Abaixo, o texto da retrospectiva publicada pelo Caderno 2.
Para todos, os votos de um feliz ano novo, com muita música, saúde e amor. Precisa mais? Tudo bem, pode até ser que sim – mas sem isso, que graça tem? Voltamos a nos falar em 2010.
O ano começou com uma bomba: John Neschling demitido da Osesp, após 12 anos de trabalho. É anunciada, então, a saída de Roberto Minczuk da direção artística do Festival de Campos do Jordão. No Rio, o Municipal fechado; e as obras da Cidade da Música embargadas. De volta a São Paulo, Municipal também em reformas, sem óperas… e Jamil Maluf deixa o cargo de diretor artístico. Neschling reaparece com uma companhia nacional de ópera; ao seu lado, o ministro Juca Ferreira, avisa: não deixa o ministério sem a criação de uma política específica para a área. Já é novembro. Abel Rocha é demitido da Banda Sinfônica, num lance anunciado como parte de um projeto de reestruturação do Teatro São Pedro. Chega? Ainda deu tempo de a Fundação Osesp anunciar Artur Nestrovski como novo diretor artístico e Yan Pascal Tortelier como regente titular. Não tem jeito. Depois de tantas mudanças e redefinições, o balanço de 2009 na música erudita precisa ser feito com os olhos voltados para 2010.
O primeiro ano da Osesp sem Neschling não foi a desgraça que tanto se alardeou – a orquestra segue obtendo bons resultados e a temporada de 2010 mantém o nível de anos anteriores. A chegada de Nestrovski, no entanto, é símbolo de um novo modelo de gestão, em que a direção artística é descentralizada. Vai funcionar? É ele o homem para o papel? É o tempo e o trabalho a partir de agora que vão dizer. E a Osesp segue na vanguarda da reinvenção da maneira de se estruturar orquestras no Brasil.
Em Campos do Jordão, a saída de Roberto Minczuk da direção artística era esperada desde que, no início do ano, o festival deixou de ser realizado pelo Centro Tom Jobim e passou às mãos da Santa Marcelina Cultura. O que se fala é em uma ênfase maior, a partir de agora, na área pedagógica e na música contemporânea. Mas cabe a pergunta: um festival pode prescindir de uma direção artística forte, chamativa?
A questão nos leva também ao Teatro Municipal de São Paulo. A secretaria Municipal de Cultura anunciou o plano de transformar o teatro em uma fundação. O projeto é antigo. Mas há um dado novo – não haverá um diretor artístico mas, sim, um conselho artístico formado por artistas dos corpos estáveis da casa. Não se sabe quando chega a fundação – e não há previsão de reabertura do palco. E, apesar da temporada de concertos na Sala Olido, o teatro não produziu óperas, sua função principal. Seria demais pensar em um palco alternativo?
Na semana passada, no Rio, depois de mais de um ano e diversos atrasos, a presidente da Fundação Teatro Municipal, Carla Camurati, anunciou a reabertura do palco para abril, com uma temporada que tem seis óperas e quatro balés, além da programação de concertos. Em terras cariocas, no entanto, resta ainda uma incógnita: a Cidade da Música. A decisão de terminar as obras, embargadas no início do ano por suspeitas de irregularidades, é auspiciosa. Mas o prédio é, por enquanto, isso apenas – um prédio. Não há nenhum desenho de como será ocupado, fazendo da Cidade da Música um símbolo da necessidade de se repensar a gestão e o funcionamento dos nossos teatros. Quem vai gerir o espaço? De acordo com que formato? Quem vai definir as linhas de programação? Como ela vai se relacionar com as temporadas dos outros palcos da cidade?
Mas ninguém sofreu tanto quanto a ópera neste ano que se encerra. Depois de algumas temporadas promissoras, foram poucos os espetáculos, o que leva a crer que o gênero, por aqui, sobrevive por iniciativas isoladas e não por conta de uma política cultural mais ampla que permita seu funcionamento. Assim, sobressaíram-se Manaus, com um festival dedicado à música francesa que sofreu por falta de verbas; Belo Horizonte, com montagens interessantes de Verdi, Villa-Lobos e Schoenberg; e São Paulo, com o Teatro São Pedro, ainda que sem corpos estáveis próprios e uma linha clara e bem definida de programação. Ao menos nos bastidores, as notícias parecem boas – o São Pedro deve ganhar em 2010 uma orquestra própria e um diretor musical. Que seja feliz o ano novo.
