ir para o conteúdo
 • 

João Luiz Sampaio

Uma semana já se passou desde a morte do barítono Dietrich Fischer-Dieskau mas, com atraso, aqui vai, na íntegra, o texto que escrevi sobre ele para o “Caderno2+Música”, publicado no sábado passado.

Fischer-Dieskau com Sviatoslav Richter

Ao completar 80 anos, em 2005, o barítono alemão Dietrich Fischer-Dieskau rompeu um silêncio de pouco mais de uma década e concedeu uma entrevista ao britânico The Guardian. Falou, então, de um paradoxo que ocupava sua mente. “Aqueles que mais conquistam muitas vezes são os mais facilmente esquecidos”, disse. “Não gostei de completar 70 anos e gosto ainda menos de fazer 80. É o começo do último capítulo. Queria poder ignorar tudo isso.” O último capítulo de uma das mais ricas trajetórias artísticas do século 20 terminou ontem. Às vésperas de completar 87 anos, no dia 28, Fischer-Dieskau morreu em sua casa na Alemanha, segundo informações dadas por sua mulher, a soprano Julia Varady. Estava, segundo ela, rodeado por familiares. A causa da morte não foi divulgada. Quando esteve no Brasil em 2004, para um recital no Teatro Municipal de São Paulo, o barítono alemão Andreas Schmidt brincou quando indagado sobre a importância de Fischer-Dieskau, com quem estudou, no cenário musical. “Ele sacaneou todo mundo. Os cantores de sua época simplesmente não tinham como cantar, porque todo mundo queria ele. E, para nós, que viemos depois, fica sempre a sua sombra. E que sombra.” O episódio dá conta da importância de Fischer-Dieskau. Ele foi mais do que uma grande voz. Ao longo de 50 anos de carreira, criou um universo só seu no mercado internacional. Sua discografia inclui 60 papéis em óperas, mais de uma centena de cantatas e oratórios e cerca de 3 mil canções. Deu nova ênfase às palavras, à pronúncia e, com uma qualidade técnica e de interpretação ímpares, abriu nossos ouvidos à experiência da descoberta de um repertório imenso, seja na recriação das obras-chave do romantismo alemão, seja no resgate ou na revelação de autores e ciclos menos conhecidos, dos barrocos aos modernos. Ao longo de sua trajetória, trabalhou bem o desenvolvimento das possibilidades da própria voz, que ele soube expandir em direção à maturidade. O pianista Gerald Moore, por exemplo, seu parceiro em boa parte das gravações que dedicou ao universo do lied, escreveu em sua biografia, Am I Too Loud?, que “bastou que ele cantasse uma só frase para que eu me desse conta de que estava na presença de um mestre”. Outro grande do piano, o russo Sviatoslav Richter, concordaria. “Foi o maior cantor do século 20″, escreveu em seus diários. Para a soprano Elisabeth Schwarzkopf, “era um deus”. “Sua atuação redefiniu a história e a cultura do canto”, disse ontem o presidente da Academia das Artes Alemãs, Klaus Staeck. Fischer-Dieskau nasceu em Berlim em 1925. Lá fez sua estreia em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, cantando o ciclo Winterreise (Viagem de Inverno), de Schubert, que se tornaria um dos marcos de sua carreira, gravado por ele diversas vezes ao longo dos anos. “Um bombardeio atingiu a cidade durante o recital e eu e o público, cerca de 200 pessoas, fomos obrigados a buscar refúgio em um abrigo antibombas. Duas horas e meia depois, voltamos