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João Luiz Sampaio

E não é que o ano começou agitado, com a divulgação ontem da nomeação de John Neschling como diretor artístico do Teatro Municipal de São Paulo? A notícia foi dada pelo colega Irineu Franco Perpetuo, na Folha de S. Paulo; à tarde, após a cerimônia de posse do prefeito Fernando Haddad, o secretário Juca Ferreira disse ao repórter João Fernando, aqui do “Caderno 2”, que não confirmava a nomeação. “Estou chegando, não tenho condições de confirmar nada. Nem tive a primeira reunião com o prefeito”, disse. Ainda assim, pessoas ligadas ao maestro, falando com a condição de anonimato, garantem sua nomeação: ele está na Europa e volta no começo da semana que vem a São Paulo, quando terá sua primeira reunião de trabalho com Ferreira e o prefeito. Em meio a tudo isso, escrevi um pequeno texto sobre os desafios do novo diretor. Para quem ainda tiver estômago nesse começo de ano, lá vai.

A escolha do maestro John Neschling para dirigir o Teatro Municipal carrega a expectativa de que, agora no universo da ópera, ele possa repetir a reestruturação realizada na Osesp, responsável pela redefinição da cena sinfônica brasileira. Ainda assim, os contextos que ele encontrou na orquestra, no final dos anos 90, e vai encarar agora no Municipal são diferentes.

Em 1997, a Osesp era uma orquestra maltratada por anos de falta de apoio e incentivo, acabara de perder um diretor carismático e respeitado, o maestro Eleazar de Carvalho, não tinha sede própria e nem mesmo todas as vagas preenchidas. O Teatro Municipal, por sua vez, vem de três sólidos projetos artísticos: Ira Levin reciclou o repertório da companhia; Jamil Maluf investiu em cantores brasileiros e em trabalhos de infraestrutura, com a construção da central técnica de produção e a reforma do palco e do prédio; e Abel Rocha, por sua vez, investiu em uma linha de vanguarda de encenação.

Neschling herda um teatro reformado, com um palco de tecnologia moderna e, mais do que isso, a Praça das Artes, enorme complexo cultural que vai abrigar salas de ensaio para os corpos estáveis do teatro, liberando o palco para espetáculos, além de biblioteca, salas de concertos (como a do antigo Conservatório Dramático Musical) e as escolas municipais de bailado e de música. Trata-se, em outras palavras, de um complexo que pode ganhar importância comparável no cenário cultural à Sala São Paulo. O que não quer dizer que não haja muito a ser feito do ponto de vista artístico – a Sinfônica Municipal, por exemplo, orquestra profissional do teatro, ainda apresenta desempenho irregular, longe do que se espera dela.

Mas o maestro recebe também uma outra herança, essa relativa à questão administrativa, que evoca os fantasmas que foram responsáveis pela interrupção precoce dos projetos artísticos de Levin e Maluf: a busca por um modelo profissional de gestão. Em 2012, foi aprovado o projeto que transforma o Teatro Municipal em uma fundação de direito público. Mas a fundação não foi instituída oficialmente: a Secretaria Municipal de Cultura não encontrou oficialmente uma organização social interessada em realizar sua gestão.

Com isso, o teatro vive hoje em uma espécie de limbo administrativo, sem que os artistas possam ser contratados por CLT, o que se resolveu, neste início de ano, com a assinatura de contratos provisórios de trabalho. Além disso, o ex-prefeito Gilberto Kassab nomeou, há três semanas, Bia Amaral, diretora do Municipal durante boa parte de sua gestão, como diretora geral da fundação, o que causou surpresa no meio musical paulistano. Esta nomeação será mantida? John Neschling trabalhará com ela? O formato de fundação será mantido? A contratação de John Neschling é um passo importante, e tem tudo para voltar a agitar a cena musical brasileira. Mas isso só poderá acontecer na medida em que forem encontradas respostas a essas perguntas.

