ir para o conteúdo
 • 

João Luiz Sampaio

FOTO: J.F.DIORIO/AE

Na prisão em que se passa o terceiro ato de “O Morcego”, um cartaz com a foto de procurados pela polícia lista meliantes como Wolfgang Amadeus Mozart, Richard Wagner e Giuseppe Verdi. Na brincadeira do diretor William Pereira, na nova montagem da obra de Johann Strauss II que encerra a temporada lírica deste ano do Teatro Municipal, está clara a proposta do espetáculo, em consonância com o próprio espírito das operetas, ou seja, ser um contraponto à tradição da ópera séria. Em sua divisão entre números cantados e falados, o gênero oferece de fato maior liberdade para adaptações no texto. E, nesse sentido, montagens contemporâneas, como a de Pereira, que tiram a história original da Viena do fim do século 19, podem funcionar particularmente bem – em especial quando incorporam temas recentes da vida social e cultural, como a polêmica em torno da “gente diferenciada” (no caso da estação do metrô em Higienópolis), a recente montagem de “A Valquíria”, de Wagner, encenada no próprio Teatro Municipal, ou a onda de musicais que invadiu o País nos últimos anos (o ponto alto do espetáculo, com arranjo bem-humorado de Miguel Briamonte). No geral, porém, a concepção de Pereira parece levar a sério demais a obrigação de fazer graça – e de ironizar com o próprio mundo da ópera, recorrendo a piadas redundantes sobre a política nacional e a uma profusão de referências e elementos cênicos que matam a espontaneidade do espetáculo, passam como trator sobre os arquétipos e estereótipos com o qual o compositor lida e deixam pouco espaço para a improvisação de um time de notáveis intérpretes cômicos da ópera brasileira. São eles, ainda assim, que garantem os melhores momentos do espetáculo, com destaque para o Alfred de Rubens Medina, a Adele de Edna D’Oliveira, a Ida de Carla Cottini, o Eisenstein de Fernando Portari, o Dr. Blind de Paulo Queiroz e o Orlovsky de Regina Elena Mesquita. Musicalmente, a leitura de Abel Rocha, à frente da Orquestra Sinfônica Municipal, tem bons achados de dinâmica e é, em geral, fluida, dando ritmo ao espetáculo, o que é fundamental. No entanto, bons momentos, como o trio de Rosalinde, Adele e Einsenstein, no primeiro ato, e, durante a festa promovida por Orlovsky, o pot-pourri de musicais e a cena final, convivem com outros nos quais a interpretação carece de certo brilho e coesão entre cena e fosso, o que com certeza pode ser aperfeiçoado ao longo da temporada, assim como a utilização de microfones, que não impede que muitos diálogos sejam inaudíveis.

comentários (2) | comente

12.dezembro.2011 11:08:25

Au revoir, Tortelier

A maestrina norte-americana Marin Alsop assume oficialmente em janeiro de 2012 o posto de regente titular da Osesp – e a expectativa é ver em que direção ela vai conduzir o grupo a partir de agora. Antes, porém, é preciso se despedir de seu antecessor, o francês Yan Pascal Tortelier – o que a orquestra faz esta semana, em quatro concertos. O repertório das apresentações tem desde o Bolero de Ravel até o Clair de Lune, de Debussy, passando por trechos da Carmen de Bizet e a Meditação da ópera Thaïs, de Massenet – tudo sob o tema “Délices de France”. Ao lado de compositores ingleses, e de um ou outro autor da virada das primeiras décadas do século 20, é este o território em que Tortelier se sente mais à vontade – ao menos, foi o que se viu ao longo de seus dois anos como regente titular. Tortelier chegou à Osesp no início de 2010. Difícil imaginar momento pior para um maestro iniciar relação com sua orquestra: substituiu um antecessor, John Neschling, querido pelo público, sabendo, já de antemão, que seu mandato duraria apenas o tempo necessário para que fosse encontrado um novo regente titular. Tortelier, assim, encerra seu mandato sem deixar grandes marcas artísticas no grupo, seja no que diz respeito ao repertório, seja no refinamento de sua sonoridade. As atenções durante os últimos dois anos, afinal, estavam mesmo voltadas para as dezenas de maestros convidados, entre os quais estaria possivelmente seu substituto. Mas, justiça seja feita, sua saída marca o primeiro processo de sucessão pacífico da história da Osesp. Cinquenta anos depois, é bom motivo para festa.

