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João Luiz Sampaio

NOVA YORK – Credenciais não faltam ao compositor americano Rufus Wainwright. Pisou no palco pela primeira vez aos 13 anos e, desde então, tornou-se um dos mais célebres gênios precoces da música pop; aos 39, já acrescentou no currículo letras e músicas para sucessos do cinema tão distintos como Moulin Rouge, O Segredo de Brokeback Mountain e Shrek. Para Elton John, ele é “o maior autor de canções do planeta”. Em sua biografia conturbada, marcada por um estupro na adolescência, a homossexualidade assumida aos 14 anos, pela luta contra as drogas ou ainda o bebê que teve com a filha de Leonard Cohen, cabe também uma paixão “desmedida” pela ópera e as canções de autores como Schubert, que o teriam inspirado no processo de composição da ópera Prima Donna, sua nova obra, que teve badalada estreia americana no domingo, no teatro da Brooklyn Academy of Music, em Nova York. Originalmente, Prima Donna deveria ter estreado em 2009, na Metropolitan Opera House, principal casa de óperas dos Estados Unidos e uma das mais importantes do mundo. No entanto, Wainwright se recusou a escrever o texto em inglês, preferindo o francês, e não aceitou que sua ópera não fosse a escolhida para abrir a temporada. O contrato foi desfeito, Prima Donna estreou em 2011 na Inglaterra e chegou agora aos Estados Unidos, trazendo na bagagem um punhado de elogiosas críticas e prêmios, concedidos pelos europeus. O libreto, escrito pelo próprio compositor, em parceria com a dramaturga Bernadette Colomine, narra a história de uma soprano veterana que, anos depois de perder a voz durante uma apresentação, resolve voltar à ativa. Conhece um jovem jornalista, tenor amador, que a inspira e a faz se apaixonar novamente por sua arte e pela vida, apenas para descobrir horas depois que tudo não passou de um sonho – e que o recolhimento é seu único destino. O ponto de partida – a figura do artista em decadência – está longe de ser original e a história relembra muito a narrada por Franco Zeffirelli no filme Callas Forever, ficção na qual a diva resolve voltar aos palcos, apaixona-se por um jovem tenor e, logo em seguida, percebe que não há como recuperar a juventude perdida. Ainda assim, um bom texto poderia trazer novas nuances ao conflito entre juventude e decadência, o que não acontece com o libreto repleto de clichês de Wainwright e Colomine. É justo reconhecer que a história da ópera está repleta de obras de enredo problemático, com textos nem sempre inspirados, que beiram os limites do possível – ainda que se espere de um autor do início do século 21 um cuidado maior com a linguagem teatral. No entanto, o que em muitas óperas do século 19 salva e redimensiona um texto fraco, aqui não comparece – a música. A linguagem neotonal de Wainwright se constrói a partir de uma melodia que reaparece ao longo de toda a partitura, sem que ele a retrabalhe à medida que a história se desenrola. De longe, sua música evoca, assim como a de muitos outros autores contemporâneos que têm se dedicado à ópera, o italiano Giacomo Puccini – mas sem a ousadia harmônica de obras como Madama Butterfly ou Turandot. Em termos estruturais, Prima Donna mostra que Wainwright conhece a linguagem operística, a articulação de árias, duetos, cenas de conjunto, em eficiente encadeamento narrativo. O problema, no final das contas, é que ele parece não ter muito a narrar.

