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No Festival Berlioz, a nova música clássica brasileira

João Luiz Sampaio

quarta-feira 27/08/14 14:51

Como foi o concerto da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo no Festival Berlioz, em La Côte Saint-André, na França

Simon Barral-Baron/Divulgação

Não era fácil o desafio que os músicos da Sinfônica Jovem do Estado tinham pela frente no concerto da noite de ontem, aqui no Festival Berlioz, em La Côte Saint-André. A Abertura Concertante, de Camargo Guarnieri, e a Bachiana Brasileira nº 7, de Villa-Lobos, estão repletas de armadilhas rítmicas e exigem tanto virtuosismo individual como enorme senso de cojunto – características mais necessárias ainda na Sinfonia Fantástica. No caso do Berlioz, dá para somar também o fato de se estar na cidade do compositor – e, mais importante, de que a peça é tocada todo ano no festival, sempre por uma orquestra diferente, o que leva o público habitual do evento automaticamente a fazer suas comparações.

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Mas o tamanho do desafio dá a medida do valor do resultado obtido. E os músicos da orquestra estiveram à altura da ocasião, regidos com segurança pelo maestro Cláudio Cruz, que não perde o foco na construção da interpretação em longos arcos, o que fica especialmente evidente na Sinfonia Fantástica, mas também na maneira como ele enxerga os diferentes movimentos da Bachiana de Villa-Lobos. O bis, Aquarela do Brasil e Garota de Ipanema, foi catártico – inclusive (ou principalmente) para a plateia que, de pé, aplaudiu por longos minutos a orquestra.

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No contexto da vida musical brasileira dos últimos anos, uma das iniciativas mais marcantes é justamente o nascimento ou renascimento de orquestras jovens. Sinfônica de Heliópolis, Sinfônica Jovem da Bahia (Neojiba), Experimental de Repertório, a nova Orquestra Jovem. Esses grupos têm uma importância gigantesca, e não apenas pelo importante trabalho social que desenvolvem. Afinal, eles colocam sobre o palco uma nova geração de instrumentistas que, se agora dão os primeiros passos da carreira, em breve serão os músicos de nossas principais sinfônicas. Nesse sentido, por que não, assistir a um concerto como o de ontem é ver o futuro da música clássica brasileira sendo forjado.

E que músicos estamos formando? Paulo Zuben, diretor artístico e pedagógico da Santa Marcelina Cultura, a organização social responsável pela gestão do Projeto Guri da capital, da Escola de Música do Estado de São Paulo e da Orquestra Jovem, ajuda a contextualizar a importância da apresentação de ontem. Para ele, o aluno ganha com estudo integrado e progressivo, que contempla não apenas o instrumento, mas também a teoria e a música de câmara. E o trabalho na orquestra? Não pode ser visto como o ponto de chegada da carreira desses músicos. “Temos o péssimo hábito de entender a orquestra como o foco único do músico, assim como a nossa arrogância não nos deixa ver que estamos ainda no início de um caminho no que diz respeito à nossa vida musical. E é por isso que uma viagem como essa é importante. Ao ter contato com artistas e professores de outros países, os músicos entendem que há um mundo muito maior aqui fora. Estar na orquestra não é um fim mas, sim, uma janela que se abre para outras possibilidades e caminhos mais ambiciosos.”