Que ópera! Acompanhei a estreia ontem de Yerma, de Villa-Lobos. A gente fala, fala, fala sobre o compositor e, de repente, estamos diante de uma obra que, primeiro, nada tem a ver com o que se conhece dele; e, segundo, é fascinante, bem estruturada musical e dramaticamente. O libreto é baseado na peça de mesmo nome de Federico Garcia Lorca. “Yerma” quer dizer “árida” e a ópera a acompanha em seu desejo não realizado de ser mãe. Lorca, na verdade, está colocando o indivíduo em oposição à sociedade e seus valores cristalizados. E, nesse sentido, o texto se torna ponto de partida para discutir desejo e culpa. Talvez porque siga linha a linha da peça, Villa-Lobos cria uma ópera bastante eficaz dramaticamente – ao contrário, por exemplo, do que acontece em “A Menina das Nuvens”, na qual a cena, em especial no segundo ato, se arrasta demais. E musicalmente ela está muito mais próxima de Puccini e Strauss do que do Villa do início da carreira, que tanto investigou o folclore brasileiro. Se ele aqui aparece, é sempre de maneira indireta e simplesmente porque é parte – e apenas uma entre tantas – da inspiração do compositor. O Villa de Yerma parece extremamente à vontade com a linguagem da ópera e cria um conjunto de cenas extremamente contrastante, do lirismo à angústia e o desespero. Há grandes papéis. E o mais especial, sem dúvida, é o de Yerma, vocalmente difícil, que leva a soprano a todo instante de um extremo a outro do registro (não por acaso, três cantoras recusaram o papel). Sorte nossa: Eliane Coelho deu espetáculo, mostrando porque é a grande soprano brasileira. Yerma, em que pese alguns problemas de orquestração, às vezes pesada demais, tinha tudo para estar presente no grande repertório, sendo feita mundo afora, assim como Puccini e tantos outros compositores. De cara, ainda sob o impacto dá música, dá para dizer que é, com certeza, uma parada importante na trajetória da ópera no século 20. Mas, se no Brasil, terra do compositor, ela foi montada só agora na íntegra, mais de 50 anos após ser escrita, o que mais se pode esperar, não?
PS: Por problemas técnicos, os comentários feitos pelos leitores do blog não estão aparecendo. Eu consigo ler no servidor os comentários da Claudia, por exemplo, que está compartilhando suas interessantes visões sobre “Yerma”, mas não consigo fazê-los aparecer. O pessoal da técnica informa que já está trabalhando nisso e que logo o problema será resolvido. Vamos aguardar.
O Festival Amazonas de Ópera começa no dia 23 de abril, em Manaus, com uma montagem da ópera “Yerma”, de Villa-Lobos. A partitura, baseada na peça de mesmo nome do espanhol Garcia Lorca, narra a história de uma mulher às voltas com o desejo não realizado de ser mãe e as convenções da sociedade – e é uma das mais interessantes criações de Villa-Lobos. Coisas do Brasil, a ópera teve apenas uma interpretação depois da estreia, nos anos 70, no Rio, em versão de concerto. Agora, ganha o palco de Manaus, o que por si só já seria boa notícia. Mas tem mais: informações que chegam do Amazonas dão conta de que o papel-título, que seria interpretado pela espanhola Ana Lucrecia Garcia, estará a cargo da grande soprano brasileira Eliane Coelho, que nos últimos anos ofereceu em Manaus interpretações memoráveis de ópera como “La Gioconda”, de Ponchielli, e “Lady Macbeth de Mtsensk”, de Shostakovitch. Tem tudo para ser interessante. Em tempo: além de Yerma, o festival vai resgatar também “Guerras de Alecrim e Mangerona”, de Antônio Teixeira, ópera em um ato do século 18, com libreto de Antônio José da Silva, o Judeu.
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