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Uma nova montagem da “Tosca”, de Puccini, deu a largada, na noite de terça-feira, para o 10.º Festival de Ópera do Theatro da Paz – e, de quebra, marcou também a sua reabertura, após oito meses de uma reforma de emergência. Inaugurado em 1878, o prédio é um dos principais símbolos da arquitetura amazônica do período do auge do comércio da borracha – e, restaurado há pouco menos de uma década, precisou ser fechado no começo deste ano por conta de uma infestação de cupins. “Tosca” subiu ao palco da capital paraense pela última vez em 1905, também após uma reforma no teatro. No discurso oficial, um paralelo foi estabelecido e falava-se, assim, de mais um recomeço. A comparação tem ecos políticos. Com a volta do governador Simão Jatene ao comando político do Estado após quatro anos, a equipe que criou o festival do Theatro da Paz – entre eles o secretário de Cultura Paulo Chaves e o diretor do teatro, Gilberto Chaves – está de volta ao comando do evento. A escolha de “Tosca” como título de abertura está em consonância com a trajetória que o festival trilhou desde seu início. A comparação com o Festival Amazonas, realizado desde 1997, é inevitável, uma vez que os dois eventos marcaram, na última década, a descentralização da produção de ópera no País. Em Manaus, a escolha de repertório busca espaço para obras pouco ou nunca produzidas no Brasil, como a tetralogia “O Anel do Nibelungo”, de Wagner, ou a “Lady Macbeth”, de Shostakovich – para o ano que vem, já se fala em “Lulu”, de Alban Berg. Já em Belém, a aposta, em geral, é em títulos consagrados do repertório, com o objetivo de resgatar a ligação da cidade e seu público com a ópera. Nos dois casos, porém, há uma preocupação comum de fazer dos festivais manifestações locais, com uma participação maior de profissionais da região, que trabalham lado a lado com produtores e artistas vindos de outros lugares do País, em especial Rio de Janeiro e São Paulo. Nesta décima edição do Festival do Theatro da Paz, por exemplo, 90% dos profissionais envolvidos são do Pará, cuja tradição musical tem como principal expoente o conservatório centenário, criado por Carlos Gomes em 1896. Musicalmente, a “Tosca” surpreendeu pelo desempenho, um dos melhores de sua história, da Sinfônica do Theatro da Paz, reforçada por músicos convidados, da qual o maestro Carlos Moreno, diretor da Sinfônica de Santo André, soube tirar, em especial nos dois primeiros atos, coloridos ricos e expressivos. Tanto o tenor Eric Herrero, como Cavaradossi, quanto a soprano Silviane Bellato, como Tosca, passam por um momento de transição vocal em direção a papéis mais pesados mas, muito musicais, crescem ao longo do espetáculo e criam interpretações convincentes de seus personagens – entre os principais momentos da récita da noite de terça-feira estiveram a ária “Vissi D’Arte” e o dueto do terceiro ato. Como Scarpia, o barítono Rodrigo Esteves trabalha bem as possibilidades de seu timbre claro e foi a principal presença em cena, ao lado do Sacristão do baixo barítono Saulo Javan. A montagem do diretor Mauro Wrona é bem realizada em sua proposta tradicional, que recria os ambientes originais da história, na Roma do século 19, com cenários realistas que criam boa moldura para a ação. Profissional experiente, Wrona trabalha de modo eficiente a caracterização das personagens e a movimentação cênica, em especial em momentos mais complicados, como a entrada do coro no fim do primeiro ato, resultando em um todo orgânico e de narrativa fluente.

Uma atualização
Já está no ar a edição do “Papo de Música” que Irineu Franco Perpetuo, Leonardo Martinelli, Nelson Kunze e eu gravamos em Belém. No site da Concerto.

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BELO HORIZONTE – Ao adaptar as Cenas da Vida Boêmia, de Henry Merger, visão romântica da juventude parisiense no século 19, o compositor Giacomo Puccini eliminou o caráter fragmentado da ação, transformou a história do poeta Rodolfo e da florista Mimi em fio condutor e fez da paixão o principal personagem da ópera. Do toque acidental das mãos no primeiro ato, quando os amantes se conhecem, às inseguranças pessoais que levam à separação do casal, é o amor e sua impossibilidade que dão o tom, ilustrados por uma escrita que, além da beleza melódica e da riqueza na orquestração, é teatro puro. La Bohème subiu ao palco do Palácio das Artes de Belo Horizonte, no final de semana, em uma montagem problemática, que deixa em segundo plano a delicadeza e a intensidade da criação de Puccini. Presa entre a sugestão e um naturalismo pueril, a produção de Luiz Aguiar e Henrique Passini não empolga, apesar de algumas ideias interessantes – como a luz do sol que invade a paisagem de inverno no primeiro ato, durante a ária de Mimi. A montagem falha ao lidar com alguns desafios que a Bohème coloca a qualquer encenador. No segundo ato, por exemplo, a cena em praça pública leva a um amontoado de elementos que não dialogam entre si, com figurinos sem coerência e um trabalho de luz superficial, levando a um caos cênico no qual é difícil até mesmo identificar os protagonistas. O trabalho de atores também deixa a desejar, com caracterização superficial de personagens como Musetta, uma mulher fácil e leviana na leitura dos diretores, sem prestar atenção ao fato de que, ao retratar sua relação conturbada e apaixonada com o pintor Marcello, Puccini está criando na verdade um contraponto à tragédia que, desde o primeiro momento, marca a relação de Mimi com Rodolfo. Porém, o equívoco mais grave da montagem, em um teatro grande e de acústica complicada como o Palácio das Artes, é a aposta em cenários que deixam o fundo do palco aberto, dificultando a projeção dos cantores e tornando difícil avaliar, por exemplo, o desempenho de solistas como o barítono paulista Pedro Ometto, cenicamente convincente como Schaunard, ou do baixo uruguaio Ariel Cazes, no papel de Colline. A decisão também ajudou a tornar problemática a atuação do tenor carioca Marcos Paulo como Rodolfo. A dificuldade de projeção o faz forçar a voz, levando a efeitos desagradáveis, principalmente nas regiões mais agudas da voz, e a um desempenho apagado, sem os matizes que reforçariam o drama do personagem. Como Musetta, a soprano mineira Fabíola Protzner demonstrou um timbre belo e farto, mas sua atuação ganharia com maior refinamento na interpretação. Vocalmente, os destaques positivos foram o barítono brasiliense Leonardo Neiva, como Marcello, e a soprano venezuelana Mariana Ortiz, como Mimi. Desde a ária do primeiro ato, ela ofereceu uma leitura contrastada e musical, preocupada com a beleza das linhas de canto, que constrói de modo bastante hábil. Não por acaso, o melhor momento da récita da noite de sábado tenha sido justamente o dueto entre os dois no terceiro ato, de carga dramática forte, o que levou inclusive ao melhor desempenho da Filarmônica de Minas Gerais, sob a regência do maestro Roberto Tibiriçá. Em geral, porém, a atuação dos músicos foi apenas correta, em uma leitura que sente falta, em momentos cruciais da ação, de tônus dramático. Impagável foi a atuação do veterano barítono Rio Novello como Benoit e Alcindoro. Ao convidá-lo, o maestro Tibiriçá prestou verdadeira homenagem não apenas a um grande cantor mas também a toda uma geração de solistas que ajudaram a fazer a história da ópera brasileira.