ao teatro e terminei o recital”, lembrou ele em sua biografia. Um ano mais tarde, foi obrigado a se alistar no exército e acabou capturado pelas forças aliadas na Itália. Passou dois anos preso e, ao voltar à Alemanha, em 1947, foi contratado para cantar o Réquiem Alemão, de Brahms. Foi o marco oficial do início de sua carreira, assim como um ano mais tarde estrearia no mundo da ópera cantando o papel do marquês de Posa, no Don Carlo, de Verdi (do qual há disponível uma gravação comercial feita a partir de um registro de rádio). Nos dez anos seguintes, ele começaria a percorrer o mundo, fazendo suas estreias em teatros como o Covent Garden, de Londres, o Scala, de Milão, e o Metropolitan, de Nova York. Em Salzburgo, fez sua estreia cantando Mahler sob a regência de Wilhelm Furtwängler, a quem se referiria mais tarde como sua “maior influência”. “Ele me disse certa vez que o mais importante para um artista era formar, com a plateia, uma comunidade de amor pela música, criar um só sentimento em meio a pessoas de origens diferentes. Vivi essa ideia durante toda minha carreira.” Legado múltiplo. No universo da ópera, suas atuações foram marcantes. Do repertório alemão, deixou registros preciosos de óperas de Wagner e Strauss. Com Karajan, gravou o Wotan de Ouro do Reno; com Georg Solti e Karl Böhm, entre outros, O Crepúsculo dos Deuses, Salomé, Arabella e A Mulher Sem Sombra. No repertório italiano, nunca foi unanimidade. Para alguns críticos, faltava à sua voz certo “elemento mediterrâneo”, teoricamente mais adequado à criação de autores como Verdi e Puccini. Mas a inteligência musical e o cuidado com as palavras fazem de seu Falstaff (sob regência de Leonard Bernstein), seu Rigoletto (com Rafael Kubelik) ou mesmo de seu Scarpia (na Tosca regida por Lorin Maazel e estrelada por Birgit Nilsson e Franco Corelli) marcos do gênero na história da indústria fonográfica. É no repertório de canções, no entanto, que seu legado se multiplica de modo ainda mais contundente, em dezenas de gravações. Schumann. Schubert, Mendelssohn, Strauss, Wolf, Brahms, Mahler, Zemlinsky, Schoenberg, Berg – seus registros do cancioneiro germânico são a melhor porta de entrada a este repertório. Da mesma forma, estabeleceu parâmetros de interpretação de autores como Ravel, Debussy, Berlioz, Fauré, além de se dedicar às canções de criadores contemporâneos como Samuel Barber, Albert Reimann, Max Reger, Ferruccio Busoni ou Othmar Shoeck. Com Vladimir Ashkenazy, gravou em Berlim a Suíte Sobre Versos de Michelangelo Buonarrotti, de Shostakovich; em Londres, participou da estreia de uma das mais importantes obras criadas no século 20, o Réquiem de Guerra, do compositor britânico Benjamin Britten. A diversidade de repertório ele atribuía a um hábito de infância. “Quando tinha dois anos, cantarolava o tempo todo, imitando as vozes que eu ouvia”, dizia, não sem um certo tom jocoso. De fato, como explicar o fenômeno de uma voz para a qual não parecia haver limites? Em suas atuações, impressionam a flexibilidade e a riqueza de coloridos. A técnica nasce como consequência da interpretação. E, talvez por isso, um timbre tão particular como o dele seja capaz de nos dar quase sempre uma sensação de universalidade. Acontece com poucos.

