A atriz Fanny Ardant (acima), que se apresentaria em julho na Sala São Paulo ao lado do Ensemble Intercontemporain de Paris, cancelou sua vinda ao Brasil. Ela iria participar da encenação de “Cassandre”, obra de Michael Jarrell, pela temporada da Sociedade de Cultura Artística. Em seu lugar foi anunciado o nome da atriz Marthe Keller (abaixo), que foi a responsável pela estreia da obra. Não foi divulgada a causa do cancelamento.
Boa notícia: a Royal Concertgebouw de Amsterdã, uma das maiores orquestras do mundo, anunciou ontem seus planos para a comemoração do 125º aniversário. E, entre eles, está uma turnê pela América Latina, com apresentações em São Paulo e no Rio, em junho. A regência será de Maris Janssons e, no programa, estarão obras de Enescu, Mahler, Prokofiev, Tchaikovski, Rachmaninoff, Strauss, Verdi e Villa-Lobos. Em São Paulo, eles farão inclusive concerto ao ar livre, no Parque do Ibirapuera. Será uma excelente oportunidade de ouvir um grupo que está entre os cinco maiores de todo o mundo.
Em tempo: o solista será o pianista Denis Matsuev.
Em sua primeira edição sob o comando da Fundação Osesp, o Festival de Inverno de Campos do Jordão terá 60 concertos e receberá 115 alunos, do dia 30 de junho a 29 de julho. O investimento total é de R$ 6 milhões – R$ 2,5 milhões bancados pelo governo do Estado e o restante, pela iniciativa privada. A novidade fica por conta da mudança na área pedagógica, que passa a ter como foco a atividade orquestral – a sinfônica formada por alunos fará três programas distintos ao longo do festival.
“Montamos a programação em torno de três eixos principais”, explicou na quarta o diretor artístico do festival, Arthur Nestrovski. “O primeiro diz respeito à orquestra dos bolsistas; o segundo, aos professores que também farão concertos; e, por fim, artistas convidados, que vão apenas se apresentar, com destaque para os principais conjuntos sinfônicos e de câmara brasileiros.”
A orquestra dos bolsistas será comandada por três maestros. Na primeira semana, rege o grupo Sir Richard Armstrong, em programa que tem obras de Wagner, Mahler e Dvorak; na segunda, será a vez de Giancarlo Guerrero, com obras de Dvorak, Chapela e Bernstein; e, no terceiro, assume o grupo Marin Alsop, com peças de Mozart, Camargo Guarnieri e Bartok. Os concertos serão realizados em Campos do Jordão e na Sala São Paulo; a itinerância pelo Estado, instituída no ano passado, foi abolida. “Para nós parece mais interessante, do ponto de vista de experiência artística, que os músicos se apresentem em um palco como a Sala São Paulo, com maestros de peso.”
Os três maestros – assim como o pianista Nelson Freire e o violoncelista Johannes Moser, que serão os solistas dos concertos da orquestra do festival – também participam da temporada da Osesp; da mesma forma, muitos dos professores vêm da orquestra. “Nesse primeiro ano, até por uma questão de tempo, acabamos nos valendo de quem já estaria aqui por conta da temporada da Osesp”, diz Nestrovski. A Osesp fará três programas em Campos, entre eles a abertura (Missa Solene, de Beethoven, regida por Thomas Dausgaard) e o encerramento (programa com Ives, Britten, Adams e Shostakovich, com Carlos Kalmar e o barítono americano Nathan Gunn). Músicos como o violoncelista Antonio Meneses, os pianistas Ewa Kupiec, Nelson Goerner e José Feghali, o flautista Jacques Zoon e o trompetista Ole Edward Antonsen estão entre os artistas convidados, que farão apresentações e darão aulas e masterclasses. A violinista Sarah Chang não dará aulas, mas fará concerto com a Filarmônica Jovem da Colômbia. Entre os grupos brasileiros, estão a Sinfônica Municipal de São Paulo, a Experimental de Repertório, a Sinfônica Brasileira, a Filarmônica de Minas Gerais e a Petrobrás Sinfônica, que vai apresentar a nova ópera de João Guilherme Ripper, Piedade. Ripper, como Chapela e André Mehmari darão masterclasses e terão encontros com o público antes dos concertos. Na lista de grupos de fora, o destaque é o Quarteto Vogler, da Alemanha.
