ir para o conteúdo
 • 

João Luiz Sampaio

João Marcos Coelho escreve hoje no Caderno 2+Música sobre o grande Gilberto Mendes, a propósito de discos e livros em torno de sua obra. “A caminho dos 89 anos, que completará em 10 de outubro próximo, o compositor santista Gilberto Mendes é tema de dois lançamentos em CD e livro. A gravação é A Música de Gilberto Mendes – Vários Compositores Num Só, do selo Sesc, que resgata um punhado de obras importantíssimas dos anos 60 e também alcança criações dos últimos anos. E o livro é Gilberto Mendes: Vanguarda e Utopia nos Mares do Sul, de Teresinha Prada (editora Terceira Margem), que examina o período de forte engajamento político do compositor, provando que existiu uma resistência tenaz da música contemporânea à ditadura de 64″, diz o texto, cuja íntegra pode ser lida aqui. Em tempo: também no C2+Música, o violoncelista Antonio Meneses assina artigo sobre a demissão dos músicos da Sinfônica Brasileira que se recusaram a fazer a prova de avaliação. “Durante dois anos, no início da minha carreira, fui músico da Sinfônica Brasileira. Desde aquela época, voltei a me apresentar com o grupo como solista em diversas ocasiões, algumas delas sob a batuta do atual diretor artístico, Roberto Minczuk, a quem procurei em particular, recebendo de volta uma resposta insatisfatória, logo que os conflitos tiveram início. Por tudo isso, me preocupou a dimensão que o caso ganhou, inclusive internacionalmente, passando ao mercado imagem desfavorável sobre o ambiente musical brasileiro. A Fundação OSB poderia ter buscado uma maneira mais diplomática e humana de lidar com o dilema criado por ela ao impor aos artistas provas de avaliação, com toques de autoritarismo”, escreve o músico. Leia a íntegra aqui.

1 Comentário | comente

Chegar em uma cidade como Salzburg deixa minha cabeça maluca, viajando vertiginosamente entre passado, presente e, por que não, futuro. Não dá para passar em frente da Casa do Festival e não pensar em tudo o que já foi realizado ali, em todos os artistas que passaram por este palco – e o que ainda vão passar, levando a uma reflexão sobre como se transformou o mundo dos concertos ao longo das décadas. E, de repente, damos de cara com a Praça Herbert Von Karajan; seguimos mais um pouco, a via Toscanini. É como se aquela pilha de discos que temos na estante, com o selo do festival, começassem a tocar todos ao mesmo tempo na nossa cabeça, criando uma música indistinta, caótica e extremamente familiar. E, ao mesmo tempo, tudo é novo. Não seria esse mesmo, afinal, o sentido da tradição?

****

A ideia era só caminhar um pouco no final de tarde de temperatura agradável, o sol se pondo ao fundo da paisagem cortada pelo rio Salzach. Mas, depois de uma salsicha com cerveja local no Alter Markt, dei de cara com a Mozart Gebursthaus – a casa em que nasceu Mozart. Não deu para resistir e entrei correndo. Você sobe ao terceiro andar e, algumas salas depois, a placa, discreta, avisa: quarto do nascimento. Vai parecer absurdo, eu sei: mão nem sei o que sentir em um lugar como esse! Os sentimentos são tantos e tão diferentes que fico meio perdido e deixo de articular qualquer percepção – parado, absorvendo, absorvendo. Mas parei frente à janela e ali fiquei fascinado com a paisagem angulosa que ela revela, muros, paredes entrecortadas, um pequeno pátio, de onde hoje chega um cheiro forte de gordura, que vem dos fundos de um restaurante no prédio ao lado. Ali cheguei perto de enxergar o pequeno Mozart. Será que ele corria por ali? Será que brincava? E me dei conta de que, na verdade, por mais que se ouça sua música e se conheça os locais por onde passou, o que somos capazes de entender da genialidade daquela cabeça é realmente muito pouco. Enfim, nem sei por que me marcou tanto esta imagem. Mas com certeza será difícil ouvir sua música a partir de agora sem ela.

