“Ela já chegou?” Na tarde de sexta, a jovem soprano de 20 anos não esconde a ansiedade. “Você vai cantar para ela?”, pergunta uma colega. “Não, mas, meu, é a Teresa Berganza, vim pelo menos para assistir…” Uma pausa e as mãos vão de encontro à cabeça. “Ai, esqueci a câmera, você trouxe? Tira uma foto minha com ela?” Alguém desce correndo a escadaria do teatro. “A Berganza chegou.” Os olhares se voltam para a porta por um instante, ou uma eternidade, antes que surja a imagem daquela senhora diminuta. Brinca com um bebê que acompanha a mãe na plateia, olha em volta. “Boa tarde, boa tarde”, diz, em um português bem ensaiado. Os alunos se aprumam nas cadeiras, ela sobe ao palco. Senta-se ao lado do piano, sacode os braços, arruma o cabelo. “Podemos começar?”
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Agora é oficial: Lucia Camargo foi demitida hoje da presidência da Fundação Clóvis Salgado, em Belo Horizonte, que inclui entre seus espaços o Palácio das Artes, palco que ao longo deste ano trouxe importantes montagens de ópera. Em comunicado oficial, a secretaria de Estado da Cultura afirmou apenas que a decisão “integra uma ação administrativa rotineira que visa aprimorar os resultados já excelentes daquela fundação” – seja lá o que isso quer dizer.
O violoncelista Yo-Yo Ma, o violinista Itzhak Perlman e a soprano Anna Caterina Antonacci, além das filarmônicas de Dresden (Fhrübeck de Burgos) e da Radio France (Chung), com solos do pianista argentino Sergio Tiempo, serão os destaques da temporada 2010 da Sociedade de Cultura Artística. Outras atrações incluem o violinista Vadim Repim, o pianista Nelson Goerner e o contratenor David Daniels. Os programas dos recitais de Ma e Perlman ainda não foram divulgados. A Dresden toca Schumann e Brahms; Antonacci canta Fauré, Reynaldo Hahn, Bachelet, Tosti, Pietro Cimara e Ottorino Respighi; a Sinfonietta de Hong Kong toca Chopin e Schumann.
Abaixo, a temporada completa:
ABRIL: Vadim Repin (violino) e Itamar Golan (piano)
MAIO: Filarmônica de Dresden (Frübeck de Burgos, regência, e J. Moser, violoncelo); Nelson Goerner (piano)
JUNHO: Orquestra de Câmara da Basiléia; Yo-Yo Ma e K. Stott (piano)
JULHO: Anna Caterina Antonacci (soprano)
AGOSTO: Hong Kong Sinfonietta (Yip Wing-Sie)
SETEMBRO: Daniel Taylor (contratenor)
OUTUBRO: Philharmonique de Radio France
M. W. Chung, regência, Sergio Tiempo, piano)
NOVEMBRO: Itzhak Perlman (violino)
Crédito da foto: Stefan Wermuth/REUTERS

Para marcar os 50 anos da morte de Villa-Lobos o “Cultura” publicou um material dedicado ao compositor, recriado acima no traço de Eduardo Baptistão. O texto de abre você lê aqui – mas não deixe de ler também o texto do maestro John Neschling sobre o compositor, o guia de audição da obra de Villa feito por João Marcos Coelho e a conversa que nós três tivemos para a TV Estadão; e os depoimentos de artistas sobre ele.
Em tempo: começou hoje um grande simpósio no Auditório do Masp sobre o compositor. Estarei lá no sábado de manhã ao lado de João Marcos Coelho, Luiz Paulo Sampaio e Leonardo Martinelli para discutir Villa-Lobos e a Mídia. A programação você encontra aqui; no Rio, o Museu Villa-Lobos está realizando enorme festival em homenagem ao compositor.
Por conta da “Tosca” que abre esta semana a série de transmissões nos cinemas de montagens do Metropolitan de Nova York, voltei à ópera e a algumas das suas principais gravações. Há grandes Toscas, no plural – mas Tosca, no singular, só tem uma: ainda está para aparecer uma gravação que supere a do quarteto Callas/Di Stefano/Gobbi/Serafin. O que faz dela tão especial? São três grandes cantores, um grande maestro.Mas isso por si só nem sempre explica a mágica. O que me pega é a personalidade destas vozes. Para quem não conhece a ópera, tem um trechino, no segundo ato, em que o barão Scarpia quer que Tosca revele onde está escondido um revolucionário escondido por seu amante, o pintor Cavaradossi. Ele diz: “Orsu, Tosca parlate!” (Vamos, tosca, fale!); e ela responde: “Non so nulla” (Não sei de nada). O diálogo não poderia ser mais prosaico, mas a autoridade com que ele ordena – e a com que ela responde – é de arrepiar (no vídeo acima, o momento se dá depois de pouco mais de um minuto). É como se toda a genialidade da carreira dos dois estivesse ali, concentrada na nossa frente –e toda a possibilidade dramática da ópera como gênero se mostrasse em um só instante.

