
Beczala e Netrebko na cena final da ópera/ Foto de Hermann, Clärchen & Matthias Baus/Divulgação
Não era mesmo para ser. Há dois anos, o festival preparou especialmente para a soprano Anna Netrebko e o tenor Rolando Villazón uma nova montagem de “Romeu e Julieta”, de Gounod. Ela, no entanto, ficou grávida e precisou ser substituída, ajudando a revelar para o mundo a soprano Nino Machaidze. Este ano ela, enfim, pode cantar na produção – mas agora sem Villazón, que ainda se recupera de problemas vocais que o deixaram fora dos palcos ao longo das últimas duas temporadas. Em seu lugar, o tenor Piotr Beczala. E não é que ele acabou roubando a cena?
Um experiente jornalista israelense sentado ao meu lado não se conformava durante o intervalo. Veio de Tel Aviv especialmente para ver Netrebko. “Ela havia prometido há dois anos que não faria mais esses papéis de meninas de 17 e 18 anos porque a voz estava mudando, ficando mais encorpada. Tá vendo? Bem feito, o resultado é esse. Não dá nem para entender o que ela fala.” Não achei assim tão ruim não, mas também não vim do Brasil só para vê-la, o que talvez colocasse expectativas maiores na minha cabeça, enfim. É verdade, a voz está mais escura e pesada e em alguns momentos já parece grande demais para o papel. Ainda assim, é um espetáculo impressionante: a projeção, a desenvoltura cênica, a expressividade. Uau! Mas, justiça seja feita com o colega israelense: seu francês é mesmo incompreensível. Por falar em colegas, um crítico russo que estava do nosso lado diz que ela sabe que precisa mudar o repertório, mas está com receio, afinal é sempre um risco mexer em time que está ganhando.
Agora, fiquei impressionado mesmo foi com o tenor Piotr Beczala. Eu o conheci naquela Lucia do Metropolitan, exibida nos cinemas no ano passado, um timbre bonito, agradável. Mas, ao vivo, é uma voz ainda mais especial – dicção perfeita, clareza na emissão, uma riqueza de coloridos, do agudo ao grave: é daqueles cantores que interpretam com a voz, daria para fechar os olhos e, só de ouvir, saber o que está acontecendo no palco. Uma revelação.
A montagem de Bartlett Sheer é muito bonita. No texto do programa, ele estabelece uma relação entre o Romeu e Julieta de Gounod com o Tristão e Isolda de Wagner. A argumentação é longa, enfoca o conceito de tragédia e a relação entre amor e morte ao longo do romantismo. O que interessa é a consequência cênica a que isso o direciona: a ópera se transforma, na verdade, em um longo dueto de amor entre os protagonistas, mas sem que para isso o diretor precise forçar a barra. Pelo contrário, é tudo de muito bom gosto, sutil e plasticamente muito bonito. Em tempo: a montagem original, com Villazón e Machaidze, já saiu em DVD da Universal.

O compositor alemäo Wolfgang Rihm/Divulgacao
Tive uma longa conversa hoje pela manha com o compositor alemao Wolfgang Rihm (desculpem a falta de acento mas estou no media center, onde os computadores tem uma logica toda própria e näo acho todos os sinais). Às vésperas de completar 60 anos, ele é cada vez mais figura relevante no cenário internacional, recebendo encomendas de obras de grandes orquestras americanas e européias – para se ter uma ideia, aqui em Salzburg ele näo apenas estreou sua nova ópera, Dyonisio, como teve programacao especial dedicada à sua producao sinfonica em dez concertos da Filarmonica de Viena. A conversa foi agradável e falamos longamente sobre o estado atual da composicäo, seu processo criativo, os desafios de se escrever hoje uma ópera, o fascínio pela obra em prosa de Nietzche (“é aqui e näo na poesia que ele se revela um grande poeta”). O mais interessante, porém, foi o papo sobre a necessidade de equilíbrio entre o caos e a disciplina, na vida e na criacäo – e sobre como o artista näo pode se considerar acima da obra que cria. Näo entro em mais detalhes para reservar algo para a matéria do Caderno 2. Daqui a pouco vou conversar com mr. Netrebko, Erwin Shrott, que vi fazendo Leporello ontem aqui no Don Giovanni. E, mais tarde, mrs. Netrebko canta Romeu e Julieta, ao lado do tenor Piotr Beczala, a mesma dupla daquela Lucia do Metropolitan exibida nos cinemas. Depois falamos mais.
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