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“Padaria Petrobrás”

João Bosco Rabello

segunda-feira 02/06/14

É curioso notar que todos os depoimentos oficiais em defesa da Petrobrás, no âmbito Legislativo, têm em comum a confirmação de irregularidades na condução das operações comerciais investigadas. O que levou um dos acusados pelos desvios a  comparar a empresa a uma padaria. Desde a admissão de “mau negócio”,  por parte da presidente , Graça [...]

É curioso notar que todos os depoimentos oficiais em defesa da Petrobrás, no âmbito Legislativo, têm em comum a confirmação de irregularidades na condução das operações comerciais investigadas. O que levou um dos acusados pelos desvios a  comparar a empresa a uma padaria.

Desde a admissão de “mau negócio”,  por parte da presidente , Graça Foster, até a “conta de padaria”, aplicada à execução das obras da refinaria Abreu e Lima, pelo  ex-diretor de Abastecimento, Paulo Roberto Costa, não há declaração abonadora para a empresa.

Desde a afirmação da presidente Dilma Rousseff de que foi induzida a erro pela omissão de cláusulas essenciais do projeto ao Conselho da empresa, toda a linha de defesa passou a ser a de redução de danos, conjugada com a ação política para inviabilizar os trabalhos da CPI sobre o assunto.

Mesmo o ex-presidente, Sérgio Gabrielli, em cuja gestão ocorreram as operações, causou polêmica ao negar a inocência de Dilma e afirmar que ela deveria assumir sua parcela de responsabilidade na aprovação dos empreendimentos.

Como o apóstolo da bíblia, Gabrielli negou a presidente três vezes: ao dizer que Pasadena foi um bom negócio, ao sustentar que a presidente tem responsabilidade, sim, na compra, e ao minimizar a importância das cláusulas a que ela se refere como essenciais.

Nestor Cerveró, o ex-diretor que deixou a empresa com elogio funcional, e a quem se atribui a omissão das cláusulas ao Conselho, também foi um desastre nos seus depoimentos. Disse que as cláusulas não tinham importância, mas admitiu assim que as omitiu do Conselho.

Agora, solto por decisão monocrática de um ministro do Supremo Tribunal Federal, Paulo Roberto Costa dá um depoimento que busca reduzir a uma gerência anárquica a ampliação em nove vezes do valor original da obra, que de R$ 2,5 bilhões passou a R$ 18,5 bilhões, cifra final prevista para 2015.

É a tese da “conta de padaria” para contrapor à suspeita de superfaturamento levantada pela Polícia Federal, muito mais factível, principalmente se levada em conta a excelência técnica dos quadros da Petrobrás, louvada em anúncios da empresa publicados pela gestão Foster.

Certamente a tese da “conta de padaria” que caracteriza a linha de defesa do delito culposo, só é lançada sem o menor pudor pelo efeito relaxante da liberdade que o STF concedeu ao seu autor. Se a Petrobrás errou em R$ 16,5 bilhões o cálculo de uma obra, melhor fechar as portas.

Não há “conta de padaria” possível para sustentar a explicação de Costa – ele mesmo, um ex-diretor que se põe fora do contexto do erro. A expressão  define uma informalidade da época pré-digital – a do comerciante com o lápis na orelha, anotando as despesas dos fregueses para fazer a soma após a compra – no mesmo dia ou em prazo negociado.

Mas essa “conta de padaria” sempre fechava ou, pelo menos, nunca errava contra o estabelecimento. Muito menos na proporção da Abreu e Lima, onde Costa tinha autonomia plena, a ponto de assinar mais de uma centena de aditivos contratuais sem necessidade de aval da diretoria. Período em que, segundo a Polícia Federal, R$ 6,5 bilhões foram superfaturados e “administrados” por Costa.

A tese da “conta de padaria” reproduz a linha de defesa do PT no mensalão, centrada na admissão de um delito menor para escapar ao maior. O PT, como se sabe, elegeu como defesa a admissão de  caixa dois para escapar à ação penal, contando com a aceitação geral por ser prática comum, como disse o ex-presidente Lula, a todos os partidos.

Não deu certo, como não deve dar agora com os casos da Petrobrás. Afinal, padaria que se preza, não erra contra si. E entrega a mercadoria.