Neste momento em que o João Luiz está desfrutando de suas merecidíssimas férias, estou cobrindo a sua ausência na redação do Estado, ajudando na reportagem. Vocês sabem que os imperativos de espaço, em jornal, obrigam-nos, muitas vezes, a fazer cortes em nossas matérias, deixando de lado algumas informações ou comentários acessórios, que nos foram sugeridos durante o espetáculo. Os dois concertos regidos pelo maestro húngaro Gábor Ötvös, entre 20 e 29 de agosto, foram tão bons, que pedi ao João que me abrisse um espaço, em seu blog. Quero aqui dar testemunho do quanto valeu a pena tê-lo escutado, e aos nossos músicos. Para vocês todos, meus companheiros do blog, o meu abraço. Lauro Machado Coelho.
Sexta feira, 21 de agosto.
O pavão, para os húngaros, sempre foi um símbolo de liberdade. “Leszállott a páva vármegye házára, a szegény raboknak szabadulására”, diz o texto da canção em que Zoltán Kodály baseou suas Variações sobre uma Canção Húngara: “O pavão pousou na cadeia, para libertar os pobre prisioneiros”. Exposto pelas cordas graves, a clarineta, a trompa e o oboé, o nobre e tristonho tema pentatônico dessa canção folclórica é, em seguido, desenrolado por Kodály numa tapeçaria de dezessete cintilantes variações.
A concepção de Gábor Ötvös, na sexta-feira, frente à Osesp, visou certamente a uma unidade maior da peça, com isso dando preferência a andamentos mais rápidos, ainda que isso nivelasse o tom da obra, sacrificando um pouco a variedade de tempos e de coloridos instrumentais. O que não impediu o virtuosismo dos jogos que a flauta e a clarineta fizeram na nona variação; ou o orientalismo da décima, com seu saltitante pizzicato. Elegíaca no dialogo do corne inglês com a clarineta e o oboé da variação 12, que é seguida de uma marcha fúnebre; explorando os contastes entre as volutas da flauta e do pícolo, envoltos pela harpa, na variação 14; a Osesp levou a um finale suntuoso esta peça que, escrita em 1938, na Hungria dominada pelo governo fascista do almirante Miklós Horthy, soa como um corajoso grito de protesto.
Na Sinfonia nº 2, com que Gábor Ötvös deu início a seu programa, Kurt Weill retorna, em 1933, no momento de deixar para sempre a Alemanha, à tradição sinfônica de seu país, embora temperada pela ironia mordaz de sua experiência como músico de teatro. Ötvös mostrou-se muito à vontade nessa rara peça sinfônica da carreira do companheiro de Brecht. Ao lirismo desolado, quase trágico, do Largo em forma de marcha fúnebre, fez somarem-se traços reminiscentes das canções de cabaré de suas óperas. Mas foi no Allegro vivace/alla marcia, com que a sinfonia se encerra, que Ötvös e a Osesp melhor mostraram esse cruzamento, ao construir um rondó em que, aos ritmos dançantes de tom popular, junta-se o tema da marcha fúnebre mas, agora, num declarado tom de caricatura, de ressonâncias mahlerianas.
A verdadeira chave de ouro dessa apresentação de sexta-feira ficou para a segunda parte em que, com rigorosa atenção ao fraseado, mas com uma liberdade rítmica que deixava a partitura respirar, ao sabor de bem controladas flutuações de andamento, Ötvös realizou a Sinfonia nº 2 em ré maior op.36, de Beethoven. E o fez de maneira a deixar clara a sua posição de obra de transição, de ponte entre a elegância do classicismo, e a revolução da Eroica que, de certa forma, ela já faz pressentir.
Mantendo-se fiel a uma nobre tradição germânica de leitura beethoveniana, que ele faz soar com um frescor bem moderno, Ötvös desenhou com refinamento tanto o gracioso tema do Larghetto, cantado pelas cordas e retomado pelas clarinetas e fagotes, quanto a agilidade do Allegro seguinte – o primeiro a receber de Beethoven o nome de scherzo, e cujo trio, no oboé e fagote, possui nítido tom popular. E no tratamento livre dado ao Allegro molto do finale, com sutilezas na passagem das seções em pianíssimo para aquelas cheias de vigor, conduzindo à coda em que as tensões se resolvem, Ötvös mostrou a familiaridade que tem com esse repertório do início do século 19.
