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João Luiz Sampaio

28.fevereiro.2010 15:19:05

Mindlin e a música

Enquanto o aguardava para uma entrevista, ele pediu que eu ficasse à vontade – e eu então me perdi por alguns instantes na biblioteca de sua casa no Brooklin. Devo ter ficado parado um bom tempo em frente a um dos míticos volumes de Guimarães Rosa, com anotações manuscritas do próprio autor, pois ele se aproximou e, gentilmente, sugeriu que eu o pegasse. Hesitei e ele mesmo retirou o volume da estante, enquanto conversávamos – e eu mal conseguia ouvir uma palavra enquanto folheava o livro. Ao saber que eu havia cursado História, me levou em direção a uma outra estante. E ficamos ali juntos por um tempo e eu nunca me esqueci de seu olhar maroto observando aqueles livros todos, feliz em compartilhar o encanto provocado por eles.

Agora há pouco, ao ver a notícia da morte do bibilófilo José Mindlin, lembrei – como deve ter acontecido com todos aqueles que tiveram o privilégio de conhecê-lo – dos encontros que tivemos. Nosso assunto costumava girar sempre em torno da música. Mindlin era diretor-presidente da Sociedade de Cultura Artística, que em mais de 90 anos de atividades ajudou a criar e estabelecer a reputação da vida musical paulistana e brasileira. Conversamos pela última vez há quatro ou cinco anos se não estou enganado, quando o Cultura Artística lançava uma série de novos projetos, entre eles uma programação didática pelo interior do Estado.  Do alto de sua experiência, não havia perdido a paixão ao falar de compositores, gravações – e, principalmente, do desejo de ver a música clássica próxima das pessoas. Enquanto conversávamos, ele falava de um Cultura Artística aberto à sociedade, repleto de jovens, reunidos em torno de um excitante diálogo em torno da música. E da arte. Sonhos alimentam a alma do homem – e nos ajudarão a lembrar dele anos e anos depois de sua morte.

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O pianista Nelson Freire escreve no “Cultura” de hoje sobre a música de Chopin, relembrada no bicentenário de seu nascimento. “Como definir o que faz da música de Frederic Chopin (1810- 1849), celebrada este ano por conta de seu bicentenário de nascimento, um universo tão especial? O grande pianista Arthur Rubinstein disse certa vez que, ao interpretar suas obras, tinha a sensação de que ela tocava diretamente o coração das pessoas. E é fascinante perceber que isso vale tanto para leigos quanto para melômanos. E, por que não, para os próprios pianistas, para quem suas peças são um desafio constante. A brasileira Guiomar Novaes costumava dizer, divertida, que Chopin exige tudo do intérprete, “que precisa tocá-lo com cabeça, coração, com o pé, com a mão, com tudo”. Já Martha Argerich me confessou, em uma de nossas muitas conversas sobre sua música, que acha Chopin o autor mais difícil de tocar. “Os pianistas erram nele mais do que com a obra de qualquer outro compositor.” Continue a ler aqui.

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José Méndez/EFE

José Méndez/EFE

O mistério em torno da operação que o tenor Placido Domingo fará nos próximos dias continua. Ontem, sua assessora de imprensa afirmou que o tenor seria submetido a uma cirurgia de urgência em Nova York, para onde seguiu depois de sentir dores no abdômen durante concertos no Japão; ainda segundo ela, a operação o deixaria afastado dos palcos por cerca de seis semanas. Hoje, no entanto, o filho mais novo do tenor, Álvaro, informou à imprensa que seu pai “está descansando tranquilo em seu apartamento enquanto espera a hora da cirurgia, um procedimento de rotina, um pequeno problema a ser resolvido antes que ele retorne normalmente aos palcos”. Ainda segundo ele, Domingo deve voltar aos palcos já no final de março, em Berlim, onde cantará récitas do “Simon Boccanegra”, de Verdi, na Staatsoper. Mais uma vez, não foram informados detalhes sobre qual é exatamente o problema do tenor – ou ainda sobre os detalhes da cirurgia.

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Conversava outro dia com um grande amigo que esteve em Los Angeles recentemente e ouviu uma “Sétima Sinfonia” de Beethoven, regida pelo veterano Herbert Blomstedt à frente da Los Angeles Philarmonic. Ele me contava de uma palestra que ouviu antes da apresentação, em que o professor falou bastante sobre o desejo de Beethoven, depois da “Sinfonia Pastoral”, sua sexta, de que sua música “fosse vista como algo abstrato em si mesmo”. Durante o concerto, meu amigo sentiu uma sensação que me descreveu como a compreensão do que é a música, algo que não se coloca em palavras, mas, continua ele, “cabe no coração humano”.