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Quantos países cabem em um só território? E quantas formas eles podem assumir na imaginação de um artista? As perguntas não saíam da mente quando, em maio deste ano, um grupo de artistas plásticos brasileiros partiu para a Itália com o objetivo de, após visitar diversas regiões, criar obras inspiradas no país e sua diversidade. Acompanhei quatro deles. Ao lado de Antonio Peticov, Claudio Tozzi, Zélio Alves Pinto e Caciporé Torres percorremos, ao longo de dez dias, cerca de três mil quilômetros e dez regiões do país, passando por Courmayer, Turim, Santa Margherita Ligure, Portofino, Castellina in Chianti, Siena, Orvieto, Roma, Cagliari, Caserta, Napoli e Catânia. Abaixo, fugindo um pouco do tema do blog, algumas impressões da jornada, publicadas no suplemento “Viagem”, do Estadão, na terça-feira, com a edição cuidadosa de Adriana Moreira.

Homem e natureza
Na Calábria, a civilização parece um desafio ao destino de devastação sugerido pela natureza. As cidades se equilibram à beira de um precipício; as ruas seguem o fluxo vertiginoso de subidas e descidas da montanha; as casas fincam raízes na assimetria do terreno. Chegar a Tropea é se sentir espremido entre o mar e a terra, na iminência da queda – e então você se dá conta de que os séculos das construções sugerem uma permanência capaz de acalmar o espírito. O início da ocupação do território data do século 7 a. C. Hoje, a cidade tem pouco mais de seis mil habitantes e sobrevive em boa parte dos turistas atraídos por suas praias. A pimenta é grande honraria da terra, mas não a única, com a cebola vermelha correndo por fora. Não é preciso, porém, tomar partido – a combinação das duas em geleias, patês e pratos típicos, afinal, deixa qualquer rivalidade em segundo plano. Para o artista plástico Antonio Peticov, a relação do homem com a natureza é um dos aspectos mais fascinantes na Itália – e um que, depois de mais de uma década vivendo em Milão, onde terminou sua formação como artista, só agora percebeu de modo mais concreto. E interessante é perceber como ela pode assumir diversas formas. Na Sardenha, por exemplo, a primeira sensação é de um campo devastado, tomado por uma vegetação rasteira que permite observar a imensidão do mar de todos os lados da estrada que leva do aeroporto a Cagliari. No meio do caminho, um desvio de terra leva em direção a terrenos mais elevados. A certa altura, é preciso abandonar o carro e seguir a pé até o alto de um monte, onde a vista de um antigo farol (hoje transformado em um exclusivo hotel para meia dúzia de hóspedes) revela a costa vazia e de aparência gelada. O caminho de volta à estrada é solitário. E vem então a surpresa: uma pequena entrada leva o carro a um oásis de cores, sabores e receptividade, um restaurante à beira de um pátio que, na forma e na decoração, evoca quase três mil anos de convivência das mais distintas culturas e nacionalidades. Já na Sicília, o que chama atenção não é a ausência mas, sim, a presença constante da “Montanha”. É assim que se referem os habitantes da ilha ao vulcão Etna. A história das ruas e construções que levam a Catânia está repleta de referências não só às erupções (a última foi em 2007) mas à resistência dos habitantes, que ainda assim não deixam sua terra. De jipe, o passeio pela base do Etna coloca o visitante próximo a um cânion. O silêncio, por um instante, chega a acalmar. Mas então uma nuvem escura invade o ambiente e você fica preso em meio ao nada, sem enxergar um palmo à sua frente. Mais tarde, o funcionário de um hotel à beira-mar resume a experiência. “Podemos conviver com a montanha, mas sem jamais perder o respeito por ela, esse é o nosso acordo.”