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O ano novo começou cedo. Antes mesmo do Natal, nossos olhos e ouvidos já se voltavam ao que vem por aí. Justo, afinal não faltam motivos para expectativas. O que acontecerá no Teatro Municipal de São Paulo? John Neschling estará de volta à cena musical brasileira? E o Rio, vai acordar do pesadelo da temporada passada? Que consequência poderá ter a crise de relacionamento entre diretor artístico e músicos na Osesp?

O blog estará de olho em tudo isso. Mas, se é para pensar em uma mensagem de ano novo, por que não imaginar um mundo musical que, sem ignorar suas questões internas, olhe mais para fora, em direção ao público – e à contribuição que pode dar à vida em sociedade? A política é, claro, parte incontornável de um setor muito ligado ao poder estatal. Mas se resumir a ela é redutor. E, enquanto isso, perdemos a chance de assumir um desafio amplo e estimulante em época de transformações tão rápidas: como devolver à ópera e aos clássicos a relevância que, sabemos e acreditamos, eles podem ter no debate cultural?

Passado e futuro, de certa forma, existem apenas como projeções de um presente que busca, a todo instante, uma noção de identidade. Nesse sentido, não falta tradição – e muito menos novas possibilidades – para se pensar em um cenário musical mais rico, aberto e dinâmico.

A gente se fala em 2013!

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25.dezembro.2012 22:18:13

Transições

Estão cada vez mais fortes os rumores de que, com a chegada de Juca Ferreira à Secretaria Municipal de Cultura, o maestro John Neschling deve assumir o Teatro Municipal de São Paulo. Faz sentido – e não apenas porque, desde que saiu da Osesp, Neschling tem seu nome levantado sempre que uma vaga se abre no cenário musical brasileiro: basta lembrar que foi na gestão de Ferreira no Ministério da Cultura que o maestro criou, com apoio do governo federal, sua companhia de ópera. Seja como for, porém, e apesar do atual secretário Carlos Augusto Calil ter falado em entrevistas sobre ajudar na transição, a troca de guarda no Municipal não deve ocorrer de maneira tranquila.

Na quinta-feira, o Diário Oficial do Município trouxe informações sobre a nomeação da atual diretora do Teatro Municipal de São Paulo, Beatriz Franco do Amaral, como diretora geral da Fundação Teatro Municipal de São Paulo. É isso mesmo: a pouco mais de dez dias do fim da gestão, a prefeitura nomeia cargos na fundação e preserva Bia Amaral à frente do Municipal. Além disso, o fato é que pouco se sabe sobre ela. Desde que assumiu o teatro, ela se recusou a falar com a imprensa – todos os pedidos de entrevista eram imediatamente direcionados para o gabinete do secretário de Cultura. Ela também mostrou-se ausente em momentos-chave da história recente do Municipal, como o período em que os músicos pediram a saída do maestro Rodrigo de Carvalho, em 2009. Foi também sob sua guarda, é justo lembrar, que o Municipal voltou a produzir ópera regularmente após a reforma do prédio – ainda que isto tenha acontecido por meio de uma questionável decisão de terceirizar a produção da casa., o que aumentou consideravelmete os custos com relação a gestões anteriores.

Mas há, nessa nomeação, um aspecto mais amplo a ser questionado, que vai além das atribuições de Bia Amaral para o posto. O fato é que, criada há seis meses, a Fundação Teatro Municipal de São Paulo não foi institucionalizada, por falta de uma organização social disposta a se responsabilizar por sua gestão (leia mais detalhes sobre o tema em artigo de Irineu Franco Perpetuo para o site da revista Concerto). E isso significa que, a não ser que algo seja feito ao longo desta semana, artistas, professores e funcionários do teatro entram em 2013 sem contratos a médio e longo prazo, o que com certeza poderá ter consequências no início de um novo projeto artístico. Nesse contexto, a preservação de Bia Amaral à frente da gestão do Municipal é no mínimo curiosa.

