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João Luiz Sampaio

30.setembro.2009 16:13:52

Diário de viagem (2)

A primeira sensação em Viena foi de muito estranhamento. Acho que na minha cabeça a cidade seria ainda como no século 19, as ruas elegantes, as charretes estacionando frente à Staatsoper, Mahler chegando para mais um ensaio com os músicos… Mas Viena é uma enorme metrópole. E nesse sentido mantém de alguma forma a ligação com o passado, com a importância que já teve no cenário artístico universal. É só pensar na passagem do século 19 para o 20, no advento da psicanálise, na crise de conceitos que levou à arte moderna. É um tanto difícil encontrar nas ruas referências a esse momento; mais provável é o encontro com Mozart, cuja imagem está espalhada pelas vitrines da cidade e nos acompanha até chegarmos na casa – hoje museu – em que o compositor viveu na cidade. Mas estive no Leopold Muzeum e lá vi a exposição Wien 1900, uma tentativa de recriação do espírito daquela época, com quadros de Klimt, Schiele e Gretl associados às ideias de Freud, à música de Mahler e Schoenberg e à literatura de Robert Musil. Aí sim começamos a entender melhor a cidade e percebemos que estamos no centro de alguma coisa.

Ao chegar em Viena, corri para a Staatsoper, mas os ingressos estavam todos esgotados. Fiz o tour, que nos leva ao palco (onde estava sendo montado o cenário da Flauta Mágica) e aos bastidores. No salão nobre, não há busto de Verdi, naquele momento figura mal vista pelo Império Austro-Húngaro por suas posições a favor da independência italiana. Não há também imagem de Wagner – ele, na verdade, ganhou uma sala toda em sua homenagem, o “fumoir”, destruído durante a Segunda Guerra Mundial. Um dos salões, explica a guia, no fim do século 19 era ocupado pelos escritórios da administração. Aqui, portanto, ficava a sala de Gustav Mahler, hoje lembrada apenas pela presença de um piano utilizado por ele. Na saída, você dá de cara com a praça Herbert Von Karajan. Ao cruzá-la, você então encontra a rua Mahler (foto acima).

Seguindo pela avenida da ópera, chega-se a uma pequena praça que se abre na outra direção da cidade. Ali, está o Musikverein, sede da mítica Filarmônica de Viena. A orquestra estava em turnê pelo Japão, assim como a Filarmônica do Scala e a Filarmônica Checa (no ano que vem, nessa época, o melhor destino deve ser Tóquio…). Mas o cartaz do concerto chamou a atenção. Mathias Goerne cantando as Wesendonck Lieder de Wagner, em companhia da “Romântica” de Bruckner. Ouvir Wagner em Viena? Não pensei duas vezes. Acompanhamento da excelente Orquestra Jovem Gustav Mahler, regência de Jonathan Nott. Que concerto! A arquitetura do Musikverein é simples e elegante – e a acústica sensacional! Goerne cantou as Wesendonck na orquestração de Hans Werner Henze, que me pareceu muito mais interessante que a original de Felix Mottl (de Wagner, há apenas a orquestração de Träume). Goerne tem um timbre muito bonito, uma técnica impecável e uma expressividade baseada na riqueza de coloridos. E o Bruckner? Dava para ouvir cada detalhe, cada pedacinho da partitura. Saí de lá debaixo de chuva forte. E há algo de muito melancólico naquela Viena deserta e chuvosa. A arquitetura monumental sugere às vezes um abismo a partir do passado, que se faz ausente da mesma forma como se impõe em cada esquina. Em época de mudanças de paradigmas, talvez seja uma consequência natural. De alguma forma, a música de Mahler é o retrato desse abismo entre épocas, onde o homem se descobre distante de um mundo ao qual deve pertencer. Mais de um século se passou. Mas, no final, não é que encontrei Mahler?

