Estão cada vez mais fortes os rumores de que, com a chegada de Juca Ferreira à Secretaria Municipal de Cultura, o maestro John Neschling deve assumir o Teatro Municipal de São Paulo. Faz sentido – e não apenas porque, desde que saiu da Osesp, Neschling tem seu nome levantado sempre que uma vaga se abre no cenário musical brasileiro: basta lembrar que foi na gestão de Ferreira no Ministério da Cultura que o maestro criou, com apoio do governo federal, sua companhia de ópera. Seja como for, porém, e apesar do atual secretário Carlos Augusto Calil ter falado em entrevistas sobre ajudar na transição, a troca de guarda no Municipal não deve ocorrer de maneira tranquila.
Na quinta-feira, o Diário Oficial do Município trouxe informações sobre a nomeação da atual diretora do Teatro Municipal de São Paulo, Beatriz Franco do Amaral, como diretora geral da Fundação Teatro Municipal de São Paulo. É isso mesmo: a pouco mais de dez dias do fim da gestão, a prefeitura nomeia cargos na fundação e preserva Bia Amaral à frente do Municipal. Além disso, o fato é que pouco se sabe sobre ela. Desde que assumiu o teatro, ela se recusou a falar com a imprensa – todos os pedidos de entrevista eram imediatamente direcionados para o gabinete do secretário de Cultura. Ela também mostrou-se ausente em momentos-chave da história recente do Municipal, como o período em que os músicos pediram a saída do maestro Rodrigo de Carvalho, em 2009. Foi também sob sua guarda, é justo lembrar, que o Municipal voltou a produzir ópera regularmente após a reforma do prédio – ainda que isto tenha acontecido por meio de uma questionável decisão de terceirizar a produção da casa., o que aumentou consideravelmete os custos com relação a gestões anteriores.
Mas há, nessa nomeação, um aspecto mais amplo a ser questionado, que vai além das atribuições de Bia Amaral para o posto. O fato é que, criada há seis meses, a Fundação Teatro Municipal de São Paulo não foi institucionalizada, por falta de uma organização social disposta a se responsabilizar por sua gestão (leia mais detalhes sobre o tema em artigo de Irineu Franco Perpetuo para o site da revista Concerto). E isso significa que, a não ser que algo seja feito ao longo desta semana, artistas, professores e funcionários do teatro entram em 2013 sem contratos a médio e longo prazo, o que com certeza poderá ter consequências no início de um novo projeto artístico. Nesse contexto, a preservação de Bia Amaral à frente da gestão do Municipal é no mínimo curiosa.
Agora é oficial: o maestro norte-americano Ira Levin, ex-diretor do Teatro Municipal de São Paulo, será o principal regente convidado da companhia do Teatro Colón a partir da temporada 2013. Ele regerá três óperas ao longo do ano: “Ballo in Maschera”, de Verdi (com concepção cênica do grupo Fura dels Baus), uma dobradinha “Aleko/Francesca da Rimini”, de Rachmaninoff, e “A Mulher sem Sombra”, de Richard Strauss. Levin esteve no Colón em 2011, quando ofereceu elogiada leitura do “Lohengrin”, de Wagner (leia aqui o que escrevi na época); e, neste ano, comandou uma montagem do Édipo de Enescu, também em parceria com a trupe catalã. Em tempo: na temporada recém anunciada, dois cantores brasileiros estarão na ópera de abertura do ano, “Carmen”, de Bizet: o tenor Tiago Arancam e o barítono Rodrigo Esteves.
BELÉM – Ao longo dos séculos, a história de Salomé, narrada pela primeira vez no Velho Testamento, ganhou cores das mais diversas – e, quando chegou às primeiras décadas do século 20, pelas mãos do compositor Richard Straus, a partir da peça de Oscar Wilde, o encontro da jovem princesa com o profeta João Batista se tornou um conto carregado de sensualidade sobre a relação próxima entre desejo e morte. Proibida pela censura de estrear em Viena, subiu ao palco em Dresden, provocando espanto na sociedade, ao mesmo tempo – e talvez por isso mesmo – em que dialogava de maneira muito contundente com as transformações comportamentais pelas quais ela passava desde o fim do século 19.
Entre os últimos suspiros do romantismo e o flerte com os ares da modernidade, “Salomé” transformou-se em símbolo da estética de Strauss – e é, pela complexidade da partitura (seja no que diz respeito à escrita orquestral, seja no tratamento dado às vozes), um desafio a qualquer companhia que se proponha a levá-la ao palco. Não por acaso, foi escolhida para encerrar a edição deste ano do Festival do Theatro da Paz, em Belém. Em sua décima primeira edição, a segunda sob a direção do tenor Mauro Wrona, o festival teve sempre como marca a aposta em títulos consagrados e familiares – “Macbeth”, “Tosca”, “A Flauta Mágica” e “Carmen” são apenas alguns dos exemplos que simbolizam essa trajetória. Nesse sentido, a entrada no repertório germânico com uma obra-chave do gênero no século 20 é simbólica, e sendo tratada como o começo de um novo momento de ousadia na programação.