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Considerações sobre o “Macbeth” de Bob Wilson e a história recente do Teatro Municipal

Assisti hoje à noite ao “Macbeth”, de Giuseppe Verdi, no Teatro Municipal de São Paulo e saí em estado de graça com a montagem do diretor norte-americano Bob Wilson. O virtuosismo cênico é impressionante – o trabalho formal, a atenção a detalhes, o cuidado milimétrico na direção de atores, a construção da narrativa feita a partir da luz. Sua concepção visual e cênica se afasta do que se espera de um Verdi “tradicional” – e é justamente ao fazer isso que devolve à plateia todo o poder teatral do compositor, nos revela uma vez mais, na construção das cenas, sua busca por reinventar o drama musical italiano. A música e o teatro que ela carrega são as personagens principais da montagem. E então é preciso reverenciar a qualidade dos cantores, em especial do Macbeth de Angelo Veccia e da Lady Macbeth de Anna Pirozzi – e, claro, da regência impecável do maestro Abel Rocha. João Marcos Coelho já escreveu sua crítica para o “Caderno 2” e outros comentaristas, como o diretor Cleber Papa, publicaram análises interessantes; da mesma forma, estou certo de que os colegas Irineu Franco Perpetuo e Leonardo Martinelli logo publicarão no site da revista Concerto suas sempre esclarecedoras análises. E, enquanto isso, eu me recolho à minha insignificância e falo um pouco sobre uma das questões que me vieram à mente ao longo do espetáculo, pensando neste “Macbeth” no contexto da história recente do Teatro Municipal.

Ao longo da última década, é possível identificar alguns blocos específicos no que diz respeito à programação do Teatro Municipal, que coincidem, é natural, com a troca de guarda na sua direção artística. A gestão do maestro norte-americano Ira Levin optou por sacudir o repertório da companhia, trazendo para São Paulo alguns títulos importantes, como “Jenufa”, de Janácek, “Salomé”, de Strauss ou o “Don Carlo”, de Verdi, mesma preocupação levada à temporada sinfônica. Jamil Maluf, em sua atuação como diretor, ampliou o número de produções encenadas anualmente, apostou na contratação de cantores brasileiros, esboçou uma temporada de repertório – e, para tanto, encarou o desafio de mexer em um vespeiro pouco charmoso e midiático mas fundamental: a infraestrutura do teatro, instaurando em definitivo uma verdadeira central técnica de produção e dando início à reforma do prédio e do palco. A Abel Rocha, por sua vez, coube devolver ao teatro uma rotina de produção depois de quase dois anos em que os corpos estáveis tiveram, por conta das obras, suas atividades drasticamente reduzidas – e o fez apostando em uma combinação de títulos célebres com outros menos conhecidos, utilizando os novos recursos técnicos conquistados e investindo em diretores, originários do mundo da ópera ou não, de olhares ousados – processo do qual o novo “Macbeth” de Bob Wilson é, obviamente, um importante e significativo ponto de chegada.

Nas frestas entre estas três gestões há um elemento em comum – dilemas administrativos e estruturais que, motivados por mudanças de guarda na prefeitura ou mesmo por rearranjos internos, levaram à interrupção de um projeto e à instituição de um novo. Nada contra a diversidade; o problema é que esses intervalos significaram, na maior parte da vezes, cancelamentos, indefinições, pausas na atividade dos corpos estáveis e, consequentemente, a períodos de estagnação artística. Quando um projeto entrava no eixo e parecia pronto a se estabelecer, era interrompido e substituído, resultando em um círculo cruel. O que se viu no Municipal nos últimos anos não foi a concretização de um projeto de longo prazo mas, sim, a sucessão de propostas interessantes que acabaram abortadas antes mesmo de se consolidarem e oferecerem frutos perenes para o teatro e a cidade.