Quinta-feira, 27 de agosto.
A segunda apresentação de Gábor Ötvös, na quinta-feira, confirmou o acerto da política iniciada pelo maestro Neschling, na Osesp, de enquadrar, com duas obras conhecidas e populares, uma importante peça pouco conhecida do público. Assim, pilares do repertório, de Prokófiev e Dvorák, acompanharam o Concerto para Viola op. póst. de Béla Bartók, admiravelmente executado pelo violista chileno Roberto Díaz. Foi o mesmo princípio que norteou, anos atrás, terem acoplado Nelson Freire tocando o nº 2 de Rachmáninov, à revelação, para o público da Osesp, da Cantata Profana, de Bartók, e do Psalmus Hungaricus, de Kodály.
É difícil saber o que seria o Concerto para Viola, se Bartók o tivesse podido terminar. Quando ele morreu, em 26 de setembro de 1945, a peça ainda não estava orquestrada, e Tibor Serly, o seu aluno predileto, a terminou. Mas a linha do solista – que Béla discutira com o violista inglês William Primrose, que encomendara o concerto – estava virtualmente pronta. E a ela, a a sonoridada encorpada do instrumento de Díaz deu um relevo excepcional. Desde a exposição do primeiro tema, no Allegro moderato, ele manteve a proeminência da viola, mesmo quando a orquestra se adensa um pouco, fazendo soar, após a magnífica cadência, o belo solo de fagote que opera a transição para o Adagio religioso.
Na melodia estaticamente meditativa desse movimento de forma ternária, que Díaz plasmou com uma contida emoção, está o epicentro dessa perturbadora música, escrita por um homem que sabe que está morrendo e, nela, faz sua última declaração de crença na vida – traduzida na fogosa seção central, Allegretto, de que Díaz extraiu todo o efeito virtuosístico. O Finale: Allegro vivace é o movimento mais sumário, e talvez tivesse sido mais extenso, se Bartók tivesse podido revê-lo. Mas em seu moto perpétuo, de intenso sabor húngaro, a que Díaz imprimiu o impulso rítmico que torna a música de Bartók inconfundível, está a despedida da terra que ele sempre amou, e que nunca mais veria.
Ao acompanhá-lo, Ötvös e a Osesp se empenharam – ao mesmo tempo que abriam todo o espaço para o discurso da viola –, em explorar o que a escrita orquestral tem de melhor, em especial os momentos que nos trazem à mente ecos do Concerto para Orquestra, a última peça orquestral de Bartók. Ouvindo essa grande despedida da vida, entendemos porque, momentos antes de entrar em coma, Béla disse a seu médico: “O mais triste, doutor, é que estou indo embora com a minha bagagem cheia.”
E ouvir Roberto Díaz dar, no extra – o movimento Rapidíssimo da terceira sonata de Hindemith para viola solo – uma demonstração da soberba escola de instrumento que tem, impõe a pergunta: por que Tortelier, que é um reconhecido bom intérprete de Hindemith, não o traz de volta, no futuro, para tocar aqui Der Schwanendreher, para viola e orquestra?
A Sinfonia nº 1 em ré maior op. 25 “Clássica”, de Serguêi Prokófiev, com que o programa foi aberto, foi realizada por Ötvös e a Osesp com uma transparência de texturas e elegância de fraseado que se deliciou com o transbordante bom-humor dessa peça. E mais: eles a tocaram de modo a fazer sentir que, ao retomar o modelo clássico, Prokófiev permanece russo dos pés à cabeça – é como se Iósif Haydn tivesse nascido em Sontsóvka, em 1891.
O título da sempre estimada Sinfonia nº 9 em mi menor op. 95 “Do Novo Mundo” fica mais claro, se nos lembramos do título em inglês “From the New World”. Não é uma sinfonia “sobre a América”, mas a obra nostálgica de um homem que, longe de casa, sente saudades de seu país e conta nos dedos os minutos que faltam para voltar a vê-lo. Ötvös teve isso sempre em mente, ao levar a Osesp neste passeio pela última sinfonia do compositor tcheco.
