É das mais graves a crise que se assiste no Poder Judiciário em que o presidente do Supremo Tribunal Federal, César Peluso, comanda uma cruzada contra a fiscalização e punição de juízes pelo Conselho Nacional de Justiça.
Uma espécie de Corregedoria Nacional, não por acaso o CNJ é alvo de ação da Associação dos Magistrados Brasileiros, ou seja, da representante dos interesses corporativistas do Judiciário. Pois é o corporativismo o maior obstáculo à investigação e transparência do sistema.
É o que se pode esperar de uma associação de classe. Nada mais natural. Estranho mesmo é o presidente da Suprema Corte liderar a causa da associação a ponto de exigir uma nota do CNJ em desfavor da corregedora do órgão.
A nota seria uma reação natural se assinada pela AMB, jamais pelo órgão corregedor. Agora, tem-se a seguinte situação: já contestada pela nota do próprio órgão, a ministra Eliana Calmon pode assistir hoje o STF, sob a liderança de Peluso, transformar o CNJ num órgão de classe a evitar a punição a juízes.
Exatamente o inverso do objetivo que levou à sua criação em 2005.
E o que disse a ministra? Que há maus juízes. E não há? Que as corregedorias regionais têm dificuldades em investigar e punir colegas. E não se sabia disso? Afinal, o CNJ nasceu por isso.
Na gestão anterior, o CNJ fez um mutirão em instâncias judiciais e presídios levantando casos estarrecedores provocados por erros, omissões e desvios da justiça, como centenas de presos sem sequer processo formal contra eles; outros já com a pena cumprida e ainda reclusos; abusos de autoridade, suspeitas de vendas de sentenças , queima de arquivos por incêndio criminoso, e conluios da magistratura com a marginalidade.
Em Alagoas, cerca de 4 mil homicídios sequer geraram inquérito, descobriu o CNJ.
É claro que tais cenários não prevalecem como parâmetro para o Judiciário como um todo, mas existem. E há muito tempo. Essa quase perpetuação de anormalidades é o melhor indicador de que as corregedorias regionais não resolvem todos os problemas.
Do que vazou da reunião do CNJ em que a ministra Eliana Calmon foi censurada por seus pares, soube-se que o ministro César Peluso lhe cobrou nomes, exemplos de “bandidos de toga”, expressão por ela utilizada para defender a necessidade do CNJ.
Sabe bem o ministro que nomes não faltam , mas sem investigação não aparecem. Cobrar nomes antes que sejam investigados também é revogar o princípio da inocência até prova em contrário.
Mas podemos lembrar que casos como o do juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lalau, conhecido pelo desvio do dinheiro das obras do prédio do fórum, em São Paulo, só vieram à tona numa CPI – a do Judiciário.
Outros como João Carlos da Rocha Mattos, preso por venda de sentenças, não acabou pego por mérito da corregedoria, mas numa operação da Polícia Federal.
Quantos anos um e outro conviveram com seus pares, já à margem da Lei, com seus comportamentos conhecidos até fora do prédio da Justiça? Onde estava a corregedoria, que não desconhecia tais rumores?
Por quê, então, a reação contra uma corregedoria nacional que atua sob o comando da própria Corte maior, já numa restrição ao projeto original que era o controle externo da magistratura?
Não há como descrever senão como uma operação-desmonte o processo em curso no CNJ. É possível – e até provável – que haja muito por fazer para que o órgão atue de forma eficiente e justa, sem precipitações, com método e critérios claros.
Mas não será reduzindo seus poderes correcionais que se obterá tal aperfeiçoamento. Usar eventuais excessos ou erros como pretexto para desmontá-lo é um retrocesso que devolve o Judiciário a uma fase ainda mais obscura que a atual.
O que está em jogo é a caixa-preta do Judiciário.
Tags: AMB, César Peluso, CNJ, Corregedorias, CPI do Judiciário, Eliana Calmon, Nicolau dos Santos, Polícia Federal, Rocha Mattos
O corporativismo é uma praga tão grave a ser combatida quanto a própria corrupção. Quanto mais forte é a corporação, mais indiferente ela se torna em relação às demandas da sociedade. A verdade é que o serviço público no Brasil está estruturado para assegurar privilégios aos servidores e não bons serviços a população. No caso dos legislativos estaduais e federal eu já me conformei que pouca diferença faz para a população que existam ou não, pois sua existência é uma mera exigência do conceito formal de democracia, “apenas” a um custo muito alto para o contribuinte. Mas com a justiça é diferente, pois sua ineficiência prejudica e muito a vida das pessoas e o eventual desvio ético de magistrados detona com a própria democracia. Em quem acreditarmos se a justiça for desmoralizada, já que a classe política não goza de qualquer respeito da opinião pública? Parabéns a ministra Eliana Calmon por colocar o dedo na ferida. Lamentável o papel do ministro Peluso, que agiu como líder sindical.
Parabéns à ministra Eliana Calmon por colocar o dedo nesta ferida que é a caixa preta do judiciário. O corporativismo é algo tão grave a ser combatido quanto a própria corrupção. Lamentável a posição do ministro Peluso, que agiu como líder sindical. Se a justiça não for transparente, em quem deveremos acreditar? Caso o supremo esvazie o CNJ, o poder judiciário estará assumindo seu divórcio da sociedade, o que já aconteceu com o legislativo. Será que vão querer serem vistos como os políticos?
Setembro se foi, dez anos da morte de Toninho do PT e a promessa de Lula da Silva de que iria colocar a Polícia Federal no caso não se concretizou.
Nesse angu tem caroço e tem caroço nesse angu.
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