O mesmo desafio se coloca nesse momento, quando uma gestão se encerra e uma nova equipe se prepara para assumir a prefeitura. O Municipal vive uma nova indefinição que, desta vez, não se limita à manutenção de um maestro ou de um projeto artístico. A atual gestão da Secretaria Municipal de Cultura conseguiu aprovar o projeto de criação da Fundação Teatro Municipal. Mas, por sua configuração legal, ela depende de uma organização social que se responsabilize por sua gestão e permita a instituição de uma nova realidade contratual e de trabalho para os artistas dos corpos estáveis e os convidados a participar da programação, além de centralizar o trabalho de produção, hoje feito por empresas convidadas. Seria prematuro pensarmos que já vivemos no melhor dos mundos: há arestas a serem aparadas, acertos a serem considerados. Mas o “Macbeth”, visto em conjunto com as demais montagens apresentadas ao longo dos últimos 18 meses, é testemunha de um momento importante na história do teatro – em especial se o compararmos com a situação vivida por seu irmão carioca, atolado em cancelamentos e em uma programação que beira a irrelevância (o tema tem sido assunto de reportagens e manifestações das mais variadas em blogs e nas redes sociais). Mas, se não forem resolvidos impasses administrativos, mais uma vez o que sobrará deste fim de gestão é um período de indefinição – a certeza de um potencial mais uma vez deixado de lado.

O Municipal, e seu público, merecem destino melhor.

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Álvaro Siviero publica hoje em seu blog aqui no Estadao.com notícias vindas da Paraíba. Músicos da sinfônica mandaram uma carta ao secretário de cultura Chico César, pedindo a saída do maestro Alex Klein do posto de regente titular. “Em Assembleia Geral realizada na noite do dia 24 de agosto de 2012, (…) músicos e servidores de apoio-artístico da Orquestra Sinfônica da Paraíba decidiram por unanimidade o afastamento do senhor Alex Klein da função de Regente Titular e da Direção Artística da OSPB. Por meio de abaixo-assinado e usando o exercício da democracia e em concordância com a legislação estadual”, diz o documento.

“Os músicos e servidores alegam imposição unilateral de perfil e gestão do maestro, que desconsidera sistematicamente a participação do Conselho Artístico da OSPB nas decisões e planejamento das atividades. (…)Eles questionam também que o maestro estabeleceu no primeiro semestre de 2012, uma programação artística arbitrária sem conhecimento prévio do conselho artístico, como também a não consideração das condições físicas, materiais, técnicas e principalmente orçamentárias da Orquestra, que acarretou a inexecução do cronograma da temporada, resultando nos cancelamento de concertos, sem devido aviso prévio, promovendo o constrangimento dos músicos e do público, que desinformado compareceu ao local onde estes seriam realizados. Os músicos e servidores contestam ainda a conduta ética do maestro em relação ao trato pessoal com os músicos, algum dos quais foram constrangidos públicamente em assembléias realizadas com a sua participação, bem como a ausência de um projeto coerente que atenda aos anseios dos músicos no que diz respeito à manutenção e revitalização deste conjunto sinfônico”, diz a carta.

Klein, em carta enviada a Siviero, responde os comentários dos músicos. “Não há muito o que revelar na verdade. Há muitas falsidades, sim, mas são um grito de desespero de um sistema falido, que findou. É certo que eu fui chamado para liderar uma “renovação” da orquestra, e que em outras partes do país tal palavra levanta medos diversos em músicos. Como eu mesmo sou músico orquestral experiente, eu não acredito em demissões em massa nem audições internas ou a eliminação de músicos devido à sua idade e ‘percepção’ de baixa produtividade. (…) Ao contrário do que foi mencionado, não houve ‘unanimidade’ na decisão dos músicos em excluir seu maestro que acaba de chegar há poucos meses (!). Houve sim coação, e diversos músicos e administradores vieram falar comigo ou me escreveram alegando que foram coagidos, pedindo-me desculpas, e explicando que devido aos muitos anos de interação com seus colegas eles se encontraram em situação constrangedora. Alguns foram ameaçados com assédio ou pior. Mas nada disso realmente tem valor, pois a OSPB não pertence aos músicos (…) Quem manda é o povo, o contribuinte da Paraíba, não os músicos ou o maestro.”

