Assisti hoje pela manhã um concerto de uma orquestra tradicional coreana. Pense em uma orquestra sinfônica, mas substitua os instrumentos ocidentais por coreanos – o haegum, espécie de violino vertical com duas cordas; o geomungo, o equivalente ao contrabaixo; o gayageum, espécie de violoncelo, e por aí vai. Na tradução (ou falta dela), perdi o nome das peças coreanas, mas fiquei impressionado com a sonoridade melancólica, que evoca uma tristeza suave de cortar o coração em alguns momentos, parecendo nos transportar para uma paisagem bucólica, um pequeno riacho em meio às montanhas. Ok, já estou viajando, mas me dêem um desconto pelas horas sem dormir….Mas curioso mesmo, enfim, foi ouvi-los tocar Mozart e Shostakovich em transcrições muito bonitas. Depois do concerto, os músicos da Sinfônica de Brasília subiram ao palco, onde foram apresentados aos instrumentos e, claro, arriscaram algumas notas. Teve de “Asa Branca” a Michael Collina, compositor que eles apresentam hoje à noite no primeiro concerto da turnê. Um detalhe curioso: o maestro do grupo estará hoje à noite no Teatro Nacional – sobre o qual falo mais tarde, um espaço incrível – para assistir ao concerto; mais: foi pautado por um jornal local para fazer a crítica da apresentação. Agora, vou para o ensaio.

Há alguns anos, o maestro John Eliot Gardiner rompeu relações com o todo poderoso selo Deutsche Gramophon. A gravadora havia prometido a ele bancar um projeto longamente acalentado – registrar todas as cantas de Bach nas igrejas em que elas haviam sido estreadas. Lá pela metade da série, a Universal, que comprou a DG, deu para trás. Pois Gardiner não se fez de rogado – criou um selo próprio, o Soli Deo Gloria, e terminou a série, disponibilizada tanto nas lojas como, a preços super acessíveis, na internet. Pouco depois, o maestro resolveu experimentar. Em 2005, fez em Londres uma série de concertos dedicados a Mozart, nos quais, após a apresentação, o público podia adquirir a gravação do que acabara de ouvir. E o Soli Deo Gloria acabou se tornando veículo de novos projetos.
O primeiro deles é uma integral das sinfonias de Brahms, mais o Requiem Alemão. O conceito é original – ao lado das sinfonias, que serão lançadas em cinco CDs, ele colocou obras corais menos conhecidas do próprio compositor e de outros autores com quem aprendeu ou conviveu, como Mendelssohn ou Schubert. A ideia nos leva ao encontro não apenas da música de Brahms mas do contexto em que viveu, o que por si só já ofereceria um novo olhar sobre as peças, compreendendo melhor, segundo o maestro, a formação do estilo brahmsiano. Mas Gardiner foi além – nos dois primeiros discos da série, com as duas primeiras sinfonias, dá amostras de um Brahms que tem tudo para ser referência. Ele comanda a Orchestre Révolutionnaire et Romantique, que utiliza técnicas e instrumentos de época, sem vibratos exagerados e uma preocupação estilística muito coerente. O destaque, no entanto, é a interpretação de Gardiner – a maneira como ele constrói os fraseados, suas escolhas de tempo, tudo dá à primeira sinfonia, por exemplo, uma urgência muito grande. O mesmo vale para momentos como o movimento final da segunda sinfonia, em que ele substitui o tom grandioso da coda final por uma busca tensa por resolução musical. É um clichê danado, eu sei, mas Gardiner me fez ouvir Brahms com outros ouvidos – de alguma forma, ele volta ao passado para nos oferecer um Brahms novo, moderno, que soa parecido com nossa época, repleto de vigor, drama, paixão.
“Fala-se muito no crescimento das vendas de música digital; porém, o que parece estar em questão, aqui, é menos o CD como suporte físico do que sua condição de protagonista e sujeito único da difusão de música no planeta. É nesse sentido que nos soa legítimo falar na morte do CD. Porque talvez não estejamos simplesmente diante de mais um período de substituição de formatos, em que o CD, depois de tomar a primazia do vinil, estaria cedendo seu lugar ao, digamos, MP3. O cenário atual parece consideravelmente mais complexo, colocando em xeque o próprio paradigma de circulação global de bens culturais.”
O trecho acima foi retirado da introdução de Irineu Franco Perpetuo para “O Futuro da Música Depois da Morte do CD”, que ele organizou ao lado de Sergio Amadeu da Silveira. É um livro primoroso. Parte do princípio que a morte do CD nos leva além da discussão de formatos, redefine toda a distribuição – e, mais do que isso, a própria dinâmica da criação musical. O pianista Eduardo Monteiro, por exemplo, fala do impacto das novas tecnologias sobre o estudo do piano – e o tipo de pianista que começa a ser formado. A relação estreita entre criação musical e avanço tecnológico é tema do compositor Harry Crowl, que em seu texto faz um panorama histórico dessa relação, tocando, inclusive, na questão dos direitos do autor na era da internet. E por aí vai, com textos do próprio Sergio Amadeu, de André Mehmari, Penna Schmidt, Ricardo Bernardes, Chico Pinheiro e por aí vai. Em resumo: é um livro que pega um tema bastante atual e o aborda fugindo do óbvio, com texto de gente que vive a música e analisa os impactos da tecnologia no dia a dia, capazes de demonstrar experiências próprias e ir mais além em suas discussões. Detalhe importante: o livro está disponível gratuitamente na internet, no site www.futurodamusica.com.br.
Este blog, e seu autor, ficam de folga alguns dias. Mas voltam na segunda-feira, já com pauta cheia: acaba de sair a programação do Festival de Campos do Jordão, dedicado este ano à França e a Villa-Lobos. Na volta, falamos sobre isso. Abraço a todos.
A temporada de clássicos, depois de quase três meses de silêncio, vai enfim recomeçar. A primeira semana tem como destaque a estréia de Yan Pascal Tortelier como regente titular da Osesp – mas não é a única opção.

