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João Luiz Sampaio

O maestro Simon Rattle, diretor da Filarmonica de Berlim/Divulgacao

O maestro Simon Rattle, diretor da Filarmonica de Berlim/Divulgacao

Acabo de chegar do ensaio que a Filarmonica de Berlim fez agora pela manha com o maestro Simon Rattle. É um programa ambicioso, que tem as Quatro Últimas Cancöes de Strauss e Webern (Seis Pecas para Orquestra), Schoenberg (Cinco Pecas para Orquestra) e Berg (Tres Pecas para Orquestra). A solista do Strauss, Karita Mattila, nao chegou ainda a Salzburg e por isso ficou fora do ensaio, decepcionando quem estava louco para ouvi-la cantar (sim, tö falando de mim mesmo). No restante das pecas, foi estimulante ver Rattle construindo a interpretacao nos detalhes, fazendo os músicos repetirem à exaustao algumas passagens em busca de equilíbrio entre os naipes e, principalmente, precisao sonora. E soltando comandos como “Este silencio precisa ser mais ensurdecedor”, no Webern, preparando a parada da orquestra após a explosao da percussäo; ou “Por que entregar este esboco de melodia se podemos simplesmente insinuá-lo?”.

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bernstein

Berlim Ocidental, outubro de 1979. Noite histórica: pela primeira e última vez, o maestro americano Leonard Bernstein desembarca na cidade para reger a Filarmônica de Berlim. No programa, a Nona Sinfonia de Mahler. Horas depois, mostra uma gravação rara agora remasterizada, sai o resultado: no campo do inimigo, Bernstein bateu o adversário. De goleada. Jogando bonito.

No final dos anos 70, Leonard Bernstein já era lenda viva da regência mundial. Depois de dirigir brevemente as filarmônicas de Nova York e Israel, corria o mundo como convidado de praticamente todas as grandes orquestras do cenário. Praticamente, pois faltava a Filarmônica de Berlim, então comandada pelas mãos de ferro do alemão Herbert von Karajan.

Os dois maestros encarnavam estilos diferentes de regências e, recordistas em vendas de álbuns, foram aos poucos transformados em rivais. Karajan não o convidava para Berlim; por sua vez, Bernstein reinava em Viena, onde desenvolveu relação extremamente próxima com a filarmônica.

Em 1979, no entanto, surgiu o convite, que não partiu da orquestra mas, sim, da direção artística do Berlin Festwochen, evento do qual a filarmônica participava como convidada. Bernstein se disse interessado; midiático, condicionou a viagem a Berlim à doação da renda do concerto a uma entidade beneficente. A Anistia Internacional foi escolhida. E o resto é música.

Na construção da carreira de Bernstein, as sinfonias do austríaco Gustav Mahler (1860-1911) tiveram papel importante. Se não o único, foi um dos grandes responsáveis pelo resgate do trabalho do compositor, que viveu na passagem do século 19 para o 20 e incorporou a mudança da linguagem romântica em direção à modernidade. Sua obra falava de um tempo em rápida transformação, marcado por avanços tecnológicos e incertezas – e, acima de tudo, por um ser humano novo descortinado pela psicanálise. Para Bernstein, Mahler seguia, décadas depois, falando de questões atuais. E, na ausência do compositor, assumiu ele a tarefa de profeta de sua mensagem.

A Nona Sinfonia incorpora muitas das obsessões do compositor – morte, desejo, natureza, fim, recomeço. Nos três primeiros movimentos, Bernstein lê andamentos de maneira pessoal, elege ênfases que reinventam o discurso musical. Corre riscos. No Adagio final, leva as cordas ao limite, dando a sensação de que os instrumentos vão se desfazer. O sentimento de urgência sugere que a profundidade emocional está ligada indissociavelmente à linguagem formal; e parece nos levar aos limites máximos da melodia: ao fim do som, da própria música; e da vida. Na captação ou mesmo no equilíbrio entre naipes, as outras gravações de Bernstein desta sinfonia talvez garantam leituras mais coesas. Mas a energia e a intensidade desse registro ao vivo o colocam como parada obrigatória na compreensão do compositor – e de seu grande intérprete.

