RIO DE JANEIRO
Se a ópera tivesse terminado por volta das 11 da noite de sábado, no fim do terceiro ato, seria necessário dizer que nenhuma das vozes se sobressaiu na montagem de Aida, de Verdi, com a qual o maestro Isaac Karabtchevsky fez sua estreia como diretor artístico do Teatro Municipal do Rio. Mas havia ainda um quarto ato. E a mezzo-soprano russa Anna Smirnova subiu ao palco pronta para desempatar a partida. A voz quente e expressiva, repleta de coloridos, fez de sua Amneris, a filha do rei egípcio, e do conflito de uma mulher apaixonada pelo traidor de sua pátria, os pontos altos da noite.
A expectativa, é verdade, girava em torno da Aida da soprano italiana Fiorenza Cedolins. A voz, verdade, não é particularmente grande, mas ela convence cenicamente e, mais do que isso, é extremamente musical, inteligente na construção das linhas melódicas, no uso de dinâmicas e na condução do papel. Mas na ária O Patria Mia, a voz falhou. O palco de ópera às vezes é como uma arena de gladiadores – e o público não perdoa deslizes como esse. Ainda assim, seu desempenho foi muito superior ao do tenor Rubens Pellizari, duro e caricato em cena, cujo Radamés é um inventário de todas as escolhas de mau gosto a que um tenor pode recorrer na hora de construir um personagem. Melhor sorte tiveram os brasileiros. Sávio Sperandio foi um Sacerdote construído a partir de nuances nem sempre ouvidas no papel; Carlos Eduardo Marcos, um rei sóbrio; Lício Bruno, um Amonasro eficiente – e mesmo em uma passagem pequena como a do Mensageiro, Ricardo Tuttmann, solista veterano do Municipal do Rio, soube roubar a cena.
Os cenários geométricos de Hélio Eichbauer abrem mão da tentativa – raramente bem-sucedida – de recriação naturalista do Egito. E, combinados com as projeções e o uso de telas, criam atmosferas, mais do que locais específicos. O problema está na iluminação, pouco ousada, que iguala as cenas e joga para segundo plano os contrastes da narrativa. E eles são especialmente importantes em uma ópera como Aida. Pois é no limite entre o dever público e o desejo privado que habitam os personagens criados por Verdi. Não se trata de dois universos estanques – e é justamente da comunicação entre eles que nascem os conflitos da ópera (um exemplo perfeito é a cena em que Amneris ouve, do lado de fora do templo, o julgamento de Radamés). Da mesma forma, a direção cênica de Iacov Hillel recorre a fórmulas tradicionais, seja na movimentação dos solistas, seja no posicionamento do coro – e isso é problemático, uma vez que, por conta do caráter estático dos cenários, recai sobre os solistas dar forma à intensidade da música.
A boa notícia veio do fosso da orquestra. Em seu primeiro compromisso com o novo diretor da casa, os músicos da Sinfônica do Teatro Municipal foram bastante exigidos e – em que pesem deslizes individuais e certa falta de virtuosismo em algumas seções – não comprometeram a fluência e teatralidade da regência de Isaac Karabtchevsky. Mas este é ainda o início de um trabalho. E os demais compromissos do grupo este ano (o próximo deles, A Valquíria, de Richard Wagner) darão a medida dos desafios que precisarão ser superados para que a orquestra volte a ser um dos principais conjuntos do País.
Morreu no domingo, aos 85 anos, o maestro britânico Colin Davis. As informações divulgadas pela Sinfônica de Londres, orquestra da qual era presidente, dão conta de uma “curta enfermidade”, mas a causa da morte ainda não foi divulgada. Davis foi um dos mais prolíficos maestros da segunda metade do século 20 – deixa um legado de mais de trezentas gravações, feitas com os diferentes grupos dos quais foi diretor, como a própria orquestra londrina, a Royal Opera House Covent Garden e a Sinfônica da Rádio da Baviera.