Montanhas, planícies e uma fachada
O trajeto até Courmayeur, no extremo norte da Itália, introduz os visitantes ao Vale d’Aosta. A região faz fronteira com a França e a Suíça – e traz, tanto na presença dos Alpes como na culinária ou na arquitetura, uma marcante mistura de culturas. Mesmo em meio à primavera, um vento frio adorna a paisagem. Pelo caminho, dezenas de pequenos ateliês nos quais artesãos mantêm viva uma tradição que remonta a antigas gerações. Ao sul, dentro do território italiano, a fronteira é com o Piemonte – e, depois de algumas horas de estrada, chega-se a Turim. A paisagem, então, ganha coloridos urbanos. Ainda assim, não faltam contrastes, que nos levam das ruínas medievais a prédios imponentes, símbolos da afirmação política na primeira metade do século 20, passando pelas galerias do século 19 ou pelas enormes feiras a céu aberto. “O que nos marca a todo instante é a presença da arte nas ruas, nos contrastes, nos detalhes da arquitetura”, diz o escultor Caciporé Torres, enquanto aguarda a entrada na GAM, a galeria de arte moderna da cidade, uma das mais importantes da Europa. Dias depois, a mesma sensação surge na região da Umbria. Sua principal cidade é Orvieto, na Idade Média importante posto de parada no caminho que ligava Florença a Roma. Ela está encravada no alto de um monte de pedra vulcânica – e, lá de cima, do que sobrou dos mirantes medievais, é possível observar as planícies que se espraiam ao longe, revelando as características da economia local, marcada pelo cultivo do tabaco, do azeite, e pelas vinícolas. É possível chegar a Orvieto de carro, mas um pequeno bonde diminui a duração e acrescenta charme ao trajeto. Uma vez lá em cima, caminhar exige certo esforço físico. Melhor, então, embarcar no pequeno ônibus que sobe e desce as ruas sinuosas que evocam o passado medieval e, de repente, deságuam em uma praça em cujo centro está a enorme Catedral de Orvieto, construída no século 13, quando a cidade passou a abrigar uma residência – o Palazzo dei Papi, que pode ser visitado – para os papas e seus seguidores, que buscavam refúgio sempre que a situação em Roma colocava a segurança do prelado em risco. Austera e cinzenta, a catedral é gigantesca. O adjetivo talvez não dê conta completamente da magnitude da construção, ainda mais quando a chuva, comum na região, posiciona nuvens negras e carregadas sobre a Praça da República. A dominação religiosa da época medieval contava em grande parte com o poder de intimidação da arquitetura, das torres que pareciam tocar os céus, estabelecendo um contato direto com a divindade. Mas, então, você olha ao lado e observa as casas de pedra e madeira, com fachadas ocres ornadas por flores vermelhas e amarelas. Os detalhes do colorido oferecem um contraste singelo – e, ao mesmo tempo, de tirar o fôlego. Assim como as imagens do Antigo Testamento esculpidas na fachada da catedral. Caciporé não se contém. “Meu Deus, como nos sentimos pequenos perante um trabalho desses. Como vou voltar a esculpir alguma coisa depois disso?”

Ar mediterrâneo
“Cara, encontrei minha obra!” Pouco mais de dez minutos haviam se passado desde que o barco deixara o porto de Santa Margherita Ligure e, aos poucos, a imagem de uma cidade encravada no meio da montanha, de frente para o Mar Mediterrâneo, chamou a atenção do artista plástico Zélio Alves Pinto. Num final ensolarado de manhã, as cores de Portofino ofuscam o olhar – os cascos dos barcos, o vermelho boiando sobre o mar azul; a vegetação verde-escura ao fundo; as fachadas rosas; e as pedras que, como molduras, rodeiam a paisagem. O ar marítimo de Santa Margherita Ligure e Portofino evocam o passado distante das grandes navegações. A primeira ainda ostenta alguns vestígios dos ancoradouros e castelos do século 16. Sua orla permite passeios à beira-mar e está tomada por restaurantes e lojas, nem sempre com preços convidativos, revelando como a cidade que, durante séculos envolvida em batalhas relacionadas a sua posição estratégica, tornou-se um dos principais polos turísticos da região após o fim da 2ª Guerra. Não deixe, no entanto, de se aventurar pelo centro, onde a decoração das fachadas e as pequenas luzes adornam o caminho. Já Portofino, com seus pouco mais de dois quilômetros quadrados, tornou-se uma cidade turística procurada por famosos e milionários. Lá estão as principais grifes e alguns dos restaurantes mais caros da Itália. O marketing local fala em “um ambiente exclusivo, porém familiar”. Mas importa mesmo é o fato de que a paisagem, afinal, não cobra pedágio. E tem muito a oferecer a todos, desde o momento da chegada (que impressionou Alves Pinto), até a vista do alto, onde fica o Castelo Brown, assim chamado por conta do nome de seu proprietário em meados do século 19, um certo Montague Yeats Brown, então cônsul da Inglaterra em Gênova. A certeza de Alves Pinto sobre a inspiração para sua obra, no entanto, logo se desfaria. Descendo em direção ao sul, uma noite em Castellina in Chianti trouxe tranquilidade e descanso em uma fazenda de agroturismo. Mas foi apenas o suficiente para que, no dia seguinte, a alguns quilômetros dali, as cores e a história de Siena tomassem de assalto os visitantes. Declarada pela Unesco Patrimônio da Humanidade, a cidade é um verdadeiro reservatório da arte italiana do período medieval, que adorna museus (a Pinacoteca Nacional entre eles) e prédios (a Catedral ou a Igreja de San Domenico) de importância histórica. O encanto, porém, se multiplica pelas ruas e vielas sinuosas – em que é um prazer poder se perder e, vez ou outra, vislumbrar ao longe a paisagem toscana -, ou na arquitetura das grandes praças, como a del Campo. “Nesses caminhos, a perspectiva de quem observa se alterna a todo instante. E, a essa altura da viagem, já são tantas as paisagens que uma Itália misturada começa a se formar na mente. Uma obra pode ser a síntese dela.”