Na récita apresentada na noite de segunda-feira, a companhia deu provas vivas de amadurecimento. Do ponto de vista cênico, a montagem tem como característica principal uma organicidade que dá ao resultado final um impactante senso de conjunto, do cenário da estreante Duda Arruk à luz do veterano Caetano Vilela. O diálogo desses elementos, e o jogo de sombras e belos achados que sugere, cria um pano de fundo sólido sobre o qual pode atuar a cuidadosa direção de atores de Mauro Wrona – momentos como a “Dança dos Sete Véus” ou a longa cena final, em que Salomé contracena com a capeça decepada de Iokanaan (nome dado por Wilde ao personagem inspirado em João Batista), são carregados de uma tensão em direção ao clímax (a nudez e, no segundo caso, o beijo) que, de resto, consegue ser mantida ao longo de todo o espetáculo.
Já a leitura musical do jovem maestro Miguel Campos Neto, que trabalhou como assistente de Luiz Fernando Malheiro no Festival Amazonas, em Manaus, é, antes de mais nada, a sugestão de um grande talento potencial a ser desenvolvido – ele dá ritmo teatral e fluência ao espetáculo e sabe recriar a linguagem musical específica dos personagens principais, mas deixa escapar algumas sutilezas da orquestração em momentos importantes, nos quais a orquestra soa forte demais. Como Salomé, a holandesa Annemarie Kremer cresce ao longo do espetáculo, oferece uma cena final impactante mas, no geral, o elenco masculino – o Herodes do tenor Paulo Queiroz, em uma das grandes atuações de sua carreira, o João Batista do barítono Rodrigo Esteves e o Narraboth do tenor Giovanni Tristacci, em especial – sai-se melhor no conjunto.
A sensação final é de que o passo dado pelo festival não foi maior do que a perna – e isso se deve à construção de uma estrutura refinada ao longo dos anos, desde o surgimento do evento, pelas mãos da São Paulo Imagem Data. Ainda assim, alguns desafios permanecem – basta lembrar que a Sinfônica do Theatro da Paz, formada por cerca de cinquenta músicos, precisou ser preenchida com artistas de outros centros do País para atingir o tamanho (e a exigência técnica) requisitadas pela partitura de Strauss. Um novo capítulo, no entanto, se iniciou – gerando expectativa para a edição do próximo ano, quando devem subir ao palco dois monumentos do teatro de ópera do século 19: “O Navio Fantasma”, de Richard Wagner, e “Il Trovatore”, de Giuseppe Verdi.
“De que serve perguntar ao louco por que perdeu a razão?”, questiona-se a certa altura o jovem Werther. Mas montar a ópera que Massenet adaptou do romance de Goethe é fazer exatamente isso – entender a paixão e o desejo do personagem e, ao mesmo tempo, o fascínio que esse símbolo do romantismo segue provocando, dois séculos depois de seu nascimento. E, talvez não por acaso, o tempo – seja a passagem entre as estações, seja o diálogo do passado com a contemporaneidade – esteja no centro de uma nova produção estreada no domingo no Teatro São Pedro.
Massenet teve como ponto de partida o romance Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, reunião de cartas escritas pelo jovem sobre sua paixão por Charlotte; criou, a partir dos textos, uma linha narrativa, dando voz a diversos personagens, mas mantendo a essência das cartas na própria estruturação do drama, pontuado por monólogos do personagem principal; mesmo nas cenas em que não aparece, é ele – e a imensidão de sensações que experimenta – que dá a tônica do libreto e da música.
Nesta nova montagem, o diretor André Heller-Lopes trabalha em dois níveis de leitura. De um lado, propõe o aggiornamento da história, que é levada para meados do século 20, sob o signo do existencialismo, do qual emerge, mais do que um amor proibido, um desejo de morte, que é resultado de um estado de desencanto e melancolia que une Werther e Charlotte. De outro, porém, há a sugestão de uma certa atemporalidade, reforçada pela cenografia de Renato Theobaldo e Roberto Rolnik, autores do cenário feito de cortinas que se abrem e fecham, inspirado em uma das passagens mais impactantes da ópera, quando Werther se pergunta: “Por que tremer diante da morte? Diante da nossa própria morte. Afastamos a cortina e passamos para o outro lado”.
A montagem, assim, ao mesmo tempo em que não se furta do desafio de oferecer uma leitura contemporânea, evoca constantemente, de maneira quase abstrata e etérea, a presença da morte, que está na própria gênese do amor romântico que é a base do relato de Goethe. A impossibilidade que a morte representa, afinal, faz do amor retratado algo cristalizado no tempo, no espaço – e ao mesmo tempo atemporal, como se fosse a própria essência do que significa amar alguém.
Mas amor, na música de Massenet, é antes de mais nada desejo, em especial na leitura do maestro Luiz Fernando Malheiro. À frente da Sinfônica do Teatro São Pedro, ele sabe trabalhar muito bem as transparências da orquestração, sem impedir que dela nasça com toda força a intensidade da emoção, construindo arcos bastante teatrais nos duetos entre Charlotte e Werther ou a urgência que marca os monólogos do jovem poeta.
Na voz do tenor Fernando Portari, o personagem ganhou cores diversas, entre delicadeza e angústia, desaguando na tocante resignação (ou seria libertação?) do ato final. Da mesma forma, é muito impactante a transformação pela qual passa a Charlotte da excelente Luisa Francesconi, que no início do terceiro ato dá vazão, abre mão do estoicismo do início da ópera.