– Leia o comunicado oficial sobre a morte do maestro
– Veja a página especial da Sinfônica de Londres, onde é possível deixar comentários
– Veja lista de gravações para o selo LSO Live
– Leia o obituário do “Guardian”
Davis nasceu em setembro de 1927 em Weybridge, no sul da Inglaterra. Estudou no Royal College of Music, em Londres. Clarinetista, não tocava piano – e por conta disso, não foi aceito na classe de regência do conservatório. A situação mudou quando, em 1959, substituiu às pressas o maestro Otto Klemperer em um concerto no Royal Festival Hall. Em breve, se tornaria regente principal da Sinfônica da BBC – e, durante os anos 70 e 80, seria o diretor musical do Covent Garden. Some-se a essas atribuições o posto à frente da Sinfônica de Londres e não é exagero afirmar que ele esteve à frente dos mais relevantes conjuntos de seu país.
Naturalmente, a relação com a música britânica foi um dos pilares do seu repertório – em especial no que diz respeito às criações de Michael Tippet e Benjamin Britten (seu primeiro registro da ópera “Peter Grimes” ainda hoje é referência longe de ser superada). Mas Davis foi também especialista em Mozart, do qual deixou gravações importantes das principais óperas; e responsável pela reavaliação da obra de Hector Berlioz. “Sua música só entra na França pela alfândega”, ele disse certa vez, ironizando o fato de que o compositor francês dependeu sempre de maestros e músicos estrangeiros para ter o espaço que merecia no repertório.
Davis conheceu a música de Berlioz no verão de 1951, quando ouviu o oratório “A Infância de Cristo” regido pelo também inglês Thomas Beecham, um dos primeiros maestros a programar sistematicamente obras do compositor em seus concertos. Décadas mais tarde, outro grande maestro inglês, John Elliot Gardiner, daria depoimento semelhante, explicando que seu interesse pelo compositor surgiu após ter contato com as gravações de Colin Davis – e elas são muitas, das óperas à música sinfônica.
Nos últimos anos, Davis vinha lançando CDs importantes pelo selo próprio da Sinfônica de Londres, o LSO Live, responsável por editar registros da orquestra feitos ao vivo. O “Otello” de Verdi; a “Sinfonia Fantástica”, “A Danação de Fausto” e “Os Troianos”, de Berlioz; “Peter Grimes”, de Britten; as sinfonias de Sibelius; o “Fidelio”, de Beethoven – são apenas alguns dos testemunhos da maturidade do maestro e de sua regência clara e expressiva.
A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo anunciou ontem a realização de uma nova turnê pela Europa, de 7 a 27 de outubro. O grupo vai passar por França, Alemanha, Suíça, Áustria, Inglaterra e Irlanda. A regência será de Marin Alsop; o pianista Nelson Freire será o solista; e os Swingle Singers farão participação especial em algumas apresentações. No programa, obras de Clarice Assad (Saravá – Homenagem a Vinicius de Moraes), Prokofiev (Sinfonia nº 5), Camargo Guarnieri (Sinfonia nº 4), Chopin (Concerto nº 2), Beethoven (Concerto nº4), Mahler (Sinfonia nº1), Berio (Sinfonia) e Bernstein (Danças Sinfônicas de West Side Story).