sem comentários | comente

25.maio.2012 21:18:02

Cancelamentos

A temporada de festivais mal começou no Hemisfério Norte e notícias de cancelamento já agitam o mercado. Primeiro foi Anna Netrebko, que após cancelar récitas de Don Giovanni, em Berlim, e de “I Capuleti ei Montecchi”, de Bellini, em Munique, não vai mais se apresentar no Whitsun Festival de Salzburg. Agora, o tenor Jonas Kaufmann, depois de cancelar algumas récitas de “A Valquíria” no azarado “Anel” do Metropolitan de Nova York, acaba de abandonar a programação do Festival de Lucerna, onde faria recitais. No caso dele, a imprensa suíça não perdoou. Se estava com problemas na voz, por que cantou, no sábado passado, antes da final da Liga dos Campões, em Munique? O cantor correu à imprensa para esclarecer que, na cerimônia, apenas dublou uma gravação feita tempos antes. “Se tivesse que cantar ao vivo, também teria cancelado”, disse, acrescentando que não recebeu um centavo pela performance.

Kaufmann tem um histórico grande de cancelamentos – e por conta disso a todo instante surgem boatos sobre sérios problemas em sua voz. O fantasma do cantor que, por excesso de compromissos, destrói a voz cedo demais nunca deixa de rondar o mercado da ópera. Até porque fez vítimas recentemente – que fim levou José Cura? Isso para não falar de Rolando Villazón, que passou de novo Plácido Domingo a cantor de segundo time em questão de meses, lutando com um problema nas cordas vocais – sua recente gravação do Werther, de Massenet, em Londres, símbolo de seu “retorno” revela um vibrato insistente e uma afinação precária. Talvez por isso, cancelamentos ocasionais sejam uma medida mais sensata do que cantar demais, mesmo quando não se sente à vontade. Para o público, é frustrante – quando estive em Salzburg, em 2010, foi difícil não se irritar com o cancelamento de seu recital. Mas, é como disse o barítono Renato Bruson, em recente passagem por São Paulo. “Os artistas desaprenderam uma lição importantíssima: a coragem de dizer não. Nos últimos anos assisti a bons cantores, vi dois ou três barítonos que me empolgaram. Onde estão hoje? Com problemas vocais. Canta-se demais. Eu me lembro, nos anos 80, de cantar Otello com Plácido Domingo em Buenos Aires. Ele cantava à noite, pegava um avião, ia para a Europa cantar. Voltava dois dias depois, fazíamos mais uma récita de Otello. Então, pegava de novo seu avião e ia para os Estados Unidos.” O problema, completou, é que nem todo mundo tem a voz – e a inteligência – de Domingo.

sem comentários | comente

25.maio.2012 17:52:19

Momentos especiais

A Sinfônica Heliópolis faz amanhã, pela primeira vez, um concerto ao ar livre na comunidade. A apresentação é parte da Jornada de Habitação, que reunirá grupos de diversos projetos socioculturais de Heliópolis, como o Cine Favela, a Companhia de Teatro Heliópolis, o coletivo de Hip Hop Avante o Coletivo e a escola de samba Imperador do Ipiranga. O concerto será em um palco montado no Centro de Convivência de Heliópolis (Estrada das Lágrimas, 2385).Para a organização, o “concerto será um encontro entre o Heliópolis e a Heliópolis, o bairro educador e a orquestra-escola, que leva para o mundo o nome e a energia da comunidade, com a qual busca aprender cada dia mais”.

Aproveito a notícia para comentar o concerto que a orquestra fez há pouco mais de um mês na Sala São Paulo, quando subiram ao palco regidos pelo violinista Julian Rachlin. Tocaram Mozart e Mendelssohn. A qualidade do desempenho me impressionou muito, assim como a sinergia entre músicos e maestro. Era música sendo feita ao vivo, com toda a tensão e encantamento que isso carrega. A clareza nas texturas, nas articulações, a atenção às dinâmicas – tudo isso me fez sair da sala com a sensação de que o grupo está de fato pronto para os voos artísticos mais altos que pretende dar este ano, com um repertório mais amplo, que inclui até sua primeira ópera. E isso é um marco importante. É sempre tênue o limite entre resultado artístico e social – corremos sempre o risco de colocar a ênfase em um dos dois lados, perdendo a experiência mais ampla que o diálogo entre as duas propostas pode oferecer. É esse diálogo o que a Sinfônica Heliópolis tem revelado ser fascinante.

sem comentários | comente

Quando esteve no Brasil há alguns anos, para recitais no Teatro Municipal de São Paulo, o barítono alemão Andreas Schmidt brincou quando perguntado sobre a importância de Dietrich Fischer-Dieskau, com quem estudou, no cenário musical do século 20. “Ele sacaneou todo mundo. Os cantores de sua época simplesmente não tinham como cantar, porque todo mundo queria Fischer-Dieskau. E, para nós, que viemos depois, fica sempre a sua sombra. E que sombra.” Fischer-Dieskau morreu hoje cedo, aos 86 anos. Foi mais do que um cantor. Criou um estilo de interpretação que se tornou referência incontornável. Deu nova ênfase às palavras, à pronúncia. Ao longo de 50 anos de carreira, criou um mundo só seu no cenário internacional. Além dos livros que escreveu, sua discografia, ou “dieskaugrafia”, é portentosa, com 60 papéis em ópera, mais de uma centena de cantatas e oratórios e, claro, cerca de 3 mil canções. Com uma qualidade técnica e de interpretação difíceis de serem equiparadas, o mínimo que se pode dizer é que ele abriu nossos ouvidos à experiência da descoberta de um repertório imenso, seja na recriação das obras-chave do romantismo alemão, seja no resgate ou na revelação de autores e ciclos menos conhecidos, dos barrocos aos modernos. O mais interessante, porém, é ver como o caminho trilhado por ele seguiu uma lógica interna, de desenvolvimento das possibilidades de sua própria voz, expandindo-a em direção à maturidade. Foi verdadeiramente grande.