Ele, em seguida, nega uma a uma as acusações da orquestra. E conclui: “A OSPB abrirá concursos em breve, para dezenas de músicos. Sua temporada funcionará como qualquer outra orquestra no Brasil, com atividades regulares, concertos educativos, repertório emocionante e uma prioridade no povo da Paraíba, incluindo concertos regulares no interior do estado. Não está prevista nenhuma demissão ou reaudição de músicos efetivos, salvo, é claro, se houver justa causa. A atuação da OSPB está sendo revista de ponta a ponta, e a atual liberdade de expressão não será limitada ou regulada. Ela será, sim, estruturada de modo a servir os interesses do povo da Paraíba com uma orquestra onde as reuniões são feitas de maneira educada, sem truculência ou ameaças físicas nem porte de armas (!!), e estão previstas três Comissões de Músicos, com voto direto e secreto por parte de todos os músicos da orquestra, sem coação, pressão ou ameaças. Nosso país é democrático, e estes princípios valem de cima a abaixo de nossa sociedade. A Comissão de Músicos em si representará os assuntos relativos às condições de trabalho gerais, a Comissão Artística tratará de assuntos relativos a repertório e funcionalidade da orquestra, e tenho o desejo de criar também uma Comissão de Viagens, para melhor estruturar as diversas incursões do grupo para o interior do estado.”

A íntegra do texto de Klein você lê também no blog de Álvaro Siviero.

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Não chega a ser novidade que a relação entre músicos e maestros nem sempre é das mais tranquilas – ainda mais em momentos de reestruturação. Casos recentes, aqui mesmo no Brasil, são prova disso: o caso Osesp, no final dos anos 90, e, no ano passado, todo o imbróglio envolvendo a OSB e o maestro Roberto Minczuk. O próprio Klein deixou a direção do Teatro Municipal de São Paulo, em 2010, pouco depois de assumir o posto – e vale lembrar que sua chegada se deu após os músicos da Sinfônica Municipal pedirem a substituição do regente titular Rodrigo de Carvalho. Cada caso tem sua especificidade, mas me parece que há sempre uma questão de fundo comum: todo um universo rançoso de relações e jogos de poder – dos dois lados – que fragmenta qualquer iniciativa e debilita as condições de trabalho. É certo que esta é uma questão histórica, que não se transforma de uma hora para outra – e nesse processo, traumas como esses todos vão mesmo acontecer. Agora, enquanto não se pensar na atividade sinfônica como um todo orgânico, que deve ser fruto do diálogo em torno de um projeto comum (seja ele qual for), não vamos chegar a lugar algum…