Abaixo, a lista completa de concertos e programas:
7 OUTUBRO | SALLE PLEYEL | PARIS, FRANÇA
CLARICE ASSAD
Saravá – Homenagem a Vinicius de Moraes [encomenda Osesp]
F. CHOPIN
Concerto para Piano e Orquestra nº 2
GUSTAV MAHLER
Sinfonia nº 1
8 OUTUBRO | KURHAUS | WIESBADEN, ALEMANHA
CLARICE ASSAD
Saravá – Homenagem a Vinicius de Moraes [encomenda Osesp]
S. PROKOFIEV
Sinfonia nº 5
9 OUTUBRO | PHILHARMONIE | COLÔNIA, ALEMANHA
CLARICE ASSAD
Saravá – Homenagem a Vinicius de Moraes [encomenda Osesp]
S. PROKOFIEV
Sinfonia nº 5
11 OUTUBRO | THÉÂTRE DU CAPITOLE | TOULOUSE, FRANÇA
F. CHOPIN
Concerto para Piano e Orquestra nº 2
GUSTAV MAHLER
Sinfonia nº 1
12 OUTUBRO | VICTORIA HALL | GENEBRA, SUÍÇA
CLARICE ASSAD
Saravá – Homenagem a Vinicius de Moraes [encomenda Osesp]
L. VAN BEETHOVEN
Concerto para Piano e Orquestra nº 4
GUSTAV MAHLER
Sinfonia nº 1
13 OUTUBRO | TONHALLE | ZURIQUE, SUÍÇA
CLARICE ASSAD
Saravá – Homenagem a Vinicius de Moraes [encomenda Osesp]
L. VAN BEETHOVEN
Concerto para Piano e Orquestra nº 4
GUSTAV MAHLER
Sinfonia nº 1
15 OUTUBRO | KONZERTHAUS | VIENA, ÁUSTRIA
CLARICE ASSAD
Saravá – Homenagem a Vinicius de Moraes [encomenda Osesp]
F. CHOPIN
Concerto para Piano e Orquestra nº 2
C. GUARNIERI
Sinfonia nº 4 – Brasília
L. BERNSTEIN
Danças Sinfônicas de West Side Story
16 OUTUBRO | FESTSPIELHAUS | SALZBURGO, ÁUSTRIA
CLARICE ASSAD
Saravá – Homenagem a Vinicius de Moraes [encomenda Osesp]
F. CHOPIN
Concerto para Piano e Orquestra nº 2
C. GUARNIERI
Sinfonia nº 4 – Brasília
L. BERNSTEIN
Danças Sinfônicas de West Side Story
17 OUTUBRO | FESTSPIELHAUS | SALZBURGO, ÁUSTRIA
CLARICE ASSAD
Saravá – Homenagem a Vinicius de Moraes [encomenda Osesp]
F. CHOPIN
Concerto para Piano e Orquestra nº 2
GUSTAV MAHLER
Sinfonia nº 1
18 OUTUBRO | FESTSPIELHAUS | SALZBURGO, ÁUSTRIA
CLARICE ASSAD
Saravá – Homenagem a Vinicius de Moraes [encomenda Osesp]
F. CHOPIN
Concerto para Piano e Orquestra nº 2
C. GUARNIERI
Sinfonia nº 4 – Brasília
L. BERNSTEIN
Danças Sinfônicas de West Side Story
20 OUTUBRO | BRUCKNERHAUS | LINZ, ÁUSTRIA
CLARICE ASSAD
Saravá – Homenagem a Vinicius de Moraes [encomenda Osesp]
L. VAN BEETHOVEN
Concerto para Piano e Orquestra nº 4
GUSTAV MAHLER
Sinfonia nº 1
21 OUTUBRO | PHILHARMONIE | BERLIM, ALEMANHA
CLARICE ASSAD
Saravá – Homenagem a Vinicius de Moraes [encomenda Osesp]
L. VAN BEETHOVEN
Concerto para Piano e Orquestra nº 4
S. PROKOFIEV
Sinfonia nº 5
25 OUTUBRO | ROYAL FESTIVAL HALL | THE REST IS NOISE | LONDRES, INGLATERRA
L. BERIO
Sinfonia
C. GUARNIERI
Sinfonia nº 4 – Brasília
L. BERNSTEIN
Danças Sinfônicas de West Side Story
26 OUTUBRO | NATIONAL CONCERT HALL | DUBLIN, IRLANDA
CLARICE ASSAD
Saravá – Homenagem a Vinicius de Moraes [encomenda Osesp]
L. BERNSTEIN
Danças Sinfônicas de West Side Story
GUSTAV MAHLER
Sinfonia nº 1
27 OUTUBRO | BRIDGEWATER HALL | MANCHESTER, INGLATERRA
CLARICE ASSAD
Saravá – Homenagem a Vinicius de Moraes [encomenda Osesp]
L. BERNSTEIN
Danças Sinfônicas de West Side Story
GUSTAV MAHLER
Sinfonia nº 1
O violonista Fábio Zanon é o novo coordenador artístico e pedagógico do Festival de Inverno de Campos do Jordão. Ele passa a atuar ao lado de Artur Nestrovski, diretor artístico, Marin Alsop, consultora artística, e Marcelo Lopes, diretor executivo. A informação, foi confirmada ontem pela Fundação Osesp, que ainda não divulgou detalhes da programação do evento, marcado para julho. Professor da Royal Academy of Music, de Londres, Zanon é um dos principais nomes de seu instrumento em todo o mundo e já atuou no festival como solista e professor. Articula a carreira como concertista com a atividade pedagógica – vida “dupla” que encarna a própria natureza do festival, que promove concertos e aulas.