1 Comentário | comente

A atriz Fanny Ardant (acima), que se apresentaria em julho na Sala São Paulo ao lado do Ensemble Intercontemporain de Paris, cancelou sua vinda ao Brasil. Ela iria participar da encenação de “Cassandre”, obra de Michael Jarrell, pela temporada da Sociedade de Cultura Artística. Em seu lugar foi anunciado o nome da atriz Marthe Keller (abaixo), que foi a responsável pela estreia da obra. Não foi divulgada a causa do cancelamento.

1 Comentário | comente

Boa notícia: a Royal Concertgebouw de Amsterdã, uma das maiores orquestras do mundo, anunciou ontem seus planos para a comemoração do 125º aniversário. E, entre eles, está uma turnê pela América Latina, com apresentações em São Paulo e no Rio, em junho. A regência será de Maris Janssons e, no programa, estarão obras de Enescu, Mahler, Prokofiev, Tchaikovski, Rachmaninoff, Strauss, Verdi e Villa-Lobos. Em São Paulo, eles farão inclusive concerto ao ar livre, no Parque do Ibirapuera. Será uma excelente oportunidade de ouvir um grupo que está entre os cinco maiores de todo o mundo.

Em tempo: o solista será o pianista Denis Matsuev.

1 Comentário | comente

Marcelo Lopes, Marcelo Araújo e Artur Nestrovski – Foto de Ernesto Rodrigues/AE

Em sua primeira edição sob o comando da Fundação Osesp, o Festival de Inverno de Campos do Jordão terá 60 concertos e receberá 115 alunos, do dia 30 de junho a 29 de julho. O investimento total é de R$ 6 milhões – R$ 2,5 milhões bancados pelo governo do Estado e o restante, pela iniciativa privada. A novidade fica por conta da mudança na área pedagógica, que passa a ter como foco a atividade orquestral – a sinfônica formada por alunos fará três programas distintos ao longo do festival.
“Montamos a programação em torno de três eixos principais”, explicou na quarta o diretor artístico do festival, Arthur Nestrovski. “O primeiro diz respeito à orquestra dos bolsistas; o segundo, aos professores que também farão concertos; e, por fim, artistas convidados, que vão apenas se apresentar, com destaque para os principais conjuntos sinfônicos e de câmara brasileiros.”

A orquestra dos bolsistas será comandada por três maestros. Na primeira semana, rege o grupo Sir Richard Armstrong, em programa que tem obras de Wagner, Mahler e Dvorak; na segunda, será a vez de Giancarlo Guerrero, com obras de Dvorak, Chapela e Bernstein; e, no terceiro, assume o grupo Marin Alsop, com peças de Mozart, Camargo Guarnieri e Bartok. Os concertos serão realizados em Campos do Jordão e na Sala São Paulo; a itinerância pelo Estado, instituída no ano passado, foi abolida. “Para nós parece mais interessante, do ponto de vista de experiência artística, que os músicos se apresentem em um palco como a Sala São Paulo, com maestros de peso.”

Os três maestros – assim como o pianista Nelson Freire e o violoncelista Johannes Moser, que serão os solistas dos concertos da orquestra do festival – também participam da temporada da Osesp; da mesma forma, muitos dos professores vêm da orquestra. “Nesse primeiro ano, até por uma questão de tempo, acabamos nos valendo de quem já estaria aqui por conta da temporada da Osesp”, diz Nestrovski. A Osesp fará três programas em Campos, entre eles a abertura (Missa Solene, de Beethoven, regida por Thomas Dausgaard) e o encerramento (programa com Ives, Britten, Adams e Shostakovich, com Carlos Kalmar e o barítono americano Nathan Gunn). Músicos como o violoncelista Antonio Meneses, os pianistas Ewa Kupiec, Nelson Goerner e José Feghali, o flautista Jacques Zoon e o trompetista Ole Edward Antonsen estão entre os artistas convidados, que farão apresentações e darão aulas e masterclasses. A violinista Sarah Chang não dará aulas, mas fará concerto com a Filarmônica Jovem da Colômbia. Entre os grupos brasileiros, estão a Sinfônica Municipal de São Paulo, a Experimental de Repertório, a Sinfônica Brasileira, a Filarmônica de Minas Gerais e a Petrobrás Sinfônica, que vai apresentar a nova ópera de João Guilherme Ripper, Piedade. Ripper, como Chapela e André Mehmari darão masterclasses e terão encontros com o público antes dos concertos. Na lista de grupos de fora, o destaque é o Quarteto Vogler, da Alemanha.

