desde 2009;
9 – Participação de ao menos um membro do novo corpo orquestral no Conselho Fiscal da FOSB, eleito pelos músicos do referido conjunto;
10 – O pagamento dos valores retroativos será integralizado, no máximo até dezembro de 2011, levando em conta a anulação de todas as penalidades;
11 – No caso do músico optar por não retornar aos quadros da OSB, deverá ter a justa causa revertida, com o consequente pagamento da indenização cabível e ainda com a manutenção por mais 01(um) ano de plano de saúde.
Maria e Antonio. A magia do encontro talvez esteja na sua eterna improbabilidade. Tempo e espaço se articulam ao sabor do acaso e, de repente, estão os dois sobre o palco, com Beethoven e Bach. O que cada um trouxe ao mundo, a gente encontra na partitura; o que cada um trouxe a esta música, a experiência nos relembra e ensina. Mas que tudo isso faça sentido no espaço de um recital é um mistério que convém não desvendar. O que importa afinal é a reinvenção do sabor do mundo, num jogo de gestos, sons, olhares. Em um mundo de cinismo, que a arte interrompa as palavras é um alento.
Despedida. Roberto Minczuk despediu-se ontem do Festival de Inverno de Campos do Jordão. Em forma de homenagem, recebeu os agradecimentos daqueles que agora comandam o festival, encerrando simbolicamente sua gestão à frente do evento. Há um senso de justiça, ainda que o ocaso traga sempre um sabor amargo. Mas se novos caminhos estão sendo trilhados, não se pode esquecer que portas foram abertas nos últimos anos, dando vida a um festival que já não encontrava personalidade. E, da mesma forma, que a programação, após uma semana, já esboça desafios e conquistas.
Novo. Recitais e concertos, propondo diálogos entre épocas, estilos e gêneros, têm sido estimulantes. Mais do que certezas sobre o que há de novo na construção de sentidos musicais, o que se tem até agora são esboços de uma busca da contemporaneidade. O diálogo com o passado não é apenas negação ou reinvenção – e, em uma conversa, vale muito aquilo que não é dito. Acerta quem aceita que não cabem maniqueísmos na construção da arte, quem aposta nas entrelinhas da criação, na ânsia pelo novo – e nas contradições que ela encerra.
Espera. Daqui a pouco, Nelson Freire volta ao palco do Auditório Claudio Santoro. Brahms, Concerto nº 2. A expectativa devolve as melodias à cabeça. E a gente já sonha com mais mistérios e surpresas, ainda à luz do dia.
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