Caos e silêncio
É em silêncio que o artista plástico paulistano Cláudio Tozzi faz a maior parte dos deslocamentos pelo território italiano. No carro, parece impassível ao observar a estrada; nas ruas, não raramente se afasta do grupo, como no momento em que, sentado em uma pequena mureta, observa o longo jardim do Palácio Real de Caserta, próximo a Nápoles. O castelo é, mal comparando, uma versão italiana de Versalhes, o palácio da monarquia francesa nos arredores de Paris. Foi construído no começo do século 18 e, ao escolhê-lo como Patrimônio da Humanidade, a Unesco o definiu como “o canto do cisne da espetacular arte do barroco”. Os relatos sobre personagens que lá passaram servem como ponto de partida para uma história da monarquia europeia nos últimos dois séculos. Já do lado de fora, o jardim botânico, labiríntico, coloca o visitante cara a cara com espécies raras (trazidas à Itália como forma de prestígio) e com reproduções em tamanho real de estátuas romanas, feitas na época da construção do palácio. Some a isso a presença de vendedores ilegais que oferecem ao turista todo o tipo de produtos, de óculos de grife a reproduções em miniatura de pontos turísticos italianos, e pronto: passado, presente e futuro do país se misturam na sua frente em poucas horas. Uma vez em Nápoles, o centro histórico sugere um ritmo frenético, que nada ou pouco tem a ver com a tranquilidade de um passeio à beira-mar a pouco metros dali, na orla repleta de pequenas sorveterias, uma especialidade da terra assim como a pizza – há sempre uma pizzaria para reivindicar o pioneirismo em sabores e técnicas de preparo. Mas nada se compara ao caos de Roma. A chegada à capital, no começo da noite, revela um grupo tomado pelo cansaço, mas Tozzi não perde a oportunidade de sugerir uma visita ao Trastevere. Na manhã seguinte, uma rápida caminhada leva à Piazza Navona, onde o embaixador brasileiro José Viegas Filho recebe os artistas para um café. Sede da embaixada do País, o Palazzo Pamphili é um dos orgulhos reconhecidos da chancelaria brasileira. Mas ainda é capaz de revelar surpresas, como um porão recém descoberto, ainda com traços arqueológicos da era Romana. O impacto da visita é grande, Assim como o sabor do tartufo que, vendido na gelateria Tre Scalini, Tozzi recomenda vivamente aos colegas.

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Estive ontem em Belo Horizonte para assistir à estreia de “Andrea Chenier”, produção de 2006 do Teatro Municipal de São Paulo que agora ganha temporada no Palácio das Artes. Direção de André Heller-Lopes, regência de Luiz Fernando Malheiro, à frente da Filarmônica de Minas Gerais. A grande surpresa da noite foi a soprano Edna D’Oliveira como Magdalena. Estamos acostumados a boas atuações suas, mas este papel a flagra em meio a uma mudança delicada de repertório, em direção a personagens mais pesadas. Esse é sempre um momento traumático em alguma medida e há ainda algumas arestas a serem acertadas, mas Edna fez desse processo um espetáculo empolgante, musical e cenicamente convincente. Logo escrevo mais sobre a montagem no “Caderno 2″ e posto aqui. Hoje cedo, vim para o Rio, onde à noite assisto “O Caso Makropoulos”, de Janácek, no Municipal, com a Sinfônica Petrobras comandada por Isaac Karabtchevsky. Estou curiosíssimo. E, amanhã, Paulínia, para ver Jessye Norman. Seus recitais no Brasil até agora têm gerado reações diversas – relatos dão conta de uma presença cênica impactante, mas nem todo mundo tem gostado de suas versões para o repertório de canções e spirituals americanos.

