Ainda que revertida por iniciativa do Palácio do Planalto, a convocação do ministro Antônio Palocci aprovada na comissão de Agricultura da Câmara é mais um episódio a confirmar que se tornou insustentável sua permanência no cargo.
A operação para “desconvocá-lo” obriga o governo a declarar mais uma vez que se associa ao ministro no esforço para não ter de explicar o seu súbito e vertiginoso enriquecimento pessoal como consultor de empresas.
A pressão do PT nos últimos dias para que essa explicação aconteça põe sob suspeita a versão cor-de-rosa pela qual a aprovação de sua convocação se deu por distração da base aliada, um cochilo por assim dizer.
A política se desenvolve por ações e também pela ausência de ações. Muitas vezes, estas últimas têm mais eficiência do que as primeiras. Há no ar sinais de vista grossa para o que ocorria na comissão de Agricultura.
Outra omissão importante está no fato de nenhum líder da base aliada, até aqui, ter dissociado o episódio Palocci do governo Dilma.
Sua fase de consultor ocorreu antes da posse de Dilma, compromete seu governo, mas nenhuma voz aliada se fez ouvir nesse sentido, a não ser para respaldar uma inadmissível tese de delitos com prazo de validade – no caso até dezembro de 2010.
A presidente silenciou por muito tempo, fez breve aparição, mas voltou a evitar a abordagem pública do assunto. O que pode sinalizar seu desconforto com o rumo dos acontecimentos.
O cenário indica que a discussão interna no governo agora é sobre forma e nome para substituir Palocci. Nomes são poucos, a forma necessariamente é a que evite uma demissão isolada do ministro.
Como a crise na articulação política precede as denúncias de tráfico de influência do ministro-consultor, o pretexto está na insuficiência da dupla Palocci /Luís Sérgio, ministro das Relações Institucionais.
Um nome sempre lembrado para o lugar de Palocci é o do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo. Se assim vier a ser, o posto perderia as características de gabinete de articulação e voltaria a ter atribuições de planejamento e gestão, como as confiadas a Dilma na gestão Lula.
O governo teria de buscar no substituto de Luis Sérgio o perfil do seu novo articulador político, o que tornaria menos espinhosa a substituição de Palocci.
E abriria caminho para a antecipação da reforma ministerial ( dada como certa ao final do 1º ano deste governo) que dê a Dilma a chance de montar sua própria equipe.
Especulações à parte, o que começa a ser consenso é que, desde a frase moleca do deputado Anthony Garotinho (PP-RJ), de que Palocci é “um diamante de R$ 20 milhões, o governo ficou pior.
De ministro crucificado, como apregoam os que sempre jogam a culpa na imprensa, Palocci passou a ser um ministro precificado.
Enquanto não explicar os R$ 20 milhões não terá proteção política, é a síntese do ex-governador do Rio de Janeiro.
Sórdida, mas real.
Tags: Anthony Garotinho, Antonio Palocci, articulação política, crise da Casa Civil, Dilma Rousseff, Luís Sérgio, Paulo Bernardo, reforma ministerial
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