A Fundação Osesp fechou parceria com quatro instituições internacionais e receberá delas professores e alunos: Conservatório de Amsterdã, Conservatório Real de Haia, Peabody Institute e a Royal Academy of Music, de Londres. A programação completa está no site www.festivalcamposdojordao.org.br.
A QUESTÃO DA DIREÇÃO
Arthur Nestrovski, diretor artística da Osesp, e Marcelo Lopes, diretor executivo, assumem os mesmos postos em Campos do Jordão. Questionado sobre esta centralização de poder de decisão, o secretário de Cultura Marcelo Araújo afirmou que a saída foi necessária neste primeiro momento. “Mas isso não significa que seja a única possibilidade. Já no ano que vem o festival pode ganhar direção própria dentro da estrutura da Fundação Osesp.” Para Lopes, sempre haverá ligação entre o festival e a orquestra. “Mas não há tentativa de agregar poder de maneira vertical.”
A edição deste ano do Festival de Inverno de Campos do Jordão terá 115 bolsistas, número 25% menor do que a média dos últimos anos, 154. A nova direção optou também por cortar pela metade, de R$ 48 mil para R$ 24 mil, o prêmio Eleazar de Carvalho, dado a um aluno que se destacou durante o evento; e acabou com o curso de composição e com os prêmios Camargo Guarnieri (oferecido a jovens autores) e Ayrton Pinto (dados aos melhores de cada instrumento).
Em 2009, o festival contou com 156 jovens músicos; em 2010, foram 146; e, em 2011, 161. No ano passado, o prêmio Camargo Guarnieri rendeu R$ 15 mil ao vencedor e quatro bolsas de R$ 8 mil foram dadas aos vencedores do Ayrton Pinto. As informações sobre a edição deste ano, prevista para julho, constam do edital do festival, publicado no fim da semana passada no site do evento, que desde o início do ano passou a ser gerido pela Fundação Osesp e não mais pela Santa Marcelina Cultura, organização social contratada em 2009, durante a gestão do secretário João Sayad.
Ainda não foram divulgados os nomes dos professores e artistas convidados, assim como a Fundação Osesp preferiu não divulgar o orçamento do evento. Em entrevista concedida ao Estado na sexta-feira, o novo secretário estadual de Cultura Marcelo Araujo afirmou, ao ser indagado sobre Campos do Jordão, que “este ano daremos prosseguimento a tudo aquilo que aconteceu nos anos anteriores” (leia a entrevista completa na página D10). Procurada pelo Estado na manhã de ontem, a Fundação Osesp informou “que a programação e demais detalhes serão divulgados na íntegra no próximo dia 30″.
Ainda segundo o edital, a Orquestra Acadêmica, formada por bolsistas e alguns professores, fará três concertos, um por semana, durante o festival. No primeiro, será regida pelo maestro inglês Richard Armstrong; no segundo, pelo mexicano Giancarlo Guerrero; e, no terceiro, pela americana Marin Alsop – além de Alsop, regente titular do grupo desde o início do ano, os outros dois maestros estão programados também na temporada da Osesp. O edital prevê ainda a realização de concertos de música de câmara, dos quais participariam professores e alunos.
Na semana passada, o festival anunciou o nome de Artur Nestrovski como diretor artístico do evento; Marcelo Lopes, diretor executivo da Osesp, assume o mesmo posto em Campos e o maestro e violinista Claudio Cruz, spalla da Osesp, fica responsável pela direção pedagógica e pela preparação e ensaios da Orquestra Acadêmica – Cruz regeu no ano passado o grupo e, desde o início de 2012, é o novo diretor da Sinfônica Jovem do Estado. Marin Alsop, que chegou a dar entrevistas como diretora artística do festival, alegou problemas de agenda e desistiu do cargo, ficando como “consultora artística”, assim como seu regente associado, o maestro Celso Antunes.