O maestro John Neschling ganhou a ação trabalhista que move contra a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, na qual exige direitos trabalhistas pelos doze anos em que esteve à frente da orquestra como diretor artístico e regente titular, além de uma indenização por danos morais pela maneira como foi demitido. A sentença, proferida pelo juiz Ronald Luís de Oliveira, determina que a Osesp pague R$ 4, 3 milhões a Neschling. “Certamente não era o meu desejo que a minha relação com a Osesp acabasse desta maneira”, disse o maestro. “Mas eu sempre confiei na Justiça e me sinto recompensado. Tudo que eu poderia dizer neste momento está na sentença e eu não tenho mais nada a acrescentar”. A Fundação Osesp, por meio de nota oficial, informou “que confia em seu direito e que recorrerá às instâncias cabíveis.” “A Fundação reafirma que a contratação do maestro John Neschling foi efetuada de forma regular, com seu conhecimento e aprovação, e de acordo com legislação específica que rege a contratação de serviços artísticos”, diz o documento. Sobre a maneira como foi demitido o maestro, a sentença afirma que, apesar de ser direito de qualquer contratante demitir um funcionário, a exposição no site da Osesp de cartas trocadas com o maestro sobre a demissão justificam a indenização por danos morais.
Uma atualização, feita Às 15h10: Adendo à nota da fundação: “A Fundação Osesp, ao contratar o maestro John Neschling sob os auspícios da Lei 11.196, conhecida como Lei do Bem, optou pela forma mais adequada permitida pela legislação atual para casos específicos, como o do maestro, em que claramente não há uma subordinação convencional conforme previsto na CLT. Confiamos que a decisão final venha a reflitir os dispositivos legais mais recentes sobre o tema.”

Às vezes acontece de sentirmos saudades de tempos não vividos. E como não sentir vontade de se transportar no tempo para a primeira fila de um teatro qualquer, ansioso para ver no palco uma pianista como Guiomar Novaes? Há quase duas semanas que ouço sem parar um disco que achei perdido pela internet. Anos 40, “Concerto para Piano nº4″ de Beethoven, “Concerto nº 2″ de Chopin, Otto Klemperer, Sinfônica de Viena. Quando Guiomar morreu, em , o crítico Harold C. Schoenberg escreveu um longo obituário. Lá pelas tantas, escreve: seu repertório era pequeno, mas nele cabia tanta coisa que é como se a cada novo concerto de Beethoven uma nova peça surgisse perante nossos ouvidos. Fiquei louco justamente com a espontaneidade do piano dela, com a riqueza de detalhes, a alternância de climas, os jogos, com aquela sensação que nos dão os grandes de que o piano pertence a eles – e de tal forma que peça, instrumento e intérprete se transformam em uma coisa só. Ouço e fico sentindo falta danada do piano de Guiomar que, claro, nunca vi ao vivo. É que a memória, no final das contas, não é apenas lembrança – é também desejo.
E o que acontece com o Teatro Municipal? Fatos primeiro. O maestro Jamil Maluf pediu demissão na semana passada, aceita na noite de terça pelo secretário municipal de Cultura. Segundo me disse, deixou o cargo para “facilitar a passagem, ainda informalmente, para a nova estrutura de funcionamento”. E que estrutura seria essa? Nota oficial da secretaria (leia a íntegra no site da Concerto) diz que o teatro vai ser transformado em uma fundação. E que a fundação não terá um diretor artístico mas, sim, um conselho de orientação artística, formado pelos responsáveis por cada um dos corpos estáveis, entre eles o próprio Maluf, que se manteve à frente da Orquestra Experimental de Repertório. Perguntei à secretaria quando sai o projeto da fundação. A resposta é de que ele está pronto e deve ser votado ainda este ano. Ainda falta muito a saber – como é esse projeto? que relação estabelece entre fundação e prefeitura? que cara tem o contrato de gestão? quanto tempo dura? como será a rotatividade do conselho? Não se questiona a importância de um modelo mais moderno de gestão para o Municipal, reivindicação antiga. O que se espera é que a secretaria venha a público com as informações, de enorme relevância, sobre como ele será criado e colocado em prática.
