O encontro de governadores com os presidentes da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), hoje à tarde, para discutir o pacto federativo, não contou com os governadores do Rio e do Espírito Santo, Estados produtores de petróleo, Sérgio Cabral e Renato Casagrande, respectivamente.
A ausência foi combinada entre os dois, em protesto pela derrubada do veto presidencial que impedia a mudança nas regras de distribuição dos royalties sobre campos já licitados. Cabral nem enviou o vice-governador, Luiz Fernando Pezão, que pretende eleger seu sucessor. Casagrande faltou estando em Brasília.
Quem ficou à vontade foi o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), que vestiu o figurino de candidato ao liderar a tentativa de acordo entre Estados produtores e não-produtores de petróleo. A preocupação dos governadores é que a derrubada do veto presidencial pelo Congresso não se transforme numa vitória de Pirro, pois ela não gera efeitos antes da batalha judicial encampada por Rio, Espírito Santo e São Paulo, que poderá retardar, por anos, a chegada desses recursos aos cofres estaduais.
A proposta do Campos candidato é a de que a União antecipe a receita esperada pelos Estados não-produtores, estimada em R$ 5 bilhões. Pura provocação para indispor governadores e o Planalto. A proposta do Campos governador, é a de que cada uma das três partes – União, produtores e não-produtores – abra mão de um terço dos recursos esperados. Caberia à União transferir os recursos aos não-produtores em operação financeira. Mas o Planalto recusou as propostas.
Já o governador do Ceará, Cid Gomes, opositor da candidatura de Campos dentro do PSB, discursou como aliado incondicional de Dilma Rousseff. Ele, que recentemente teve os cofres do Ceará engordados com recursos federais, fez questão de homenagear Dilma.
“Minha solidariedade ao governo da presidente Dilma que, entendo, tem feito o melhor para o Brasil”.
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O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) prepara-se para julgar neste ano os pedidos de cassação de mandato de governadores. Dos 27 eleitos, a Corte eleitoral recebeu ações para cassar o mandato de 12 deles – quase a metade dos diplomados em 2010. Nas ações contra os governadores do Amazonas, Omar Aziz (PSD), do Acre, Tião Viana (PT), e de Roraima, José de Anchieta Júnior (PSDB), a vice-procuradora eleitoral Sandra Cureau proferiu duros pareceres, pedindo a cassação dos mandatos.
Concluída a maior parte dos processos relativos às eleições municipais, o TSE agora volta os olhos para os governadores. Foi assim em relação ao pleito anterior. Quando os governadores eleitos em 2006 completavam a metade dos mandatos, o tribunal deflagrou os processos de cassação daqueles que haviam cometido crimes eleitorais, como compra de votos e abuso de poder.
Em novembro de 2008, o TSE cassou o então governador da Paraíba e hoje senador, Cássio Cunha Lima (PSDB). Já em março de 2009, decretou a perda de mandato do governador do Maranhão, Jackson Lago (PDT). Três meses depois, foi a vez do governador do Tocantins, Marcelo Miranda (PMDB).
Maranhão
Com Jackson Lago apeado do cargo pelo TSE em ação movida por ela, a então senadora Roseana Sarney (PMDB) assumiu o governo do Maranhão em 2009, com 21 meses de mandato restantes. Acabou reeleita em 2010, com o apoio de Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva, para mais um mandato (2011-2014), desta vez integral.
Agora, entretanto, Roseana que foi algoz, transformou-se em acusada em duas ações em tramitação no TSE para cassar o seu mandato, ambas sob relatoria do ministro Arnaldo Versiani. No processo que está mais adiantado, movido pelo ex-governador José Reinaldo Tavares (PSB), Roseana responde às acusações de abuso de poder político e econômico na campanha eleitoral. A ação aguarda parecer do procurador-geral eleitoral, Roberto Gurgel, há cinco meses.
Amazonas, Acre e Roraima
Na ação que o Ministério Público Federal move contra o governador do Amazonas, Omar Aziz, e o vice José Melo de Oliveira, a vice-procuradora Sandra Cureau pediu a cassação de ambos por abuso de poder político e econômico na campanha eleitoral. Pelas provas reunidas nos autos, ela viu “excesso de publicidade institucional no período imediatamente anterior ao início da campanha”, “promoção pessoal (do governador, que foi reeleito) evidenciada” e campanha antecipada.