A Fundação Osesp é responsável, desde o ano passado, pela gestão do tradicional festival de inverno. Na última edição, após cogitar o nome de Alsop para a diretoria artística, a entidade acabou nomeando Nestrovski, também diretor artístico da Osesp, para o posto, gerando críticas a respeito da concentração de cargos e decisões. Na ocasião, o secretário de Estado da Cultura, Marcelo Araújo, explicou que esta havia sido uma “saída necessária” naquele momento”, mas que “já no ano que vem o festival pode ganhar direção própria dentro da estrutura da Fundação Osesp.” Na mesma ocasião, Lopes afirmou que não haveria “tentativa de agregar poder de maneira vertical”.
O gestor cultural José Luis Herencia é o novo diretor administrativo da Fundação Teatro Municipal. Ele vai trabalhar ao lado do maestro John Neschling, que ocupa o posto de diretor artístico.
“Nosso desafio principal é consolidar o processo de criação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo, iniciado pela gestão de Carlos Augusto Calil, e torná-la uma instituição de excelência, com capacidade administrativa para realizar o projeto artístico que será apresentado em breve pelo Maestro John Neschling”, disse Herencia agora há pouco ao Estado.
“O Theatro Municipal é constituído por corpos artísticos da maior relevância, centros de formação atuantes e acervos importantíssimos, além do edifício histórico da Praça Ramos de Azevedo, e da Praça das Artes, ainda em obras, mas que em breve será reconhecida como um dos principais marcos da arquitetura brasileira contemporânea em São Paulo. Juntos, o Maestro Neschling e eu nos esforçaremos para integrar e potencializar essas diferentes atividades do Theatro, que são fortemente complementares, com o objetivo de que todos os artistas, professores e funcionários administrativos da Fundação sintam-se estimulados a participar de um processo de construção institucional contemporâneo, com penetração na vida da cidade.”
Em comunicado oficial enviado na segunda aos artistas dos corais e orquestras do Municipal, eles convocaram para a manhã do dia 30 uma reunião na qual “farão as devidas explanações sobre o ano de trabalho que se inicia”.
Herencia trabalhou com o secretário municipal de Cultura Juca Ferreira no Ministério da Cultura de 2008 a 2010; em 2009, assumiu a Secretaria de Políticas Culturais. Por conta disso, teve contato próximo com o maestro Neschling, que em 2010 criou a Companhia Brasileira de Ópera com o apoio do governo federal.
O comunicado enviado aos artistas também informa sobre o cancelamento de um concerto marcado para o dia 25 de janeiro, quando a Sinfônica Municipal tocaria a cantata “Carmina Burana”, de Carl Orff. A apresentação havia sido marcada ainda no ano passado, para justificar a contratação dos músicos que, até a implementação definitiva da Fundação Teatro Municipal, atuarão por meio de contratos provisórios de trabalho.
Sobre esta questão, o comunicado diz que “os contratos serão formalizados conforme combinado em dezembro passado”. “Mesmo sem o concerto do próximo dia 25, será mantido o período de 03 meses. O pagamento para os contratados, provavelmente, será liberado na próxima semana”, conclui a nota.