Outro dia pela manhã, li na “Gramophone” de fevereiro um artigo em que o colunista Simon Callow pergunta: “Será que somos capazes de abrir mão das associações de nossas mentes e simplesmente ouvir uma obra com um ouvido verdadeiramente inocente?” E cita alguns exemplos. Não consegue chegar a Veneza, por exemplo, sem ouvir na mente o “Adagietto” de Mahler – e a peça, na sala de concerto, o leva direto para a cidade italiana; o Intermezzo, da “Cavalleria Rusticana”, o faz lembrar de sua avó e da percepção da mortalidade, já que ela ouvia a peça quando sua filha, ainda criança, quase morreu por conta de uma grave doença; no dia em que ouviu pela primeira vez a “Sinfonia nº1” de Elgar, Callow viu uma entrevista com o líder da União Britânica de Fascistas – e a peça, em sua mente, passou a ser uma leitura repleta de ironia de um patriotismo distorcido.

Além das associações pessoais, que recriam a música por meio da nossa individualidade, o que dizer daquelas feitas a partir da própria concepção das obras, que chegam a nós por meio de depoimentos de compositores sobre o que escreveram. Elgar, para ficar em um compositor citado por Callow, dizia que seu “Concerto para Violoncelo” era um testemunho contra a morte de tantos homens e mulheres durante a Primeira Guerra Mundial, um apelo contra o ódio e a favor do diálogo. Para mim, no entanto, essa informação surgiu depois que a peça se tornasse, por episódios da minha vida pessoal, a lembrança do desejo de conhecer o novo, mesmo em meio às contradições do espírito humano, do embate entre força e desespero. Estou errado? Quão importante é a intenção original do compositor na fruição de uma obra musical abstrata?
Conversando recentemente com dois de nossos maiores músicos, o pianista Nelson Freire e o violoncelista Antonio Meneses, surgiu o tema – e ambos ofereceram visões semelhantes. Nelson falava de Chopin – e da dificuldade de colocar em palavras aquilo que, em música, tem acompanhado toda a sua trajetória: a admiração com relação com a música do comspoitor. Antonio foi um pouco além: há um momento, na compreensão da música, seja você um músico ou não, em que a música precisa se impor perante as palavras na própria busca de um significado.

Leonard Bernstein escreveu um pequeno texto que trata de maneira muito divertida dessa questão (em português, ele está na coletânea “O Mundo da Música”, lançada em Portugal). Um compositor e seu amigo, o Poeta Lírico, viajam de carro por uma estrada do interior dos Estados Unidos; no rádio, uma sinfonia de Beethoven. A certa altura, o poeta diz: “Essas montanhas são puro Beethoven”. E os dois começam uma longa discussão: para o compositor, não há nada na música que possa sugerir uma montanha e, sim, uma lógica interna puramente musical; para o poeta, no entanto, o sentido da música passa necessariamente pela sua percepção de que ela dialoga com a paisagem à sua volta.

Será que a música pode ser definida simplesmente pelo nosso desejo – e, por que não, pela nossa necessidade – de defini-la?

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25.fevereiro.2010 18:36:28

De cara nova

Como vocês já devem ter percebido, o blog mudou de cara, seguindo um novo padrão aqui do portal do Estadão. A vantagem, porém, é que agora a visualização dos comentários ficou bem mais dinâmica, facilitando inclusive a comunicação entre leitores e blogueiros. Espero que gostem. Em tempo: o endereço do blog também mudou. Por enquanto, ao acessar o antigo, você é redirecionado. Mas não sei até quando…

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20.fevereiro.2010 14:27:44

O maestro cibernético

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Fico sabendo pelo portal do Estadão que morreu na quarta-feira de cinzas o pianista italiano radicado no Brasil Giuliano Montini. Recitalista que nunca deixou de frequentar as salas brasileiras ¬– assim como desenvolveu importante trabalho pedagógico – ele foi aluno de Magda Tagliaferro e Bruno Seidlhofer, em Viena. Atuava bastante em duo com a violinista Elisa Fukuda – e, com o violoncelista Peter Dauelsberg, formavam o Trio Dell’Arte. Com Elisa, aliás, lançou um disco precioso, com obras de Villa-Lobos, Brahms, Schumann e Claudio Santoro. A música de câmara, nas mais diversas formações, foi sem dúvida uma de suas especialidades, e rendeu momentos raros de beleza musical aos espectadores brasileiros. Minha grande lembrança de espectador, no entanto, foi sua atuação ao lado da Camerata Fukuda, em 2002, quando interpretou o “Concertino para Piano e Cordas” de Ronaldo Miranda, misturando delicadeza e virtuosismo com propriedade impressionante. Montini morreu em um acidente de carro, pegando todos nós de surpresa.

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17.fevereiro.2010 15:38:17

Heifetz, como você nunca viu

O grande violinista imita um aluno durante uma aula. Impagável!

