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João Luiz Sampaio

Apesar do subtítulo Ressurreição, a Sinfonia n.º 2 de Gustav Mahler não deve ser compreendida como hino religioso. Para o compositor, compreender Deus como símbolo de eternidade – e a morte como apenas uma transição – está ligado diretamente ao sentido da vida terrena, à permanência da arte e ao diálogo do homem com a natureza.

Pela primeira vez o compositor emprega a voz em uma sinfonia; e trata os timbres de cada instrumento como parte integrante da estrutura da peça. Por isso mesmo, é fundamental o equilíbrio entre os naipes da orquestra na hora de recriar a dramaticidade da música que contrasta momentos de euforia, perda de energia e temor perante a ideia da morte.

No concerto de quinta, foi satisfatório, desde o primeiro movimento, o equilíbrio encontrado pela Petrobras Sinfônica sob o comando de Karabtchevsky. Em que pesem alguns problemas pontuais de afinação e dinâmica, em especial nas seções finais da obra, são bonitos os efeitos conseguidos nas cordas, durante o primeiro movimento, na construção de um clima etéreo; a ironia no terceiro movimento, que descreve a incoerência entre a moral religiosa e a força da natureza; a delicadeza quase contemplativa do Urlicht; ou a tensão crescente do movimento final.

A energia da interpretação de Karabtchevsky vem da percepção do caráter algo teatral na concepção de Mahler, na maneira como ele retrabalha os temas, fiel à ideia de que a composição se faz a partir de blocos que se reorganizam sugerindo novos significados musicais. Onde está Deus? Onde fica o homem entre a natureza, a vida e a morte? Em conflito com a ideia do fim, Mahler escreve em busca de respostas. Deixa como legado, porém, as perguntas certas.

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mahler

Demorou, mas aconteceu. Juro que resisti, mas agora entrei de cabeça na onda mahleriana provocada pelas duas efemérides ligadas ao compositor: em 2010, os 150 anos de nascimento; em 2011, o centenário de morte. Então, aviso: podem se preparar para uma avalanche de posts sobre a música de Mahler, que vai ganhar a patrir de agora categoria própria aqui no blog. Desde o fim de semana, estou ouvindo o disco novo de Christian Gerhaher, com uma seleção de canções de toda a carreira do compositor, da juventude até o fim da vida. “Frühlingsmorgen”, “Ablösung in Sommer” e “Phantasie” ainda estão ligadas à tradição schubertiana, mas já mostram, em algumas passagens, o que seria o Mahler da maturidade, como o dos “Rückert Lieder”. Aqui, nem a melancolia inata do compositor escapa da ironia própria de quem enxerga a humanidade com estranhamento – e fala de desapego ao mesmo tempo em que acredita na possibilidade de encontrar um lugar no caos do mundo. O acompanhamento é ao piano e a leitura de Gerhaher sugere um clima extremamente intimista – a interpretação surge de dentro, é delicada na articulação das palavras, na construção, e às vezes fragmentação, das linhas de canto. A voz lembra em muitos momentos a de Dietrich Fischer-Dieskau, na técnica, na claridade, mas a interpretação é bastante pessoal, assim como a escolha do repertório, que parece querer contar uma história. Ando ouvindo também uma Canção da Terra regida pelo Paul Kletzki com o tenor Set Svanholm e a mezzo Oralia Dominguez – que voz!!! Mas vou ter que deixar de lado um pouco – acabei de achar na internet uma gravação que eu procurava há um tempo já, com Jessye Norman, Jon Vicker e Colin Davis. Mas não consigo baixar o arquivo aqui, só no computador pessoal. Chega! Quero ir para casa ouvir Mahler!

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