Recebi no começo da semana passada a notícia da morte do tenor brasileiro Alfredo Colósimo. Ele estava com 86 anos. Foi um dos grandes cantores líricos do país nos anos 50, 60 e 70. Além do grande repertório italiano, que interpretou em especial no Municipal do Rio, incluindo aí algumas turnês da companhia pela América Latina, participou de momentos históricos, como as estréias de “Izhat”, de Villa-Lobos, “O Contratador de Diamantes”, de Mignone, e “A Compadecida”, de José Siqueira. Dos anos 80 em diante reduziu bastante suas aparições no palco, apesar de continuar cantando até o ano passado em recitais com seus alunos, e passou a dedicar a maior parte de seu tempo ao ensino de canto (entre seus alunos está, por exemplo, o barítono Rodrigo Esteves). Estive com Colósimo no início do ano, no Rio, onde conversamos durante uma agradável tarde em seu apartamento no Flamengo. Com uma vista deslumbrante da Baía de Guanabara ao fundo, Colosimo falou longamente sobre sua trajetória, a dificuldade do início da carreira, a ida para a Europa, a volta ao Brasil, os colegas, o momento do Municipal carioca naquelas décadas lendárias. Bem-humorado, ele tinha carinho especial pelos colegas. Há alguns anos, sua família lhe preparou uma homenagem – uma caixa com três CDs com gravações históricas do Municipal: um para árias, outro para duetos e o terceiro para cenas de conjunto. É para nós uma das poucas fontes de áudio não apenas de Colósimo mas também de artistas como Clara Marise, Ida Miccolis, Gloria Queiroz, Santiago Guerra, Lourival Braga e Paulo Fortes (aqui você acessa todo o material). Para quem não conhece o trabalho dele, fica aqui um quarteto do Rigoletto do início dos anos 60, com a soprano Zilda Lourenço, o barítono Ricardo Villas e a mezzo Gesuína Pinheiro, gravado no Teatro Francisco Nunes, em Belo Horizonte. Não há homenagem melhor do que manter vivo o seu legado.
Há dez anos, no dia 13 de março, a soprano brasileira Bidu Sayão morria aos 96 anos, em Rockport, no Maine (EUA). Abaixo, a matéria que o ‘Caderno 2′ publica nesta sexta sobre Bidu. Deixo aqui também o link de um especial gravado para o portal, em que falo um pouco da carreira da soprano e comento algumas de suas principais gravações.
É bem possível que a referência tenha passado batida na maior parte do público brasileiro mas, em Milk – A Voz da Igualdade, o personagem de Sean Penn comenta a certa altura a experiência única de, na noite anterior, ter assistido em São Francisco a uma récita de Tosca ao lado de uma grande soprano. Seu nome? Balduína de Oliveira Sayão, ou simplesmente Bidu Sayão, grande estrela do canto lírico brasileiro, durante mais de uma década soprano principal do estelar Metropolitan Opera House de Nova York, que morreu há dez anos, em uma clínica do Maine, onde se recuperava de uma pneumonia. Para os fãs de ópera, claro, a citação soou como homenagem, exaltada em blogs e sites especializados. Um equívoco de tradução, no entanto, dá margem à interpretação de que Bidu havia sido a estrela daquela Tosca dos anos 70. Não foi – primeiro porque abandonou os palcos no fim dos anos 50 e, segundo, porque jamais cantou o papel, que exige voz pesada, dramática, oposto daquilo que fez dela ídolo em sua época e na imaginação de fãs de gerações seguintes. E lhe deu o apelido de “rouxinol do Brasil”. Bidu tinha um timbre leve, doce, encantador. Seus detratores, em especial no Brasil, diziam que sua voz era “pequena demais”. A reposta viria pela pena do crítico americano George Movshon. “Ninguém nunca teve problema para ouvi-la. Ela sabe projetar muito bem seu instrumento puro e de excepcional clareza.” Seus grandes papéis foram as jovens inocentes e apaixonadas, Gilda, Violetta, Manon, “camareirinhas infelizes, sofredoras, meninotas e frágeis”, como ela descreveria em uma entrevista dos anos 70. Mas a personalidade forte, fora dos palcos, não combinava, uma vez em cena, com o tipo de voz de Bidu. A dramática Tosca era um de seus sonhos. Mas sabia que não o realizaria. Ouça, no entanto, a malícia com que ela interpreta Susanna, nas Bodas de Fígaro, e vai ficar claro que de algum modo ela conseguiu redefinir os papéis que resolvia encarar. Sua relação com o Brasil foi conturbada. Após estrear em Nova York, esteve no Rio para um Pelleas e Melisande, de Debussy. Foi vaiada – e hoje se sabe que a desaprovação foi arquitetada pelos fãs da meio-soprano Gabriela Besanzoni Lage, estrela do Municipal da época. A ópera lembra às vezes as apaixonadas torcidas futebolísticas. Mas, enfim, essa é outra história. Fato é que, mesmo sem cantar muito por aqui, jamais deixou de se considerar uma “cantora brasileira”. Em 1938, recebeu a oferta do presidente Roosevelt, em plena Casa Branca, da cidadania americana. Recusou. Seus últimos anos foram marcados pela morte do segundo marido e por um incêndio, que destruiu sua casa (após reconstruída, foi assaltada). Homenageada pela Beija-Flor no carnaval de 1995, voltou pela última vez ao Brasil para o desfile.
(“Caderno 2″, 13/3/2009)
Passei as últimas duas semanas fazendo entrevistas com os grandes cantores de ópera brasileiros dos anos 50 e 60. Ida Miccolis, Aracy Bellas Campos, Assis Pacheco, Paulo Fortes, Maria Henriques, Gloria Queiroz, Diva Pieranti, Niza de Castro Tank, Neyde Thomas… Foi uma geração muito rica, composta por vozes de exceção, que não apenas garantiam a base da programação dos nossos teatros da época como ainda se apresentaram ao lado dos grandes nomes da ópera de então, como Beniamino Gigli, Giuseppe Di Stefano, Maria Callas, Renata Tebaldi, Jussi Bjöerling, que faziam temporadas no Brasil. Infelizmente, sobrou muito pouca documentação da atividade deles: os arquivos de rádio, com raras exceções, foram perdidos ou apagados; nos jornais, são poucos os registros, o que não condiz com a importância das temporadas de então. Sobraram apenas as histórias e as sensações de quem viveu aquilo de perto. De vez em quando, porém, algumas iniciativas isoladas abrem uma pequena janela em direção ao que foi aquele período. Foi o que fez a família do tenor Alfredo Colósimo, que reuniu em três CDs trechos apresentados no Municipal do Rio. Os discos, agora, estão disponíveis na internet, para download gratuito. Para acessá-los, basta clicar aqui. É interessante como, ao ouvir essas vozes – seja pelo estilo do canto, seja pelos chiados nas gravações –, nos transportamos imediatamente para outra época, outro mundo. Um mundo que poderia e deveria, por meio de iniciativas de resgate, estar mais próximo de nós.
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