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João Luiz Sampaio

12.fevereiro.2011 16:41:56

O Municipal em seu centenário: sem previsão de reabertura, sem programação, sem diretor artístico, salários atrasados…

A saída de Alex Klein da direção artística do Teatro Municipal acontece quatro meses após sua chegada ao teatro. Segundo entrevista concedida a Jotabê Medeiros, do “Caderno 2”, a decisão foi motivada porque Klein “não conseguiria olhar no rosto de um paulistano e garantir que faria neste ano uma programação à altura do centenário do teatro”. Entre os motivos para tanto, estaria a presença de “forças” querendo opinar e deixando sua marca, “criando conflitos”. Klein se mostrou interessado em continuar apenas como regente titular da Sinfônica Municipal, mas fontes ligadas ao teatro garantem que a opção foi descartada pela secretaria municipal de Cultura. Quem assume o Municipal, agora? Os suspeitos principais talvez sejam os outros maestros na lista tríplice da qual fazia parte Alex Klein: Luiz Fernando Malheiro e Carlos Moreno.

Havia, desde o começo de 2010, uma comissão montando uma programação para o centenário. Klein chegou no meio do caminho e quis dar a sua cara à programação. Óperas foram canceladas, artistas desconvidados, num vai e vem que pouco deve ter colaborado para a credibilidade da casa. Além disso, a reforma sem fim do teatro, atrasando a sua reabertura, só tornou ainda mais incerto o tão esperado renascimento da programação. Por tudo isso, se chama a atenção pela rapidez, a saída de Klein não chega exatamente a ser surpreendente.

O primeiro anúncio da contratação de Klein o colocava como regente-titular da Sinfônica Municipal. No entanto, poucos dias depois, quando o entrevistei para o Caderno 2, ele falava que assumia a função de diretor artístico. Fontes ligadas à direção geral do Municipal me procuraram, então, para dizer que ele era apenas regente titular. No final do ano passado, quando perguntei ao secretário Carlos Augusto Calil sobre a questão, ele foi categórico em dizer que não havia vácuo de poder no Municipal e que Klein era sim o diretor artístico. Disse mais: todos os candidatos ao posto, entrevistados por ele, deixaram claro que só assumiriam a OSM caso fossem também responsáveis pela direção artística global do teatro, o que englobaria outros corpos estáveis e as escolas de música e bailado. A saída de Klein, agora, mostra que o vácuo existia.

Esse contexto, porém, não é novo. E mais do que demonizar Klein como um traidor que abandona a causa em um momento delicado ou beatificá-lo como um heroi que tentou, sem sucesso, mudar o sistema, acho importante reconhecer que ele é apenas mais um personagem de uma história na qual os protagonistas são o caos administrativo e o descaso com que o Municipal vem sendo tratado ao longo dos anos. A angústia com a programação no ano do centenário é compreensível, mas há algo muito mais amplo em jogo. Teremos Rigoletto, Valquíria? Ao que tudo indica, sim. Mas essa discussão não pode mascarar o problema maior, que é a falta de um projeto artístico consistente para o Municipal. A atual gestão começou os trabalhos de maneira promissora, com a central de produção e a tentativa de formatação de um esquema próprio de produção; sete anos depois, no entanto, o teatro começa o ano fechado, sem garantias de reabertura (a data informada, em junho, é tão garantida quanto as tantas outras já divulgadas nos últimos meses), sem programação, sem diretor artístico, com salários atrasados (os vencimentos de dezembro e janeiro ainda não foram pagos).

Recorrer ao projeto que transforma o Municipal em uma fundação como solução para todos os problemas é igualmente ilusório. Ele pode ser importante mas, antes de definir como o teatro vai funcionar, é preciso saber para que ele deve funcionar. E o que se percebe hoje é justamente a ausência de um plano artístico consistente para o Municipal. O esvaziamento, nos últimos dois anos, da temporada do teatro, está enfim cobrando o seu preço. E a atual gestão chega ao ano do centenário levando o teatro em direção à irrelevância. Não será a presença ou não de um concerto de gala ou uma ou outra ópera que vai resolver essa questão.

comentários (18) | comente

18 Comentários Comente também
  • 12/02/2011 - 17:36
    Enviado por: Tweets that mention O Municipal em seu centenário: sem previsão de reabertura, sem programação, sem diretor artístico, salários atrasados… « João Luiz Sampaio -- Topsy.com

    [...] This post was mentioned on Twitter by frozen margarita, João Luiz Sampaio. João Luiz Sampaio said: João Luiz Sampaio http://t.co/7gHO5ff via @estadao [...]

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  • 12/02/2011 - 23:11
    Enviado por: Rose Silveira

    Lembrando que há crise também no Coro Paulistano, pertencente ao Teatro Municipal, por conta do processo de avaliação pelo qual apenas 25% dos integrantes foram aprovados. Os reprovados terão segunda chance em março. Mas é de se perguntar se, ocorrendo a demissão dos reprovados, haverá tempo suficiente para recompor o grupo e encaminhar ensaios para o programa de reinauguração. Com todos esses problemas, há de se temer por essa reabertura.

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  • 13/02/2011 - 00:19
    Enviado por: Elisabeth

    Talvez o buraco seja ainda mais embaixo: a falta de uma política cultural por parte dos prefeitos que comandam a cidade há 30 anos. Covas, Janio, Maluf, Pita e Kassab. Os melhores momentos do teatro municipal coincidiu com as prefeituras de Erundina e Marta, com programaçao regular de óperas e valorização dos artistas locais.