“Qualquer um pode dizer o que bem entender do Brasil, mas não tem como negar que se trata de um desses países pungentes, que impregnam a alma e a deixam com um certo tom, um vezo, um tempero de que ela nunca mais conseguirá se ver livre.” A anotação faz parte das memórias do poeta e diplomata francês Paul Claudel, mas bem poderia ter sido escrita por um jovem músico de 25 anos que integrou a comitiva do então chefe da representação no Brasil. Darius Milhaud chegou ao País em 1917, atuou como verdadeiro adido cultural e, dois anos mais tarde, ao retornar à Europa, engrossaria fileiras do modernismo francês.
O efeito da passagem pelo Brasil – e a maneira como se manifestaria em sua obra – é o tema do novo trabalho do musicólogo Manoel Corrêa do Lago, organizador de O Boi no Telhado: Darius Milhaud e a Música Brasileira no Modernismo Francês, reunião de ensaios sobre o compositor. “No Brasil, ele sofreria alguns impactos que seriam fundamentais para sua carreira: o convívio diário com a personalidade mercurial de Paul Claudel, o deslumbramento com o Rio de Janeiro e com o espetáculo da natureza tropical, o contato com o establishment musical carioca que o surpreende pelo alto grau de atualização em relação à música moderna francesa, a revelação do carnaval e da música popular dos compositores de tangos, maxixes, sambas e cateretês”, diz o musicólogo.
A percepção da produção musical brasileira das primeiras décadas do século 20 costuma girar em torno da figura dominante de Heitor Villa-Lobos, filtro por meio do qual ela costuma ser analisada e estudada. O trabalho de Corrêa do Lago segue por outro caminho. Em O Círculo Veloso-Guerra e Darius Milhaud no Brasil, seu livro anterior, ele recuperou personagens esquecidos – o professor e pianista Godofredo Leão Veloso, sua filha, a pianista e compositora Maria Virgínia Veloso Guerra, e seu marido, o compositor Oswaldo Guerra -, da mesma forma que redescobriu autores como Alberto Nepomuceno, Henrique Oswald e Luciano Gallet e a importância que tiveram como elos na transição do romantismo para a música moderna.
Agora, ele se dedica à investigação mais específica da obra de Milhaud – e o faz a partir de uma reunião de ensaios que investigam sua biografia, o período vivido no Brasil e a presença da música brasileira em obras como o balé O Boi no Telhado, que estrearia em 1920 na França, com coreografia de Jean Cocteau. O título da peça vem de um tango de um tal Zé Boiadêro, sucesso no carnaval de 1918. A partitura está repleta de temas de importantes compositores brasileiros da época – e em um dos ensaios mais importantes do livro, a musicóloga americana Daniella Thompson cita nominalmente “os parceiros não creditados de Milhaud, suas composições originais e seus meios culturais”.
Ao trabalho de Daniella, segue-se um ensaio no qual Corrêa do Lago faz a análise musical da peça e desfaz o mito da influência indistinta do folclore brasileiro na obra de Milhaud, divulgada pelo próprio autor, mostrando que as peças que o influenciaram tinham autoria e estavam todas disponíveis e editadas.
O livro, assim, é tanto sobre Milhaud quanto sobre a cena musical brasileira – e traz ainda textos de Anaïs Féchet, Paul Claudel, Jean Cocteau, Aloysio de Alencar Pinto e Vincenzo Caporaletti, além de um CD com duas gravações de O Boi no Telhado: uma com a Orquestra de Lyon e outra com adaptação de Paulo Aragão para conjunto de choro.
Nomeado na sexta-feira (04) novo diretor artístico do Teatro Municipal do Rio, o maestro Isaac Karabtchevsky diz que sua decisão de aceitar o posto “esteve cercada de perguntas”. “A lógica impunha-me, dentro dos meus 78 anos, recusar gentilmente a honraria. Mas o conjunto tão singular de efemérides que só vão se repetir novamente em 3113, propunha uma alternativa gloriosa, aquela de finalmente poder dirigir no Brasil alguns dos títulos que fiz na Europa.”