Rio, 20 de dezembro de 2009

Se há algo como um lirismo fragmentado, trágico, ele aparece no momento em que o anão declara seu amor à Infanta, seu desejo romântico de celebrar a vida ao lado da mulher amada. “Duende, se ao menos você não fosse assim”, ela, no entanto, responde para si mesma, enquanto observa aquela “cruel brincadeira da natureza”. Em O Anão, ópera de Alexander Von Zemlinsky, apresentada pela primeira vez na América Latina no fim de semana, a grande tragédia não está na recusa do amor. O anão viveu toda a vida sem conhecer sua verdadeira forma – até que, na crueldade do ambiente da corte, é colocado frente a um espelho e percebe que não é o “valente cavaleiro” que imaginava ser. Sua autoimagem se desconstrói a tal ponto que não lhe resta outra opção senão a morte.
A história seria banal se não fosse representativa da época em que surge, as primeiras décadas do século 20. A ópera é baseada em um conto de Oscar Wilde, O Aniversário da Infanta. Nele, é central a questão da identidade, como de resto na obra do autor inglês. Fazer o anão se confrontar com o espelho é, na verdade, criar um jogo simbólico no qual o homem é obrigado a se deparar com a própria imagem – e com todo o processo de diálogo entre fantasia e realidade segundo o qual estruturamos nossa existência. E é possível ir além. Da mesma forma que a certeza romântica do anão ao se declarar para a Infanta é implodida e se transforma em dúvida, também a arte daquele momento se distanciava do passado em busca da modernidade. O anão se olhando no espelho é também o artista que, imerso em um mundo em transformação, um mundo no qual já existe o inconsciente sugerido por Freud, opta por uma arte em que o certo é menos interessante que a dúvida. Assim, afinal, é o homem.
Não é por acaso que o conto de Wilde e sua temática interessaram a Zemlinsky. Professor de compositores como Arnold Schoenberg, um dos fundadores do modernismo musical, ele se formou à luz da tradição romântica. Sua música está, assim, no meio do caminho entre o século 19 e 20, constrói melodias ao mesmo tempo em que as desconstrói, invoca o lirismo e o fragmenta, como que sugerindo sua impossibilidade. E Isaac Karabtchevsky, à frente da Petrobrás Sinfônica, mostrou porque é especialista nesse repertório, criando uma leitura bastante comovente, atenta à construção e desconstrução dos clímax, àquilo que a música diz e não diz, aos silêncios, assim como aos momentos de maior dramaticidade.
O tenor Marcos Paulo, como o Anão, foi o grande destaque, atento aos detalhes de uma escrita vocal complicada em especial na cena em que se observa no espelho e não consegue reconhecer na imagem refletida o “eu mesmo” de sua fantasia. O timbre da soprano russa Marina Shevchenko é bonito, mas ela é pouco expressiva, passando batida pelo o misto de estranhamento e repulsa que a personagem tem pelo anão. Já a soprano Flávia Fernandes saiu-se muito bem como a dama de companhia Ghita, assim como o barítono Douglas Hahn como don Estoban. Entre as damas, destaque para a meio-soprano Carolina Faria, de voz escura e técnica sólida, que parecem prometer a ela um futuro interessante pela frente.
O diretor André Heller fez o possível para transformar a Sala Cecília Meireles em palco para a ópera – como não há fosso, a orquestra precisou ocupar o palco, deixando pouco espaço para a ambientação cênica, que se fez a partir de poucos elementos, como o espelho ou as marionetes recebidas como presente pela Infanta. As projeções no fundo do palco, ressaltando alguns dos momentos da ação, se mostraram pouco orgânicas no conjunto da encenação. Mas funcionou particularmente bem espalhar o coro feminino, preparado por Julio Moretzsohn e de desempenho excelente, pelos corredores. Com a reabertura do Municipal do Rio, no ano que vem, por que não pensar em voltar à carga, agora fazendo uma dobradinha entre O Anão e outra ópera curta do mesmo período?