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Embarco daqui a pouco de volta para o Brasil, depois de dez dias de imersão na vida musical londrina. Há muito a contar – e alguns projetos que pude conhecer serão temas de matérias para o jornal. Boa parte da minha viagem foi dedicada a conhecer projetos educacionais – além do trabalho realizado pelo Proms, fiquei particularmente impressionado com a estrutura criada pela Sinfônica de Londres, da mesma forma que a visita ao Sage Gateshead, no norte da Inglaterra, me fez repensar muito algumas convicções sobre a relação das pessoas com a música. O prédio, construído às margens do rio Tyne e assinado por Norman Foster, é grandioso – mas ali dentro o ambiente humano se constroi por meio de relações delicadas, especiais na maneira como utilizam a música como ferramenta. Foram conversas interessantes, em especial porque eles acabam de ser selecionados para um projeto – uma versão britânica do Sistema venezuelano – e então foi possível ver de perto os desafios que eles estão se colocando, em uma realidade bastante distinta da que temos na América Latina, o que não exclui alguns pontos de contato. Mas, claro, ao longo dos últimos dias também estive em alguns concertos muito interessantes. No Proms, acompanhei um audacioso programa de duas horas de música de John Cage, com Ilan Volcov e Sinfônica da BBC. E pude ouvir tanto a Filarmônica quanto a Sinfônica de Londres. A primeira fez um programa Mahler/Tchaikovsky com Vladimir Jurowski – mas quem me impressionou mesmo foi a mezzo Alice Coote, um timbre escuro, expressivo, um cuidado ímpar com as palavras nos “Lieder eine Fahrender Gesellen”. Agora, em temos de sonoridade, de equilíbrio, a London Symphony é um espetáculo à parte. Vi eles fazendo a “Cinderela”, de Prokofiev – com Valery Gergiev regendo. Um dia antes, por puro acaso, consegui assistir um pouco do ensaio deles, na Igreja de St. Luke, transformada em quartel general do grupo. Mas, enfim, hora de voltar. Soube agora, via Norman Lebrecht, que os instrumentos da Osesp estão presos na alfândega por conta da greve da Polícia Federal… Que a volta me seja mais leve…

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Daqui a pouco vou à Sala São Paulo ver Nelson Freire como solista da Osesp no “Momoprecoce”, de Villa-Lobos. Já escrevi isso quando a orquestra anunciou a temporada, no final do ano passado, mas repito – acho positivo que Marin Alsop, que rege os concertos desta semana, tenha de fato se dedicado a reger obras importantes da tradição musical brasileira e não apenas pequenas vinhetas e aberturas aqui e ali. Vamos ver como ela se sai. E, claro, ouvir Nelson. No começo do ano, ele comentou que quis mudar o foco de suas apresentações, deixar um pouco de lado os pilares do concerto romântico. Daí a interpretação do “Momoprecoce” (com o qual ele, aliás, participa da mini-turnê da Osesp em agosto), assim como as “Noites no Jardim de Espanha”, de De Falla, que tocou no fim de semana com a Filarmônica de Minas Gerais. Nelson gravou em fevereiro um disco solo dedicado à música brasileira, que deve ser lançado ainda este ano. Estou curiosíssimo, em especial depois de ouvi-lo há duas semanas fazendo uma das leituras mais comoventes que já ouvi do “Prelúdio” das “Bachianas Brasileira nº 4”, de Villa-Lobos, em São João del Rei. Tudo bem, era uma noite especial, concerto no mesmo palco em que ele se apresentara pela primeira vez, aos 5 anos, seis décadas atrás, com emoção carregada ao piano e na plateia – e talvez por isso a memória já esteja traindo a realidade. Mas, se for mesmo esse o caso, há algum problema? Enfim, Freire toca hoje, amanhã e sábado na Sala São Paulo e, domingo de manhã, repete o programa ao ar livre, na parte externa do Auditória Ibirapuera. E, nos dias 21 e 22, toca o “Concerto nº 20” de Mozart com a Orquestra de Bolsistas do Festival de Campos do Jordão, primeiro em Campos e, no dia seguinte, na Sala São Paulo. São seis vezes Nelson Freire. Nada mal, não?

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10.julho.2012 10:56:58

No chuveiro

Na semana passada, assisti ao novo filme de Woody Allen, “Para Roma com Amor”. Todos com quem converso me dizem que ele é inferior a Meia-Noite em Paris, mas confesso que acho justamente o contrário. Roma é uma enorme sacanagem do diretor com tudo e todos – os italianos, os artistas de vanguarda, a mídia e, principalmente, a si próprio. E o tom caótico e absurdo da narrativa, em que o tempo flutua a todo instante entre épocas, é a cara de Roma. Mas, enfim, vamos deixar as avaliações aos críticos de cinema – aqui você pode ler os comentário dos colegas Luiz Zanin Oricchio e Luiz Carlos Merten. Para nós que gostamos de ópera, no entanto, uma tração à parte é o tenor Fabio Armiliato, no papel do agente funerário que só consegue cantar ópera no chuveiro. Seu sonho é cantar Pagliacci. E a maneira como Allen faz o sonho se realizar é impagável. No trailer, um gostinho do que se trata. Vale a pena.