O tema cíclico de sabor boêmio, que estará presente em toda a sinfonia, e o ritmo de polca que marca o segundo tema do Adagio-allegro molto, criam o clima da obra. Mas foi no Largo que o corne inglês de Natan Albuquerque Jr., a flauta e o oboé de Jéssica Dalsant e Arcádio Minczuk, ou o violino de Cláudio Cruz, recriaram toda a magia das citações de temas americanos que se entrelaçam, contrastando com o ritmo exuberante dos ritmos de dança da Europa central com que se constrói o Scherzo molto vivace seguinte. Tratamento de vigorosa liberdade rítmica foi o que Ötvös deu à citação, no Allegro con fuoco, da canção americana sobre os “Três ratinhos cegos”, envolta numa roupagem wagneriana – que, apesar da ligação forte do compositor com Brahms – é uma prova da sua liberdade e independência de espírito.
Ouvir Ötvös tocando Dvorák, mostrou o quanto ele compartilha a crença bartokiana de que a música – Béla fez pesquisas não só do folclore húngaro, mas também do eslovaco, romeno, tcheco e até do arabe – poderia, numa época de grandes conflitos, ser o elo de solidariedade entre os homens. Lição mais do que nunca atual, quando vemos intelectuais do porte de Edward Said e Daniel Barenboim recorrerem à música, como uma forma de reaproximação no conturbado Oriente Médio. Todas essas reflexões nos levam a crer que esta apresentação de Gábor Ötvös coloca-se entre os concertos mais notáveis a que pudemos assistir este ano.
Esse blog, e seu autor, saem de férias a partir de hoje.
Mas voltam, fazer o que?, no fim de setembro.
Ou a qualquer momento, caso a síndrome de abstinência de trabalho ataque. Abraços a todos. E até a volta.
Três novos títulos nacionais, nos quais é bom prestar atenção:

Gesto raro na música brasileira, que costuma ignorar o repertório de canções, a Algol está lançando o ciclo “A Canção da Terra”, de Gustav Mahler, na interpretação do Algol Ensemble, do tenor Fernando Portari, do barítono Rodrigo Esteves e do maestro Carlos Moreno. Eles registraram a versão de câmara da obra, preparada por Arnold Schoenberg. É um caminho interessante. Talvez faça falta ao ouvido a massa sonora de Mahler mas é interessante ver como o tratamento camerístico – e a clareza com que ele evidencia as texturas da escrita – nos ajudam a compreender o quanto é rica a escrita de Mahler. E não é por acaso que Schoenberg assina o arranjo – Mahler ensinou muito à geração que, nas primeiras décadas do século 20, ajudou a redefinir os caminhos da composição musical. Nesta versão, com belas interpretações de todos os envolvidos, o compositor austríaco é mais do que nunca o elo perdido que encerra o Romantismo ao mesmo tempo que nos abre em direção ao futuro. O lançamento será no dia 10 de setembro, às 18h30, na Livraria Cultura (Paulista).

Uma das mais importantes sopranos brasileiras da segunda metade do século 20, Maria Lucia Godoy está lançando uma coletâne de quinze canções do compositor Hekel Tavares. É um disco primoroso, equilibrado nos limites entre o erudito e o popular que marcam a obra de Tavares, compositor à espera, como tantos outros, de redescoberta por parte do público e dos artistas. O acompanhamento é do pianista Tulio Mourão. Mais no site de Maria Lucia. Lançamento: Itáu Cultural, dia 30, às 20h.

Na última década, a pianista Clara Sverner tem se dedicado a um projeto ambicioso: a gravação da integral das sonatas de Mozart. Projetos assim são raros no mercado discográfico nacional. Uma pena, pois registrar integrais oferece olhar bastante interessante sobre a evolução e a sensibilidade de um intérprete. O último disco acaba de chegar às lojas (selo Azul Music), que vendem ainda a caixa com cinco CDs com a integral.