Ela também chama a atenção para inaugurações de obras públicas em larga escala nos meses entre a posse do governador e o início do período vedado para campanha, e a entrega de 22 mil notebooks a professores poucos dias antes do período eleitoral. O caso aguarda o voto do relator, ministro Dias Toffoli.
Na ação movida pelo Ministério Público contra o governador do Acre, Tião Viana, o vice-governador Carlos Cesar Messias, e o senador Jorge Viana (PT), a vice-procuradora eleitoral pede a cassação de todos, pelo uso indevido dos meios de comunicação social, por abuso de poder político e econômico. No parecer, ela destaca a “gravidade das condutas, com potencial lesivo ao pleito eleitoral”. O relator do caso é o ministro Marco Aurélio Mello.
E no processo contra o governador de Roraima, Anchieta Júnior, Sandra Cureau aponta abuso de poder e uso indevido de veículos de comunicação social na campanha. Ela destaca a utilização indevida de quatro veículos de comunicação social, que eram de propriedade ou ligados a correligionários do então candidato durante a campanha. Alega “desobediência” a ordens judiciais que determinaram ao tucano que suspendesse a propaganda ilegal.
Rio de Janeiro
Se depender do Ministério Público Eleitoral, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), completa o mandato. A vice-procuradora eleitoral não viu indícios de irregularidade suficientes para cassá-lo e recomendou, em seu parecer, que ele seja mantido no cargo.
Os outros governadores em julgamento no TSE, mas cujos processos estão mais atrasados, ainda aguardando parecer da Procuradoria Geral Eleitoral, são: Antonio Anastasia (PSDB), de Minas Gerais; Teotônio Vilela (PSDB), de Alagoas; Siqueira Campos (PSDB), do Tocantins; Cid Gomes (PSB), do Ceará; Wilson Martins (PSB), do Piauí; e André Puccinelli (PMDB), do Mato Grosso do Sul. Em 2011, o TSE analisou apenas um processo contra governador, tendo como alvo a chefe do Executivo no Rio Grande do Norte, Rosalba Ciarlini (DEM), que foi mantida no cargo.
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Uma decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, condenando o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) por improbidade administrativa, ameaça a ficha limpa do parlamentar e seu futuro político. Pré-candidato declarado ao governo do Rio de Janeiro em 2014, o petista corre contra o tempo para reverter a sentença da 10ª Câmara Cível do tribunal. Se o recurso não for acolhido até a última instância – o Supremo Tribunal Federal -, o petista estará impedido de concorrer pela Lei da Ficha Limpa.
“É uma violência, uma aberração jurídica”, reage o senador. “Eles vão ter de me vencer no voto”, desafia, sugerindo motivação política na decisão, que foi proferida na última semana, às vésperas do pleito municipal. Eleger o maior número de prefeitos aliados ao PT no Rio de Janeiro pavimentaria o caminho para a eleição de Lindbergh em 2014. O petista enfrenta a resistência do atual governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), ao nome dele. Cabral prefere ter como sucessor o seu vice, Luiz Fernando de Souza, o Pezão.
Os desembargadores fluminenses o condenaram por suposto ato de improbidade quando ele era prefeito de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Segundo o Ministério Público, Lindbergh teria contratado, sem licitação, os serviços de uma empresa de manutenção elétrica.
O advogado do parlamentar, Bruno Calfat, afirma que a decisão é “esdrúxula” e tem grandes chances de ser reformada. Ele lembra que na primeira instância, a ação havia sido arquivada, porque o juiz não viu indícios de improbidade. No entanto, segundo Calfat, com o recurso do Ministério Público, o tribunal não apenas determinou o processamento da ação, como julgou o mérito, sem que o réu apresentasse a defesa, incorrendo em supressão de instâncias. “É uma situação anômala, ele foi condenado sem ter sido citado”, argumenta o defensor.
