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Economia, ainda o maior obstáculo de Dilma

João Bosco Rabello

terça-feira 03/06/14

Considerada a improbabilidade de as CPIs da Petrobrás produzirem  alguma informação nova relevante – uma por blindagem do governo, outra, por absoluta falta de tempo -, a economia continua se impondo como a grande adversária da presidente Dilma Rousseff. A rigor, não deixou de ser desde que a inflação  consolidou um quadro econômico que já [...]

Considerada a improbabilidade de as CPIs da Petrobrás produzirem  alguma informação nova relevante – uma por blindagem do governo, outra, por absoluta falta de tempo -, a economia continua se impondo como a grande adversária da presidente Dilma Rousseff.

A rigor, não deixou de ser desde que a inflação  consolidou um quadro econômico que já capengava com o clima de desconfiança instalado em relação a um governo que passou a dispor da maquiagem dos números como única reação aos maus resultados de gestão.

Esgotadas as tentativas de restaurar o ambiente de confiança do investidor e findo o ciclo consumista como motor da economia, restou ao ministro Guido Mantega, da Fazenda, admitir o que antes classificava de conspiração dos mercados: a alta dos alimentos reduziu o poder de compra.

Esse o dado com efetivo potencial de dano eleitoral, pois não manipulável por discursos ou administração criativa. O efeito da má condução econômica já afeta objetivamente o cotidiano do cidadão, o que o governo considerou adiável.

Se 39 ministérios refletiam a incompatibilidade, em longo prazo, entre austeridade nos gastos públicos e sustentação política por uma base heterogênea e gigantesca, o avanço da campanha eleitoral representou a pá de cal nesse modelo.

O troca-troca de ministros agravou a dificuldade de gestão já exibida pelo governo em circunstâncias normais, acrescentando ao organograma do poder nomes ainda mais desconhecidos e desimportantes na administração pública.

Se já era difícil saber os nomes de ministros (provavelmente a própria presidente não reconheceria todos em uma foto), agora dois podem ser repetidos por qualquer cidadão, sem pestanejar – justamente os dois sobre os quais repousam os maiores problemas do governo: o da Fazenda, Guido Mantega, e o da Justiça, José Eduardo Cardozo, responsável pela segurança pública.

Do resto, pouco ou nada se sabe, ainda que eventualmente um ou outro nome possa surgir à memória pelo efeito da repetição em noticiários negativos. Um reflexo de uma administração que, hoje, se restringe à burocracia cotidiana.

No campo político a consequência é a desmobilização gradual do engajamento dos partidos aliados, ante a percepção de que os ventos podem ficar ainda mais desfavoráveis à reeleição de Dilma.

O PMDB é sempre o parâmetro para essa medição. Ainda que reafirme a aliança na convenção próxima, está claro que o engajamento do partido nos Estados segue na contramão do compromisso nacional.

O cenário de divisão no Rio se reproduz em outros Estados onde, igualmente, Dilma teve as votações que garantiram sua eleição em 2010. A candidatura de Aécio Neves o torna imbatível em Minas, de onde  deve sair com uma votação muito acima da obtida por José Serra na eleição passada.

Na Bahia, onde foi vitoriosa por expressiva votação, Dilma também não repetirá o feito: a aliança construída pelo ex-aliado, Geddel Vieira Lima, somada aos baixos índices de aprovação do governador Jacques Wagner, autorizam essa previsão.

No Ceará, Pernambuco e Maranhão, a mesma coisa. No primeiro, o PMDB tenta arrancar uma aliança com os irmãos Gomes – Cid e Ciro -, cuja resistência do governo só amplia o favoritismo do senador Eunício de Oliveira.

Em Pernambuco, a candidatura de Eduardo Campos, por si só, já representa uma queda expressiva dos votos de Dilma em relação a 2010, quando teve o apoio do hoje concorrente.

E, no Maranhão, o declínio da liderança do clã Sarney pode ser  medido pela desistência da governadora Roseana de concorrer ao Senado, obrigando o pai, José, a disputar mais um mandato pelo Amapá.

E o fator Marina Silva, com potencial para repetir-se, puxando votos para Eduardo Campos, acrescenta mais uma dificuldade à repetição da performance presidencial. Embora o ex-presidente Lula, cujo vigor eleitoral também já não é o mesmo, dissimule esse quadro, na vida real ele existe.

O vice-presidente do PT, José Guimarães (CE), na linha lulista, repele esse raciocínio, com uma conta compensatória baseada em supostas margens de vitória de Dilma no Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro.

O otimismo de Guimarães na disputa política pode ser comparado ao de Mantega na economia: se baseia em números desejáveis que não encontram amparo na realidade. É como desmentir a inflação.

Em São Paulo, até aqui, a candidatura do ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha parece impotente para remover os escombros do escândalo que se abateu sobre o ministério da Saúde sob a sua gestão.

O candidato que conseguiu crescer, ao lado do oficial, foi o presidente da Fiesp, Paulo Skaff, hoje em segundo lugar nas pesquisas e disputado por diversas correntes.

No Paraná, a candidatura da senadora Gleisi Hoffmann (PT) já teve dias melhores antes do escândalo envolvendo o deputado André Vargas (ex-PT), seu ativo cabo eleitoral, e de sua exposição no combate à CPI da Petrobrás.

No Rio Grande do Sul, a favorita nas pesquisas, senadora Ana Amélia (PP), já fechou aliança com o senador Aécio Neves, num ambiente de baixo índice de aprovação do governador Tarso Genro.

São Paulo e Minas, mencionados como cenários favoráveis a Dilma por Guimarães, nem de longe autorizam otimismo ao governo. Por razões visíveis. Minas é território de Aécio, que  embalado pela candidatura presidencial e pelo índice de aprovação do governo Anastasia, identificado como seu.

Em São Paulo, além da estagnação de Padilha, conspira contra o PT o desempenho político abaixo do esperado do prefeito Fernando Haddad, eleito por Lula, que tenta repetir a dose com Padilha.