Dei um pulo em Santos no final da tarde de sábado para assitir à primeira apresentação da série “Ópera Contada e Cantada”, no Teatro Guarany. Gostei do que vi. A ideia é, basicamente, apresentar trechos de óperas, mas buscando um novo formato, diferente do das vesperais líricas, em que um narrador apresenta as cenas. Na concepção do diretor Cleber Papa, é um personagem que narra a história. E isso ajuda a dar dinâmica à ação, ao lado da utilização de cenários e figurinos. Na “Butterfy” que vi sábado, a narradora foi Suzuki. Na ópera de Puccini, ela acompanha o drama de Butterfly, que espera pela volta de Pinkerton, uma volta que nós sabemos improvável, em silêncio. Chora por dentro a cada sinal de esperança da companheira. No espetáculo de sábado, no entanto, ela se abre. Oferece seu olhar para a história. E isso é um recurso interessante, não apenas porque dá integridade à ação mas porque sua presença, ora como narradora, ora como personagem, ajuda a ressignificar a trama. É só a gente pensar: se em vez de Suzuki, fosse Goro, o casamenteiro que negocia gueixas, o narrador, a história ganharia novos significados, novos pontos de vista. É uma maneira interessante de apresentar a ópera a quem não a conhece e, para o público acostumado aos grandes títulos, fica a possibilidade de revisitá-los sob novos prismas.
O Teatro Guarany é uma pequena jóia. No centro de Santos, foi inaugurado em 1882 e, ao longo do século 20, foi usado até como cinema pornô. No ano passado, foi restaurado e reinaugurado. Não é um teatro grande, mas muito charmoso, sua fachada nos transporta imediatamente para o século 19. No sábado, estava lotado. E perguntar não ofende: quantos outros espaços não existem assim pelo estado de São Paulo? Mais: um projeto como esse tem tudo para ser itinerante – e, se o governo do Estado fala tanto na necessidade de levar ao interior espetáculos de qualidade (foi uma das grandes brigas, por exemplo, da secretaria com a Osesp, que agora faz turnês anuais pelo Estado), o que se está esperando para fazer o Ópera Contada e Cantada viajar? Há planos nesse sentido? Outros títulos?
E por falar em ópera – e em Santos –, não podemos esquecer do Teatro Coliseu. É outra jóia no centro da cidade, restaurada há alguns anos. Está equipado para a ópera. Até agora, no entanto, nada. Santos é uma das maiores cidades do Estado – e do País; tem orquestra; tem um dos mais talentosos maestros em atividade no Brasil, Luis Gustavo Petri. Estamos esperando o que exatamente? Conversando com o pessoal da cidade no sábado, ouvi que o Coliseu ainda tem problemas, em especial no fosso da orquestra, que inunda por questões técnicas. O Estado investiu R$ 20 milhões na restauração do prédio, que durou cerca de 10 anos. Não está na hora de finalizar de vez a obra e colocar o teatro para funcionar em suas múltiplas possibilidades? Enfim, perguntas, perguntas…
Notícia fresquinha: a pianista Maria João Pires cancelou agora no final da manhã o recital que faria na noite de quinta-feira no Municipal, para inaugurar o novo piano Steinway do teatro. Por motivos de saúde, ela ficará na Bahia. E, em seu lugar, apresenta-se o pianista Nelson Freire.
Morreu ontem no Japão, onde estava para dar aulas em um festival próximo a Tóquio, a soprano alemã Hildegard Behrens. Ela estava com 72 anos. Sempre gostei mais dela em Strauss do que em Wagner, o que pode bem ser uma idiossincrasia minha. Sua Salomé, com Karajan, está entre as grandes. Mas gosto de sua Isolda com Bernstein, por mais desigual que soe no conjunto a gravação (e olha que me dói falar isso do grande LB).
Como Brünhilde, a comparação é ingrata: a geração de Behrens teve a tarefa delicada de substituir a geração da lenda Birgit Nilsson. De qualquer forma, o que me atrai no timbre dela é justamente a mistura de resistência e intensidade com um caráter lírico, de rara doçura, que oferece fragilidade a papéis que, assim, acabavam ganhando novas e nuançadas cores. É, enfim, mais uma grande wagneriana que se vai. Sem que novas apareçam para ocupar o lugar deixado vago.

