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Música em vez de política: uma conversa com Lang Lang

João Luiz Sampaio

02 abril 2012 | 12:02

Ainda na rua, mochila nas costas, o pequeno Lang Lang pode ver o semblante irritado do pai, que o esperava na janela. Poucas semanas antes, depois de completar 8 anos, os dois haviam se mudado para Pequim. Em Shenyang, o menino pianista era tratado como um príncipe. Naquela tarde, porém, era recebido aos gritos pelo pai. Estava duas horas atrasado para a sessão diária de estudos. Assim, não seria aceito no conservatório da capital. Todo o esforço teria sido em vão – e, em meio à briga, o pai lhe entrega um punhado de comprimidos. “Tome! Se você é um preguiçoso, não vai ser o número um e, então, não há sentido em viver. Primeiro você morre, depois eu morro.” Histórias de prodígios são comuns no universo da música clássica – mas a de Lang Lang impressiona pela rapidez com que ele tomou de assalto o mercado. O talento descomunal (e as tormentas pelas quais passou para poder desenvolvê-lo), o jeito de moleque, a curiosidade crescente pela cultura chinesa – seja qual for o motivo, os números e conquistas deste artista de 29 anos impressionam. A revista ‘Time’ o considerou uma das cem personalidades mais influentes do mundo; em 2008, seu recital na abertura das Olimpíadas foi visto por 5 bilhões de pessoas; sua biografia já foi traduzida para dez idiomas; é pianista exclusivo e recordista em vendas do selo Deutsche Grammophon; embaixador da Unicef, acaba de ser empossado como vice-presidente da Federação da Juventude Chinesa. “Nada mudou”, diz ele em entrevista ao ‘Estado’. “Sou a mesma pessoa, estudo todo dia. A diferença é que estou mais ocupado. Ainda assim, não me incomodo. Lido com tudo de uma maneira espontânea, tento ser uma boa pessoa com todos.”

Em maio, ele faz dois concorridos recitais na Sala São Paulo, dentro da temporada que marca o centenário da Sociedade de Cultura Artística. Vai tocar Bach, Chopin e Schubert, compositores que já gravou. O seu preferido, no entanto, é Liszt, tema de seu último disco, lançado no final do ano passado. Preferido, diz, talvez seja adjetivo forte demais. “Mas é fato que foram suas obras que me inspiraram a começar a tocar piano e elas têm me acompanhado desde a infância. Foi ele o responsável por pensar o recital como um tipo de performance. Era uma figura nobre, com muita personalidade. Sua música tem essa força e, ao mesmo tempo, uma beleza na harmonia que poucos compositores conseguiram igualar.” Foi o pai quem o introduziu na música clássica ocidental. Policial, abandonou o emprego para se dedicar exclusivamente a acompanhar o filho, com quem se mudou para Pequim enquanto a mãe permanecia em Shenyang, trabalhando para sustentá-los. Lang Lang não tomou os comprimidos, mas o episódio o afastou da música por um tempo. Mais tarde retomaria os estudos e, depois de se formar em Pequim, transferiu-se para os Estados Unidos, onde, com 13 anos, passou a estudar no Curtis Institute, na Filadélfia. Caiu nas graças dos professores e, mais tarde, de maestros como Daniel Barenboim e Valery Gergiev, que o ajudaram a dar os primeiros passos na carreira.

Em sua biografia, você fala abertamente de sua infância e da difícil relação com seu pai no que diz respeito a seu treinamento como pianista. De que maneira o que aconteceu influenciou no tipo de pianista que você se tornaria? Como foi a mudança para os Estados Unidos?
Há muitas maneiras de se criar um filho. Ser rígido não significa abrir mão do carinho, do calor paterno. Meu pai me ajudou e apoiou quando eu era uma criança, seja no que diz respeito à música, seja no dia a dia. Eu toco piano apenas porque gosto de tocar piano, amo a música, é daí que sempre tirei a motivação para estudar. É inútil forçar uma criança a estudar se ela não tem interesse em música. Quanto a chegar na América, foi algo importante, que me colocou em contato com a diferença. E o mais interessante foi ver como meu pai mudou também. Hoje, somos melhores amigos.
Você nasceu na China, um país que nos últimos anos passou a ter um novo protagonismo geopolítico, cultural e econômico – além de ser manchete frequente por questões como a censura e o cerceamento das liberdades individuais. Como analisa a maneira como o Ocidente vê seu país? Qual a sua percepção dos dilemas enfrentados pela China?
Meu contato com o Ocidente vem da minha infância, por meio da cultura, da música. Após um período de abertura, o povo chinês tem cada vez mais interesse na música clássica ocidental. Pessoalmente, sempre estive envolvido com as duas culturas, aprecio ambas. E espero poder fazer algo para construir uma ponte entre elas.

Não adianta insistir. Quando o assunto é política, Lang Lang fala de música. A resposta é sempre diplomática – o que já lhe rendeu críticas de parcela da imprensa europeia. Ele, porém, prefere defender com unhas e dentes o papel que arte pode desempenhar na criação de um diálogo entre diferentes culturas. Se de um lado atua com afinco na função de embaixador da Unicef, em parceria com a Fundação Lang Lang, acaba de criar em Shenzeng, na China, sua primeira escola de música, de onde acabara de voltar quando falou ao ‘Estado’, no final de semana, direto de sua casa em Londres. “Se você me pergunta onde me imagino daqui a dez, vinte anos, estou certo de que não estarei longe do piano. Mas tenho prestado mais atenção à educação musical. Cuidar da formação das novas gerações é fundamental, não há como falar em popularização da música clássica sem isso. Se uma pessoa cresce ouvindo música, ela fará parte de sua vida, será aceita de maneira natural. Não há outra solução. Em Shenzeng, quero mostrar às crianças que, se aceitarem a música clássica, entrarão em um universo de emoções, alegrias, que vai enriquecer suas vidas, seus espíritos.”

Tudo está ligado à necessidade de diálogo, diz Lang Lang, mesmo quando discorre sobre as escolas asiáticas de interpretação, historicamente mais preocupadas com a técnica. “Não podemos mais falar de escolas, pois isso subentende uma maneira única, comum a todos os países e culturas. Talvez isso tenha acontecido lá atrás, mas não mais. Pianista asiáticos estão buscando maior compreensão da música clássica. No meu caso, o que quero é unir a técnica e a musicalidade. Sem entender o que o compositor está dizendo, seu estilo, você não consegue ser responsável por passar sua mensagem.”