Os dois demonstram domínio do estilo francês, cuidadosos com a pronúncia e com a construção dos fraseados, características que faltaram ao Albert do barítono Vinicius Atique. Gabriella Pace foi uma Sophie eficiente, contraponto de leveza ao drama dos personagens principais. Murilo Neves (Bailli), Max Costa (Johann) e Thiago Soares (Schmidt) tiveram boa atuação. Nas récitas dos dias 1.º e 4, será apresentada pela primeira vez no Brasil a versão para barítono de Werther, com Leonardo Neiva no papel-título.
Em troca de cartas obtidas pelo “Estado”, artistas da Osesp se dizem desrespeitados por Arthur Nestrovski
A Associação de Profissionais da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Aposesp) enviou no início da semana ao diretor artístico do grupo, Arthur Nestrovski, uma carta na qual questiona sua postura após a publicação de uma entrevista na qual ele é definido como “o motor da orquestra”, responsável pelo bom momento do grupo após a turnê pela Europa. No documento, obtido com exclusividade pelo Estado, os artistas também fazem referência ao excesso de atividades do grupo, reclamam da falta de ensaios para a turnê e afirmam que a nomeação de Yan Pascal Tortelier como regente de honra foi “um desrespeito aos músicos”.
Nestrovski foi, há duas semanas, assunto de uma matéria de capa da revista “Veja SP”, intitulada “O Motor da Osesp”. No último fim de semana, o presidente da Fundação Osesp, Fernando Henrique Cardoso, e o Secretário de Estado da Cultura, Marcelo Araújo, publicaram na mesma revista uma carta na qual afirmam que reconhecimento de que a Osesp hoje goza “não seria possível sem o compromisso do governo de São Paulo e sem o trabalho e a dedicação de todos os seus maestros, músicos, funcionários e gestores”.
Na segunda-feira, Nestrovski enviou e-mail aos músicos. Na mensagem, se disse “incomodado” com a matéria, que teria atribuído, segundo ele, “termos e falas que não disse”; e diz ter “grande orgulho de participar desse projeto, ao lado de vocês, do diretor executivo Marcelo Lopes, da nossa regente titular Marin Alsop e das muitas equipes da Fundação, com apoio do nosso Conselho”.
A carta não agradou aos músicos, que prepararam, via Aposesp, uma resposta, aprovada em reunião por 95% da orquestra. Assinado pelo diretor-presidente da associação, Sávio Araújo, o texto diz que a resposta de Nestrovski “vem demasiadamente tarde” e apenas depois do presidente do conselho ter se manifestado publicamente sobre a reportagem. Segundo o diretor, sua demora em se pronunciar se deveu ao fato de, por estar no exterior, não ter acesso à matéria. “O fato é que você conhecia a matéria e teve acesso até mesmo à versão impressa da revista, como mostra o seu post no Facebook no dia 17. Incluo aqui um print screen do seu post no Facebook, para ficar bem claro.”
A carta revela pela primeira vez desentendimentos entre os artistas e Nestrovski. Os músicos não aceitaram a justificativa do diretor artístico, segundo quem seus depoimentos foram tirados de contexto. E relembraram outros episódios em que a mesma “desculpa” teria sido utilizada. “Algo muito similar aconteceu durante nossa turnê pela Europa em 2010. O maestro Tortelier chegou a esboçar uma tentativa de pedido de desculpas à Osesp, justamente atribuindo ao jornalista toda a responsabilidade pela barbaridade que ele proclamou contra os músicos. E me desculpe, vocês ainda tiveram a coragem de oferecer-lhe o título de Regente de Honra da Osesp. Outro desrespeito aos músicos!” Em 2010, antes de partir em turnê, o maestro Tortelier, então regente titular da Osesp, fez críticas duras ao grupo em conversa com um jornalista estrangeiro, cujo conteúdo foi revelado em matéria publicada pelo “Caderno 2″.
Procurado pelo “Estado”, Nestrovski enviou a seguinte resposta, comentando também um texto publicado por ele na revista Piauí em 2011, que segundo a carta da Aposesp também traçava um retrato pouco lisonjeiro dos músicos. “Reitero o que já disse aos músicos, por escrito e também pessoalmente. Jamais foi minha intenção ofender quem quer que seja na Fundação Osesp, muito menos os músicos. Todas as minhas observações à reportagem da revista Veja SP, assim como o texto publicado na revista Piauí em 2011, não pretendiam senão revelar o lado humano de uma das profissões mais lindas e mais difíceis de todas. Ao longo dos últimos três anos, construí uma convivência prazerosa e produtiva com os artistas da Osesp; o que pode não significar unanimidade, como é natural numa instituição tão complexa. Não teria sido possível conquistar tantos resultados expressivos sem esse convívio ancorado em respeito e admiração.”
