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Copa e campanha fazem de CPI página virada em 2014

João Bosco Rabello

quinta-feira 12/06/14

O depoimento do ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, à CPI do Senado que teoricamente apura operações suspeitas da empresa, pode ser considerado o coroamento de uma estratégia bem sucedida do governo para evitar a investigação. Em circunstâncias normais, Costa seria o depoimento mais concorrido da CPI, por ser o pivô do escândalo [...]

O depoimento do ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, à CPI do Senado que teoricamente apura operações suspeitas da empresa, pode ser considerado o coroamento de uma estratégia bem sucedida do governo para evitar a investigação.

Em circunstâncias normais, Costa seria o depoimento mais concorrido da CPI, por ser o pivô do escândalo detonado após sua prisão pela Polícia Federal, no curso de uma investigação que concluiu pela constatação de desvios de recursos na Petrobrás.

No entanto, esvaziada da oposição, que não quer se submeter ao esquema do “jogo jogado” imposto pela maioria governista, a CPI assistiu a um longo e repetitivo rosário de argumentos do ex-diretor, já proferido pelos que o antecederam na mesma sala.

Costa, como os demais, não foi incomodado e falou rigorosamente o que quis, sem qualquer réplica que pudesse exigir maior esforço de sua parte para explicar os pontos obscuros do processo. Menos pelo dinheiro em espécie que tinha guardado em casa quando a polícia fez a operação de busca e apreensão.

Mas nem a falta de explicação para os mais de R$ 700 mil em espécie, além de euros, debaixo do colchão foram suficientes para provocar qualquer sobressalto aos governistas. Costa respondeu simplesmente que prefere pagar credores em dinheiro. E não se fala mais nisso.

Como a circulação de  moeda viva é uma das evidências mais claras de lavagem de dinheiro, do que é acusado o ex-diretor pela PF, a indiferença geral a essa falta de explicação equivale a um atestado de óbito para a CPI. Extensivo à mista formada na Câmara.

Não se sabe a fronteira entre a ação do governo e a anemia da oposição, que parece ter preferido, diante dos obstáculos,  colher os frutos do desgaste do governo em evitar a investigação, do que em fazer avançá-la.

Os danos ao governo foram causados, pode-se dizer em sua totalidade, pelo que a imprensa apurou junto às autoridades policiais e judiciais em relação à investigação.  Não se tem notícia de qualquer informação efetivamente importante produzida no âmbito parlamentar.

A oposição beneficiou-se de erros do governo, especialmente da declaração da presidente Dilma Rousseff de que o contrato de compra da refinaria de Pasadena só foi assinado porque os conselheiros, entre os quais ela própria, foram induzidos a erro.

Sem essa declaração nada teria justificado a CPI já que a Polícia Federal fazia seu trabalho.   E, mesmo os sucessivos desmentidos de ex-diretores e do ex-presidente da empresa, Sérgio Gabrielli, a essa manifestação presidencial, mereceram qualquer importância da base aliada ou da oposição.

A CPI, portanto, já é página virada, pelo menos nessa versão 2014. Ao recesso pós-Copa do Mundo segue-se a campanha eleitoral e pouco restará a fazer no ano. Pode ser que, reeleita Dilma, o tema volte a frequentar a pauta oposicionista em seu novo mandato. Mas, mesmo assim, não se deve colocar a hipótese entre aquelas prováveis.