Apesar do subtítulo Ressurreição, a Sinfonia n.º 2 de Gustav Mahler não deve ser compreendida como hino religioso. Para o compositor, compreender Deus como símbolo de eternidade – e a morte como apenas uma transição – está ligado diretamente ao sentido da vida terrena, à permanência da arte e ao diálogo do homem com a natureza.
Pela primeira vez o compositor emprega a voz em uma sinfonia; e trata os timbres de cada instrumento como parte integrante da estrutura da peça. Por isso mesmo, é fundamental o equilíbrio entre os naipes da orquestra na hora de recriar a dramaticidade da música que contrasta momentos de euforia, perda de energia e temor perante a ideia da morte.
No concerto de quinta, foi satisfatório, desde o primeiro movimento, o equilíbrio encontrado pela Petrobras Sinfônica sob o comando de Karabtchevsky. Em que pesem alguns problemas pontuais de afinação e dinâmica, em especial nas seções finais da obra, são bonitos os efeitos conseguidos nas cordas, durante o primeiro movimento, na construção de um clima etéreo; a ironia no terceiro movimento, que descreve a incoerência entre a moral religiosa e a força da natureza; a delicadeza quase contemplativa do Urlicht; ou a tensão crescente do movimento final.
A energia da interpretação de Karabtchevsky vem da percepção do caráter algo teatral na concepção de Mahler, na maneira como ele retrabalha os temas, fiel à ideia de que a composição se faz a partir de blocos que se reorganizam sugerindo novos significados musicais. Onde está Deus? Onde fica o homem entre a natureza, a vida e a morte? Em conflito com a ideia do fim, Mahler escreve em busca de respostas. Deixa como legado, porém, as perguntas certas.

Demorou, mas aconteceu. Juro que resisti, mas agora entrei de cabeça na onda mahleriana provocada pelas duas efemérides ligadas ao compositor: em 2010, os 150 anos de nascimento; em 2011, o centenário de morte. Então, aviso: podem se preparar para uma avalanche de posts sobre a música de Mahler, que vai ganhar a patrir de agora categoria própria aqui no blog. Desde o fim de semana, estou ouvindo o disco novo de Christian Gerhaher, com uma seleção de canções de toda a carreira do compositor, da juventude até o fim da vida. “Frühlingsmorgen”, “Ablösung in Sommer” e “Phantasie” ainda estão ligadas à tradição schubertiana, mas já mostram, em algumas passagens, o que seria o Mahler da maturidade, como o dos “Rückert Lieder”. Aqui, nem a melancolia inata do compositor escapa da ironia própria de quem enxerga a humanidade com estranhamento – e fala de desapego ao mesmo tempo em que acredita na possibilidade de encontrar um lugar no caos do mundo. O acompanhamento é ao piano e a leitura de Gerhaher sugere um clima extremamente intimista – a interpretação surge de dentro, é delicada na articulação das palavras, na construção, e às vezes fragmentação, das linhas de canto. A voz lembra em muitos momentos a de Dietrich Fischer-Dieskau, na técnica, na claridade, mas a interpretação é bastante pessoal, assim como a escolha do repertório, que parece querer contar uma história. Ando ouvindo também uma Canção da Terra regida pelo Paul Kletzki com o tenor Set Svanholm e a mezzo Oralia Dominguez – que voz!!! Mas vou ter que deixar de lado um pouco – acabei de achar na internet uma gravação que eu procurava há um tempo já, com Jessye Norman, Jon Vicker e Colin Davis. Mas não consigo baixar o arquivo aqui, só no computador pessoal. Chega! Quero ir para casa ouvir Mahler!
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