Leia a íntegra das cartas de Arthur Nestrovski e da Aposesp:
CARTA AOS MÚSICOS
Caros colegas,
Cheguei de viagem anteontem e fui tolhido pelo furacão dessa malfadada reportagem da revista Veja. Nao preciso dizer do meu incômodo com a forma como tudo apareceu nesse texto. A começar pela atribuição de termos e falas que não disse e pela ausência de tanto do que eu de fato falei. A continuar pelos muitos pontos ofensivos a tantos de nós – a começar comigo mesmo, alvo
de comentários ofensivos que acredito tenham sido formulados noutro espírito e noutro contexto (como tanto mais do que foi dito). Não poderia haver texto mais inapropriado a essa altura dessa
brilhante Temporada. Todos nós já passamos por isso antes, de um ou de outro modo; e sabemos que responder aos jornalistas só alimenta o assunto, com resultados contrários ao desejado. O Presidente Fernando Henrique e o secretário Marcelo Araújo, de resto, publicaram hoje uma carta na seção dos leitores, salientando o caráter coletivo de todo o trabalho praticado desde sempre pela Fundação Osesp. Escrevo a vocês para enfatizar não só meu descontentamento com essa matéria, mas também minha esperança de que saberemos, antes de mais nada separar o que está ali formulado da realidade dos fatos e, também, desculpar e apagar logo da memória o que foi escrito na infeliz reportagem. Estamos vivendo um momento especial da história da Osesp, com grandes conquistas e grandes perspectivas. A Osesp tem hoje condições de se firmar com uma das instituições musicais de maior importância no cenário mundial, nesse início de século 21. É isso que importa: a grandeza e a beleza de um projeto sem igual. Não há um de nós que não venha se esforçando para isso. De minha parte, se há uma coisa verdadeira na reportagem, são as palavras do Presidente, comentando o “grau enorme” de meu comprometimento. Tenho grande orgulho de participar desse projeto, ao lado de vocês, do diretor executivo Marcelo Lopes, da nossa regente titular Marin Alsop e das muitas equipes da Fundação, com apoio do nosso Conselho. Vêm aí três semanas muito especiais, um triplo fecho de ouro para o ano, começando com a visita do compositor residente Magnus Lindberg e a gravação da Quarta de Prokofiev, continuando com a homenagem a Lev Veksler (representando os músicos da Osesp) e concluindo com a Suíte Chico e Porgy and Bess, na Praia do Gonzaga. Vamos todos aproveitar ao máximo essa música, no ambiente único que temos o privilégio de compartilhar.
Abraços do
Arthur Nestrovski
A RESPOSTA DOS MÚSICOS
Caro Arthur,
Desculpe-me utilizar do email para este assunto, mas como você já o fez, me sinto no direito de responder.
Sua “Carta aos Músicos” não poderia ser mais previsível. Especialmente quando enviada no mesmo dia que a VEJA SÃO PAULO publica uma nota conjunta do Presidente Fernando Henrique Cardoso e do Secretário de Cultura Marcelo Araújo, esclarecendo fatos muito importantes que foram omitidos na reportagem.
Vamos à sua carta. Você afirma que chegou “anteontem” e que foi tolhido pelo furacão da malfada reportagem. Fica a dúvida:
- você não sabia do teor da matéria?
- ou não tinha idéia da repercussão negativa que a mesma causou em nossa orquestra?
É difícil acreditar que você não sabia do teor da matéria. Em primeiro lugar porque eu mesmo fiz questão de ligar para você no dia seguinte da minha entrevista para a Raquel Verano, apontando que tratava-se de uma “lavagem de roupa suja”, no meu entendimento. Aliás, eu inclusive disse que não concordava com esse tipo de matéria. Deixei isso claro a você, assim como deixei isso claro à Raquel. Você estava fora do país, portanto sem acesso à versão impressa da Vejinha. Mas ela está online. Portanto, saber da reportagem, de seu teor, seria bem simples. Indo além, é difícil imaginar que, tratando-se de um perfil, você não tivesse lido a matéria mesmo antes dela ter sido publicada. Mas isso eu não vou especular. O fato é que você conhecia a matéria e teve acesso até mesmo à versão impressa da revista, como mostra o seu post no Facebook no dia 17, o sábado em que a Vejinha foi para as bancas. Incluo aqui um print screen do seu post no Facebook, para ficar bem claro.
Por outro lado, se sua surpresa não foi com o teor da reportagem mas sim com a repercussão entre os músicos e na própria Fundação Osesp, eu sinto muito, mas sua resposta vem demasiadamente tarde. Deveria ter vindo já há alguns dias.
Na realidade, se é tudo como você alega, seria desejável – e muito oportuno – que você mesmo tivesse escrito à Veja, através do Painel do Leitor, reclamando que aquilo que está posto na reportagem não corresponde à entrevista que você concedeu. Esta mesma “Carta aos Músicos” estaria de bom tamanho, pois deixaria claro para todos, músicos, colaboradores, gestores, Conselheiros, Secretários e leitores em geral, que tudo aqui publicado pela Vejinha não passa de uma grande fantasia da Raquel.
Mas continuando. Quando eu digo que sua carta é previsível, o faço justamente porque eu esperava ouvir que você sente-se incomodado”com a forma como tudo apareceu nesse texto… a começar pela atribuição de termos e falas que não disse e pela ausência de tanto do que eu de fato falei”. Não estou brincando. Eu realmente esperava ouvir isso. E por que eu esperava? Porque isso é típico em situações assim. Atribuir ao repórter toda a responsabilidade. Aliás, um parênteses em meu raciocínio: algo muito similar aconteceu durante nossa turnê pela Europa em 2010. O maestro Tortellier chegou a esboçar uma tentativa de pedido de desculpas à Osesp, justamente atribuindo ao jornalista toda a resposabilidade pela barbaridade que ele proclamou contra os músicos. E me desculpe, vocês ainda tiveram a coragem de oferecer-lhe o título de Regente de Honra da Osesp. Outro desrespeito aos músicos!