Notícia fresquinha: o maestro Helmuth Rilling e os músicos da Academia Bach de Stuttgart, grandes especialistas na interpretação do período barroco, virão ao Brasil no começo de maio para apresentar a “Missa” de Bach. O concerto, no dia 7 de maio, será no Teatro Municipal de São Paulo, parceria da Cultura Artística com a Dell’Arte. Rilling esteve no Brasil da última vez em 2008, quando regeu o “Réquiem Alemão”, de Brahms, concertos memoráveis à frente da Osesp. Agora, ele volta com uma de suas especialidades.
O site da revista Concerto acaba de divulgar a temporada 2012 do Teatro São Pedro, anunciada hoje após um período de indefinição provocado pela troca de direção musical da casa, com a saída de Roberto Duarte e a chegada de Julio Medaglia. Serão encenadas três óperas: “O Elixir do Amor”, de Donizetti, em junho; “Lakmé”, de Delibes, em agosto; e “Werther”, de Massenet, em novembro. Gostei dos títulos, mas o anúncio traz dados que levantam uma questão no mínimo polêmica no que diz respeito à gestão do teatro.
Roberto Duarte pediu demissão, no começo de março, alegando que seus poderes como diretor artístico haviam sido diminuídos a um ponto que ele considerou intolerável. Segundo ele, com a criação de um conselho artístico, que tem direito de vetar decisões da direção artística – e no qual Duarte não tinha voto –, as temporadas por ele apresentadas foram recusadas sistematicamente. A alegação foi de que títulos como as óperas de Carlos Gomes sugeridas pelo maestro não eram condizentes com a estrutura física do São Pedro e os recursos repassados ao teatro pelo governo do Estado, na casa de R$ 1,5 milhão.
Até aí, tudo bem. Essa, afinal, foi a grande tônica das críticas feitas ao teatro nos últimos tempos. No entanto, o que se seguiu foram decisões também polêmicas. Júlio Medaglia foi convidado a assumir o posto de diretor artístico, que ocupa já há um mês. E, agora, o comunicado com a programação divulgado na revista Concerto traz a informação de que José Roberto Walker será o produtor responsável pelas montagens. Tanto Medaglia quanto Walker faziam parte do conselho artístico. E isso me traz à mente algumas perguntas. Se a função do conselho artístico é coordenar, digamos, o trabalho do diretor artístico, sugerindo caminhos e assinando embaixo, ou não, de suas decisões, é correto que alguns de seus membros passem a ocupar esse posto? Dessa forma, a direção artística rege, em última análise, a si mesma; e então me pergunto: para que serve o conselho? Desse jeito, fica parecendo que foi criado para possibilitar um rearranjo de posições internas. E talvez não tenha sido por acaso que alguns membros tenham deixado o conselho nas últimas semanas, o que mostra que as decisões não foram exatamente unânimes, como quis fazer acreditar o secretário de Estado da Cultura Andrea Matarazzo.
Não há aqui qualquer questionamento da capacidade profissional tanto de Julio Medaglia como de José Roberto Walker. Com o advento, que parece irreversível, das organizações sociais como modelo de gestão, novas questões e estruturas de trabalho têm surgido. Tudo ainda é muito novo e nem sempre sabemos onde estamos pisando. Por conta disso, toda transparência é necessária. Quem, afinal, são os membros do conselho? Qual a hierarquia na gestão? Em que instâncias são tomadas as decisões relacionadas a verbas e programação? São muitas as perguntas. No entanto, no site do Instituto Pensarte, não há nem mesmo a informação de que ele é responsável pela gestão do São Pedro, o que é fato consumado desde o final do ano passado.
Passou da hora, não?
Atualização feita às 12h45 do dia 20/4, sexta-feira:
O site da revista Concerto publicou agora há pouco uma nota enviada por Px Silveira, do Instituto Pensarte. Nela, ele diz que José Roberto Walker não será o produtor da temporada de 2012 do Teatro São Pedro. “Trata-se de uma inverdade que tem sua evidente contestação no fato de que o próprio Theatro São Pedro e sua equipe estão a cargo da produção da referida temporada. A mais, não consta em qualquer momento de nosso relacionamento com o sr. josé roberto walker a autorização ou o entendimento de que ele possa falar pelo theatro, seus projetos, sua administração”. De novo: equívocos desse tipo só reforçam a ideia de desgoverno…
A Fundação Osesp confirmou hoje de manhã que a maestrina norte-americana Marin Alsop não será mais a diretora artística do Festival de Inverno de Campos do Jordão. Em seu lugar, assume o diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, o jornalista e músico Artur Nestrovski, como o Estado já havia adiantado ontem. O violinista e maestro Claudio Cruz será responsável pela direção pedagógica do evento, que ocorre em julho, substituindo Celso Antunes.Alsop fica como “consultora artística”. Abaixo, a íntegra da nota.
