João Luiz Sampaio

O diário pela Itália ficou pela metade, mas é porque apenas agora começo a organizar um pouco as impressões. O ritmo foi frenético, uma cidade por dia. E, nessa toada, é como se as experiências ficassem sempre em suspenso, quando começavam a se firmar na mente logo eram substituídas por novas sensações. Seguimos do norte ao sul, de Milão à Sicília. Dizer que o caminho revelou uma imensidão de cores e sabores talvez seja repetir apenas o óbvio. Mas, na estrada, entre uma região e outra, um país ia se descortinando – há algo de fascinante no trajeto, às vezes mais do que no ponto de partida ou de chegada. Lembro de, há dois anos, conversar no aeroporto em Guarulhos com o maestro Ira Levin sobre isso. Embarcávamos então para a Coreia do Sul, onde a Sinfônica de Brasília faria algumas apresentações. Enquanto contemplávamos a longa viagem que viria, Ira imaginava como teria sido na época de Liszt esses trajetos, cortando toda a Europa em longas turnês sem a comodidade do avião. Mas, por mais que as agruras da viagem fossem grandes, pensávamos que nos deslocamentos muito era gestado e criado, as sensações se solidificavam, criavam novos estados da mente. A conclusão foi de que o mundo ficou pequeno demais. Nas poucas horas de estrada na Itália, porém, as cidades pareciam um pouco mais distantes – e a capacidade de cada região de manter as suas características originais, seus coloridos, sua relação especial com a natureza, tudo isso surpreende e encanta. E, ao mesmo tempo, te deixa num limbo esquisito. Há pouco tempo para contemplar as paisagens, mas elas, horas, dias depois, tomam a mente de assalto. Enfim, a paisagem campestre da Sardegna…e a culinária!; reencontrar Roma e o seu caos, nas ruas, nas paisagens que se revelam a cada beco; na Sicília, pelas pequenas vilas no pé do Etna, cantarolando na mente a “Cavalleria Rusticana” (aliás, como é interessante a relação da população com o vulcão, ou “A Montanha”, como eles chamam: é como se fosse um companheiro vivo, a quem se teme e admira ao mesmo tempo). Aos poucos vou digerindo tudo isso. E estar acompanhado de artistas plásticos, claro, oferece um outro olhar a tudo. Mas aí já entro no tema da matéria que logo vou ter que escrever para o caderno de Viagem. Antes de ir, no entanto, volto ao tema do último post – Verdi. Em todas as cidades em que passei, encontrei alguma referência a ele; onde havia teatros, suas óperas estavam no programa; onde não havia, como num pequeno vilarejo da Calábria, escutei duas vezes o “Va Pensiero”, do “Nabucco”, no violino de um artista de rua e em uma pequena loja de souvenirs, que repetia sem parar o coro. “E o que eu ouviria?”, me disse o dono, um senhor de sorriso largo, quando perguntei sobre a trilha sonora. De volta a Milão, ontem, antes de embarcar para o Brasil, me perdi no prazer de caminhar pelo centro da cidade e, quando vi, estava na Via Giuseppe Verdi, cortada a certa altura pela Via Arrigo Boito, ao lado da praça Victor de Sabata. Virando a esquina, caí de novo no Scala, onde acabei comprando um volume duplo que reúne toda as cartas e libretos de Verdi. Para nós operários, é como estar em um parque temático a céu aberto, não?