Voltando à sua carta e seu pedido de desculpas. É realmente difícil de aceitar. Principalmente quando me lembro de alguns trechos do diário que você publicou na revista PIAUÍ em 2011. Senão, atente para seguinte extrato retirado do diário:
“Todo mundo observa que os músicos reclamam demais. Em todas as orquestras é assim… é a reclamação pessoal que mais impressiona… pelos motivos mais variados, que vão do sublime ao trivial. Eis aqui uma tentativa de explicação. Raras profissões exigem tanta disciplina. A música em si demanda isso, mas a prática orquestral vai mais longe, primeiro pela natureza do conjunto, mas também pelas contingências do dia a dia… Para integrar a orquestra, cada músico estudou muitos anos, aprimorando em alto nível um talento já singular. Agora, no entanto, justamente quando vai tocar, não sobra quase espaço para a expressão individual…Tem mais: para a maioria dos músicos de orquestra – exceção feita aos de função solista (como o spalla, a primeira flauta, o primeiro trompete, o tímpano etc.) – não há como ser ouvido individualmente…. a não ser quando toca uma nota errada. Entende-se, então, que cada músico queira ser ouvido, por si, em si e para si – que é o que acontece, afinal, quando reclama. Nesse momento, ele ou ela cobra atenção particular. Precisa ser escutado e, na medida do possível, atendido. Não quer dizer que não tenha motivo e não quer dizer que não tenha razão. Mas o caráter e frequência das reclamações sugerem algo além de cada queixa específica…”
Para quem não sabe, ou não leu, esse texto é parte do diário “Entre Harpas e bagagens”, publicado na edição No. 52 da revista PIAUÍ em Janeiro de 2011. Entre esse pequeno extrato do diário e outros episódios (que vão da disenteria de um músico a um barraco no saguão do hotel por causa de “um músico de temperamento desassossegado, e que a essa altura já tomou uma cerveja além do que devia…”), o diário publicado na PIAUÍ se assemelha muito à reportagem da Vejinha, ao expor situações que, embora possam parecer como uma mera curiosidade, acabam sendo somente fofoca de bastidor e que expõe músicos, e a própria Osesp, à situações constrangedoras. Da mesma forma que o print screen do Facebook, incluo em anexo um PDF da revista PIAUÍ, para ficar bem claro o que estou relatando.
À luz de seu diário publicado na PIAUÍ, eu não tenho como atribuir responsabilidade à repórter da Vejinha pelo que foi publicado na reportagem da semana passada. Me desculpe, mas isso eu não consigo aceitar. Da mesma forma, é muito difícil apagar da memória. Aliás, vamos combinar que esse é um pedido que não deveria ter sido feito.
Realmente essa reportagem chega em um momento absolutamente inapropriado. Praticamente no final de uma temporada absolutamente intensa, onde os músicos se dedicaram exaustivamente, trabalharam exaustivamente em semanas de até 13 serviços, com cinco concertos, gravações, viagens, horas de estudo, concertos importantíssimos em turnê realizados sem ensaios (onde os músicos estavam com seus nervos à flor da pele), etc., etc., etc. Depois de tudo isso, e com o que ainda temos pela frente nas próximas semanas, é realmente incômodo e doloroso esse “reconhecimento” estampado na matéria da Veja SP.
Sávio Araújo
Diretor Presidente
APOSESP
“Un Ballo in Maschera” e “La Clemenza di Tito” serão transmitidas nos cinemas brasileiros direto do Metropolitan Opera House de Nova York
NOVA YORK
“Ambientar ‘Um Baile de Máscaras’ em Boston é como transferir ‘La Traviata’ para Munique”, escreveu certa vez o musicólogo inglês e grande pesquisador da ópera do século 19 Philip Gossett. Quando começou a trabalhar na obra, Verdi a ambientou na Suécia – mas os censores da época não gostaram da ideia de um monarca europeu assassinado sobre o palco. Assim, o rei Gustavo atravessou o Oceano Atlântico e, durante a viagem, se tornou o conde Riccardo – e os Estados Unidos passaram a ser o cenário para o triângulo amoroso entre ele, Renato e Amelia.
Mais de um século depois, não é incomum que diretores recuperem os nomes originais – Riccardo vira Gustavo e Renato, Anckarstrom – e levem a história de volta para a Suécia. E é esse o ponto de partida da nova produção de David Alden para o Metropolitan, que será exibida no dia 8 de dezembro nos cinemas brasileiros. A Suécia do diretor, no entanto, não é recriada de modo naturalista – e mesmo com relação à época em que a história se passa, ele toma liberdades, criando sobre o palco um universo que remete ao século 20 e ao cinema noir.
Artistas costumam, vez ou outra, reclamar do conservadorismo da crítica perante montagens ousadas. Mas há produções em que é possível inverter a choradeira. É o caso deste “Baile de Máscaras”. Isso porque Alden parece hesitante em sua proposta, conceitualmente estimulante, e, por cima dela, estabelece uma metáfora que a reduz. Gustavo é um monarca arrogante, considera-se imbatível, ignora alertas a respeito de tramas para derrubá-lo e investe contra a mulher do amigo Renato, única voz fiel em todo o reino. E o diretor, então, cobre o palco durante todo o espetáculo com uma enorme imagem renascentista de Ícaro, aquele que não soube reconhecer os próprios limites e, chegando perto demais do sol, viu derreter as asas de cera que o fizeram voar.