Enquanto a fundação não vem, no entanto, há outra questão premente: a Empresa Municipal de Urbanização (Emurb) suspendeu no início da semana, por tempo indeterminado, a licitação internacional para a reforma do palco do Municipal. Diz texto do Jornal da Tarde: “A decisão foi publicada no Diário Oficial. O projeto é patrocinado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e faz parte das obras de restauro e de conservação do edifício, orçadas em R$ 5,8 milhões. O BID entra com R$ 4,93 milhões (85%) e a Prefeitura com R$ 870 mil (15%). Rubens Chamma, da Emurb, afirma que a medida foi tomada após questionamentos das empresas concorrentes.” Para o Estadão, deu mais detalhes: “É uma licitação inédita e difícil, precisamos explicar para as empresas como funciona o trâmite da concorrência.” No entanto, o Tribunal de Contas do Município já havia suspendido uma licitação internacional para a reforma do palco, em fevereiro de 2007, da mesma Emurb. A reforma foi anunciada pela primeira vez em outubro de 2006. No novo pacote de revitalização está incluída a reforma de dois espaços internos: o restaurante/bar e o Salão Nobre. O edifício faz parte do patrimônio histórico do município desde 1981 e as intervenções são acompanhadas pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat).”
O fato é: a reforma, ao que parece, parou de novo. E o que acontece com a programação? Os concertos na sala Olido são uma boa ideia e devem continuar, imagino. Mas e a ópera? Parar de produzir é mesmo a solução? Não haveria palco alternativo para os corpos estáveis do Municipal? Os teatros de bairro, o Paulo Eiró, por exemplo… Seria demais sonhar em uma parceria com o Teatro São Pedro? Com o Municipal fechado, aqui e no Rio – e sem data para reabrir – o prognóstico da ópera no Brasil é dos mais complicados. A secretaria de Cultura fica devendo uma resposta.
Confirmado: o maestro Jamil Maluf entregou mesmo na semana passada sua carta de demissão do cargo de diretor artístico do Teatro Municipal de São Paulo, confirmada ontem à noite pelo secretário municipal de Cultura Carlos Augusto Calil. O boato, que ronda a redação desde o início do dia, confirmou-se agora com a chegada de uma nota oficial da secretaria de Cultura. Maluf deixa o cargo de direção no seguinte contexto – o teatro vai virar uma fundação e, quando isso acontecer, será criado um Conselho de Orientação Artística, composto pela diretora do teatro, Beatriz Franco do Amaral; pela diretora do Balé da Cidade, Mônica Mion; pelo regente da Sinfônica Municipal, Rodrigo de Carvalho; pelo regente da Experimental de Repertório, Jamil Maluf; por um representante do Quarteto de Cordas; pelo regente do Coral Lírico, Mário Zaccaro; pelo regente do Coral Paulistano, Tiago Pinheiro; e pelos diretores das escolas de dança e música do município, Esmeralda Penha Gazal e Henrique Gregori. Ainda não consegui falar com o maestro. Assim que tiver novidades, conto.
Atualização feita às 21 horas: Em mensagem por e-mail, o maestro Jamil Maluf disse que “a notícia já foi esclarecida em nota da Secretaria Municipal de Cultura”. “Como a nova fundação não terá diretor artístico, tomei a decisão de deixar o posto para facilitar a passagem, ainda informalmente, para essa nova estrutura.”
Nos últimos dias uma enchurrada de cartas têm invadido a redação do jornal com reclamações sobre as assinaturas da Osesp. Há algumas questões. Em primeiro lugar, o aumento nos preços dos ingressos, na casa dos 20% (nos últimos dois anos, o aumento foi de 45% acima da inflação); segundo, o aumento da taxa de serviço cobrada sobre cada série de assinaturas, que sofreu reajuste de 24% – e faz com que a compra avulsa saia, em alguns casos, mais em conta do que fazer a assinatura; terceiro: uma espécie de controle de frequência será instituído – e quem tiver mais presença nos concertos terá privilégios na hora de renovar a assinatura para 2011. A Fundação Osesp, em nota oficial, justifica o valor mais alto explicando que o assinante tem benefícios que os compradores avulsos não tem; e diz que o controle de frequência seria apenas um estímulo à liberação de ingressos por assinantes que eventualmente não possam comparecer a determinada apresentação – o que, explicam, teria como objetivo aumentar o acesso à sala, dentro do contexto público da orquestra. As respostas, no entanto, não convenceram boa parte dos assinantes e o debate continua pela internet. O aumento é abusivo ou os serviços prestados o justificam? O assinante, por ser público cativo da orquestra, deveria pagar menos? A frequência nos concertos deveria ser critério na hora da renovação de assinaturas? Cartas ao blog.
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