Karabtchevsky está se referindo aos bicentenários dos compositores Giuseppe Verdi e Richard Wagner, nomes fundamentais da história da ópera, que serão comemorados ao longo desta temporada. E, assim, dá uma pista do repertório que planeja programar já para este ano, adicionando à lista de datas importantes o centenário do compositor inglês Benjamin Britten e os bicentenários do dramaturgo Georg Büchner, autor do Wozzeck (peça transformada em ópera pelo compositor Alban Berg) e do teólogo dinamarquês Kierkegaard. “Este é um ano que de certa forma comemora a redenção cultural da Europa”, diz o maestro à reportagem.
Para Karabtchevsky, que já dirigiu o Teatro Municipal de São Paulo nos anos 90 e, na Europa, o Teatro La Fenice, de Veneza, há uma lacuna de repertório a ser preenchida nos próximos dois anos – no Rio, o Municipal é mantido pelo governo estadual. “O céu precisa ser o limite. Parto do princípio de que o público brasileiro necessita conhecer obras que jamais foram apresentadas na cidade, a lista é enorme! É como gostar de ler e desconhecer a existência de Shakespeare ou Leon Tolstoi, apenas para citar dois dos grandes. É estarrecedor o anonimato ao qual foram condenados grandes compositores do passado e do presente, como num ato de censura. Quero nestes dois próximos anos abrir as janelas, trabalhar em concomitância com tradição e renovação”, diz, e explica como vê um teatro como o Municipal no contexto cultural dos dias de hoje.
“Assim como a orquestra, um coro e um conjunto de dança podem ser encarados como uma metáfora da sociedade que nos cerca, o teatro é o edifício que lhes dá amparo e representa ao mesmo tempo uma referência para a riqueza cultural de um povo. Ele simboliza a sublimação de um país para um nível culturalmente superior e, como tanto, merece um tratamento de exceção por parte de nossos dirigentes.”
Além da questão do repertório, no entanto, Karabtchevsky diz estar “de volta ao campo de batalha, no afã de conciliar minha intensa carreira com o desafio de estruturar a vida dos conjuntos da casa e dar visibilidade ao Teatro Municipal”. E vê alguns desafios pela frente. “O primeiro passo será criar uma equipe de apoio que me permita trabalhar sem sobressaltos. Um grupo que começa por um maestro titular e um diretor executivo. Os outros elementos virão progressivamente”, explica, dizendo já ter dois nomes confirmados, que só serão anunciados após “a equipe de trabalho estar completa”.
Outro tema delicado é o preenchimento de vagas na orquestra e no coro do teatro – no final do ano, artistas da companhia iniciaram uma campanha na internet pedindo a realização de concursos para que se completem os quadros dos corpos estáveis. Sobre o tema, Karabtchevsky ainda não dá detalhes e afirma apenas que pretende “corrigir algumas das questões que vêm afligindo os conjuntos da casa: a ausência de um critério de gestão que permita completar seus quadros sem incorrer no eterno problema de eventuais contratações”. O maestro vai acumular o posto no Municipal com o cargo de diretor artístico da Petrobras Sinfônica, baseada no Rio e da qual é titular desde 2004, e da Sinfônica Heliópolis. Ele também vai continuar com o projeto da gravação da integral das sinfonias de Villa-Lobos com a Osesp e com os cursos de regência que dá anualmente em Riva del Garda, na Itália, e em Olinda.
O maestro Isaac Karabtchevsky será o novo diretor artístico do Teatro Municipal do Rio. Ele substitui, a partir da temporada deste ano, o maestro Silvio Viegas que, por sua vez, acumulava a direção com o posto de regente titular desde a saída de Roberto Minczuk do cargo, em 2011. Viegas segue trabalhando com a sinfônica do teatro.