Dias 5, 6 e 7 (Sala São Paulo)
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Variações Enigma, de Elgar
Sinfonia nº 2, de Rachamaninoff
Yan Pascal Tortelier, regente

Dias 6 (Anfiteatro Camargo Guarnieri) e 10 (Sala São Paulo)
Orquestra Sinfônica da USP
Festival Mendelssohn:
Sonhos de Uma Noite de Verão
Concerto para Violino e Orquestra
Ronaldo Bologna, regente
Elisa Fukuda, violino

Dia 8 (Sala Olido)
Orquestra Sinfônica Municipal
Sinfonia nº 22, de Haydn
Concerto para Trompete, de Haydn
Sinfonia nº 1, de Beethoven
Martin Tuksa, regente
Fernando Guimarães, trompete

Dia 11 (Sala São Paulo)
Orquestra Bachiana Filarmônica
Sinfonia nº 3, de Beethoven
Concerto para Piano e Orquestra nº 2, de Rachmaninoff
João Carlos Martins, regente e solista
Passei as últimas duas semanas fazendo entrevistas com os grandes cantores de ópera brasileiros dos anos 50 e 60. Ida Miccolis, Aracy Bellas Campos, Assis Pacheco, Paulo Fortes, Maria Henriques, Gloria Queiroz, Diva Pieranti, Niza de Castro Tank, Neyde Thomas… Foi uma geração muito rica, composta por vozes de exceção, que não apenas garantiam a base da programação dos nossos teatros da época como ainda se apresentaram ao lado dos grandes nomes da ópera de então, como Beniamino Gigli, Giuseppe Di Stefano, Maria Callas, Renata Tebaldi, Jussi Bjöerling, que faziam temporadas no Brasil. Infelizmente, sobrou muito pouca documentação da atividade deles: os arquivos de rádio, com raras exceções, foram perdidos ou apagados; nos jornais, são poucos os registros, o que não condiz com a importância das temporadas de então. Sobraram apenas as histórias e as sensações de quem viveu aquilo de perto. De vez em quando, porém, algumas iniciativas isoladas abrem uma pequena janela em direção ao que foi aquele período. Foi o que fez a família do tenor Alfredo Colósimo, que reuniu em três CDs trechos apresentados no Municipal do Rio. Os discos, agora, estão disponíveis na internet, para download gratuito. Para acessá-los, basta clicar aqui. É interessante como, ao ouvir essas vozes – seja pelo estilo do canto, seja pelos chiados nas gravações –, nos transportamos imediatamente para outra época, outro mundo. Um mundo que poderia e deveria, por meio de iniciativas de resgate, estar mais próximo de nós.
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