Verdi procura se afastar de temas mitológicos e, quando escreve “Um Baile de Máscaras”, busca exatamente a dramaticidade que nasce dos conflitos que definem a alma humana, personagens de carne e osso que ele tão bem soube retratar. Nesse sentido, a comparação com Ícaro soa descabida. Ainda assim, o problema principal é que a metáfora não parece forte o suficiente para sustentar a narrativa e, a todo instante, enfraquece o componente visual noir da concepção. Alden ousa, ma non troppo, enfraquecendo a dramaturgia contemporânea que parecia propor.
O espetáculo, ainda assim, é fluente – e uma oportunidade de ouvir o novo titular da casa, o maestro Fabio Luisi, em perfeita comunhão com sua orquestra, comandando também um elenco de belas vozes: o tenor Marcelo Álvarez, o barítono Dmitri Hvorostovsky, a soprano Sondra Radanovsky, que esteve no Rio no ano passado cantando Tosca, e a veterana mezzo-soprano Dolora Zajick.
Confira os locais de exibição de “Un Ballo in Maschera”
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Antes do Verdi, neste próximo sábado, dia primeiro, a atração das transmissões do Metropolitan é “La Clemenza di Tito”, de Mozart, com libreto baseado no texto de Metastasio (que por sua vez inspirou-se em Suetônio) sobre o imperador romano Tito. Mozart recupera o formato da opera seria – e isso, aliado ao fato de que a ópera foi escrita sob encomenda para a coroação de um imperador e tem como mensagem a necessidade de retidão moral, muitas vezes deu ao título a pecha de peça menor, certamente inferior à trilogia Don Giovanni/Bodas de Fígaro/Così Fan Tutte. Mas, típica da fase final do compositor, “La Clemenza di Tito” traz uma série de inovações para o gênero opera seria, com liberdades que levam à complexa caracterização dos personagens.
A montagem levada pelo Met está há quase 30 anos em seu repertório, assinada por Jean Pierre Ponnelle. Cenários e figurinos tradicionais, grandiosos, monolíticos quase. O que, de certa forma, joga toda a atenção no canto e na atividade da orquestra que, sob regência de Harry Bickett, especialista nos repertórios barroco e clássico, consegue extrair sonoridade bastante característica da sinfônica do teatro. Muito tem se falado nos Estados Unidos do tenor italiano Giuseppe Filianoti, revelado há alguns anos pelo Metropolitan, mas confesso que sua atuação me decepcionou. Na trama, Tito, símbolo da virtude, se vê às voltas com traições de todos os tipos – mas seu espírito elevado triunfa e o faz perdoar aqueles que, por alguns instantes, o fizeram duvidar do valor de uma vida de correção. Filianoti, no entanto, cria uma figura estóica que parece pairar à margem da trama, como se seu caminho estivesse livre de conflitos.
Por conta disso, dominam o palco os demais personagens: o comovente Sesto de Elina Garanca é um jovem atormentado, levado a trair seu imperador pelo desejo por Vittelia (Barbara Fritoli, em atuação apenas correta). Da mesma forma, como Annio, Kate Lindsey é uma revelação, ampliando as possibilidades de um personagem normalmente relegado a segundo plano, o que pode ser dito também de Lucy Crowl, fazendo sua estreia no Metropolitan, e sua Servilia. São dois nomes aos quais convém prestar atenção nas próximas temporadas.
Considerações sobre o “Macbeth” de Bob Wilson e a história recente do Teatro Municipal
Assisti hoje à noite ao “Macbeth”, de Giuseppe Verdi, no Teatro Municipal de São Paulo e saí em estado de graça com a montagem do diretor norte-americano Bob Wilson. O virtuosismo cênico é impressionante – o trabalho formal, a atenção a detalhes, o cuidado milimétrico na direção de atores, a construção da narrativa feita a partir da luz. Sua concepção visual e cênica se afasta do que se espera de um Verdi “tradicional” – e é justamente ao fazer isso que devolve à plateia todo o poder teatral do compositor, nos revela uma vez mais, na construção das cenas, sua busca por reinventar o drama musical italiano. A música e o teatro que ela carrega são as personagens principais da montagem. E então é preciso reverenciar a qualidade dos cantores, em especial do Macbeth de Angelo Veccia e da Lady Macbeth de Anna Pirozzi – e, claro, da regência impecável do maestro Abel Rocha. João Marcos Coelho já escreveu sua crítica para o “Caderno 2” e outros comentaristas, como o diretor Cleber Papa, publicaram análises interessantes; da mesma forma, estou certo de que os colegas Irineu Franco Perpetuo e Leonardo Martinelli logo publicarão no site da revista Concerto suas sempre esclarecedoras análises. E, enquanto isso, eu me recolho à minha insignificância e falo um pouco sobre uma das questões que me vieram à mente ao longo do espetáculo, pensando neste “Macbeth” no contexto da história recente do Teatro Municipal.