A Fundação Osesp fechou parceria com quatro instituições internacionais e receberá delas professores e alunos: Conservatório de Amsterdã, Conservatório Real de Haia, Peabody Institute e a Royal Academy of Music, de Londres. A programação completa está no site www.festivalcamposdojordao.org.br.

A QUESTÃO DA DIREÇÃO

Arthur Nestrovski, diretor artística da Osesp, e Marcelo Lopes, diretor executivo, assumem os mesmos postos em Campos do Jordão. Questionado sobre esta centralização de poder de decisão, o secretário de Cultura Marcelo Araújo afirmou que a saída foi necessária neste primeiro momento. “Mas isso não significa que seja a única possibilidade. Já no ano que vem o festival pode ganhar direção própria dentro da estrutura da Fundação Osesp.” Para Lopes, sempre haverá ligação entre o festival e a orquestra. “Mas não há tentativa de agregar poder de maneira vertical.”

comentários (4) | comente

A edição deste ano do Festival de Inverno de Campos do Jordão terá 115 bolsistas, número 25% menor do que a média dos últimos anos, 154. A nova direção optou também por cortar pela metade, de R$ 48 mil para R$ 24 mil, o prêmio Eleazar de Carvalho, dado a um aluno que se destacou durante o evento; e acabou com o curso de composição e com os prêmios Camargo Guarnieri (oferecido a jovens autores) e Ayrton Pinto (dados aos melhores de cada instrumento).

Em 2009, o festival contou com 156 jovens músicos; em 2010, foram 146; e, em 2011, 161. No ano passado, o prêmio Camargo Guarnieri rendeu R$ 15 mil ao vencedor e quatro bolsas de R$ 8 mil foram dadas aos vencedores do Ayrton Pinto. As informações sobre a edição deste ano, prevista para julho, constam do edital do festival, publicado no fim da semana passada no site do evento, que desde o início do ano passou a ser gerido pela Fundação Osesp e não mais pela Santa Marcelina Cultura, organização social contratada em 2009, durante a gestão do secretário João Sayad.

Ainda não foram divulgados os nomes dos professores e artistas convidados, assim como a Fundação Osesp preferiu não divulgar o orçamento do evento. Em entrevista concedida ao Estado na sexta-feira, o novo secretário estadual de Cultura Marcelo Araujo afirmou, ao ser indagado sobre Campos do Jordão, que “este ano daremos prosseguimento a tudo aquilo que aconteceu nos anos anteriores” (leia a entrevista completa na página D10). Procurada pelo Estado na manhã de ontem, a Fundação Osesp informou “que a programação e demais detalhes serão divulgados na íntegra no próximo dia 30″.

Ainda segundo o edital, a Orquestra Acadêmica, formada por bolsistas e alguns professores, fará três concertos, um por semana, durante o festival. No primeiro, será regida pelo maestro inglês Richard Armstrong; no segundo, pelo mexicano Giancarlo Guerrero; e, no terceiro, pela americana Marin Alsop – além de Alsop, regente titular do grupo desde o início do ano, os outros dois maestros estão programados também na temporada da Osesp. O edital prevê ainda a realização de concertos de música de câmara, dos quais participariam professores e alunos.

Na semana passada, o festival anunciou o nome de Artur Nestrovski como diretor artístico do evento; Marcelo Lopes, diretor executivo da Osesp, assume o mesmo posto em Campos e o maestro e violinista Claudio Cruz, spalla da Osesp, fica responsável pela direção pedagógica e pela preparação e ensaios da Orquestra Acadêmica – Cruz regeu no ano passado o grupo e, desde o início de 2012, é o novo diretor da Sinfônica Jovem do Estado. Marin Alsop, que chegou a dar entrevistas como diretora artística do festival, alegou problemas de agenda e desistiu do cargo, ficando como “consultora artística”, assim como seu regente associado, o maestro Celso Antunes.