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29.setembro.2009 18:28:22

Três duetos

Chamem de fetiche, tara, obsessão… mas quem me conhece bem sabe da minha relação com o Don Carlo, de Verdi. Não vou dizer que é a minha ópera preferida, porque tem um ou outro título do Wagner – e, vá lá, do próprio Verdi – que pode ficar com ciúmes. Mas as gravações do Don Carlo vão sendo empilhadas em casa e o monte não para de crescer. A última é uma gravada no Scala, com Gabriele Santini à frente de um belo elenco: Stella, Cossotto, Bastianini, Christoff, Vinco e Flaviano Labò, no papel-título – e omais fraquinho do elenco. Estava ouvindo agora trechos da gravação para uma matéria e não deixo de me surpreender. A ópera é teatro do início ao fim, com Verdi se libertando cada vez mais das amarras da tradição e buscando uma linguagem nova para a ópera. E aqui também ele consegue unir de maneira espetacular dois dos elementos fundamentais da temática de sua obra – o drama interno das personagens e o pano de fundo político e social em que vivem. A figura do monarca que reconhece a própria decadência e fragilidade é fascinante – e o dueto com o grande Inquisidor ainda é uma das mais contundentes recriações da oposição entre Igreja e Estado. E, cá entre nós, cada dueto… Verdi não escreve um, mas três duetos, para Carlo e Elisabetta. Os dois, herdeiros do trono espanhol e francês, vão se casar por determinação dos pais e se apaixonam loucamente um pelo outro. Mas Felipe II, o monarca espanhol, pai de Carlo, resolve ele mesmo se casar com a jovem princesa, tornando impossível o amor dos infantes. No primeiro dueto, o encontro e a descoberta da paixão; no segundo, o reencontro proibido; e, no terceiro, a decisão resignada de se afastarem um do outro. Estão no You Tube. Vale a pena.

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29.setembro.2009 16:23:33

Para lembrar Alfredo Colósimo

Recebi no começo da semana passada a notícia da morte do tenor brasileiro Alfredo Colósimo. Ele estava com 86 anos. Foi um dos grandes cantores líricos do país nos anos 50, 60 e 70. Além do grande repertório italiano, que interpretou em especial no Municipal do Rio, incluindo aí algumas turnês da companhia pela América Latina, participou de momentos históricos, como as estréias de “Izhat”, de Villa-Lobos, “O Contratador de Diamantes”, de Mignone, e “A Compadecida”, de José Siqueira. Dos anos 80 em diante reduziu bastante suas aparições no palco, apesar de continuar cantando até o ano passado em recitais com seus alunos, e passou a dedicar a maior parte de seu tempo ao ensino de canto (entre seus alunos está, por exemplo, o barítono Rodrigo Esteves). Estive com Colósimo no início do ano, no Rio, onde conversamos durante uma agradável tarde em seu apartamento no Flamengo. Com uma vista deslumbrante da Baía de Guanabara ao fundo, Colosimo falou longamente sobre sua trajetória, a dificuldade do início da carreira, a ida para a Europa, a volta ao Brasil, os colegas, o momento do Municipal carioca naquelas décadas lendárias. Bem-humorado, ele tinha carinho especial pelos colegas. Há alguns anos, sua família lhe preparou uma homenagem – uma caixa com três CDs com gravações históricas do Municipal: um para árias, outro para duetos e o terceiro para cenas de conjunto. É para nós uma das poucas fontes de áudio não apenas de Colósimo mas também de artistas como Clara Marise, Ida Miccolis, Gloria Queiroz, Santiago Guerra, Lourival Braga e Paulo Fortes (aqui você acessa todo o material). Para quem não conhece o trabalho dele, fica aqui um quarteto do Rigoletto do início dos anos 60, com a soprano Zilda Lourenço, o barítono Ricardo Villas e a mezzo Gesuína Pinheiro, gravado no Teatro Francisco Nunes, em Belo Horizonte. Não há homenagem melhor do que manter vivo o seu legado.