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Desde terça-feira estou na Itália, fazendo uma matéria para o suplemento de Viagem do jornal. Estou acompanhando quatro artistas brasileiros convidados pelo Ministério do Turismo da Itália a criar obras inspiradas no país: Antonio Peticov, Zélio Alves Pinto, Claudio Tozzi e Caciporé. É um grupo interessante – e divertido. E logo, prometo, conto mais sobre isso. Antes, um pouquinho de música, que ninguém é de ferrro. Chegamos em Milão, seguimos para Como, em seguida Curmayer; ontem Torino e, hoje à tarde, San Margherita de Liguria. Será assim até quinta que vem, uma cidade por dia. Em Torino, conheci hoje cedo o Teatro Regio, reconstruído depois de um incêndio, se não me engano, nos anos 80. Mas fiquei mesmo encantado com uma lojinha ao lado, Augusta, fundada em 1892, que hoje vende discos e DVDs. Estava fechada para o almoço, mas a vitrine me deixou com água na boca, com uma série de CDs (piratas, talvez?) de óperas gravadas não apenas em Torino como em outras cidades italianas. Callas, Tebaldi, Corelli, Di Stefano, Gobbi – enfim, aquela turma. E fiquei curioso principalmente com um “Werther” cantado por Alfredo Kraus e…Regine Créspin! Isso deve ser realmente interessante – mas a correria para o deslocamento entre as cidades me impediu de esperar a reabertura da loja. De qualquer forma, comecei o post pensando na verdade em falar de Verdi. Antes de embarcar, no domingo acompanhei um concerto dedicado a ele no Teatro São Pedro, com Gabriella Pace e Rodrigo Esteves (a crítica você lê aqui). Certa vez pedi ao Sergio Casoy, provavelmente na mesa de restaurante de algum festival de ópera Brasil afora, que me definisse o que fazia de Verdi algo tão importante e interessante. Nunca me esqueci da resposta: “Verdi é como o macarrão da mamma”. Perfeito, não? Durante o concerto pensava nisso: como sua música é familiar, soa nossa, e ao mesmo tempo não deixa de surpreender em seu poder dramático e narrativo, seja nas óperas do início da carreira, seja nas do final. Por aqui, tenho visto Verdi em todo o canto, afinal em 2011 se comemoram os 150 anos da reunificação italiana, que teve em Verdi um de seus pilares. A temporada do Teatro Regio anuncia: “Sempre Verdi”, com I Vespri Sicilianni, Nabucco, Rigoletto e La Traviata; no ano que vem, Macbeth, Ballo, Simon. Não sei ao certo o quanto Verdi ainda faz parte do imaginário nacional – se ainda é um símbolo de fato ou apenas a lembrança de algo ensinado na escola. Mas confesso que, na varanda, contemplando o mar da Liguria, próximo a Gênova, ouvindo Simon Boccanegra, dá vonta de gritar, como os revolucionários de 150 anos atrás: VIVA VERDI!

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Há quem diga que, no friozinho, nada melhor do que ficar em casa, com um bom filme, largado no sofá. Nada contra. Mas eu particularmente acho dias cinzentos perfeitos para bons programas musicais. E, neste fim de semana, são várias as possibilidades, para todos os gostos.

Orquestra Experimental de Repertório/Foto Divulgação

Homenagem a Liszt - O maestro Jamil Maluf e sua excelente Orquestra Experimental de Repertório fazem na manhã de domingo, na Sala São Paulo, um concerto em homenagem a Liszt. Amaral Vieira sola a “Fantasia sobre Melodias Folclóricas Húngaras” do compositor, de quem também serão interpretados “Os Prelúdios”. Na segunda parte, as “Variações Enigma”, de Elgar. Entrada franca.

A soprano Gabriella Pace/Foto Divulgação

Árias e duetos - A Sinfônica do Teatro São Pedro, sob regência de Emilio De Cesar, oferece amanhã (20h30) e domingo (17h) um programa para amante da ópera nenhum botar defeito. Dois grande solistas brasileiros – a soprano Gabriella Pace e o barítono Rodrigo Esteves – fazem uma homenagem a Giuseppe Verdi. Cantam árias e duetos de óperas como “La Traviata”, “Don Carlo”, “Macbeth” e “Rigoletto”. Os ingressos têm preço convidativo: R$ 20.