1 Comentário | comente

Um príncipe macambúzio resolve cair na gargalhada justamente ao ver a Fada Morgana tropeçar e ir ao chão. A punição: precisa partir em busca de três laranjas guardadas por uma cozinheira má e sua temível colher. A trama parece absurda; é absurda – mas por isso mesmo faz de O Amor das Três Laranjas uma das obras mais especiais do repertório lírico da primeira metade do século 20. Nela, Prokofiev faz uma sátira ao universo dos contos de fada – e de quebra estabelece uma linguagem musical diversificada e bem-humorada. A obra foi apresentada no domingo no Teatro Municipal do Rio, em um concerto cênico que encerrou a temporada da Orquestra Petrobrás Sinfônica, sob regência de seu diretor musical Isaac Karabtchevsky. O maestro, interpretando uma partitura de 1919, está em seu ambiente – a música da virada do século 19 para o 20 – e conduz o espetáculo com segurança, articulando as diversas referências musicais de Prokofiev e mantendo um discurso coeso e coerente. A Alberto Renault coube a direção do espetáculo, na verdade, apenas a sugestão de alguns elementos cênicos, trabalhados de modo eficiente em diálogo com a iluminação de Russinho. O grande trunfo de seu trabalho, no entanto, é o trabalho dos atores. Seria fácil cair em uma fórmula histriônica – o enredo com certeza possibilitaria isso. O segredo, no entanto, é acreditar o suficiente na história para manter no ar o absurdo que ela carrega – sem, claro, a levar demais a sério. O diretor parte do pressuposto de que o absurdo não significa necessariamente exagero. Nos figurinos, permite-se comentários mais soltos e bem-humorados, mas mantém, no trabalho de atores, a dose exata de seriedade, humor e ironia. Nesse sentido, o ponto alto do espetáculo é a entrada em cena da cozinheira, interpretada com maestria pelo baixo Pepes do Valle. De certa forma, todo o absurdo e a delícia da história cabem ali, naqueles poucos instantes de música. No elenco bastante homogêneo, cabe destacar ainda a atuação de Marcos Paulo, como o Príncipe; da soprano Lina Mendes e das meios-sopranos Carolina Faria e Carla Odorizzi como as laranjas; do barítono Leonardo Páscoa, como o Feiticeiro; da meio-soprano Luisa Francesconi como Clarice; do barítono Vinicius Atique, como Pantelon; da soprano Gabriela Rossi, como Morgana; e do tenor Sergio Weintraub, como Truffaldino.

comentários (3) | comente

Foto de Ernesto Rodrigues/AE

Um bando de senhores sisudos, de barbas brancas e longas, debruçados sobre pilhas de partituras empoeiradas e maltrapilhas. Para muitos, esta é a imagem que vem à mente quando se pensa no processo de recuperação da música antiga e barroca. Mas ela nada tem a ver com o violinista Luis Otávio Santos, entre nós um dos principais especialistas a se dedicar a este repertório. “A rigidez é bobagem”, ele diz. “Nos anos 60, quando surgiu, o movimento de resgate desse período era como a contracultura do establishment musical. Voltar aos barrocos era voltar à adolescência da música, com todo seu caráter de contestação.”

A trajetória de Santos o coloca ao lado de muitos dos mestres do que se convencionou chamar de Música Historicamente Informada, movimento que, a partir dos anos 60, buscava se aproximar das práticas de interpretação da época em que as obras foram escritas, o que levaria a execuções de caráter mais “autêntico”. Nascido em Juiz de Fora, estudou violino desde cedo e, com o apoio dos pais, começou a especialização no repertório barroco, atuando na orquestra do Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga da cidade. Mudou-se para a Holanda no começo dos anos 90, para estudar no Conservatório de Haia com Sigiswald Kuijken e passou a integrar grupos de excelência como La Petite Bande e a Nederlandse Bachverening de Gustav Leonhardt.

Ao longo dos anos, a MHI ganhou caráter rígido – passou a ditar regras sobre a música de autores barrocos, reivindicando exclusividade nas interpretações de suas obras. Pesquisadores e maestros reuniram-se em um gueto que, lembra Santos, nada tem a ver com a proposta original do movimento. “O fundamentalismo é uma bobagem, leva à mediocridade. Do ponto de vista artístico, a proposta era outra, a base de tudo era o amor pela música, pela partitura, a compreensão de que somos instrumentos. Quanto mais se ama a música, mais se dedica a ela e, portanto, mais se conhece sobre o que ela tem a nos dizer. No começo do século 19, houve uma padronização no ensino e na interpretação musical. O que aconteceu nos anos 60 foi uma tentativa de romper com isso. Há várias tradições, há várias maneiras de se tocar uma partitura. O primeiro ponto em direção à autenticidade é a aceitação da diversidade.”