Se o TJ-RJ não voltar atrás, a defesa de Lindbergh ainda pode recorrer ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e ao Supremo. O prazo para a reforma da decisão é julho de 2014, quando ocorre o registro das candidaturas e a Justiça Eleitoral identifica os “fichas sujas”.
Até lá, no entanto, o petista ainda terá de se defender, paralelamente, em mais uma ação penal e nove inquéritos a que responde no Supremo Tribunal Federal.
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O relator da CPI do Cachoeira, deputado Odair Cunha (PT-MG), ensaiou uma manobra de última hora para restringir a quebra do sigilo bancário, fiscal e telefônico da matriz da empresa Delta Construções, sediada no Rio de Janeiro. Ele propôs a votação de um requerimento – que não constava da pauta -, de autoria dos deputados Filipe Pereira (PSC-RJ) e Luiz Pitiman (PMDB-DF), que sugeria a quebra do sigilo bancário da Delta, limitado “às contas que serviram à organização criminosa”. Estas contas, por sua vez, seriam discriminadas pela presidência da CPI ao Banco Central. A ideia era delimitar a abertura do sigilo, para impedir o avanço da investigação.
“Era uma jogada para restringir a quebra do sigilo”, disse o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS). Depois da reação dos deputados Lorenzoni, Carlos Sampaio (PSDB-SP), Miro Teixeira (PDT-RJ) e do senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), o presidente da comissão, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), colocou em votação os requerimentos que defendiam a quebra do sigilo em sentido amplo, sem nenhuma restrição.
Em seguida, a comissão aprovou, quase à unanimidade de votos – o único voto contrário veio do deputado Candido Vaccarezza (PT-SP) – a abertura do sigilo fiscal, bancário e telefônico da Delta nacional, no período de janeiro de 2002 a março de 2012, que engloba os dois mandatos do ex-presidente Lula. A Delta – maior contratada do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – é investigada por suspeita de lavagem de dinheiro, favorecimento em licitações e superfaturamento de obras públicas.
“Transferiam recursos da Delta para empresas fantasmas, e fantasmas não prestam serviços. Eles sabiam que estavam lavando dinheiro, que depois era sacado em dinheiro vivo para subornos”, justificou o deputado Miro Teixeira, um dos autores do requerimento. “De junho de 2010 a abril de 2011, a Delta depositou R$ 39,9 milhões na Alberto Pantoja e na Brava Construções, empresas-laranja do Carlos Cachoeira. A Delta é muito mais lucrativa para a organização criminosa do que a própria contravenção”, acrescentou Randolfe.
Governadores
Em outra frente, o deputado Gladson Cameli (PP-AC) surpreendeu a maioria do colegiado ao apresentar um requerimento para adiar a votação da convocação dos três governadores envolvidos nas investigações do esquema comandado por Carlos Cachoeira, que estava marcada para hoje: Marconi Perillo (PSDB), de Goiás, Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal, e Sérgio Cabral (PMDB), do Rio de Janeiro.
Cameli invocou o princípio da autonomia entre os três Poderes e a prerrogativa de foro dos governadores para alegar que eles não poderiam ser convocados para depor na CPI. Como a legenda de Cameli – o PP – não tem nenhum governador envolvido na investigação, o gesto dele foi interpretado como uma ação por encomenda dos três partidos interessados no adiamento das convocações e na blindagem dos governadores – PSDB, PMDB e PT.
O próprio líder do PT, deputado Jilmar Tatto (SP), afirmou que a bancada petista não defenderá, mais, a convocação de Marconi Perillo. Segundo Tatto, o foco, agora, será pedir apenas a quebra do sigilo bancário do governador tucano, ao argumento de que ele teria recebido três cheques do sobrinho de Cachoeira, Leonardo de Almeida Ramos, pelo pagamento da casa de sua propriedade, num condomínio de luxo de Goiânia.
Na verdade, o recuo do PT trata-se de uma estratégia para reforçar a blindagem aos governadores. Mas apesar da manobra de Cameli, a convocação dos governadores ainda pode ser votada pela comissão, após a manifestação de Vital do Rêgo, prometida para esta quarta-feira. “O argumento (de Cameli) não convence porque um juiz de direito, do menor município do Brasil, pode ouvir governador de Estado como testemunha a qualquer momento”, rebateu o senador Pedro Taques (PDT-MT), jurista e ex-procurador da República. “Governador de Estado pode ser ouvido em CPI, sim”, arrematou.