“Conduzir uma iniciativa do porte e ambição do Festival Internacional de Campos do Jordão é parte da vocação e da missão da Fundação Osesp como promotora do desenvolvimento da música e de seu diálogo com a sociedade. Ambas instituições guardam profunda sinergia de atividades e objetivos. Os recursos artísticos da Osesp sempre foram, e ainda mais agora, fonte da excelência do Festival. No tocante à organização da edição de 2012, a Direção Pedagógica ficará a cargo do Maestro Cláudio Cruz. Há 26 anos na Osesp (21 como Spalla) sua formação musical e profissional está intimamente ligada ao Festival de Campos do Jordão, do qual já participou como músico, professor e regente. Cláudio liderará um dos principais módulos do festival que neste ano terá um foco maior nas atividades de ensino. A Regente Principal da Osesp, Marin Alsop, atuará, como já vem fazendo, como Consultora Artística, auxiliando no planejamento, na indicação de convidados (professores e artistas); também ministrará cursos de regência e palestras e regerá a Orquestra Acadêmica na última semana, nos concertos de encerramento. A partir desta edição, também se colocam à disposição do Festival os recursos administrativos da Fundação Osesp, de forma a uma perfeita integração dos dois projetos, como ademais já acontecera nas primeiras décadas do Festival, sob a direção do Maestro Eleazar de Carvalho, cujo centenário será também celebrado este ano. Por extensão de suas atividades atuais, a Direção Artística do Festival ficará a cargo de Arthur Nestrovski e a Direção Executiva a cargo de Marcelo Lopes, ambos ocupantes dos cargos homólogos na Fundação Osesp. A Direção do Festival informa que, seguindo seu planejamento e cronograma de atividades, as informações sobre inscrição para bolsistas estará disponível a partir de 19/04 (próxima semana) no site www.festivalcamposdojordao.org.br A programação geral com mais de 60 concertos, tanto em Campos do Jordão como na Sala São Paulo, será divulgada no final de Abril. O planejamento das atividades se encontra em ritmo normal e estamos seguros que o Festival, sob a gestão da Fundação Osesp, terá o mesmo sucesso já celebrado nas temporadas anuais da orquestra.” Fundação Osesp
A pouco mais de dois meses do início do Festival de Inverno de Campos do Jordão, a Osesp ainda não tem uma definição sobre quem vai dirigir o evento. Na manhã de ontem, o Estado obteve a informação de que Marin Alsop, anunciada como diretora artística, abriu mão do posto, assim como seu regente associado, Celso Antunes, não assumiria mais a direção pedagógica. A informação foi confirmada em nota oficial da Fundação Osesp que, logo em seguida, porém, voltou atrás e afirmou que ainda está sendo negociada a participação de Alsop.
Segundo a nota da Fundação Osesp, havia de fato uma “primeira ideia” de contar com a participação de Alsop como diretora artística e de Antunes como diretor pedagógico, o que teria sido impossibilitado por problemas de agenda. “Como se sabe, a agenda de artistas de porte internacional como eles é preparada com cerca de dois anos de antecedência, ou até mais; e apesar do empenho de todos, não foi possível abrir suficiente espaço antes e durante as semanas do Festival para que Marin e Celso pudessem assumir os cargos. Não obstante, um e outro contribuíram direta e inestimavelmente na concepção inicial do festival.” Em seguida, a assessoria de imprensa da orquestra afirmou que a maestrina ainda tentava remarcar concertos de junho e julho para poder estar em Campos. Na agenda disponível no site da artista, entretanto, não há concertos previstos na segunda metade de junho – e, durante o mês de julho, seus únicos compromissos são com a Osesp, o que reforça a informação, obtida pelo Estado, de que indefinições quanto ao orçamento e diretrizes de trabalho teriam levado Alsop a recusar o posto.