Há cinco anos, Santos deixou um posto de professor no Conservatório de Bruxelas e resolveu voltou ao Brasil. Aos 39 anos, com dois filhos, sentiu desejo de estar aqui. Volta à Europa frequentemente, onde se apresenta como maestro e solista. Em 2004, ganhou o prestigiado prêmio Diapason D’Or com a gravação, ao lado de Alessandro Santoro e Ricardo Miranda, das sonatas de Jean-Marie Leclair (Ramée). Por aqui, criou o núcleo de música antiga da Escola de Música do Estado de São Paulo. “Foi o primeiro curso regular dedicado a essa linha aqui no Brasil, onde havia apenas iniciativas pontuais.” Hoje, Santos dirige o festival de Juiz de Fora e sua Orquestra Barroca, com a qual acaba de lançar um novo disco, com obras de Rameau, Geminiani e Lobo de Mesquita. “Chegar ao 12.º disco é uma vitória para nós. E a ideia, aqui, foi colocar lado a lado pilares do repertório barroco e uma peça colonial brasileira. Rameau e Geminiani, francês e italiano, são representantes das duas principais escolas do barroco. Já Lobo de Mesquita está muito ligado ao papel social que a música tinha no Brasil Colônia, com um caráter às vezes mais simplório, feita em um contexto precário, de autodidatas. Ter isso em mente é fundamental para colocar as coisas em seus devidos lugares e, a partir daí, descobrir a genialidade de nossos autores.”

Tanto no festival quanto na Emesp, Santos vê animado um interesse cada vez maior por jovens músicos pela música antiga e barroca. “Voltar aos barrocos é, em certa medida, romper com o cânone do século 19 e isso agrada ao jovem músico, inquieto por natureza”, ele diz. “E, no fundo, isso dá ao músico erudito um caráter mais abrangente, livre, enérgico, e isso vai influenciá-lo ao longo de toda a carreira. É disso, mais do que tudo, que precisamos.”

sem comentários | comente

Os pianistas Lang Lang e Evgueni Kissin, a soprano Renée Fleming e o Ensemble Intercontenporain de Pierre Boulez são algumas das atrações que a Sociedade de Cultura Artística trará ao Brasil no próximo ano, quando completa seu centenário. Serão, ao todo, 20 concertos, realizados na Sala São Paulo, enquanto o novo teatro não fica pronto, o que deve acontecer apenas em 2014. “Montar uma programação de centenário é uma responsabilidade enorme”, diz Gerald Peret, superintendente da Sociedade de Cultura Artística, onde trabalha há 32 anos, “quase um terço da nossa história”, brinca. “E houve uma complicação a mais, que é o momento de crise na Europa. É comum que artistas e orquestras venham ao Brasil com uma ajuda de custo, subsídios, o que tem deixado de acontecer. Por conta disso, foi necessário nos cercar de seguranças para que os grupos anunciados pudessem mesmo vir, sem risco de cancelamentos no ano do centenário.” A programação será aberta no fim de abril com a Orquestra Nacional da Rússia, regida por José Serebrier, e o pianista Nelson Freire como solista. No programa, Mozart, Glazunov, Rachmaninoff e Dvorak. Em seguida, em maio, apresenta-se a Orchestre National du Capitole de Toulouse, um dos principais conjuntos franceses, com o maestro Tugan Sokhiev, russo que está entre os mais badalados maestros da nova geração – eles vão interpretar um programa francês (Debussy, Ravel e Berlioz) e outro russo (Mussorgsky e Prokofiev). O primeiro recital solo será o do chinês Lang Lang, no fim de maio, com peças de Bach, Schubert e Chopin. O russo Evgueni Kissin, em seguida, toca Schubert, Beethoven, Brahms, Chopin. Em julho, o Ensemble Intercontemporain, símbolo de excelência da dedicação à música contemporânea, volta ao Brasil depois de quase duas décadas. Seu criador, o maestro Pierre Boulez, não acompanha o grupo que, no entanto, traz a atriz Fanny Ardant para participar do espetáculo Cassandre, de Michael Jarrell. Na sequência, duas sinfônicas – a Orchestra della Svizzera Italiana (obras de Honneger, Chopin e Schubert, regência de Alexander Vedernikov e solos de Dang Thai Son) e a Orchestra del Maggio Musicale Fiorentino (obras de Bruckner, Verdi, Ravel e Beethoven e regência de Zubin Mehta).Três recitais encerram o ano. Joyce Di Donato canta Haendel, Mozart, Rossini e Reynaldo Hahn com o pianista David Zobel; a violoncelista Sol Gabetta toca Schumann, Beethoven e Shostakovich com a pianista Mihaela Ursuleasa; e a soprano Renée Fleming interpreta canções e árias de Brad Mehldau, Strauss, Korngold, Puccini e Leoncavallo.