Ao longo da última década, é possível identificar alguns blocos específicos no que diz respeito à programação do Teatro Municipal, que coincidem, é natural, com a troca de guarda na sua direção artística. A gestão do maestro norte-americano Ira Levin optou por sacudir o repertório da companhia, trazendo para São Paulo alguns títulos importantes, como “Jenufa”, de Janácek, “Salomé”, de Strauss ou o “Don Carlo”, de Verdi, mesma preocupação levada à temporada sinfônica. Jamil Maluf, em sua atuação como diretor, ampliou o número de produções encenadas anualmente, apostou na contratação de cantores brasileiros, esboçou uma temporada de repertório – e, para tanto, encarou o desafio de mexer em um vespeiro pouco charmoso e midiático mas fundamental: a infraestrutura do teatro, instaurando em definitivo uma verdadeira central técnica de produção e dando início à reforma do prédio e do palco. A Abel Rocha, por sua vez, coube devolver ao teatro uma rotina de produção depois de quase dois anos em que os corpos estáveis tiveram, por conta das obras, suas atividades drasticamente reduzidas – e o fez apostando em uma combinação de títulos célebres com outros menos conhecidos, utilizando os novos recursos técnicos conquistados e investindo em diretores, originários do mundo da ópera ou não, de olhares ousados – processo do qual o novo “Macbeth” de Bob Wilson é, obviamente, um importante e significativo ponto de chegada.
Nas frestas entre estas três gestões há um elemento em comum – dilemas administrativos e estruturais que, motivados por mudanças de guarda na prefeitura ou mesmo por rearranjos internos, levaram à interrupção de um projeto e à instituição de um novo. Nada contra a diversidade; o problema é que esses intervalos significaram, na maior parte da vezes, cancelamentos, indefinições, pausas na atividade dos corpos estáveis e, consequentemente, a períodos de estagnação artística. Quando um projeto entrava no eixo e parecia pronto a se estabelecer, era interrompido e substituído, resultando em um círculo cruel. O que se viu no Municipal nos últimos anos não foi a concretização de um projeto de longo prazo mas, sim, a sucessão de propostas interessantes que acabaram abortadas antes mesmo de se consolidarem e oferecerem frutos perenes para o teatro e a cidade.
O mesmo desafio se coloca nesse momento, quando uma gestão se encerra e uma nova equipe se prepara para assumir a prefeitura. O Municipal vive uma nova indefinição que, desta vez, não se limita à manutenção de um maestro ou de um projeto artístico. A atual gestão da Secretaria Municipal de Cultura conseguiu aprovar o projeto de criação da Fundação Teatro Municipal. Mas, por sua configuração legal, ela depende de uma organização social que se responsabilize por sua gestão e permita a instituição de uma nova realidade contratual e de trabalho para os artistas dos corpos estáveis e os convidados a participar da programação, além de centralizar o trabalho de produção, hoje feito por empresas convidadas. Seria prematuro pensarmos que já vivemos no melhor dos mundos: há arestas a serem aparadas, acertos a serem considerados. Mas o “Macbeth”, visto em conjunto com as demais montagens apresentadas ao longo dos últimos 18 meses, é testemunha de um momento importante na história do teatro – em especial se o compararmos com a situação vivida por seu irmão carioca, atolado em cancelamentos e em uma programação que beira a irrelevância (o tema tem sido assunto de reportagens e manifestações das mais variadas em blogs e nas redes sociais). Mas, se não forem resolvidos impasses administrativos, mais uma vez o que sobrará deste fim de gestão é um período de indefinição – a certeza de um potencial mais uma vez deixado de lado.
O Municipal, e seu público, merecem destino melhor.
BELÉM – O blog e seu autor estão oficialmente de férias, mas a ópera chama e a gente não consegue dizer não…. Ontem, assisti ao “Werher”, de Massenet, no Teatro São Pedro e, hoje cedo, vim para Belém, acompanhar a segunda récita de “Salomé”, de Strauss, no Teatro da Paz. Volto correndo na madrugada, a tempo de ver ainda amanhã “Macbeth”, de Verdi, montagem de Bob Wilson para o Municipal de São Paulo. E aproveito, então, para voltar aqui rapidinho e contar uma ou outra coisa sobre o que andei vendo nos últimos tempos. Passei alguns dias em Nova York, onde, no Metropolitan, vi “A Tempestade”, de Thomas Adès, com direção de Robert Lepage, “Un Ballo in Maschera”, de Verdi, em nova – e fraca – produção (apesar do belo desempenho dos cantores, Dmitri Hvorostovsky e Marcelo Álvarez em especial), e a antiga montagem de Jean Pierre Ponnelle para “La Clemenza di Tito”, de Mozart, na qual o Sesto de Elina Garanca foi uma das experiências vocais mais impressionantes pelas quais já passei. Mas, deixando o Metropolitan de lado um pouco, o que mais me impressionou foram dois concertos com a Philarmonia Orchestra regida por Esa Pekka Salonen, tanto pela qualidade como pela musical como pela proposta conceitual: num dia, a “Nona” de Mahler; no outro, versão em concerto de “Wozzeck”, de Alban Berg. Enfim, alguns desses espetáculos vão virar matéria para o jornal e, nos próximos dias, vou postando aqui os textos. Assim como vou fazer com o belo “Werther” do São Pedro. E, claro, com a “Salomé” – quem já viu garante que a produção marca um salto de qualidade na trajetória do Festival do Teatro da Paz. Estou curioso.
Repertórios atraentes e diversificados; a presença de grandes solistas e maestros convidados, incluindo a estelar contralto francesa Nathalie Stutzmann como artista residente; uma nova turnê europeia; a continuação de um projeto consistente de gravações; o aumento no número de concertos da regente titular Marin Alsop: após um turbulento período de transição, a programação 2013 da Osesp parece sugerir enfim a normalização das atividades da orquestra – assim como aponta, em alguns aspectos, uma mudança de curso do diretor Artur Nestrovski em sua segunda temporada com o grupo.