A nota diz ainda que a nomeação de Alsop e Antunes nunca foi oficializada, era apenas um “projeto”. No entanto, em entrevista concedida ao Caderno 2 no início de março, Alsop confirmou sua posição à frente do festival e falou de seus planos, afirmando que usaria como modelo o Festival de Tanglewood, nos Estados Unidos, do qual participou o maestro Leonard Bernstein, seu professor. “Será muito excitante poder trabalhar em Campos”, disse a maestrina na ocasião. “É um festival que já tem um histórico importante, bem estabelecido, e vai nos permitir lidar com uma questão que é bastante importante para nós na Osesp: criar um ambiente apropriado para que jovens possam aprender, instrumentistas, compositores, maestros, ao lado de gente do mundo todo. E isso está ligado aos objetivos iniciais do festival, desde que ele foi criado.”
A gestão do Festival de Inverno de Campos do Jordão havia sido entregue à Santa Marcelina Cultura em 2009. No ano passado, no entanto, desentendimentos entre a organização social e a Secretaria de Estado da Cultura levaram à não renovação do contrato – e, em fevereiro, a secretaria anunciou a Fundação Osesp como nova responsável pelo evento. Na ocasião, Ana Flávia Souza Leite, coordenadora da Unidade de Formação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura, explicou a decisão como uma maneira de estabelecer maior integração dentro do Sistema Paulista de Música, do qual fazem parte a Osesp, o Projeto Guri, a Escola de Música do Estado de São Paulo e o Festival de Campos do Jordão. “A retomada da Osesp como gestora do festival vai promover maior intercâmbio cultural entre os alunos de música e convidados internacionais, dado o prestígio da orquestra”, disse.
Na entrevista dada por Alsop, publicada no “Caderno 2″ do dia 8 de março, ela falou também da importância de ter a Osesp mais próxima do festival, como grupo residente – posto que ocupou em edições passadas, mas deixou de ocupar em 2011, após desentendimentos entre a direção artística da orquestra e da Santa Marcelina. No entanto, informações preliminares dão conta de que na edição de 2012 a Osesp fará apenas um concerto em Campos. Segundo a Fundação Osesp, “o programa do Festival será anunciado oportunamente”.
Ainda na rua, mochila nas costas, o pequeno Lang Lang pode ver o semblante irritado do pai, que o esperava na janela. Poucas semanas antes, depois de completar 8 anos, os dois haviam se mudado para Pequim. Em Shenyang, o menino pianista era tratado como um príncipe. Naquela tarde, porém, era recebido aos gritos pelo pai. Estava duas horas atrasado para a sessão diária de estudos. Assim, não seria aceito no conservatório da capital. Todo o esforço teria sido em vão – e, em meio à briga, o pai lhe entrega um punhado de comprimidos. “Tome! Se você é um preguiçoso, não vai ser o número um e, então, não há sentido em viver. Primeiro você morre, depois eu morro.” Histórias de prodígios são comuns no universo da música clássica – mas a de Lang Lang impressiona pela rapidez com que ele tomou de assalto o mercado. O talento descomunal (e as tormentas pelas quais passou para poder desenvolvê-lo), o jeito de moleque, a curiosidade crescente pela cultura chinesa – seja qual for o motivo, os números e conquistas deste artista de 29 anos impressionam. A revista ‘Time’ o considerou uma das cem personalidades mais influentes do mundo; em 2008, seu recital na abertura das Olimpíadas foi visto por 5 bilhões de pessoas; sua biografia já foi traduzida para dez idiomas; é pianista exclusivo e recordista em vendas do selo Deutsche Grammophon; embaixador da Unicef, acaba de ser empossado como vice-presidente da Federação da Juventude Chinesa. “Nada mudou”, diz ele em entrevista ao ‘Estado’. “Sou a mesma pessoa, estudo todo dia. A diferença é que estou mais ocupado. Ainda assim, não me incomodo. Lido com tudo de uma maneira espontânea, tento ser uma boa pessoa com todos.”