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17.fevereiro.2010 15:36:36

Escola de Música da UFRJ

Em junho do ano passado, durante passagem pelo Rio para a cobertura da Folle Journée, escrevi aqui no blog sobre o péssimo estado de conservação da sala Leopoldo Miguez e do histórico prédio da Escola de Música da UFRJ em geral (leia aqui o texto). Voltei hoje à redação e encontrei uma caixa enviada pelo diretor da escola, André Cardoso. Ele me enviou uma longa carta falando do post, das atividades da escola, dos concertos promovidos, da qualidade do corpo docente e das conquistas de alguns dos alunos; no pacote, colocou ainda algumas das publicações da escola, além de discos gravados no âmbito da instiuição. Em nenhum momento questionei a qualidade do ensino na escola, mas foi bom ficar sabendo em detalhes das atividades que eles andam realizando por lá, inclusive com uma pequena temporada de ópera, com quatro títulos por ano. Cardoso não pede nenhuma retratação, mas coloco aqui algumas informações que ele fornece sobre a restauração do prédio. Segundo ele, a verba para as obras foram de R$ 1,5 milhão e foram utilizadas, durante a gestão de sua antecessora, na reforma do telhado, da fachada, na pintura lateral e na restauração interna do salão. Durante as obras, diz ele, uma determinação judicial os obrigou a interromper a reforma porque o Ministério Público achou que o órgão estaria sendo prejudicado – por isso as obras do salão não teriam sido concluídas. “Tal fato explica você ter visto o teto do palco com paredes descascadas e a ausência das poltronas. As poltronas não foram recolocadas, pois não foi feito o piso da plateia”. Em 2008, continua Cardoso, a Petrobras concordou em antecipar a verba para a reforma do órgão (R$ 820 mil) e ele começou a ser desmontado em outubro do ano passado. Com isso, agora em fevereiro deverão ser retomadas as obras (parte elétrica, reforma do palco e do piso da plateia), com recursos do Banco do Brasil (o valor exato não foi informado). Cardoso conta ainda que a “escola não cabe mais nos atuais prédios e se não construirmos um novo prédio de salas nossas atividades acadêmicas não poderão se expandir”.

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Amanhã volto ao Brasil mas hoje deu tempo de escapar um pouco de Paris e ir ao Castelo de Fontainebleau, que remonta à Idade Média e por onde passou boa parte da monarquia europeia desde o século 16. Conheci os aposentos de Napoleão, o quarto em que abdicou ao trono, a escadaria da qual se despediu do povo em direção a Elba; e o salão que François I construiu para si próprio, discreto, sombrio, onde gostava de receber importantes personalidades, como o rei espanhol Carlos V. E, claro, para nós operários de plantão, Fontainebleau ganha significado afetivo por ser o ambiente no qual se passa o primeiro ato do “Don Carlo”, de Verdi. É na floresta imensa e solitária que rodeia o castelo que Carlo, herdeiro do trono espanhol, e Elisabetta, filha do monarca francês, se conhecem e se apaixonam, pouco antes dos tiros de canhão do castelo anunciarem que será o pai de Carlo, Felipe II, quem se casará com a moça. É uma das grandes cenas da maturidade verdiana, com o primeiro dueto de amor de uma ópera que tem três – um mais bonito que o outro. Aliás, Don Carlo é para mim um dos grandes Verdis, apesar de ser mais comentado do que de fato escutado e apreciado. Tem tudo o que Verdi sabia fazer de melhor – grandes melodias, em cenas que trabalham habilmente a oposição entre público e privado (e os dramas que experimentam aqueles que vivem as duas esferas), crítica social, à Igreja; e, formalmente, é um Verdi em transição, que prenuncia a genialidade de escrita de Aida, Otello e Falstaff.

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Por falar em Verdi, ainda não comentei aqui. No sábado, fui ao cinema assistir a transmissão do Simon Boccanegra, com Plácido Domingo atacando de barítono no papel do atormentado Doge de Genova. O cara é mesmo incrível! Faz um Simon cheio de contrastes, austero e doce – e a atuação carregada no final do primeiro ato, na cena do Senado, e a morte, no fim da ópera, são de tirar o fôlego. Aliás, o elenco todo chama a atenção. A wagneriana Adrianne Pieczonka me surpreendeu como Amelia; Marcelo Giordani é um bom Adorno; James Morris já perdeu boa parte da voz, mas a autoridade em cena é comovente como Fiesco; e o barítono que fez Paolo, cujo nome me esqueci agora, foi para mim uma revelação. James Levine, como é de costume em partituras que são sua especialidade, nos momentos chaves nos deixa na ponta da cadeira com sua regência. Na entrevista durante o intervalo, Domingo disse que está recebendo uma série de convites para cantar como barítono, mas que quer ir devagar; diz que tem papeis que sabe que não vai fazer, como Iago; e a única coisa confirmada é um Athanael, na Thais, de Massenet, em 2012. Aposentadoria, pelo jeito, nem pensar.

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