Veja a programação completa da Osesp para 2013
A primeira diz respeito ao próprio tema da programação. A ideia de um eixo condutor para a temporada surgiu neste ano, mas a temática proposta, “Música em Tempos de Guerra e Paz”, revelou-se muito ampla e, na prática, acessória. Nesse sentido, apostar em uma homenagem à “Sagração da Primavera”, de Stravinski, é não apenas conceitualmente mais interessante como leva a realizações mais concretas, como a encomenda de uma obra que, cem anos depois, possa dialogar com uma das principais criações da história do século 20.
No que diz respeito às encomendas de obras a compositores, a alteração é ainda mais significativa. Nestrovski parece ter abandonado o diálogo entre o erudito e o popular (com músicos como Paulo Bellinati e Edu Lobo produzindo peças para orquestra sinfônica) como proposta estética dominante da programação. O crossover ainda está presente, com um “Concerto para Violino” de Francis Hime (que será estreado por Cláudio Cruz) ou um recital em que o pianista e compositor André Mehmari vai improvisar sobre temas da MPB, mas a música de invenção voltou a ter espaço significativo. A escolha de autores, no entanto, ainda que diversificada, é conservadora e repete alguns nomes da história recente do grupo. Dos oito autores, Marlos Nobre, André Mehmari e Clarice Assad já escreveram para a orquestra; e Edson Zampronha e Eduardo Guimarães Álvares não escreverão para grande sinfônica mas, sim, para coro a cappella e tímpano e percussão, respectivamente. Ainda no universo da composição, duas sutis alterações: a ideia de abrir o ano com uma fantasia sobre o “Hino Nacional Brasileiro”, que nos últimos anos rendeu peças programáticas de gosto duvidoso, foi abandonada; e o posto de “compositor residente” ganhou nome apropriado, “compositor visitante” (em 2013, a russa Lera Auerbach, radicada em Nova York).
Entre os maestros, além da volta de alguns nomes, como Richard Armstrong, Osmo Vänskä, Alondra de la Parra e Rafael Fhrübeck de Burgos, é de se comemorar a maior presença de Frank Shipway, que fará três programas com o grupo: o francês Yan Pascal Tortelier pode ter o título de regente convidado de honra, mas tanto no que diz respeito à qualidade dos concertos como na relação entre músicos e maestro, é o britânico o favorito da orquestra.
A ópera, bastante presente nas temporadas da antiga gestão artística da Osesp, parece mesmo estar fora do radar do grupo. Nestrovski afirma que, com o Teatro São Pedro e o Teatro Municipal bancando suas produções, não vê muito sentido em se dedicar a este repertório, apesar da prática ser comum em orquestras de centros como Viena e Berlim. Ainda assim, ele diz considerar a possibilidade de, a partir de 2014, programar atos completos de óperas em versão de concerto. No entanto, a ausência desse repertório no ano do bicentenário dos principais autores da ópera do século 19, Wagner e Verdi, levanta dúvidas sobre a intenção, ainda que, do compositor alemão, a Osesp faça a estreia brasileira do interessante arranjo de Hans Werner Henze para as “Wesendonk Lieder”.
No campo institucional, 2013 também terá mudanças: em junho, ocorre a renovação do conselho da Fundação Osesp – e nela haverá troca nos cargos de presidente e vice-presidente, ocupados por Fernando Henrique Cardoso e Pedro Moreira Salles desde a implementação da fundação, em 2005.
A Filarmônica de Minas Gerais saiu na frente e, às vésperas de partir em turnê pela América Latina, acaba de lançar sua temporada de assinaturas 2013. Serão 24 programas distintos, interpretados em 48 concertos. Há comemorações pelos bicentenários de Verdi e Wagner – a “Missa de Réquiem” e o primeiro ato da “Valquíria”, com Eliane Coelho como Sieglinde e o tenor Eduardo Villa como Siegmund. O ano será rico em pianistas: Benedetto Lupo toca o concerto de Dvorak; José Feghali, o nº 2 de Saint-Säens; Anna Vinnitskaya, o nº 2 de Bartok; Ricardo Castro, o primeiro de Brahms; Lilya Zilberstein, o nº 3 de Prokofiev; Angela Cheng, o nº 25 de Mozart; e Conrad Tao, o nº 1 de Britten. Outros solistas incluem os violoncelistas Antonio Meneses (concerto de Dutileux), Mark Kosower (concerto nº 1 de Ginastera) e Daniel Müller Schott (Sinfonia Concertante, de Prokofiev) e os violinistas Philippe Quint (peças de Corigliano), Chee-Yun (concerto de Glazunov), Kioko Takezawa (concerto de Brahms) e Nicolas Koeckert (concerto de Sibelius). Além do titular Fábio Mechetti, vão reger a orquestra os brasileiros John Neschling e Roberto Minczuk, além de Marcos Arakaki, Rossen Milanov e Maximiano Valdés. O repertório sinfônico tem obras de Shostakovich, Hindemith, Poulenc, Messiaen, Lutoslawski, Strauss, Stravinsky, Schoenberg, Cage, Mahler; entre os brasileiros, Guerra-Peixe, Amaral Vieira, Guarnieri, Villa-Lobos, Ernani Braga e Almeida Prado.
Mais detalhes no site da orquestra.
2013
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