sem comentários | comente

Notícia fresquinha: o maestro Helmuth Rilling e os músicos da Academia Bach de Stuttgart, grandes especialistas na interpretação do período barroco, virão ao Brasil no começo de maio para apresentar a “Missa” de Bach. O concerto, no dia 7 de maio, será no Teatro Municipal de São Paulo, parceria da Cultura Artística com a Dell’Arte. Rilling esteve no Brasil da última vez em 2008, quando regeu o “Réquiem Alemão”, de Brahms, concertos memoráveis à frente da Osesp. Agora, ele volta com uma de suas especialidades.

comentários (5) | comente

O site da revista Concerto acaba de divulgar a temporada 2012 do Teatro São Pedro, anunciada hoje após um período de indefinição provocado pela troca de direção musical da casa, com a saída de Roberto Duarte e a chegada de Julio Medaglia. Serão encenadas três óperas: “O Elixir do Amor”, de Donizetti, em junho; “Lakmé”, de Delibes, em agosto; e “Werther”, de Massenet, em novembro. Gostei dos títulos, mas o anúncio traz dados que levantam uma questão no mínimo polêmica no que diz respeito à gestão do teatro.

Roberto Duarte pediu demissão, no começo de março, alegando que seus poderes como diretor artístico haviam sido diminuídos a um ponto que ele considerou intolerável. Segundo ele, com a criação de um conselho artístico, que tem direito de vetar decisões da direção artística – e no qual Duarte não tinha voto –, as temporadas por ele apresentadas foram recusadas sistematicamente. A alegação foi de que títulos como as óperas de Carlos Gomes sugeridas pelo maestro não eram condizentes com a estrutura física do São Pedro e os recursos repassados ao teatro pelo governo do Estado, na casa de R$ 1,5 milhão.

Até aí, tudo bem. Essa, afinal, foi a grande tônica das críticas feitas ao teatro nos últimos tempos. No entanto, o que se seguiu foram decisões também polêmicas. Júlio Medaglia foi convidado a assumir o posto de diretor artístico, que ocupa já há um mês. E, agora, o comunicado com a programação divulgado na revista Concerto traz a informação de que José Roberto Walker será o produtor responsável pelas montagens. Tanto Medaglia quanto Walker faziam parte do conselho artístico. E isso me traz à mente algumas perguntas. Se a função do conselho artístico é coordenar, digamos, o trabalho do diretor artístico, sugerindo caminhos e assinando embaixo, ou não, de suas decisões, é correto que alguns de seus membros passem a ocupar esse posto? Dessa forma, a direção artística rege, em última análise, a si mesma; e então me pergunto: para que serve o conselho? Desse jeito, fica parecendo que foi criado para possibilitar um rearranjo de posições internas. E talvez não tenha sido por acaso que alguns membros tenham deixado o conselho nas últimas semanas, o que mostra que as decisões não foram exatamente unânimes, como quis fazer acreditar o secretário de Estado da Cultura Andrea Matarazzo.

Não há aqui qualquer questionamento da capacidade profissional tanto de Julio Medaglia como de José Roberto Walker. Com o advento, que parece irreversível, das organizações sociais como modelo de gestão, novas questões e estruturas de trabalho têm surgido. Tudo ainda é muito novo e nem sempre sabemos onde estamos pisando. Por conta disso, toda transparência é necessária. Quem, afinal, são os membros do conselho? Qual a hierarquia na gestão? Em que instâncias são tomadas as decisões relacionadas a verbas e programação? São muitas as perguntas. No entanto, no site do Instituto Pensarte, não há nem mesmo a informação de que ele é responsável pela gestão do São Pedro, o que é fato consumado desde o final do ano passado.

Passou da hora, não?

Atualização feita às 12h45 do dia 20/4, sexta-feira:
O site da revista Concerto publicou agora há pouco uma nota enviada por Px Silveira, do Instituto Pensarte. Nela, ele diz que José Roberto Walker não será o produtor da temporada de 2012 do Teatro São Pedro. “Trata-se de uma inverdade que tem sua evidente contestação no fato de que o próprio Theatro São Pedro e sua equipe estão a cargo da produção da referida temporada. A mais, não consta em qualquer momento de nosso relacionamento com o sr. josé roberto walker a autorização ou o entendimento de que ele possa falar pelo theatro, seus projetos, sua administração”. De novo: equívocos desse tipo só reforçam a ideia de desgoverno…

comentários (9) | comente

Arquivo

Blogs do Estadão