1 Comentário | comente

Fontes ligadas ao Teatro Municipal dão uma pista do que vem por aí em 2012.
Nada ainda está confirmado, mas já se fala em nove títulos.
Abaixo, uma lista prévia.

– “Rigoletto”, de Verdi
– “L’Enfant et les Sortilèges”, de Ravel
– “Otello”, de Verdi
– “La Traviata”, de Verdi
– “Boulevard Solitude”, de Henze
– “Pelléas et Melisande”, de Debussy
– “Cosi Fan Tutte”, de Mozart
– “Magdalena”, de Villa-Lobos
– “Crepúsculo dos Deuses”, de Wagner

comentários (37) | comente

25.novembro.2011 13:50:47

Música, sonho e silêncio

Atrás de um biombo, para que o anonimato impeça qualquer tipo de avaliação tendenciosa, o jovem músico toca seu instrumento, enquanto, do outro lado, maestros e colegas mais experientes avaliam sua possibilidade de entrar ou não para uma orquestra. Anos de preparo se resumem a alguns minutos de música, em um momento de definição que é o tema de “Prova de Artista”, novo documentário de José Joffily, que acompanhou cinco jovens músicos em audições para a entrada em sinfônicas brasileiras.”Prova de Artista” é o terceiro de uma série de filmes em que José Joffily investiga a vocação. Em “O Chamado de Deus”, de 2002, acompanhou seis jovens seminaristas e sua dedicação à vida religiosa. Quatro anos mais tarde, com “Vocação do Poder”, documentou o cotidiano de seis políticos que pela primeira vez concorriam a um cargo público. E, agora, se debruça sobre os primeiros passos no mundo da música.O violinista americano Byron Hitchcock, músico da Filarmônica de Minas Gerais, tenta uma vaga na Sinfônica do Estado de São Paulo, mas acaba no Rio, na Orquestra Sinfônica Brasileira. Catherine Carignan, fagotista da orquestra mineira, se inscreve na prova da Osesp, mas sua vida tomará outros rumos. Ricardo Barbosa, oboísta do interior de São Paulo, tenta passar da Academia da Osesp para um posto profissional na orquestra. Rodrigo de Oliveira, violinista de São José dos Campos, resolve tentar a sorte em Minas, assim como o violista carioca Rodney Silveira, música da Sinfônica Brasileira Jovem.

A certa altura, o professor de Rodrigo sugere que entrar em uma orquestra é abandonar o sonho de ser solista. Não está fazendo nenhum julgamento sobre o que seria o mais indicado, parece muito feliz com o futuro do aluno. Mas, sem querer, oferece a amplitude de significados que rondam o momento – a audição para uma sinfônica – documentado por Joffily. Como, afinal, equilibrar, na mente de um jovem músico, a oposição entre o sonho da exposição propiciada pela carreira de solista e a atividade às vezes anônima em uma orquestra? Este é um aspecto que, como tantos outros, é explorado apenas rapidamente pelo diretor. A relação com os pais e a família; a formação musical feita no contexto da igreja; a dificuldade, psicológica ou mesmo financeira, que acompanha o jovem que resolve se dedicar a uma carreira na música; a solidão inerente à vida do instrumentista. São todos temas acessórios, que entram de contrabando na narrativa. No fundo, parece interessar menos ao diretor o contexto em que esses jovens se inserem e mais a maneira como se relacionam com a prova. É, afinal, nesse momento único e carregado de urgência que eles se mostram mais vulneráveis. Quando Rodrigo deixa o palco da Sala São Paulo, consciente de que não realizou uma boa prova, seu olhar questiona a certeza das palavras, com as quais tenta se convencer de que novas chances vão surgir. Catherine desiste da prova da Osesp, resolve ficar onde está, com sua família – e tenta (nos?) explicar que esta foi a melhor decisão. Ricardo, aprovado, não poderia estar mais feliz – e, nos mostra o olhar da câmera, assustado com o futuro que se desenha à sua frente. “Prova de Artista” não é um filme sobre música – antes, fala de juventude. Mas mostra que, assim como em qualquer interpretação musical, o silêncio – ou o não dito, voluntariamente ou não – às vezes pode se tornar a porção mais eloquente de uma partitura. Ou mesmo de um documentário.