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Foi logo após o concerto, na noite de segunda, ainda nos bastidores do Beethovenhalle. Gritos de euforia, abraços, lágrimas, orações. Alguém, via skype, conseguiu uma conexão com São Paulo. Os músicos improvisaram uma coreografia; e o chorinho logo deu lugar ao Hino Nacional brasileiro, cantado a plenos pulmões, dos dois lados do Atlântico. Acabava assim a primeira apresentação da Sinfônica de Heliópolis na Alemanha – mas a festa estava apenas começando. Ao entrar no palco, os músicos, acompanhados pela percussão, executaram a coreografia de José Possi Neto – em grupos, buscavam seus lugares dançando. E o medo com relação à frieza da plateia alemã logo se dissipou, com as palmas com que ela acompanhou a entrada. Em seguida, Cidade do Sol, de André Mehmari, obra encomendada pela Deutsche Welle para esta turnê. A peça foge do óbvio ao unir o material de canções de Schubert – Aus Heliopolis – com a música popular brasileira, retratando musicalmente a viagem desses músicos à Alemanha. Utilizar as cordas soltas logo na seção inicial evoca ao longe a afinação de uma orquestra – é o começo de um concerto, o começo de uma orquestra, o nascer do sol, o nascer desses músicos? Mehmari opõe habilmente momentos de lirismo delicado, em que a música parece viver no limite, com passagens de sonoridade opulenta. Com isso, explora todas as possibilidades dos músicos. Em seguida, Villa-Lobos, dois movimentos das Bachianas n.º 4. E, em seguida, Tchaikovski – Concerto para Violino e Orquestra, com solos de Shlomo Mintz, que em leitura pessoal exigiu dos músicos a capacidade de esquecer boa parte dos ensaios e fazer música em tempo real. Então, o intervalo, e o maestro Silvio Baccarelli, responsável pelo projeto, era saudado pela plateia. Sorrindo, ele só conseguia dizer: “As pernas estão bambas, não vão aguentar!” E se preparava para a segunda parte: “E agora, hein?! Beethoven na terra deles!” Sim, Sinfonia n.º 8. Metais precisos, cordas ágeis, sonoridade coesa, de olho na regência elegante e eficiente de Roberto Tibiriçá. Se há problemas pontuais – e a necessidade de instrumentos de maior qualidade é talvez o maior deles -, a apresentação deixou claro um senso crescente de conjunto. No bis, festa, público de pé: um pot-pourri nacional, Brasileirinho, Aquarela do Brasil, Tico-Tico no Fubá. E a brilhante abertura da ópera Ruslan e Ludmila, de Glinka. Após o concerto, na recepção oferecida pelo Beethovenfest, aos músicos e às famílias que os receberam, logo era ouvido chorinho, samba. Os músicos cantaram, dançaram. Uma alemã foi até o maestro Baccarelli e lhe entregou um violino. “É um instrumento de 1810, está na minha família há tempos e eu o usei a vida toda, profissionalmente. Agora, está parado e eu gostaria que o senhor o levasse para o Brasil.” A festa entrou na madrugada. As famílias não resistiram e, puxados pelos filhos adotivos, “pais” e “irmãos” entraram na dança. A Sinfônica de Heliópolis fez os alemães sambarem. Literalmente.

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Bonn, Alemanha

A paisagem medieval de um final de tarde de sábado no centro de Bonn é interrompida pelo som de chorinho em torno do qual uma pequena multidão começa a se formar. Pandeiro, violão, cavaquinho…Um grupo de rapazes entoa Brasileirinho e as meninas logo começam a esboçar alguns passos. Sim, são músicos brasileiros – e hoje à noite voltam a se apresentar na cidade. Só que, desta vez, o palco será outro: o Beethovenhalle, onde a Orquestra Sinfônica de Heliópolis faz sua estréia internacional, dentro da programação do Festival Beethoven, que homenageia anualmente o compositor, filho mais famoso da terra.

A brincadeira na praça dá a pista do clima da viagem. O clima de farra não esconde porém a responsabilidade da viagem. A orquestra chega à Alemanha a convite da Deutsche Welle, que há dez anos realiza o Orchestra Campus, projeto que prevê a apresentação de grupos sinfônicos jovens de países fora da Europa e América do Norte. Além dos dois concertos em Bonn, os músicos vão se apresentar em Berlim, Dresden, Munique, Amsterdã e Londres (para o ano que vem, já há convites para Bélgica e Luxemburgo). O programa dos concertos inclui a Sinfonia nº 8, de Beethoven, o Concerto para Violino, de Tchaikovski (com solos de Shlomo Mintz), as Bachianas Brasileiras nº 4, de Villa-Lobos e “Cidade do Sol”, obra encomendada para o compositor André Mehmari especialmente para a turnê.

O grupo de 75 músicos nascidos e criados na em uma das maiores comunidades carentes do mundo, a favela de Heliópolis, chegou a Bonn no final da tarde de quinta. No ginásio de uma escola primária, eles foram apresentados aos seus “familiares” pela próxima semana – estão todos hospedados em casas de habitantes da cidade . Gestos, um pouco de inglês, espanhol, portunhol, expressões faciais – tudo vale nas primeiras tentativas de comunicação.

Na manhã seguinte, no estúdio da Beethovenhalle, orquestra posicionada para o primeiro ensaio. “Trombones, cordas, vocês precisam se ouvir. Trompas, fagotes, atenção”, pede o maestro Roberto Tibiriçá. Enquanto isso, do outro lado da cidade, na sede da Deutsche Welle, o maestro Silvio Baccarelli, criador do projeto, relembra para a imprensa local o incêndio que, em 1996, destruiu metade da favela e o fez iniciar o trabalho de educação musical na comunidade. “Quem diria?”, diz, os olhos se enchendo de lágrimas. “Eram 36 músicos e hoje, quase 2 mil. É com felicidade que vejo uma orquestra formada por meninos que provavelmente não teriam oportunidade alguma de trabalhar com música em suas vidas. A arte lhes deu força para vencer qualquer desafio. Pela música, a esperança é de que o mundo seja um lugar melhor. E que eles ganhem uma nova vida.”

