Maria e Antonio. A magia do encontro talvez esteja na sua eterna improbabilidade. Tempo e espaço se articulam ao sabor do acaso e, de repente, estão os dois sobre o palco, com Beethoven e Bach. O que cada um trouxe ao mundo, a gente encontra na partitura; o que cada um trouxe a esta música, a experiência nos relembra e ensina. Mas que tudo isso faça sentido no espaço de um recital é um mistério que convém não desvendar. O que importa afinal é a reinvenção do sabor do mundo, num jogo de gestos, sons, olhares. Em um mundo de cinismo, que a arte interrompa as palavras é um alento.
Despedida. Roberto Minczuk despediu-se ontem do Festival de Inverno de Campos do Jordão. Em forma de homenagem, recebeu os agradecimentos daqueles que agora comandam o festival, encerrando simbolicamente sua gestão à frente do evento. Há um senso de justiça, ainda que o ocaso traga sempre um sabor amargo. Mas se novos caminhos estão sendo trilhados, não se pode esquecer que portas foram abertas nos últimos anos, dando vida a um festival que já não encontrava personalidade. E, da mesma forma, que a programação, após uma semana, já esboça desafios e conquistas.
Novo. Recitais e concertos, propondo diálogos entre épocas, estilos e gêneros, têm sido estimulantes. Mais do que certezas sobre o que há de novo na construção de sentidos musicais, o que se tem até agora são esboços de uma busca da contemporaneidade. O diálogo com o passado não é apenas negação ou reinvenção – e, em uma conversa, vale muito aquilo que não é dito. Acerta quem aceita que não cabem maniqueísmos na construção da arte, quem aposta nas entrelinhas da criação, na ânsia pelo novo – e nas contradições que ela encerra.
Espera. Daqui a pouco, Nelson Freire volta ao palco do Auditório Claudio Santoro. Brahms, Concerto nº 2. A expectativa devolve as melodias à cabeça. E a gente já sonha com mais mistérios e surpresas, ainda à luz do dia.
O pianista Nelson Freire escreve no “Cultura” de hoje sobre a música de Chopin, relembrada no bicentenário de seu nascimento. “Como definir o que faz da música de Frederic Chopin (1810- 1849), celebrada este ano por conta de seu bicentenário de nascimento, um universo tão especial? O grande pianista Arthur Rubinstein disse certa vez que, ao interpretar suas obras, tinha a sensação de que ela tocava diretamente o coração das pessoas. E é fascinante perceber que isso vale tanto para leigos quanto para melômanos. E, por que não, para os próprios pianistas, para quem suas peças são um desafio constante. A brasileira Guiomar Novaes costumava dizer, divertida, que Chopin exige tudo do intérprete, “que precisa tocá-lo com cabeça, coração, com o pé, com a mão, com tudo”. Já Martha Argerich me confessou, em uma de nossas muitas conversas sobre sua música, que acha Chopin o autor mais difícil de tocar. “Os pianistas erram nele mais do que com a obra de qualquer outro compositor.” Continue a ler aqui.
Conversava outro dia com um grande amigo que esteve em Los Angeles recentemente e ouviu uma “Sétima Sinfonia” de Beethoven, regida pelo veterano Herbert Blomstedt à frente da Los Angeles Philarmonic. Ele me contava de uma palestra que ouviu antes da apresentação, em que o professor falou bastante sobre o desejo de Beethoven, depois da “Sinfonia Pastoral”, sua sexta, de que sua música “fosse vista como algo abstrato em si mesmo”. Durante o concerto, meu amigo sentiu uma sensação que me descreveu como a compreensão do que é a música, algo que não se coloca em palavras, mas, continua ele, “cabe no coração humano”.
Outro dia pela manhã, li na “Gramophone” de fevereiro um artigo em que o colunista Simon Callow pergunta: “Será que somos capazes de abrir mão das associações de nossas mentes e simplesmente ouvir uma obra com um ouvido verdadeiramente inocente?” E cita alguns exemplos. Não consegue chegar a Veneza, por exemplo, sem ouvir na mente o “Adagietto” de Mahler – e a peça, na sala de concerto, o leva direto para a cidade italiana; o Intermezzo, da “Cavalleria Rusticana”, o faz lembrar de sua avó e da percepção da mortalidade, já que ela ouvia a peça quando sua filha, ainda criança, quase morreu por conta de uma grave doença; no dia em que ouviu pela primeira vez a “Sinfonia nº1” de Elgar, Callow viu uma entrevista com o líder da União Britânica de Fascistas – e a peça, em sua mente, passou a ser uma leitura repleta de ironia de um patriotismo distorcido.
Além das associações pessoais, que recriam a música por meio da nossa individualidade, o que dizer daquelas feitas a partir da própria concepção das obras, que chegam a nós por meio de depoimentos de compositores sobre o que escreveram. Elgar, para ficar em um compositor citado por Callow, dizia que seu “Concerto para Violoncelo” era um testemunho contra a morte de tantos homens e mulheres durante a Primeira Guerra Mundial, um apelo contra o ódio e a favor do diálogo. Para mim, no entanto, essa informação surgiu depois que a peça se tornasse, por episódios da minha vida pessoal, a lembrança do desejo de conhecer o novo, mesmo em meio às contradições do espírito humano, do embate entre força e desespero. Estou errado? Quão importante é a intenção original do compositor na fruição de uma obra musical abstrata?
Conversando recentemente com dois de nossos maiores músicos, o pianista Nelson Freire e o violoncelista Antonio Meneses, surgiu o tema – e ambos ofereceram visões semelhantes. Nelson falava de Chopin – e da dificuldade de colocar em palavras aquilo que, em música, tem acompanhado toda a sua trajetória: a admiração com relação com a música do comspoitor. Antonio foi um pouco além: há um momento, na compreensão da música, seja você um músico ou não, em que a música precisa se impor perante as palavras na própria busca de um significado.
Leonard Bernstein escreveu um pequeno texto que trata de maneira muito divertida dessa questão (em português, ele está na coletânea “O Mundo da Música”, lançada em Portugal). Um compositor e seu amigo, o Poeta Lírico, viajam de carro por uma estrada do interior dos Estados Unidos; no rádio, uma sinfonia de Beethoven. A certa altura, o poeta diz: “Essas montanhas são puro Beethoven”. E os dois começam uma longa discussão: para o compositor, não há nada na música que possa sugerir uma montanha e, sim, uma lógica interna puramente musical; para o poeta, no entanto, o sentido da música passa necessariamente pela sua percepção de que ela dialoga com a paisagem à sua volta.
Será que a música pode ser definida simplesmente pelo nosso desejo – e, por que não, pela nossa necessidade – de defini-la?
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