A soprano Caroline de Comi/Foto de João Caldas/Divulgação

Lucia di Lammermoor - Os principais trechos da ópera de Donizetti serão interpretados a partir das 12 horas de domingo na Hebraica, com direção de Mauro Wrona, que há alguns anos se dedica à montagem de interessantes versões pocket de algumas das principais obras do repertório. Encabeçando o elenco estão a soprano Caroline de Comi e o tenor Giovanni Tristacci; ao piano, Rafael Andrade – todos jovens artistas que têm dado mostras de grande talento. Entrada franca.

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O tenor Plácido Domingo foi convidado a fazer um concerto no Cristo Redentor, no Rio, no começo do segundo semestre, ao que parece em homenagem à beatificação do papa João Paulo II. Cobrou cachê de US$ 500 mil, mais um jato que o trouxesse – e a uma comitiva de 20 pessoas – ao Rio e o levasse de volta para Europa ou Estados Unidos. Aparentemente, os produtores ficaram horrorizados com as exigências – e desde ontem, na internet, jornalistas e leitores tem denunciado o “absurdo” da conduta do tenor espanhol. Bom, fui conversar aqui com o pessoal do pop no Caderno 2. Ao que parece, o U2 cobrou recentemente US$ 7 milhões por show feito no Brasil – com direito a entourage de mais de cem pessoas. E duvido que estrelas como Paul McCartney, que aliás está chegando ao País, cobrem quantias muito menores. Daí, me pergunto: o que há de tão indecente no cachê pedido por Plácido Domingo? Ok, a fama dele não é tão grande quanto a dos colegas do pop, mas ainda assim não estamos falando de um artistas qualquer. De qualquer forma, a coisa não poderia ser mais simples? Ué, o cara cobra o valor dele; se quiserem, paguem; se não quiserem, não paguem. Agora, alguém me explica porque Domingo pedir US$ 500 mil por um concerto é “imoral”, como andam sugerindo por aí?

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Foi aprovado ontem na Câmara de Vereadores o projeto que transforma o Teatro Municipal em uma fundação. A notícia completa, assinada por Diego Zanchetta, você lê aqui. E, abaixo, reproduzo o pequeno comentário que escrevi para a edição de hoje do caderno Metrópole sobre a mudança.

FOTO DE ROBSON FERNANDJES/AE

A criação da Fundação Teatro Municipal é o primeiro de uma longa lista de passos a serem dados na sua reformulação. Recentes experiências, na esfera estadual, não deixam dúvida: a burocracia estatal e a dinâmica da produção artística não são boas companheiras e separá-las pode ser benéfico. Ainda assim, há especificidades a serem consideradas. A relação de uma instituição pública transformada em fundação e a esfera estatal se dá por meio de contrato firmado entre Estado e uma organização social, entidade civil sem fins lucrativos, responsável pela gestão. É ele que rege, por exemplo, a relação da Fundação Osesp e o governo do Estado, definindo verbas e deveres e direitos de ambos os lados. Como a Osesp é uma fundação privada de Direito Público, ela própria é a sua organização social, gere a si mesma. No Municipal, a fundação será pública, precisará firmar contrato com outra organização social. Esse seria o primeiro passo a ser dado agora. A dúvida é se esse formato dará de fato liberdade ao teatro ou vai perpetuar a influência de trocas políticas na programação, impedindo projetos a longo prazo – afinal, o secretário Municipal de Cultura, segundo o projeto, vai presidir o conselho de administração da fundação. Além disso, com conselhos, comissões, núcleos, etc, continua à espreita o fantasma do aparelhamento político do teatro e sua administração. Fato, porém, é que, ao menos conceitualmente, a fundação pode resolver essa questão, assim como o caos contratual dos artistas, além de dar maior liberdade na captação de patrocínios. Mas não o fará em passe de mágica. Haverá vontade política para garantir uma dotação orçamentária condizente com a necessidade do teatro nos próximos anos? E, como ela será usada. No final das contas, não custa voltar a princípios básicos: antes de se criar a estrutura ideal para realizar um projeto artístico, é preciso saber que projeto é esse. E isso, ao menos até agora, hesitante com a programação e com quatro diretores artísticos nos últimos anos, a atual gestão não mostrou.

