Talvez seja o sucesso das transmissões de óperas no cinema mas, depois de um longo hiato, a Sony está lançando em edições nacionais DVDs com montagens recentes do Metropolitan Opera House. Os primeiros quatro títulos são “Madama Butterfly” (Puccini), “Salomé” (Strauss), “Doctor Atomic” (Adams) e “Simon Boccanegra” (Verdi). Estou ouvindo a “Butterfly”, com Patricia Racette e Marcelo Giordani, produção de Anthony Minghella, emocionante em sua simplicidade de efeitos. Já há um tempo ando com a sensação de que Giordani é o mais interessante entre os tenores “italianos” de sua geração. A voz tem um brilho, uma intensidade natural, e ele cria efeitos expressivos muito bonitos. No “Simon”, canta Adorno, um mosaico de cores e sensações na ária, ainda que na montagem a estrela seja mesmo Domingo atacando de barítono. Sabemos que ele começou como barítono e que a voz, ao longo da carreira, foi escurecendo, de forma que parece natural a mudança de repertório a essa altura da vida. Mas não adianta: a musicalidade e a autoridade com que ele encara, aos 70 anos, um dos grandes – tanto musical como dramaticamente – papéis de Verdi, não deixa de impressionar.
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O pacote da Sony também traz quatro CDs da série histórica do Metropolitan, que estão sendo remasterizados pela primeira vez. Até onde pude perceber, são registros inéditos, que estavam nos arquivos do teatro: “Romeu e Julieta”, de Gounod (Bjorling/Sayão/Cooper), “La Bohème”, de Puccini (Albanese/Bergonzi/Schippers), “Tosca”, de Puccini (Price/Corelli/MacNeill/Adler) e “O Barbeiro de Sevilha” (Pons/Di Stefano/ Valdengo/Erede). Lá fora já foi lançada uma “Valquíria” dos anos 50, com Birgit Nilsson, Jon Vicker e Leonie Rysanek em uma orgia de delícias wagnerianas. O curioso nas gravações mais antigas do pacote é que com o passar do tempo elas foram sendo substituídas no nosso imaginário de referências auditivas por outras mais modernas. Para o gosto atual, há na interpretação de boa parte desses artistas alguns maneirismos já fora de moda. Mas a força das vozes é capaz de nos transportar, felizes, a outras épocas. E, em certos momentos, não dá vontade de voltar não…

O maestro japonês Seiji Ozawa
Quando se está no inferno, é preciso olhar para o alto. Simples assim, o conceito da escuridão transformada em luz é um dos mais contundentes da obra de Beethoven. Mas e quando não se encontra mais espaço para a transformação e a música torna-se resignada testamento, canto final de uma existência atormentada, subjugada por desejos e incertezas?
A melhor resposta talvez esteja na própria música; em especial, num programa que una duas obras fundamentais no conjunto não só da produção de seus autores como também de todo o repertório sinfônico, como o Concerto para Violino de Beethoven e a Sinfonia nº 6 – Patética de Tchaikovsky. É o que acontece no DVD Memorial Concert, no qual a Filarmônica de Berlim, comandada por Seiji Ozawa, celebra seu antigo diretor e maestro Herbert von Karajan.
Gravada em Viena em janeiro de 2008, a apresentação foi o marco inicial das celebrações pelo centenário de Karajan e está repleta de simbolismos. Ozawa foi um de seus principais alunos; a solista, Anne-Sophie Mutter, sua pupila preferida nos últimos anos de vida; a Filarmônica de Berlim foi sua principal orquestra por décadas; e Viena, a cidade onde se refugiou no fim da vida, quando a relação com os músicos alemães começou a se deteriorar. E, no que diz respeito à música, tanto o concerto de Beethoven como a sinfonia de Tchaikovsky estavam entre suas peças preferidas, gravadas por ele quase uma dezena de vezes.
Ozawa, curiosamente, conseguiu a proeza de estudar com Karajan na Alemanha e, nos Estados Unidos, com Leonard Bernstein, maestros rivais que, cada um a seu modo, polarizaram a regência mundial na segunda metade do século 20. Talvez por conta disso ele sintetize duas características a princípio contrastantes: a obsessão com a beleza do som de Karajan e a energia e dramaticidade de Bernstein. Em Beethoven, ele constrói habilmente, ao lado de Anne-Sophie, um primeiro movimento às vezes contemplativo, que mergulha na melancolia do Larghetto e se dissolve, enfim, no tema repleto de energia e vida que perpassa todo o Rondó Final da peça.
Tchaikovsky falava de um “programa secreto” que daria sentido à sua Sinfonia Patética, estreada apenas nove dias antes da morte do compositor. Desde então, virou passatempo de teóricos e musicólogos investigar quais mistérios estariam escondidos ao longo da obra. Dedicada a seu sobrinho Vladimir, a sinfonia seria, segundo o biógrafo Alexander Poznansky, “a história da vida e da alma de Tchaikovsky, para que seu amado sobrinho pudesse entender tudo o que ele passou”, ou seja, “a angústia, o conflito entre a paixão platônica e os desejos da carne[15]”. Nesse sentido, ao evocar o amor duplamente proibido do compositor pelo filho de seu irmão, a sinfonia carrega em si um forte caráter trágico.
Ao contrário da Quinta Sinfonia, em que o homem surge no movimento final desafiando o destino, na Patética o caminho do compositor e da música vai no sentido contrário e parece sugerir a impossibilidade do desejo. O entusiasmo dos movimentos intermediários contrasta não por acaso com a dor dos movimentos lentos que abrem e fecham a sinfonia. Na interpretação de Ozawa, eles se combinam como se sugerissem que é da dor que nasce o homem e que é em meio a ela que ele desaparece. Mais do que em programas secretos, é na sequência final da sinfonia, com a música desaparecendo aos poucos, engolida pelo silêncio, que está a dúvida de Tchaikovsky. Há vida sem desejo? A resignação leva o homem ao desaparecimento? Se a arte não nos oferece todas as respostas, continua a nos ajudar a fazer as perguntas certas.
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