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29.setembro.2009 14:09:52

Diário de viagem (1)

É verdade que o teatro não é mais exatamente o mesmo – um incêndio derrubou boa parte do Teatro La Fenice nos anos 90 e o que temos hoje é a réplica do original. Mas… faz diferença? Nenhuma. A história de um prédio é naturalmente também a história de sua ocupação. E estar ali, na frente do La Fenice, é encostar de pertinho em lances decisivos da história da ópera. Cheguei desavisado. Um dia antes, em Milão, havia visitado o Scala de Milão. A temporada ainda estava parada, mas deu para conhecer a sala e os bastidores do teatro. A cabeça fica tentando lembrar todos os nomes que passaram por ali, os compositores, as óperas estreadas, os maestros, os cantores, mas dá pau no sistema e não tem como acessar todos os arquivos. Então a gente fica meio anestesiado. Até que, passeando pelo museu, vai reencontrando os nomes, as histórias, as lendas, os mitos. No La Fenice, fui procurando sensação semelhante. Demorei para encontrá-lo no labirinto que é a cidade. E quando dei de cara com o prédio, ali encravado no meio da ilha, a primeira imagem foi a do cartaz na porta: “La Traviata”. Será que tem récita? Tinha, com um elenco que eu não conhecia e regência de Myung Whun Chung. Comprei o ingresso na hora. E só depois fui lembrar que o último trem de volta para Milão, onde estava hospedado em casa de amigos, era às oito da noite. Paciência. O mais importante, naquele momento, era o ingresso na mão.

Uma das entradas do Teatro La Fenice/Reprodução

A “Traviata” estreou no La Fenice e as palavras não dão bem conta da sensação de poder assistir a uma produção ali, no mesmo auditório. Curioso, no entanto, é que Veneza para mim, desde que o trem deixou a terra e a água se espalhou pelos dois lados, o que me invadiu a mente foi o terceiro ato do “Tristão e Isolda”. Há, claro, o balanço pesado e vagaroso das ondas na partitura de Wagner, a associação é imediata. Wagner morreu em Veneza. Mas não é só isso. Há algo de mágico – uma magia densa, nebulosa, ocre – na cidade. E também no recanto onírico em que Tristão delira e, à beira da morte, imagina o retorno de Isolda. Essa alternância entre real e imaginário, entre ilusão e vida, morte e delírio, perpassa toda a música daquele último ato. E de alguma forma, ao menos na minha cabeça, também seguiu cada viela, cada caminho de Veneza, em seus recantos mais escuros e nas multidões luminosas. Na madrugada deserta, a companhia foi o solo do corno inglês, emulando o movimento das águas. E, no amanhecer, o fluxo da mente.

Sentei sobre o fosso, via o palco de lado, e o regente de frente. Por onde começar? O som da orquestra do La Fenice é impressionante. Esses músicos são alfabetizados no idioma da ópera, cada nota, cada frase, cada inflexão, tudo respira teatro – e há momentos em que a Traviata ressurge fresquinha no ouvido. E Chung é um espetáculo à parte, regendo sem partitura, com elegância e economia de gestos, comunicando-se à vontade com a orquestra. Não guardei o nome dos cantores e precisei agora recorrer à internet (Gianluca Terranova, tenor; Giovanni Meoni, barítono). Nada de muito especial, é preciso reconhecer. Corretos, com um ou outro maneirismo chato, mas corretos. A produção é de Robert Carsen, moderna, Violeta como uma prostituta viciada em drogas, tão envolvida com o dinheiro quanto com o amor. Mas o gênio é Verdi – que essa música continue tocando a gente desta forma tão espontânea, é incrível.

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28.setembro.2009 16:29:32

Voltei

Passou rápido demais, pelo menos para mim. Mas, fazer o quê? Estou de volta. E temos muitos assuntos pendentes. Osesp e nova temporada (quando vem?), ópera do Villa-Lobos em Belo Horizonte, Nathalie Stutzmann na Sala São Paulo… Além, claro, de algumas experiências que tive durante as férias, perdido pela Europa, uma “Traviata” em Veneza, um “Wozzeck” em Paris, “Carmen” em Praga… Tenham paciência, aos poucos vou me atualizando e tomando pé das coisas.

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