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Setores do governo e do Judiciário defendem o aprofundamento das investigações que materializem a desconfiança sobre a relação entre o dinheiro de Carlos Cachoeira na Delta e os preços competitivos que garantiu vitórias para a empresa em licitações públicas.
Trocada em miúdos, a ideia é provar o que para muitos é certeza: ao lavar dinheiro dos negócios ilegais de cachoeira, a construtora ganhava lastro para compensar os preços baixos nas concorrências e conquistar obras oficiais de vulto.
Sustentável ou não, a simples desconfiança é outro elemento para tornar, mais que imprópria, cínica, a pretensão de limitar as investigações sobre a construtora aos seus negócios no Centro-Oeste. A frustração dessa tentativa anunciada virá a ser um dos primeiros sinais mais claros sobre a improbabilidade de controle político da CPI pelo seu proponente.
Mais provável é que a ideia seja uma das muitas iniciativas em curso voltadas para interesses individuais de parlamentares que veem na CPI a oportunidade para exterminar politicamente adversários históricos. O que já ocorre em parte com a farta distribuição de grampos que banaliza a escuta telefônica como método investigativo complementar, para tornar-se instrumento principal das operações policiais.
A CPI do Cachoeira começa por onde as outras terminaram, ou seja, poupando seus integrantes da fase investigativa, com provas produzidas e relatórios policiais conclusivos em alguns casos. O que impõe aos parlamentares o dever seletivo de convocações e objetividade nas suas ações.
O foco na Delta certamente desvendará uma teia de relações promíscuas de políticos e partidos com o submundo do crime organizado, a partir de Cachoeira, dando dimensão concreta ao discurso do “doa a quem doer”, até aqui aparentemente mera peça retórica de quem julga possível condenações seletivas segundo um mapa político previamente traçado.
Nesse momento, sequer ainda nas preliminares, a CPI já sabe, por exemplo, que governadores como Agnelo Queiroz (PT-DF), Sérgio Cabral (PMDB-RJ) e Marconi Perillo (PSDB-GO) – nessa ordem e ressalvados os respectivos graus de delito – estão em maus lençóis e com suas carreiras políticas seriamente ameaçadas.
Ou seja, antes mesmo de entrar em pleno funcionamento, a CPI já tem no banco dos réus governadores do PT, PSDB e PMDB. Promete doer ainda em um universo mais amplo, constatação que talvez explique a tentativa de setores partidários, principalmente do PT, de levar ao palco também a mídia – principal obstáculo à estratégia de controle das informações comprometedoras.
Além, claro, da Constituição, que garante o sigilo das fontes, sem especificar quais, e de legislação complementar que a reforça proibindo à autoridade pública impor sua quebra àqueles cujas atividades impliquem a guarda do segredo profissional. Rol em que estão jornalistas, médicos, advogados e outros.
A investigação profunda da Delta importa também ao mercado, ainda que como efeito colateral, para avaliar minimamente os danos comerciais de empresas concorrentes com o cartel criminoso da empresa, que vai da construção civil à locação de veículos, passando por coleta de lixo e venda de sistemas tecnológicos.
Tudo isso com dinheiro público federal e estadual.
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Em menos de um mês, o governador do Rio, Sérgio Cabral, protagonizou dois episódios capazes de abalar o capital político construído nos anos de parceria incondicional com o governo do ex-presidente Lula.
O destempero que, aqui e ali, teima em conspirar contra a imagem do governador descolado que procura exibir, tem comprometido a gestão de Cabral, desde a tragédia de Angra dos Reis, passando pela ofensa dirigida a um favelado que cobrava mais ação social de seu governo, durante uma visita do então presidente Lula ao Rio, e desembocando na crise dos bombeiros.
Crise, aliás, que ganhou dimensão, com potencial para se alastrar pelo país, por imprevidência de um governo que dela já tinha conhecimento e, mesmo assim, a negligenciou.