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Foto de Daniel Teixeira/AE

São cerca de quarenta gravações, trinta milhões de CDs e DVDs vendidos e turnês que já o levaram, com sua orquestra, a cerca de 30 países. Os números em torno do violinista holandês André Rieu são hiperbólicos. Ele faz hoje o primeiro dos 24 shows programados para o Ginásio do Ibirapuera. Chega ao País com sua mistura de sucesso: valsas vienenses, trilhas de filmes e trechos de obras famosas, entoadas por sua orquestra e por um time de cantores, todos comandados por ele e seu Stradivarius de 1764. No domingo, para divulgar a turnê, foi ao programa do Faustão. E tocou “Ai Se Eu Te Pego”, hit de Michel Teló. Pelos números e pela descontração com que lida com o repertório, é vendido como o “popstar da música clássica”. E, na lógica de seus fãs mais ardorosos, isso faz dele um símbolo do processo de popularização do gênero.

Tal raciocínio tem sido repetido à exaustão desde que foi anunciada a vinda de Rieu ao Brasil. Mas alguém poderia me explicar para que serve um “popstar da música clássica”? Ele forma público? Tenho minhas dúvidas. Primeiro, porque os ingressos para ver André Rieu são mais caros do que qualquer concerto ou ópera realizado na cidade – podem chegar a R$ 600. Depois, a experiência mostra que esse tipo de espetáculo cria público apenas para si próprio. É um excelente negócio: agrada porque assume a suposta e preconceituosa aura de sofisticação acoplada ao universo clássico e, ao mesmo tempo, capitaliza a “vanguarda” de apresentá-lo em uma roupagem “espontânea, menos engessada”, fazendo jus à criação dos grandes compositores.

É indiscutível que o universo clássico carece de uma maior percepção da importância de saber se vender em um mercado cultural competitivo. Orquestras e teatros de ópera precisam se abrir para as inovações tecnológicas, para novos mecanismos de contato com o público. O desafio é quebrar a barreira invisível que se colocou entre eles e as plateias e mostrar que na obra dos grandes compositores há elementos que possibilitam um diálogo estimulante com as questões do nosso tempo. Não é uma conquista fácil, e envolve diversas questões; mas daí a acreditar que os arranjos primários e a execução musical sofrível da trupe de Rieu são a solução há uma distância que apenas um jogo eficiente de marketing consegue encurtar.

E, convenhamos, deixando de lado, por um instante que seja, os negócios, o que o tal “mundo clássico” ganha com uma versão orquestral de “Ai Se Eu Te Pego”? E, a propósito, o que ela agrega ao sucesso de Teló? Absolutamente nada. É entretenimento, puro e simples. Não há nada de mal com isso – mas nos poupem da demagogia de pessoas que jamais se deram ao trabalho de ouvir uma só sinfonia de Beethoven e se apressam em afirmar que Rieu é a salvação para o mundo clássico.

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12.março.2012 16:46:48

Diálogo

Diálogo ouvido pela coluna de Mônica Bergamo, da “Folha de S. Paulo”, durante a estreia da temporada da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), na última quinta, na Sala São Paulo:

Carlos Augusto Calil, secretário municipal de cultura de São Paulo:
- Só um governo tucano tem um espetáculo desses.
Ana de Hollanda, ministra da cultura:
- Mas tem recurso federal.
Alberto Goldman, ex-governador de São Paulo:
- Querida, é lei de incentivo fiscal, não é recurso direto.
Andrea Matarazzo, secretário estadual de cultura:
- A orquestra é tucana!
Ministra:
- A orquestra é linda e não tem partido.

Não é de morrer de orgulho das cabeças pensantes da nossa cultura?

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