Em maio, ele faz dois concorridos recitais na Sala São Paulo, dentro da temporada que marca o centenário da Sociedade de Cultura Artística. Vai tocar Bach, Chopin e Schubert, compositores que já gravou. O seu preferido, no entanto, é Liszt, tema de seu último disco, lançado no final do ano passado. Preferido, diz, talvez seja adjetivo forte demais. “Mas é fato que foram suas obras que me inspiraram a começar a tocar piano e elas têm me acompanhado desde a infância. Foi ele o responsável por pensar o recital como um tipo de performance. Era uma figura nobre, com muita personalidade. Sua música tem essa força e, ao mesmo tempo, uma beleza na harmonia que poucos compositores conseguiram igualar.” Foi o pai quem o introduziu na música clássica ocidental. Policial, abandonou o emprego para se dedicar exclusivamente a acompanhar o filho, com quem se mudou para Pequim enquanto a mãe permanecia em Shenyang, trabalhando para sustentá-los. Lang Lang não tomou os comprimidos, mas o episódio o afastou da música por um tempo. Mais tarde retomaria os estudos e, depois de se formar em Pequim, transferiu-se para os Estados Unidos, onde, com 13 anos, passou a estudar no Curtis Institute, na Filadélfia. Caiu nas graças dos professores e, mais tarde, de maestros como Daniel Barenboim e Valery Gergiev, que o ajudaram a dar os primeiros passos na carreira.
Em sua biografia, você fala abertamente de sua infância e da difícil relação com seu pai no que diz respeito a seu treinamento como pianista. De que maneira o que aconteceu influenciou no tipo de pianista que você se tornaria? Como foi a mudança para os Estados Unidos?
Há muitas maneiras de se criar um filho. Ser rígido não significa abrir mão do carinho, do calor paterno. Meu pai me ajudou e apoiou quando eu era uma criança, seja no que diz respeito à música, seja no dia a dia. Eu toco piano apenas porque gosto de tocar piano, amo a música, é daí que sempre tirei a motivação para estudar. É inútil forçar uma criança a estudar se ela não tem interesse em música. Quanto a chegar na América, foi algo importante, que me colocou em contato com a diferença. E o mais interessante foi ver como meu pai mudou também. Hoje, somos melhores amigos.
Você nasceu na China, um país que nos últimos anos passou a ter um novo protagonismo geopolítico, cultural e econômico – além de ser manchete frequente por questões como a censura e o cerceamento das liberdades individuais. Como analisa a maneira como o Ocidente vê seu país? Qual a sua percepção dos dilemas enfrentados pela China?
Meu contato com o Ocidente vem da minha infância, por meio da cultura, da música. Após um período de abertura, o povo chinês tem cada vez mais interesse na música clássica ocidental. Pessoalmente, sempre estive envolvido com as duas culturas, aprecio ambas. E espero poder fazer algo para construir uma ponte entre elas.
Não adianta insistir. Quando o assunto é política, Lang Lang fala de música. A resposta é sempre diplomática – o que já lhe rendeu críticas de parcela da imprensa europeia. Ele, porém, prefere defender com unhas e dentes o papel que arte pode desempenhar na criação de um diálogo entre diferentes culturas. Se de um lado atua com afinco na função de embaixador da Unicef, em parceria com a Fundação Lang Lang, acaba de criar em Shenzeng, na China, sua primeira escola de música, de onde acabara de voltar quando falou ao ‘Estado’, no final de semana, direto de sua casa em Londres. “Se você me pergunta onde me imagino daqui a dez, vinte anos, estou certo de que não estarei longe do piano. Mas tenho prestado mais atenção à educação musical. Cuidar da formação das novas gerações é fundamental, não há como falar em popularização da música clássica sem isso. Se uma pessoa cresce ouvindo música, ela fará parte de sua vida, será aceita de maneira natural. Não há outra solução. Em Shenzeng, quero mostrar às crianças que, se aceitarem a música clássica, entrarão em um universo de emoções, alegrias, que vai enriquecer suas vidas, seus espíritos.”