(Caderno 2 + Música, 24/4/10)

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22.março.2010 13:53:55

A música como desejo

O maestro japonês Seiji Ozawa

O maestro japonês Seiji Ozawa

Quando se está no inferno, é preciso olhar para o alto. Simples assim, o conceito da escuridão transformada em luz é um dos mais contundentes da obra de Beethoven. Mas e quando não se encontra mais espaço para a transformação e a música torna-se resignada testamento, canto final de uma existência atormentada, subjugada por desejos e incertezas?

A melhor resposta talvez esteja na própria música; em especial, num programa que una duas obras fundamentais no conjunto não só da produção de seus autores como também de todo o repertório sinfônico, como o Concerto para Violino de Beethoven e a Sinfonia nº 6 – Patética de Tchaikovsky. É o que acontece no DVD Memorial Concert, no qual a Filarmônica de Berlim, comandada por Seiji Ozawa, celebra seu antigo diretor e maestro Herbert von Karajan.

Gravada em Viena em janeiro de 2008, a apresentação foi o marco inicial das celebrações pelo centenário de Karajan e está repleta de simbolismos. Ozawa foi um de seus principais alunos; a solista, Anne-Sophie Mutter, sua pupila preferida nos últimos anos de vida; a Filarmônica de Berlim foi sua principal orquestra por décadas; e Viena, a cidade onde se refugiou no fim da vida, quando a relação com os músicos alemães começou a se deteriorar. E, no que diz respeito à música, tanto o concerto de Beethoven como a sinfonia de Tchaikovsky estavam entre suas peças preferidas, gravadas por ele quase uma dezena de vezes.

Ozawa, curiosamente, conseguiu a proeza de estudar com Karajan na Alemanha e, nos Estados Unidos, com Leonard Bernstein, maestros rivais que, cada um a seu modo, polarizaram a regência mundial na segunda metade do século 20. Talvez por conta disso ele sintetize duas características a princípio contrastantes: a obsessão com a beleza do som de Karajan e a energia e dramaticidade de Bernstein. Em Beethoven, ele constrói habilmente, ao lado de Anne-Sophie, um primeiro movimento às vezes contemplativo, que mergulha na melancolia do Larghetto e se dissolve, enfim, no tema repleto de energia e vida que perpassa todo o Rondó Final da peça.

Tchaikovsky falava de um “programa secreto” que daria sentido à sua Sinfonia Patética, estreada apenas nove dias antes da morte do compositor. Desde então, virou passatempo de teóricos e musicólogos investigar quais mistérios estariam escondidos ao longo da obra. Dedicada a seu sobrinho Vladimir, a sinfonia seria, segundo o biógrafo Alexander Poznansky, “a história da vida e da alma de Tchaikovsky, para que seu amado sobrinho pudesse entender tudo o que ele passou”, ou seja, “a angústia, o conflito entre a paixão platônica e os desejos da carne[15]”. Nesse sentido, ao evocar o amor duplamente proibido do compositor pelo filho de seu irmão, a sinfonia carrega em si um forte caráter trágico.

Ao contrário da Quinta Sinfonia, em que o homem surge no movimento final desafiando o destino, na Patética o caminho do compositor e da música vai no sentido contrário e parece sugerir a impossibilidade do desejo. O entusiasmo dos movimentos intermediários contrasta não por acaso com a dor dos movimentos lentos que abrem e fecham a sinfonia. Na interpretação de Ozawa, eles se combinam como se sugerissem que é da dor que nasce o homem e que é em meio a ela que ele desaparece. Mais do que em programas secretos, é na sequência final da sinfonia, com a música desaparecendo aos poucos, engolida pelo silêncio, que está a dúvida de Tchaikovsky. Há vida sem desejo? A resignação leva o homem ao desaparecimento? Se a arte não nos oferece todas as respostas, continua a nos ajudar a fazer as perguntas certas.

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