sem comentários | comente

25.novembro.2011 13:41:42

Um guia para Mahler

No post dedicado à temporada da Osesp, Felipe pergunta sobre a programação de óperas em 2012. O fato é que ainda nada está confirmado. O Municipal, imagina-se, deve vir com temporada forte – ao menos é o que se espera dele. Depois da “Valquíria”, o “Anel” completo? Ao que tudo indica, ainda não, mas nos bastidores do teatro já se fala na realização de “O Crepúsculo dos Deuses”, a última ópera da tetralogia, o que seria boa notícia e manteria vivo o sonho do ciclo completo. No São Pedro, fala-se em um “Trovatore” para abrir o ano, mas o teatro está no meio de mudanças estruturais da Secretaria de Estado da Cultura e, portanto, ainda não se sabe ao certo qual será seu futuro, ainda que a ópera, ao que parece, deva ser mantida como atividade principal do espaço – o que é importantíssimo. Não há nenhuma confirmação ainda sobre temporadas de Municipal do Rio e Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Manaus tem ao menos um título totalmente confirmado: “Lulu”, de Alban Berg, que dividiria a programação com uma nova produção de “A Flauta Mágica”, de Mozart (em 2013, teremos “Parsifal”, de Wagner). Ah, não podemos esquecer também que está marcado para o próximo ano o retorno da Cia. Brasileira de Ópera, agora com “Madama Butterfly” e direção musical de Isaac Karabtchevsky. E, por enquanto, é isso.

comentários (3) | comente

Vejam só: a Filarmônica de Nova York tem encontrado enormes dificuldades para encontrar um novo diretor executivo. Zarin Mehta está no posto desde 2000 – e já avisou que sai ao final desta temporada. Segundo o New York Times, seis candidatos já declinaram. Motivos não faltam. O novo diretor vai precisar lidar com questões como a construção de uma nova sala, um déficit na casa dos milhões de dólares e a dificuldade de atrair grandes patrocínios – afinal, a filarmônica compete com outras instituições importantes, como o Metropolitan Opera House e o Carnegie Hall, isso para ficar no alcance de apenas alguns quarteirões em midtown Manhattan. Mas há também um problema de ordem artística embutido nessa história toda. O fato é que, desde a saída de Kurt Masur, em meados dos anos 2000, nem mesmo a chegada de Lorin Maazel conseguiu dar repercussão internacional à orquestra. As temporadas trazem, em geral, mais do mesmo, o que é mortal quando se compete com a programação alternativa de Nova York, com a agenda do Carnegie Hall que, no espaço de poucos meses, leva à cidade grupos como as filarmônicas de Berlim e Viena, a Orquestra do Mariinsky, ou mesmo com outros conjuntos americanos, que, apesar da crise, têm conseguido manter uma aura de novidade e excelência artística, como Baltimore e Cleveland. Com a contratação de Alan Gilbert, cria da casa, o primeiro nativo de Nova York a assumir a orquestra, duas temporadas atrás, imaginava-se estabelecer uma nova relação com a cidade. Ainda que isso leve ao risco de fazer da filarmônica um fenômeno apenas local, o que preocupa mais é que Gilbert, até agora, tem decepcionado, com leituras que raramente ultrapassam o rotineiro. Tive a chance de ver, nas últimas duas temporadas, três concertos dele com a orquestra, em que a diversidade de repertório (dos clássicos aos contemporâneos) sucumbe perante interpretações burocráticas e pouco atentas a sutilezas e contrastes. Tudo soa igual, tecnicamente perfeito, mas pouquíssimo inspirado. Ao novo diretor executivo vai caber também a tarefa de renovar ou não seu contrato, que vence daqui a pouco mais de dois anos. Não parece mesmo dos empregos mais atraentes…Ao mesmo tempo, porém, pode-se também fazer o raciocínio inverso – deve, afinal, ser estimulante poder pensar em refazer a imagem de uma orquestra tão tradicional à luz de um novo mercado, em plena transformação.

1 Comentário | comente

Arquivo

Blogs do Estadão