Tudo está ligado à necessidade de diálogo, diz Lang Lang, mesmo quando discorre sobre as escolas asiáticas de interpretação, historicamente mais preocupadas com a técnica. “Não podemos mais falar de escolas, pois isso subentende uma maneira única, comum a todos os países e culturas. Talvez isso tenha acontecido lá atrás, mas não mais. Pianista asiáticos estão buscando maior compreensão da música clássica. No meu caso, o que quero é unir a técnica e a musicalidade. Sem entender o que o compositor está dizendo, seu estilo, você não consegue ser responsável por passar sua mensagem.”
Ainda que seja a morte o destino inevitável de Violetta, é outra a tragédia de que Verdi nos fala em “La Traviata”. No caminho que leva das festas dos salões parisienses à casa no campo onde passa a viver com o jovem Alfredo, a cortesã vai do desencanto com a vida, de um deserto de relações estéreis, a uma crença renovada na possibilidade do amor, da felicidade. Seu grande drama é este: voltar a acreditar para, pouco depois, ser confrontada com a realidade que a devolve à rotina de antes. É uma morte ainda em vida, que antecede seu desaparecimento; e que ela se dê à luz do espaço público, do preconceito da sociedade, só torna ainda mais solitária sua condição. Passamos, então, ao campo da oposição – seria melhor dizer necessidade de convivência – entre o pessoal e o público, um dos grandes temas abordados pelo compositor. Em Verdi, o contexto social ou político nunca é apenas pano de fundo. O todo relaciona-se com o detalhe de maneira fluída e é por meio desse diálogo com um contexto dado que o compositor nos oferece um olhar dilacerante sobre o íntimo das personagens.Cenas como o confronto de Alfredo com Violetta durante a festa na casa de Flora, observado por todos os convidados, são emblemáticas do teatro verdiniano – e a relação entre público e privado que ensejam é o eixo em torno do qual se articula a montagem de “La Traviata” assinada pelo italiano Danielle Abbado, que abriu na semana passada a temporada do Teatro Municipal de São Paulo. A decisão de não deixar os personagens sozinhos em cena; o cenário único, aberto, praticamente sem elementos; a luz, forte, quase chapada – são escolhas que, em uma leitura integrada e atenta aos detalhes, ressaltam a agressividade com que pode se dar a relação do meio com o que temos de mais íntimo. O destaque da montagem, no entanto, em diálogo com o espectro mais amplo da concepção do diretor, é o trabalho cuidadoso na orientação dos cantores/atores. A movimentação no palco segue uma estrutura quase geométrica. E isso permite que, mesmo em cena, personagens surjam e desapareçam a todo instante, obedecendo aos estímulos da história e traduzindo cenicamente a profusão de sensações e projeções em jogo. Na noite de estreia, na quinta-feira, subiram ao palco a soprano Irina Dubrovskaya, o tenor Roberto di Biasio e o barítono Paolo Coni; na segunda récita, realizada na sexta, foi a vez do primeiro elenco brasileiro, composto pela soprano Adriane Queiroz, o tenor Marcelo Vanucci e o barítono Rodolfo Giuliani (o segundo, formado por Rosana Lamosa, Fernando Portari e Leonardo Neiva, será responsável pelas récitas de abril). Irina Dubrovskaya, apesar dos problemas de emissão nas regiões média e grave da voz, teve desempenho mais homogêneo do que Adriane Queiroz, atrapalhada pelos agudos do primeiro ato. No entanto, o modo como a paraense cresce em cena justamente à medida que a escrita vocal de Verdi torna-se mais densa e pesada, maneira de retratar por meio da música a trajetória da personagem em direção a seu fim trágico, torna sua Violetta mais convincente – teatral e musicalmente. Entre os homens, chama a atenção a riqueza de coloridos das vozes de Vanucci e Giuliani, ainda que Di Biasio se destaque pela maneira como explora o potencial expressivo de seu timbre e Coni ofereça autoridade ímpar, capaz de compensar uma voz já desgastada pelo tempo. À frente da Sinfônica Municipal, o maestro Abel Rocha ofereceu aquilo que o público paulistano espera dele – a capacidade de devolver à orquestra e ao teatro um bom nível de execução musical. Os pequenos deslizes da Municipal, em especial na estreia, são jogados em segundo plano por uma regência teatral, atenta à cena – e que em momento algum perde a inspiração.
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