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MANAUS – No coração da capital amazonense, o Clube Ideal forma ao lado do Palácio da Justiça e do Teatro Amazonas um pequeno eixo de memória da Manaus da passagem do fim do século 19 para o 20, alimentada pelo auge do comércio da borracha. Ao longo de décadas, foi palco de festas, encontros, apresentações de orquestras populares. Na manhã de segunda-feira, no entanto, era outra a trilha sonora vinda de seus salões. Acompanhada ao piano, a soprano Eliane Coelho interpretava o primeiro ato de Tristão e Isolda, de Richard Wagner, observada de perto pelo diretor André Heller, acertando os detalhes da montagem que estreia no dia 19 e é o destaque da edição deste ano do Festival Amazonas de Ópera.

A cena seria inusitada se Manaus não tivesse, ao longo dos últimos 15 anos, se tornado o principal polo produtor de ópera do País. Em sua 15.ª edição, o Festival Amazonas deslocou o foco do gênero da região sudeste. E o fez, entre muitas produções, justamente por meio da obra de Wagner – a interpretação da tetralogia O Anel do Nibelungo, a primeira produzida inteiramente no País, consolidou a fama e deu visibilidade internacional ao evento. Fazer Tristão e Isolda seria uma evolução natural – e é um sonho antigo do diretor artístico, o maestro Luiz Fernando Malheiro. Faltava um ensejo, oferecido agora pelo aniversário de 15 anos do evento.

“O primeiro ato se articula em torno de um espelho”, explica o diretor André Heller, responsável pela encenação da ópera, enquanto cruza o Largo de São Sebastião em direção ao ensaio. “É como se os demais personagens fossem representações de elementos da personalidade de Isolda, que se torna a figura central. Aliás, quando se tem uma cantora como Eliane Coelho no elenco, temos mesmo é que aproveitá-la, não?”, brinca.

A 15.ª edição do Festival Amazonas começou na semana passada com duas novas produções: Suor Angelica, de Puccini, e Diálogo das Carmelitas, de Poulenc. A temática religiosa aproxima os títulos, mas os espetáculos apontam para dois momentos distintos da história do evento.

“Era um teatro secular que, a despeito de sua grandeza, vivia até então mais de memória da belle époque que de arte”, anota o secretário de Cultura do Amazonas Robério Braga, no cargo desde o nascimento do festival, quando se refere ao Teatro Amazonas. Foi com esse intuito que nasceu a Amazonas Filarmônica e, em seguida, o festival de ópera – tentando esboçar uma nova realidade na produção cultural do Estado.

Isso levou à necessidade de um equilíbrio nem sempre fácil de alcançar, entre produtores e artistas de outras praças e forças locais, que não estavam acostumadas com as demandas específicas de um evento do porte de um festival de óperas. Ao longo dos anos, no entanto, uma das consequências principais do evento foi começar a estabelecer uma nova cultura operística e musical em Manaus. “Muitos cantores da nova geração do canto lírico brasileiro tiveram suas primeiras oportunidades aqui e muitos cantores renomados e com carreiras já consolidadas nos prestigiaram”, diz o maestro Luiz Fernando Malheiro, diretor artístico do Festival Amazonas e da Amazonas Filarmônica, criada em meados dos anos 90 por Júlio Medaglia e, então, composta principalmente por músicos vindos do Leste Europeu. “Por outro lado, muito se alcançou no âmbito social quando conseguimos trazer toda a produção para Manaus, com uma central técnica das mais importantes no cenário brasileiro hoje”, completa.

É nesse contexto que se dá a importância da produção de Suor Angelica, que levou ao Teatro Amazonas os músicos da Orquestra Experimental da Amazonas Filarmônica, composta por alunos e jovens músicos formados, em sua maioria, por artistas da orquestra profissional, professores do Liceu de Artes e Ofícios Claudio Santoro; e jovens cantores amazonenses, uma primeira “geração local”, pode-se dizer, a chegar ao palco depois da criação do festival.