Em 2012, o Municipal do Rio passou por momentos difíceis. Logo no começo do ano, o desabamento de um prédio no centro do Rio abalou a estrutura do teatro e fez com que a abertura da temporada fosse adiada por três meses. Mais tarde, corte de verbas levaram ao cancelamento de algumas produções. E, em dezembro, músicos da companhia iniciaram uma campanha pedindo a realização de concurso público para complementar as vagas do coro e da orquestra.
Karabtchevsky é diretor da Sinfônica Heliópolis e da Orquestra Petrobras Sinfônica, além de um dos principais regentes convidados da Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), com quem está gravando as sinfonias de Villa-Lobos. O anúncio de sua contratação chega dias após a nomeação do maestro John Neschling para o Teatro Municipal de São Paulo.
O maestro está em férias e não atendeu pedido da reportagem para entrevista.
Abaixo, o comunicado oficial distribuído agora pela Fundação Teatro Municipal:
O Theatro Municipal do Rio de Janeiro, vinculado à Secretaria de Estado de Cultura, tem o orgulho de anunciar a contratação do consagrado Maestro Isaac Karabtchevsky que assume a direção artística do Municipal. A vinda do regente para o TM era um antigo anseio da Presidente da Fundação Theatro Municipal, Carla Camurati, e da Secretária de Cultura, Adriana Rattes, que não se concretizava por compromissos profissionais de Karabtchevsky. O Maestro Silvio Viegas continua no Theatro, trabalhando ao lado do maestro Isaac e à frente da OSTM (Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal).
Com mais de quatro décadas de carreira, Karabtchevsky é considerado um ícone da regência no Brasil. Foi diretor artístico da Orquestra Sinfônica Brasileira de 1969 a 1994, e ao longo de 25 anos esteve à frente do Projeto Aquarius, um dos mais ousados programas de comunicação popular da América Latina, que reuniu ao longo do tempo milhares de pessoas ao ar livre e propiciou a formação de um público aficionado por música de clássica.
No decorrer de sua trajetória, Karabtchevsky atuou ainda como diretor artístico de diferentes orquestras e teatros fora do Brasil. Entre os exemplos estão a Orchestre National des Pays de la Loire (2004 a 2010), o Teatro La Fenice, de Veneza (1995 a 2001), Tonkünstlerorchester de Viena (1988 a 1994). No país, foi diretor musical do Theatro Municipal de São Paulo e da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Desde 2004, é diretor da Orquestra Petrobras Sinfônica, à qual imprime qualidade com sua vasta experiência no repertório sinfônico e visão de regente habituado a títulos do porte. Como o Navio Fantasma, Tannhäuser e Tristão e Isolda, de Wagner. Desde o início de 2011, Karabtchevsky dirige também a Sinfônica de Heliópolis, exercendo paralelamente a direção artística do Instituto Baccarelli.
E não é que o ano começou agitado, com a divulgação ontem da nomeação de John Neschling como diretor artístico do Teatro Municipal de São Paulo? A notícia foi dada pelo colega Irineu Franco Perpetuo, na Folha de S. Paulo; à tarde, após a cerimônia de posse do prefeito Fernando Haddad, o secretário Juca Ferreira disse ao repórter João Fernando, aqui do “Caderno 2”, que não confirmava a nomeação. “Estou chegando, não tenho condições de confirmar nada. Nem tive a primeira reunião com o prefeito”, disse. Ainda assim, pessoas ligadas ao maestro, falando com a condição de anonimato, garantem sua nomeação: ele está na Europa e volta no começo da semana que vem a São Paulo, quando terá sua primeira reunião de trabalho com Ferreira e o prefeito. Em meio a tudo isso, escrevi um pequeno texto sobre os desafios do novo diretor. Para quem ainda tiver estômago nesse começo de ano, lá vai.
A escolha do maestro John Neschling para dirigir o Teatro Municipal carrega a expectativa de que, agora no universo da ópera, ele possa repetir a reestruturação realizada na Osesp, responsável pela redefinição da cena sinfônica brasileira. Ainda assim, os contextos que ele encontrou na orquestra, no final dos anos 90, e vai encarar agora no Municipal são diferentes.