Há algumas semanas, o “Cultura” publicou um artigo sobre o livro The Political Life of an American Musician, de Barry Seldes, que mostrava a relação entre o compositor americano Leonard Bernstein e a política. O estudo baseou-se essencialmente numa série de documentos há pouco liberados pelo governo americano, mostrando que o FBI esteve no pé do compositor e maestro por um bom tempo. Bom, no site da New Yorker, o crítico Alex Ross fez uma seleção dos documentos do arquivo Bernstein, como o reproduzido acima, em que um ex-agente do FBI recomenda à Casa Branca que o presidente Richard Nixon evite constrangimentos e não compareça à noite de inauguração do Kennedy Center, quando seria apresentada a recém-composta Missa de Bernstein. Para acessar o especial, que inclui também trechos de gravações em que Nixon se refere ao compositor como “son of a bitch”, clique aqui.
Conversei longamente com um membro do conselho da Fundação Osesp sobre o processo de escolha do novo diretor artístico do grupo. De cara, ele rechaçou todo e qualquer palpite por parte da secretaria de Estado da Cultura sobre o processo de sucessão, reforçando a “independência do comitê” na escolha do maestro. Afirmou que, em 2009, foi necessário convocar às pressas alguns maestros para completar a temporada – e sugeriu que é a partir do ano que vem que a lista de convidados vai conter de fato prováveis candidatos ao posto. E de onde vêm os nomes? De uma lista preparada pelos dois consultores internacionais, Henry Fogel e Tim Walker. São os dois também que respondem atualmente pela direção artística do grupo – e o membro do conselho afirma que a temporada 2010, que deve ser anunciada no início de outubro, vai “surpreender a todos pela qualidade de solistas e maestros convidados”, de repercussão, diz ele, internacional. Não está definido ainda se o diretor artístico vai acumular a função de regente principal, como foi até hoje, ou se teremos dois postos separados. Prazos para a escolha? Só em 2011. Em tempo: em conversa aqui na redação do Estado hoje no início da tarde, o secretário João Sayad afirmou que a escolha é responsabilidade da fundação e que o governo, mesmo que possa ser consultado, não tem poder algum de veto sobre as escolhas feitas pelo conselho da Osesp. Por enquanto, é isso.
É um paradoxo. Cinquenta anos depois de sua morte, o carioca Heitor Villa-Lobos é considerado o maior compositor brasileiro da história. Ao mesmo tempo, porém, nosso conhecimento de sua obra é, no melhor dos casos, entrecortado. Não se trata apenas do pouco espaço reservado a ela nas salas de concertos: sua produção orquestral, incluindo sinfonias, concertos e óperas, continua em manuscritos, sem edições revisadas ou definitivas, dificultando sua execução. Só isso já seria suficiente para esvaziar as homenagens pelos 50 anos de sua morte, em novembro. Mas o quadro é ainda mais dissonante: sem apoio, o projeto da Academia Brasileira de Música de edição da obra do compositor está sem dinheiro. E pode acabar morrendo na praia. Continua aqui.
(Cultura, 9 de agosto)
Ouvi no YouTube hoje trechos das peças inéditas de Mozart divulgadas no domingo pela Fundação Mozarteum de Salzburgo. Não tive acesso a tudo, mas, pelo que ouvi, assino embaixo dos comentários do presidente do Mozarteum: não há absolutamente nada de novo no discurso musical das peças, bastante pueris – claro, o moleque tinha apenas oito anos de idade! Mas impressiona o virtuosismo exigido do intérprete – e a sonoridade que ele tira do instrumento, possibilitando até mesmo a gente fazer relações musicais com o Beethoven de anos mais tarde. Em resumo, não acho que as peças ofereçam algo novo ao que já conhecemos de Mozart – o que elas fazem é apenas se somar a um quadro fascinante no qual o compositor segue desafiando nossa compreensão do gênio musical.
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