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“Tá, ta!” Após as notas finais de ”Cidade do Sol”, os músicos e o maestro se viram correndo para a plateia do Beethovenhalle, em busca do compositor André Mehmari. “É isso?”, parecem dizer os olhos ansiosos. Ele sorri, acena positivamente com a cabeça, agradce – e o ensaio então prossegue, agora com o primeiro movimento da “Sinfonia nº 8” de Beethoven. “Contrabaixos, já falamos disso, vocês sabem como é o certo”, diz o maestro Tibiriçá. “Flautas!!! Forte demais. Cuidado com a afinação….Violinos, se soltem, façam música!”

“Cidade do Sol” é, em certa medida, a tradução musical dessa viagem. Convidado a escrever uma peça para a turnê, ele descobriu duas canções de Schubert chamadas “Aus Heliopolis” – e, na obra, mistura um pouco do material musical do compositor alemão com ritmos e estilos brasileiros, uma tentativa, diz, “de explicar musicalmente o acontecimento que é a viagem de uma sinfônica brasileira, formada por jovens de origem difícil, a uma terra de enorme tradição musical, que viu surgir os grandes mestres da história da composição.” O violinista Shlomo Mintz, que conheceu o grupo durante uma de suas viagens ao Brasil, vai além. “O trabalho desses meninos ajuda a mostrar que não importa o local onde se nasce, o direito a viver e interpretar essa música é de todos”, diz.

Depois do primeiro ensaio, não se falava em outra coisa além do tal encontro de culturas. Diego, de 21 anos, deu sorte: se vira no inglês e o pai, a mãe e os filhos da casa em que está hospedado são músicos, pianistas e flautistas, como ele. Dan, 22 anos, spalla do grupo, se espantou com a quantidade de informações de sua família sobre o Brasil. “Falaram até da popularidade do Lula e das eleições.” José, violista, 20 anos, se surpreendeu com o estilo “regrado” de vida. “Esse contato é interessante, com certeza vamos aprender muito.”

Já uma violinista conta que se vira como pode – não fala inglês, “então é tudo no gesto”. “Nossa, no primeiro dia, o filha da senhora com quem estou hospedado falou um monte comigo e eu sem entender nada”, conta, rindo. “E eu só respondi que ele era um gato, ele não ia entender mesmo.” Um colega, gordinho, também se diverte. “Nossa, eles não param de entuchar comida em mim, é toda hora.” Nos dias de ensaios, os músicos chegam acompanhados de seus anfitriões ou de bonde ou ônibus. “Eles ensinaram a gente a se virar na cidade, isso foi legal.”

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Na manhã de sábado, a sinfônica interrompeu a grade de ensaios para gravar as “Bachianas” e “Cidade do Sol”, que completam o disco que vai registrar os concertos em Bonn. É a primeira gravação realizada pelo grupo. “Eu achei que ia ser mais difícil, que a gente ia ficar tão nervoso que não ia tocar direito, mas saiu bem”, diz Aline, trombonista, 23 anos. Ela esteve na Alemanha em junho, convidada pelo festival de Pommersfelden, para ser solistas de alguns concertos, e é uma das promessas da orquestra. “Nossa, saiu crítica e tudo, com foto. Foram quatro concertos, usei um vestido diferente em cada um”, brinca. James, percussionista, sentado ali perto, não perde a piada: “você tem namorado?”. “Não tinha, mas agora tenho.”

Depois da gravação, a primeira tarde livre. Os músicos saem para passear. Sozinhos ou acompanhados de seus anfitriões, alguns deles partem à cata de partituras – e deixam carregados uma loja no centro da cidade. Outros comem salsicha à vontade na Marktplaz; há quem prefira pizza, refrigerante, cerveja. Nas lojas de departamento, não é difícil encontrá-los. Camisetas, botas, eletrônicos – tem de tudo um pouco nas sacolas com que voltam para o ensaio da noite. Divertindo-se, contam ao maestro Tibiriçá: arrecadaram € 35 com a brincadeira de tocar em praça pública. Pouco depois, de volta à música. Mais Beethoven.

Como definir a importância dessa viagem para os músicos? “Em Heliópolis tem muita gente do mal, mas a maioria é do bem, a gente mostra isso”, diz a violinista, enquanto espera os colegas para ir embora depois do ensaio. “É uma chance de mostrar um pouco do que é o Brasil, uma realidade que muita gente não conhece”, diz José. “Legal é poder mostrar a música brasileira”, acredita o percussionista James. Jéssica, contrabaixista, 19 anos, lembra uma história. “Há alguns anos achei uma nota de euro no chão perto de casa. Acho que foi um sinal de Deus de que hoje eu estaria aqui, tenho que aproveitar tudo ao máximo”, conta. “Acho que vai ser um sucesso, eles vão ficar empolgados, mas de jeito deles, que é diferente do nosso”, prevê Aline. “Nunca imaginei que seria possível estar aqui”, diz Dan. “Mas a ficha ainda não caiu. Acho que só depois do concerto é que vamos nos dar conta da imensidão disso tudo.” O maestro Baccarelli talvez tenha razão – e o mundo hoje à noite pode mesmo ser um lugar melhor.