Cabral deu a ordem inédita de prisão para mais de 400 bombeiros, que produziu estragos na popularidade obtida com a pacificação das favelas cariocas gerando uma solidariedade imediata da população à categoria.
O que leva um governador a tal agressividade contra a categoria mais querida, tida pela sociedade como a verdadeira defesa civil, fazendo preceder a prisão de insultos públicos aos soldados grevistas?
Não se sabe, mas enquanto isso acontece, o Secretário de Segurança do Rio, José Maria Beltrame, artífice da operação de reocupação territorial dos morros pelo Estado, pelo afugentamento do tráfico e pela instalação das UPPs nas favelas, dá sinais de preocupação com a permanência de seu trabalho.
Beltrame chama a atenção para a necessidade de complementar a ação policial com um programa social capaz de sedimentar as bases de uma nova realidade nas áreas até há pouco conflagradas da cidade.
Chama a atenção do governo, porque só a ele cabe a responsabilidade pela extensão desse trabalho. Sem isso, adverte o Secretário, será muito difícil sustentar a conquista que conferiu a Cabral índices estupendos de aprovação.
Logo após o aviso do Secretário de Segurança, uma tragédia com sete mortos, entre as quais, a nora do governador, vítimas da queda de um helicóptero no sul da Bahia, descobre o véu de uma relação intensa e promíscua entre o governador e empresários com negócios prósperos em seu governo.
Um flagrante de invasão da fronteira entre público e privado, com jatinhos de empresários a serviço do governador para levá-lo a festas privadas sem qualquer vínculo com o interesse público.
Este, por sinal, afetado pelo vínculo de amizade entre governador e empresários, um dos quais, Fernando Cavendish, detém contratos milionários com a administração fluminense, cuja parcela sem licitação somou R$ 127 milhões em 2010.
Com ares de órfão do governo do ex-presidente Lula, o governador vai consumindo um capital de popularidade em velocidade espantosa, às vésperas de uma campanha municipal decisiva para a preservação de uma aliança entre governo e prefeitura até aqui positiva para o Rio de Janeiro.
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As MPs que tratam da fixação do piso salarial dos policiais militares e o Código Florestal impõem ao governo a percepção de que não pode ficar na contramão de sua base e, mais que isso, do Congresso.
Não há muita margem de negociação nos dois casos, por se tratarem de conteúdos de interesse suprapartidário a unir base e oposição.
No caso do piso dos policiais, a segurança pública escora o interesse eleitoral: o político não ficará contra a vontade popular que vincula, de alguma forma, ineficácia a baixa remuneração, especialmente após a crise dos bombeiros do Rio, que o governador Sérgio Cabral tratou com o fígado e, portanto, com resultado desastroso – pare ele, eleitoralmente, e para a população.
No caso do Código Florestal, trata-se de um consenso formado em torno do texto do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) em que a débil resistência ideológica em bolsões da base foi vencida pela pressão do maior segmento produtivo do país – o agronegócio.
Neste caso, ficar na contramão não só já se mostrou dramático para a presidente Dilma Rousseff, como contraria até mesmo os interesses comerciais do governo.
O melhor aqui é costurar um acordo com base na estratégia da redução de danos, sob o ponto-de-vista dos que consideram excessivas as concessões feitas ao setor produtivo.
Até porque o êxito de uma política ambiental satisfatória está muito mais na capacidade de exercer efetiva fiscalização e poder coercitivo sobre infratores contumazes do que na sustentação de um código com 16 mil artigos, que põe na ilegalidade quase a totalidade dos produtores brasileiros.
E, por fim, o governo enfrentará a má vontade do Parlamento com o instrumento das medidas provisórias, abusivamente utilizado pelos governos do PSDB e do PT nos últimos 16 anos.
Governos fortes, os que antecederam Dilma passaram ilesos pela resistência às MPs, que se resumia aos discursos esporádicos de oposições sem voz.
Agora, vozes mais influentes no processo, como a do presidente do Senado José Sarney (PMDB-AP), se juntam à da oposição, nesse caso centrada na figura do senador mineiro Aécio Neves (PSDB), combatendo o vício de governar por MPs.