Um novo filme sobre a soprano Maria Callas está em fase de pré-produção. Vai se chamar “Callas” e será baseada no livro “Orgulhosa Demais, Frágil Demais”, biografia romanceada de Alfonso Signorini (disponível no Brasil pela editora Record). Segundo a agência de notícias EFE, há duas atrizes sendo consideradas para o papel da soprano – a espanhola Penélope Cruz (acima) e a americana Anne Hathaway (abaixo). O roteiro, ainda segundo a Efe, vai abordar principalmente o caso de amor entre Callas e o milionário grego Aristóteles Onassis. Não há ainda previsão de estreia.
Ele chegou ontem à tarde, já envolto em música – e em todo o amor que ela nos ensina, todo o amor em que ela nos faz acreditar. Na foto, papai de um lado, mamãe de outro, ele parece que já aprendeu a sorrir. Pequenino, nem sabe ainda quantos mundos vão logo estar dentro dele. Que enxergue a vida ao lado de Bach, seja inteligente como Mozart, heroico como Beethoven, que chore ao som de Wagner. Bernstein escreveu em uma de suas canções: “Quando nasce um menino, é o mundo que renasce, e respira pela primeira vez junto com ele (…) Sempre que uma criança nasce, nem que seja naquele pequeno instante, o mundo é bom”. A canção se chama “Greeting”. Seja bem vindo, Heitor. Estamos todos aqui.
O jornalista e músico Arthur Nestrovski é o novo diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). O maestro Yan Pascal Tortelier, por sua vez, foi confirmado no cargo de regente titular do grupo até o final de 2011. O anúncio foi feito hoje pela manhã na Sala São Paulo durante coletiva do Conselho da Fundação Osesp, presidido pelo ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso. “Acabou a fase de transição”, explicou ele. O contrato de Nestrovski é por tempo indeterminado. “Ele é agora funcionário da fundação e ficará no cargo até julgarmos necessário”, explicou um dos conselheiros, o editor Luiz Schwarz. Os consultores internacionais da Osesp, o inglês Timothy Walker e o americano Henry Fogel, continuam a assessorar o grupo. “O trabalho conjunto segue, mas a partir de agora as responsabilidades finais no que diz respeito à atividade artística da Osesp recaem sobre mim”, disse Nestrovski. Não haverá alterações na programação 2010, já anunciada.

Com alguma edição recente da BBC Music Magazine, recebi um disco com “A Canção da Terra”, de Mahler, gravado pela BBC Scottish Symphony. Ele ficou algumas semanas aqui sobre a mesa, apesar de Mahler ser sempre prioridade na minha playlist. Ontem, no entanto, coloquei para ouvir um trechinho – comecei reclamando para mim mesmo da primeira canção, com o tenor Johan Botha (de voz linda, mas só; a mesma sensação da “Aida” que ele cantou recentemente no MET) e logo pulei para a canção final, “A Despedida”. E não é que levei um susto? Nunca havia ouvido falar da contralto escocesa Karen Cargill. Mas é um vozeirão, quente, cheio, dono de um legato impressionante, musicalidade à flor da pele, transbordante. Fui pesquisar e descobri que ela gravou L’Enfance du Christ com Colin Davis e a Sinfônica de Londres; a Missa Glagolítica com Kurt Masur; uma Nona de Beethoven com Haitink. Compromissos próximos incluem concertos com a Filarmônica de Berlim e Waltraute na Deutsche Oper. Ouvidos atentos. Em tempo: no site dela, há trechos de aúdio.
Abel Rocha foi demitido do cargo de diretor artístico da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo. Oficialmente, “a decisão foi motivada por questões administrativas”. Nos bastidors, fala-se em novos planos para os corpos estáveis do Estado. Ao que parece, a banda segue com sua programação, mas surge uma nova orquestra para o Teatro São Pedro, o que, ao menos em teoria, significaria uma reestruturação do teatro em direção à formação de uma estrutura fixa de produção de ópera. Vale a pena a leitura do artigo de Irineu Franco Perpétuo no site da revista “Concerto”. Tudo é rumor, tudo é boato – e Abel Rocha já é o terceiro maestro demitido em quase um ano (depois de Neschling e Minczuk).
Que a secretaria mostre a que veio.
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