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  • 13/02/2011 - 01:15
    Enviado por: Roberto Marteliolli

    Esse problema continuará até que decidam colocar um profissional da ópera. O grande erro é achar que só porque se é maestro regente dá para ser diretor artístico.
    Uma direção artística só pode ser feito por um profissional que conhece perfeitamente todos os segredos de um teatro e do repertório lírico, além de ser um excelente comunicador.
    No Brasil não existe essa figura, mas há muitos brasileiros que poderiam perfeitamente ocupar esse lugar mas que se encontram em outros teatros de ópera na Europa.
    Basta alguém convencer um deles para assumir dito posto.
    Qualquer outra alternativa é falida.

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    • 14/02/2011 - 09:27
      Enviado por: João C. Loureiro

      Caro Roberto,
      Acontece que no Brasil, os políticos nem sabem e nem conhecem os profissionais verdadeiros. Tudo é na base de indicação. O que deveria ser feito, assim como na Europa, é publicar um edital nos jornais nacionais e internacionais e na imprensa especializada, procurando um diretor artístico.

      Com certeza muitos especialistas e profissionais da ópera se candidatariam e isso seria um excelente exercício de transparência nos cargos públicos.

      Os maiores e melhores teatros de ópera do mundo funcionam assim. No Brasil com certeza também funcionaria. Basta vontade política.

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  • 13/02/2011 - 10:45
    Enviado por: Fernando

    A julgar pela da atuação da administração municipal no que se refere à música, a Secretaria Municipal de Cultura poderia ter seu nome mudado para Secretaria Municipal da Virada Cultural. Estou errado?

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    • 14/02/2011 - 16:22
      Enviado por: Elisabeth

      Vc está certíssimo, caro Fernando. Tirando o oba-oba patético da virada cultural, só sobra descaso, incompetência e má-fé no trato dos bens culturais da nossa São Paulo (cidade e estado)

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  • 13/02/2011 - 11:18
    Enviado por: GUILHERME CIMINO

    Jamil Maluf.

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  • 13/02/2011 - 12:20
    Enviado por: Cicrano

    Tomara que a midia possa indagar ainda mais sobre a materia. Eu tenho certeza que é possível ir ate o fundo do problema e aportar soluções. Eu também acredito que o Klein é uma pessoa clave para fazer descobertas de coisas que ainda não foram divulgadas. Vão atras gente!!

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    • 14/02/2011 - 09:01
      Enviado por: GUILHERME CIMINO

      A mídia?!
      Você já ouviu a palavra “erudita” ou mesmo “ópera” na mídia?!

      Ora, Cicrano, a mídia tem outras prioridades.
      É mais fácil entrar num boteco e estar tocando a rádio Cultura do que aparecer uma vírgula a respeito de música erudita na mídia.

      Se o Sergiu Celibidache ressucitasse e decidisse assumir a orquestra, ainda assim dificilmente apareceria um nota na capa de nenhum jornal, nem do Estadão.

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    • 14/02/2011 - 16:36
      Enviado por: Elisabeth

      Não é papel da mídia definir a política cultural de uma cidade. Mas a propósito do descaso da mídia paulistana com a música clássica, devo discordar. Basta um olhar mais atento pra enxergar a relação promíscua entre a OSESP e os principais meios de comunicaçao de São Paulo. É raro o dia onde não haja um elogio rasgado (ou disfarçado) à orquestra desde que o jornalista-diretor artístico Nestrovsky assumiu o posto frente à OSESP.

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    • 15/02/2011 - 12:13
      Enviado por: GUILHERME CIMINO

      Elisabeth, até acredito nessa média da mídia com o Nestrovski, mas o espaço é mínimo, de todo modo.
      Pra se ter uma idéia, se fizessem uma pesquisa sobre quem é o grande pianista brasileiro da atualidade, o favorito certamente seria o Caçulinha.

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  • 14/02/2011 - 12:03
    Enviado por: Sebastião Teixeira

    Concordo com o sr, Guilherme Cimino.
    Por tudo que fez pelo Municipal , seria um ótimo nome….mas se a Prefeitura não tiver uma política definitiva…ele pouco poderá fazer..

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  • 16/02/2011 - 15:00
    Enviado por: GUILHERME CIMINO

    Extra! Extra!

    Abel Rocha é o novo maestro do Municipal!

    Extra! Extra!

    Ps: Aceitável, do ponto de vista operístico, porém sinfonicamente é duvidoso.

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    • 19/02/2011 - 11:36
      Enviado por: GUILHERME CIMINO

      Em tempo,
      o trabalho dele na Jazz Sinfônica me surpreendeu.
      Ele tem mais a cara do Municipal do que da Jazz. E é meio linha dura, no estilo alemão.

      Sinceramente, o Municipal tem mesmo que focar nas óperas, até porque a OSESP já cumpre a função sinfônica com muita propriedade. Os últimos maestros não eram especialistas no assunto.
      O Abel pode dar certo.

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    • 21/02/2011 - 15:15
      Enviado por: Fabiana

      Guilherme, o Abel Rocha era da Banda Sinfônica, e não Jazz Sinfônica.

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    • 23/02/2011 - 19:31
      Enviado por: GUILHERME CIMINO

      Isso, isso…

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