O resultado ainda é desigual. Sob regência do jovem maestro argentino Federico Victor Sardella, a Orquestra Experimental ainda busca uma identidade sonora mais sólida – e a direção cênica de Maria Lúcia Gurgel, aluna da Academia de Ópera de Verona, na Itália, não consegue quebrar o caráter estático da narrativa em um ato sobre a mulher que, após ser separada do filho, busca refúgio em um convento onde, anos mais tarde, será comunicada da morte da criança, resolvendo então tirar a própria vida, contrariando toda a doutrina que jurara defender.

Mas, no conjunto, a importância da iniciativa fica evidente nas palavras de um personagem como a soprano francesa Isabelle Sabriè, que também participou da produção da ópera de Puccini. Ela esteve em Manaus pela primeira vez em 2009, a convite do festival. E não voltou mais para a França – a não ser para acertar os detalhes da sua mudança para a capital amazonense. “Foi o chamado da selva”, ela brinca, sorrindo, enquanto conversa com a imprensa à mesa de uma pizzaria ao lado do Teatro Amazonas. “Ajustes sempre podem ser feitos, claro. Mas, apenas 15 anos depois de criado um festival em uma praça que havia muito tempo não se dedicava à ópera, poder levar ao palco toda uma produção de uma ópera complicada como Suor Angelica, praticamente só com artistas locais, é uma grande conquista. Há vozes muito interessantes no elenco, talentos a serem observados”, diz. Isabelle – vencedora do Concurso de Canto Plácido Domingo de 1994 e dona de uma importante carreira internacional, com gravações realizadas em praças como Paris, também é compositora. E conta que tem trabalhado em peças complexas, nas quais busca identificar um sentido rítmico coerente nos diversos ruídos da selva amazônica. O que ela sugere, basicamente, é a existência de uma lógica especial que se compõe a partir de diversos elementos. Quinze anos depois, o mesmo poderia ser dito do Festival Amazonas.

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MANAUS – Em uma das cenas mais fortes da ópera “Diálogo das Carmelitas”, a madre superiora questiona em violento delírio, pouco antes de morrer, o sentido de sua vida de devoção, a existência de Deus e o significado da morte. A passagem oferece uma possibilidade de leitura para a obra, que narra a história de irmãs carmelitas forçadas, em meio à Revolução Francesa, a abandonar o hábito, sendo levadas à forca. O que teria atraído nessa trama o compositor Francis Poulenc e o escritor Georges Bernanos, autor do roteiro que acabaria se tornando o libreto da ópera? É bem provável, na Europa do pós-guerra, que a sensação de quebra de certezas e a oposição entre liberdade individual e vida em sociedade, além, claro, do forte caráter religioso dos autores. Na sucessão de cenas criadas por Bernanos, tudo é intenso, dos questionamentos de Blanche ao procurar o convento à cena final, passando pelos conflitos individuais das irmãs. Por isso mesmo, é acertada a decisão do diretor William Pereira de abrir mão de toques épicos em nome de uma concepção que flerta com o minimalismo, trabalhando em cima de cenários funcionais que ressaltam de modo sensível o drama. Sua concepção nasce da música e se transforma em teatro. Por sua vez, o maestro Marcelo de Jesus retira da Amazonas Filarmônica todo o seu potencial expressivo, em uma leitura eficiente na criação dos momentos centrais do drama e permitindo aos cantores que explorem a riqueza vocal de seus papeis. O elenco, homogêneo, foi responsável por grandes momentos de canto na récita de domingo, com destaque para a meio-soprano Denise de Freitas e as sopranos Isabelle Sabriè, Gabriella Pace, Michelle Cannicioni e Ruth Staerke, como a madre superiora. Entre os homens, o tenor Flávio Leite, de timbre bonito, soube recriar com habilidade a figura do irmão de Blanche, preso entre o apego aos valores em decadência da classe dominante e o carinho pela irmã, a quem quer proteger.

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