****

Andei distante do blog. Não gosto de fazer isso, mas as últimas semanas foram corridas demais. Além do trabalho na redação e da participação em um interessante simpósio sobre ópera promovido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (sobre o qual ainda pretendo escrever), estou terminando de escrever, com a jornalista e amiga Luciana Medeiros, um livro sobre o violoncelista Antonio Meneses. A notícia já saiu em alguns cantos, então posso contar para vocês do projeto. No começo do ano, estivemos com o Antonio durante cerca de um mês, o que nos rendeu dezenas de horas de entrevistas sobre sua vida e suas ideias a respeito de música. Desde então, temos trabalhado em cima desse material. O livro sai agora em outubro, pela Algol, com um disco gravado especialmente por ele para o lançamento. Estamos colocando os pontos finais no texto, já sentindo falta do projeto. Mas outros virão. O fato, enfim, que a rotina aos poucos vai voltando ao normal e pretendo estar por aqui com mais frequência.

****

Fico aqui uma semana. Serão dias agitados, com mais de dez atrações entre óperas, concertos e recitais. Amanhã, Don Giovanni; na segunda, Romeu e Julieta com a Netrebko; tem Elektra com Waltraud Meier; Filarmônica de Viena com Eschenbach, Concertgebouw com Mariss Jansons, Filarmônica de Berlim com Simon Rattle; Orfeu e Eurídice com Riccardo Muti; canções de Schubert com Jonas Kaufmman. Ao longo dos dias, vou dando notícias para vocês. Ah, e prometo voltar à casa de Mozart – e, quem sabe, contar algo sobre ela que faça um pouco mais de sentido. Ou não.

P.S. Já estava esquecendo. Fiz várias fotos mas trouxe o cabo errado e não consegui passar as imagens para o computador. Amanhã vou tentar resolver isso e então posto as imagens aqui.

comentários (3) | comente

Maria e Antonio. A magia do encontro talvez esteja na sua eterna improbabilidade. Tempo e espaço se articulam ao sabor do acaso e, de repente, estão os dois sobre o palco, com Beethoven e Bach. O que cada um trouxe ao mundo, a gente encontra na partitura; o que cada um trouxe a esta música, a experiência nos relembra e ensina. Mas que tudo isso faça sentido no espaço de um recital é um mistério que convém não desvendar. O que importa afinal é a reinvenção do sabor do mundo, num jogo de gestos, sons, olhares. Em um mundo de cinismo, que a arte interrompa as palavras é um alento.

Despedida. Roberto Minczuk despediu-se ontem do Festival de Inverno de Campos do Jordão. Em forma de homenagem, recebeu os agradecimentos daqueles que agora comandam o festival, encerrando simbolicamente sua gestão à frente do evento. Há um senso de justiça, ainda que o ocaso traga sempre um sabor amargo. Mas se novos caminhos estão sendo trilhados, não se pode esquecer que portas foram abertas nos últimos anos, dando vida a um festival que já não encontrava personalidade. E, da mesma forma, que a programação, após uma semana, já esboça desafios e conquistas.

Novo. Recitais e concertos, propondo diálogos entre épocas, estilos e gêneros, têm sido estimulantes. Mais do que certezas sobre o que há de novo na construção de sentidos musicais, o que se tem até agora são esboços de uma busca da contemporaneidade. O diálogo com o passado não é apenas negação ou reinvenção – e, em uma conversa, vale muito aquilo que não é dito. Acerta quem aceita que não cabem maniqueísmos na construção da arte, quem aposta nas entrelinhas da criação, na ânsia pelo novo – e nas contradições que ela encerra.