O governo poderia finalmente exibir maturidade nessa questão, começando por erradicar a repetida inconstitucionalidade de tratar de assuntos diversos numa mesma MP – o chamado contrabando, assim apelidado por embutir uma desonestidade política absorvida com naturalidade pelos governantes.
Da mesma forma, precisa fazer uma espécie de Termo de Ajuste de Conduta adaptado à circunstância política, resumido no compromisso de pôr um fim à banalização do que se pode entender por urgência e constitucionalidade.
Há medidas sem a menor urgência, possivelmente a maioria delas, editadas com o exclusivo propósito de evitar o debate e impor a vontade do Executivo.
Outro truque une Sarney à causa de Aécio, de forma aparentemente contraditória, sendo ele o aliado mais estratégico do governo: a Câmara retém a MP aprovada nos seus termos o maior tempo possível, para roubar ao Senado o espaço de reflexão e inviabilizar revisões que obrigariam a uma nova votação.
Há dezenas de casos recentes de MPs que chegam ao Senado a três dias de seu prazo de vencimento, o que já levou Sarney a ameaçar não mais assiná-las, sem o que não pode haver tramitação.
Menos forte e herdeiro de um desgaste de quase três décadas de MPs (se inserirmos o período Sarney), o governo da presidente Dilma Rousseff deveria se antecipar e conduzir o processo de negociação por novas práticas relativas a medidas provisórias.
Desmobilizaria a oposição e restauraria a função da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) cuja existência se justifica exatamente por examinar a constitucionalidade das matérias legislativas.
E faria natimorta a proposta estapafúrdia de criação de uma comissão nova para debater constitucionalidade e urgência das MPs, esperteza para ampliar o poder de chantagem do baixo clero.
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O governador Sérgio Cabral tem razão quando atribui a tragédia de Ano Novo em Angra dos Reis ao desgoverno produzido pelo populismo e, mesmo, ao ceticismo de proprietários de terrenos quanto aos riscos de empreendimentos que afetem o meio-ambiente.

O governador Sérgio Cabral em visita a Angra dos Reis após a tragédia
Nessa crítica de Cabral, feita em tom de desabafo e no calor da batalha, dois aspectos se destacam: a inoperância fiscalizadora do Estado (ou tolerância com infratores); e a velha transferência da responsabilidade para quem veio antes – a tal da herança maldita.
Fiquemos com o primeiro caso, que guarda mais sentido objetivo. Em seu último ano do atual mandato, o governador talvez não tenha se dado conta de que incluiu-se entre os gestores , no mínimo, distantes da questão ambiental em Angra.
Cabral se apossa de um discurso de oposição como se não fosse ele o governador (onde mesmo já vimos isso?)
Seria leviandade , que deixo aos seus opositores, responsabilizá-lo pela tragédia. Ela é obra de muitos anos, construída dia-a-dia pela indiferença dos governos com a questão ambiental e pela conivência com a especulação imobiliária.
Vem de longe (diria Leonel Brizola) essa cumplicidade do setor imobiliário e as administrações cariocas pelo lucro a qualquer custo. Vale lembrar a administração do prefeito Marcos Tamoio, que iniciou a decadência da cidade, quando o Cabral conhecido era Sérgio, o pai (não é nenhuma comparação, apenas uma referência temporal).
É indiscutível que as atuais gestões estadual e municipal do Rio se distinguem de outras pela sintonia entre prefeito e governador, especialmente pelo empenho de ambos em resistir à tentação do populismo.
Mas Cabral deve explicações e providências concretas. Angra era tragédia anunciada . Seu opositor, César Maia, o acusa de conviver com as irregularidades ao flexibilizar a ação imobiliária na APA Tamoios, dentro da qual se insere toda a Ilha Grande.
O instrumento, diz Maia, foi o decreto 41.921, assinado pelo governador em junho de 2009. Embora não tenha produzido seus efeitos ainda, o que o exclui como fator de contribuição à tragédia, o decreto é um claro sinal de insensibilidade com o tema.
Essa é a explicação que o governador deve. Quanto às providências, só resta acompanhá-las na esperança de que extrapolem os primeiros socorros.
Afinal, Cabral é sobrenome que se confunde com o melhor do Rio de Janeiro, de pai para filho, em muitas décadas.
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