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João Luiz Sampaio

Depois de alguns dias em Belo Horizonte, estou em Porto Alegre, onde daqui a pouco a Ospa faz concerto de gala para comemorar seus 60 anos. No programa, o “Imperador” de Beethoven (com Arnaldo Cohen) e a “Novo Mundo” de Dvorak. A regência é de Isaac Karabtchevsky. Estou curioso para ouvir a Ospa – e a luz do fim de tarde às margens do Guaíba deixa a gente com vontade de Beethoven. Amanhã, parto para o Rio, onde vejo “O Guarani”, em versão de concerto, no Municipal, com Luiz Malheiro, Marcelo Vanucci e Gabriella Pace, entre outros solistas. Depois conto como foi.

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Anunciado agora à tarde, o projeto de gravar todas as sinfonias do compositor vai levar cinco anos e será regido pelo maestro Isaac Karabtchevsky. Cada uma das obras vai ganhar nova edição pela editora Criadores do Brasil, que pertence à Fundação Osesp. Mais informações em breve.

Uma atualização, agora com o cronograma de lançamento (selo BIS mundo afora e Biscoito Fino no Brasil):

• 2011 – Sinfonia nº 3, “A Guerra” e Sinfonia nº 4, “A Vitória”
• 2012 – Sinfonia nº 6, “Sobre a linha das montanhas do Brasil” e Sinfonia nº 7
• 2013 – Sinfonia nº 10, “Ameríndia”
• 2014 – Sinfonia nº 1, “O Imprevisto” e Sinfonia nº 2
• 2015 – Sinfonia nº 8, Sinfonia nº 9 e Sinfonia nº 11
• 2016 – Sinfonia nº 12 + Uirapurú e Mandú-Çarará

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Apesar do subtítulo Ressurreição, a Sinfonia n.º 2 de Gustav Mahler não deve ser compreendida como hino religioso. Para o compositor, compreender Deus como símbolo de eternidade – e a morte como apenas uma transição – está ligado diretamente ao sentido da vida terrena, à permanência da arte e ao diálogo do homem com a natureza.

Pela primeira vez o compositor emprega a voz em uma sinfonia; e trata os timbres de cada instrumento como parte integrante da estrutura da peça. Por isso mesmo, é fundamental o equilíbrio entre os naipes da orquestra na hora de recriar a dramaticidade da música que contrasta momentos de euforia, perda de energia e temor perante a ideia da morte.

No concerto de quinta, foi satisfatório, desde o primeiro movimento, o equilíbrio encontrado pela Petrobras Sinfônica sob o comando de Karabtchevsky. Em que pesem alguns problemas pontuais de afinação e dinâmica, em especial nas seções finais da obra, são bonitos os efeitos conseguidos nas cordas, durante o primeiro movimento, na construção de um clima etéreo; a ironia no terceiro movimento, que descreve a incoerência entre a moral religiosa e a força da natureza; a delicadeza quase contemplativa do Urlicht; ou a tensão crescente do movimento final.

A energia da interpretação de Karabtchevsky vem da percepção do caráter algo teatral na concepção de Mahler, na maneira como ele retrabalha os temas, fiel à ideia de que a composição se faz a partir de blocos que se reorganizam sugerindo novos significados musicais. Onde está Deus? Onde fica o homem entre a natureza, a vida e a morte? Em conflito com a ideia do fim, Mahler escreve em busca de respostas. Deixa como legado, porém, as perguntas certas.

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Cheguei ontem ao Rio para acompanhar a abertura da temporada das orquestras cariocas; hoje tem Petrobras Sinfônica com a “Sinfonia nº 2″ de Mahler e, no sábado, o “Hexameron”, de Liszt, com a OSB. De quebra, amanhã, vou acompanhar a primeira audição de uma gravação inédita de Guiomar Novaes, encontrada no acervo da família. Queria ter escrito antes mas o dia ontem foi corrido, estive no Municipal acompanhando o ensaio da sinfonia e depois bati um longo papo com o maestro Isaac Karabtchevsky, que falou bastante de sua relação com a música de Mahler e fez um balanço da carreira, relembrando outros ciclos Mahler já feitos e suas passagens por outras orquestras, como a do Municipal de São Paulo. Isso tudo vai virar matéria logo, então deixo os detalhes para depois. Na verdade, o post é para contar que, antes de viajar, consegui rever o “Simon Boccanegra”, de Verdi, com Plácido Domingo, que vai ser exibido no fim de semana nos cinemas. Fiquei ainda mais impressionado. Não percam! É certo que a voz de Domingo possibilita a façanha. Mas importa aqui menos o fato dele ter começado a carreira, nos anos 60, como barítono e mais o fato de que, ao longo de sua trajetória, a escolha de papéis foi respeitando a evolução natural da voz, que foi ganhando cores mais escuras. E, tecnicalidades à parte, impressiona o seu desempenho. Domingo é um fenômeno. Às vésperas de completar 70 anos, sua voz mantém o frescor e a energia. A região mais aguda mantém o brilho de outras épocas e os graves ganham ressonância surpreendente. A atuação é comovente, recriando todo o conflito do doge de Gênova, entre o dever político e o papel de pai. Aliás, estou cada vez mais fanático por Simon. Acho que tem a ver com essa oposição entre o indivíduo e a sociedade, que é uma das marcas da obra verdiana, sim, mas que ganha força em especial nas óperas que dedicou a tramas políticas como é o caso de Simon ou do Don Carlo. Ambas pertencem à fase madura do compositor – no caso de Simon, a revisão da partitura foi feita por um Verdi já completamente à vontade no manejo do drama musical, com a ajuda do libretista Arrigo Boito, que reescreveu algumas cenas, resolvendo problemas textuais da primeira versão da ópera. Assim, momentos como aquele em que Simon conclama plebeus e nobres a se unirem em torno do objetivo da paz passaram a ser símbolo da união entre texto e música na busca pelo drama verdadeiramente musical. E quando na regência está um mestre como James Levine… bom, não percam, e me digam o que acharam.

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