Espera. Daqui a pouco, Nelson Freire volta ao palco do Auditório Claudio Santoro. Brahms, Concerto nº 2. A expectativa devolve as melodias à cabeça. E a gente já sonha com mais mistérios e surpresas, ainda à luz do dia.

comentários (6) | comente

Conversava outro dia com um grande amigo que esteve em Los Angeles recentemente e ouviu uma “Sétima Sinfonia” de Beethoven, regida pelo veterano Herbert Blomstedt à frente da Los Angeles Philarmonic. Ele me contava de uma palestra que ouviu antes da apresentação, em que o professor falou bastante sobre o desejo de Beethoven, depois da “Sinfonia Pastoral”, sua sexta, de que sua música “fosse vista como algo abstrato em si mesmo”. Durante o concerto, meu amigo sentiu uma sensação que me descreveu como a compreensão do que é a música, algo que não se coloca em palavras, mas, continua ele, “cabe no coração humano”.

Outro dia pela manhã, li na “Gramophone” de fevereiro um artigo em que o colunista Simon Callow pergunta: “Será que somos capazes de abrir mão das associações de nossas mentes e simplesmente ouvir uma obra com um ouvido verdadeiramente inocente?” E cita alguns exemplos. Não consegue chegar a Veneza, por exemplo, sem ouvir na mente o “Adagietto” de Mahler – e a peça, na sala de concerto, o leva direto para a cidade italiana; o Intermezzo, da “Cavalleria Rusticana”, o faz lembrar de sua avó e da percepção da mortalidade, já que ela ouvia a peça quando sua filha, ainda criança, quase morreu por conta de uma grave doença; no dia em que ouviu pela primeira vez a “Sinfonia nº1” de Elgar, Callow viu uma entrevista com o líder da União Britânica de Fascistas – e a peça, em sua mente, passou a ser uma leitura repleta de ironia de um patriotismo distorcido.

Além das associações pessoais, que recriam a música por meio da nossa individualidade, o que dizer daquelas feitas a partir da própria concepção das obras, que chegam a nós por meio de depoimentos de compositores sobre o que escreveram. Elgar, para ficar em um compositor citado por Callow, dizia que seu “Concerto para Violoncelo” era um testemunho contra a morte de tantos homens e mulheres durante a Primeira Guerra Mundial, um apelo contra o ódio e a favor do diálogo. Para mim, no entanto, essa informação surgiu depois que a peça se tornasse, por episódios da minha vida pessoal, a lembrança do desejo de conhecer o novo, mesmo em meio às contradições do espírito humano, do embate entre força e desespero. Estou errado? Quão importante é a intenção original do compositor na fruição de uma obra musical abstrata?
Conversando recentemente com dois de nossos maiores músicos, o pianista Nelson Freire e o violoncelista Antonio Meneses, surgiu o tema – e ambos ofereceram visões semelhantes. Nelson falava de Chopin – e da dificuldade de colocar em palavras aquilo que, em música, tem acompanhado toda a sua trajetória: a admiração com relação com a música do comspoitor. Antonio foi um pouco além: há um momento, na compreensão da música, seja você um músico ou não, em que a música precisa se impor perante as palavras na própria busca de um significado.

Leonard Bernstein escreveu um pequeno texto que trata de maneira muito divertida dessa questão (em português, ele está na coletânea “O Mundo da Música”, lançada em Portugal). Um compositor e seu amigo, o Poeta Lírico, viajam de carro por uma estrada do interior dos Estados Unidos; no rádio, uma sinfonia de Beethoven. A certa altura, o poeta diz: “Essas montanhas são puro Beethoven”. E os dois começam uma longa discussão: para o compositor, não há nada na música que possa sugerir uma montanha e, sim, uma lógica interna puramente musical; para o poeta, no entanto, o sentido da música passa necessariamente pela sua percepção de que ela dialoga com a paisagem à sua volta.

Será que a música pode ser definida simplesmente pelo nosso desejo – e, por que não, pela nossa necessidade – de defini-la?

comentários (2) | comente

Arquivo

Blogs do Estadão