Em 1997, a Osesp era uma orquestra maltratada por anos de falta de apoio e incentivo, acabara de perder um diretor carismático e respeitado, o maestro Eleazar de Carvalho, não tinha sede própria e nem mesmo todas as vagas preenchidas. O Teatro Municipal, por sua vez, vem de três sólidos projetos artísticos: Ira Levin reciclou o repertório da companhia; Jamil Maluf investiu em cantores brasileiros e em trabalhos de infraestrutura, com a construção da central técnica de produção e a reforma do palco e do prédio; e Abel Rocha, por sua vez, investiu em uma linha de vanguarda de encenação.
Neschling herda um teatro reformado, com um palco de tecnologia moderna e, mais do que isso, a Praça das Artes, enorme complexo cultural que vai abrigar salas de ensaio para os corpos estáveis do teatro, liberando o palco para espetáculos, além de biblioteca, salas de concertos (como a do antigo Conservatório Dramático Musical) e as escolas municipais de bailado e de música. Trata-se, em outras palavras, de um complexo que pode ganhar importância comparável no cenário cultural à Sala São Paulo. O que não quer dizer que não haja muito a ser feito do ponto de vista artístico – a Sinfônica Municipal, por exemplo, orquestra profissional do teatro, ainda apresenta desempenho irregular, longe do que se espera dela.
Mas o maestro recebe também uma outra herança, essa relativa à questão administrativa, que evoca os fantasmas que foram responsáveis pela interrupção precoce dos projetos artísticos de Levin e Maluf: a busca por um modelo profissional de gestão. Em 2012, foi aprovado o projeto que transforma o Teatro Municipal em uma fundação de direito público. Mas a fundação não foi instituída oficialmente: a Secretaria Municipal de Cultura não encontrou oficialmente uma organização social interessada em realizar sua gestão.
Com isso, o teatro vive hoje em uma espécie de limbo administrativo, sem que os artistas possam ser contratados por CLT, o que se resolveu, neste início de ano, com a assinatura de contratos provisórios de trabalho. Além disso, o ex-prefeito Gilberto Kassab nomeou, há três semanas, Bia Amaral, diretora do Municipal durante boa parte de sua gestão, como diretora geral da fundação, o que causou surpresa no meio musical paulistano. Esta nomeação será mantida? John Neschling trabalhará com ela? O formato de fundação será mantido? A contratação de John Neschling é um passo importante, e tem tudo para voltar a agitar a cena musical brasileira. Mas isso só poderá acontecer na medida em que forem encontradas respostas a essas perguntas.
O ano novo começou cedo. Antes mesmo do Natal, nossos olhos e ouvidos já se voltavam ao que vem por aí. Justo, afinal não faltam motivos para expectativas. O que acontecerá no Teatro Municipal de São Paulo? John Neschling estará de volta à cena musical brasileira? E o Rio, vai acordar do pesadelo da temporada passada? Que consequência poderá ter a crise de relacionamento entre diretor artístico e músicos na Osesp?
O blog estará de olho em tudo isso. Mas, se é para pensar em uma mensagem de ano novo, por que não imaginar um mundo musical que, sem ignorar suas questões internas, olhe mais para fora, em direção ao público – e à contribuição que pode dar à vida em sociedade? A política é, claro, parte incontornável de um setor muito ligado ao poder estatal. Mas se resumir a ela é redutor. E, enquanto isso, perdemos a chance de assumir um desafio amplo e estimulante em época de transformações tão rápidas: como devolver à ópera e aos clássicos a relevância que, sabemos e acreditamos, eles podem ter no debate cultural?
Passado e futuro, de certa forma, existem apenas como projeções de um presente que busca, a todo instante, uma noção de identidade. Nesse sentido, não falta tradição – e muito menos novas possibilidades – para se pensar em um cenário musical mais rico, aberto e dinâmico.
A gente se fala em 2013!
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