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É o cenário que entrega desde a abertura das cortinas o caráter vertiginoso da história a ser narrada. As rampas e plataformas sinuosas, as paredes altas, a luz que parece vinda de lugar algum, os buracos no chão – tudo serve de metáfora à mente da personagem principal da “Elektra” do compositor Richard Strauss, com libreto de Hugo Von Hoffmanstahl a partir da narrativa mitológica. O tema é o desejo de vingança. Elektra nos revela sua obsessão com a morte do pai, Agamenon – e o ódio que direciona contra sua mãe, Clytaemnestra, e seu novo marido, Aegysth. Ela permanece todo o tempo sobre o palco. Mas há muitas tintas em sua obsessão – e a riqueza da música de Strauss vem em parte de sua capacidade de criar ambiente sonoros para cada uma delas. De certa forma, o libreto se articula em torno dos confrontos de Elektra com os demais personagens da história: desde as damas que comentam sua vida à margem da casa de sua família depois da morte do pai até o encontro com o irmão Orestes, em quem ela deposita a esperança de vingança contra a mãe. A música é angulosa, ganha cores fortes no diálogo com a irmã Chrysothemis, que tenta devolver a ela alguma esperança de vida; é sinuosa quando sua mãe a procura e narra os sonhos que a tem perturbado; lírica quando reconhece na figura do cavaleiro anônimo seu irmão; irônica quando envia Aegysth para dentro da casa onde a morte o espera; e resignada na mistura de desejos de morte e vida com que a personagem vê sua vingança realizada. Não foi por acaso que a Unitel Classics mandou correndo a Salzburg uma equipe com a missão de filmar a produção, encabeçada pelo diretor alemão Nikolas Lenhoff e o maestro italiano Danielle Gatti, para o lançamento em DVD, que deve acontecer até o primeiro semestre de 2011. Da mesma forma que o cenário único oferece múltiplas s possibilidades de interpretação, também a leitura musical de Gatti, à frente da Filarmônica de Viena, é eficiente na recriação dos momentos psicológicos da personagem. Gatti identifica no caos diversos sentidos e direções musicais. E faz isso com a ajuda de um time de estrelas como solistas. Iréne Theorin é uma Elektra repleta de matizes. Eva-Maria Westbroek dá a Chrysothemis uma voz própria, carregada de urgência. Waltraud Meier é um espetáculo à parte como Clytaemnestra, a voz de enorme alcance recriando as sombras que se abatem sobre a personagem; por sua vez, o Orestes de René Pape tem vigor sem perder um certo sentimento de ternura com relação à irmã. No todo, o mais fascinante é a maneira como as vozes se misturam ao tecido orquestral. Gatti não tem medo de jogar a orquestra para o alto e sabe retroceder nos momentos de primazia vocal. O resultado é um jogo vertiginoso de altos e baixos, crescendos e decrescendos.

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Caos sonoro sobre o palco da Grande Sala do Festival na manhã de domingo. Pouco antes das dez horas, instrumentos são afinados, músicos conversam, riem alto, arrastam cadeiras. Não dão muita atenção ao inspetor que, na frente da orquestra, chega para avisar que o ensaio não contará com a solista, a soprano Karitta Mattila e, que portanto, apenas as demais peças serão repassadas. Mais barulho, brincadeiras, partituras sendo procuradas nas mochilas. Até que do canto do palco surge a figura discreta, de roupa toda preta, em contraste com a longa cabeleira branca. Partituras na mão, sobe no pódio. Feito o silêncio, anuncia, suavemente: “Schoenberg, por favor.” Continua aqui.

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O maestro Simon Rattle, diretor da Filarmonica de Berlim/Divulgacao

O maestro Simon Rattle, diretor da Filarmonica de Berlim/Divulgacao

Acabo de chegar do ensaio que a Filarmonica de Berlim fez agora pela manha com o maestro Simon Rattle. É um programa ambicioso, que tem as Quatro Últimas Cancöes de Strauss e Webern (Seis Pecas para Orquestra), Schoenberg (Cinco Pecas para Orquestra) e Berg (Tres Pecas para Orquestra). A solista do Strauss, Karita Mattila, nao chegou ainda a Salzburg e por isso ficou fora do ensaio, decepcionando quem estava louco para ouvi-la cantar (sim, tö falando de mim mesmo). No restante das pecas, foi estimulante ver Rattle construindo a interpretacao nos detalhes, fazendo os músicos repetirem à exaustao algumas passagens em busca de equilíbrio entre os naipes e, principalmente, precisao sonora. E soltando comandos como “Este silencio precisa ser mais ensurdecedor”, no Webern, preparando a parada da orquestra após a explosao da percussäo; ou “Por que entregar este esboco de melodia se podemos simplesmente insinuá-lo?”.

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