No xadrez político, o mais recente movimento do governo é taticamente correto. Esgotadas as tentativas de manter a aliança com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), na disputa presidencial de 2014, antecipou a campanha eleitoral, reforçou a parceria com o PMDB e, agora, providencia um “racha” no PSB insuflando a indefectível vocação dos irmãos Gomes (Ciro e Cid) para a intriga política.
A ideia é clara e repete a operação de 2010, quando Lula lançou Dilma Rousseff com um ano de antecedência para ocupar o vácuo deixado pelo PSDB, envolvido numa disputa interna entre José Serra e Aécio Neves, que agora parece não ter força para prosperar.
Com isso, o governo espera dar a largada na corrida sucessória apoiado por uma base ampla, da qual se excluiria apenas três legendas com densidade política entre as quase 30 que compõem o espectro partidário nacional. Cria a expectativa de poder essencial para consolidar alianças políticas e obriga os adversários e indecisos a tomarem posição.
Como em política não existe vácuo, a reação da concorrência foi imediata. O movimento do Planalto precipitou o lançamento, ainda que informal, de Aécio, ungido pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o candidato do PSDB – e sem prévias. Empurra o governador Eduardo Campos também para uma posição mais formal de candidato.
Nesse estágio do processo, portanto, os concorrentes do governo foram levados a uma posição política reativa, que lhes tira a iniciativa das ações num momento em que se beneficiavam da inconveniência da precipitação da campanha para o próprio governo, o que lhes daria amplo espaço para o exercício da crítica de viés eleitoral.
O lance tático do Planalto, porém, não afasta a principal condicionante ao êxito da presidente: a preservação de um bom cenário da economia em 2013, até aqui o pilar de seu alto índice de aprovação. A ampla base de apoio em torno de Dilma, como qualquer outra na história política, consolida-se ou se dissolve a depender dos resultados do governo que a patrocina.
A consistência crítica de Ciro Gomes também não deve ser avaliada além do limite de seu alcance, hoje apenas o de produzir uma crise passageira nas hostes do PSB, sob controle do governador pernambucano.
A Ciro falta a credibilidade da crítica coerente, que seu perfil verborrágico retira a cada lance que protagoniza, desde sua saída do governo Fernando Henrique até a campanha de Dilma em 2010, quando disse dela o mesmo que agora diz de Campos: que lhe faltava estrada. E mais: que Serra era candidato mais preparado, embora adversário.
Prestou-se aos interesses de Lula ao mudar seu título eleitoral para São Paulo, crédulo da possibilidade de candidatar-se ao governo estadual com apoio do ex-presidente. Entrou em período sabático mais recentemente, quando se ocupou como comentarista esportivo de uma emissora cearense.
Seu irmão, Cid Gomes, é igualmente polêmico na gestão do governo do Ceará. Indiferente às críticas pelo uso familiar de avião fretado pelo governo em viagem internacional, anuncia agora a compra de um jato de autonomia continental, inteiramente dispensável para o exercício do cargo.
Há dias, ainda sob a polêmica de um show para inauguração de um hospital em Sobral, seu berço eleitoral, ao preço de R$ 650 mil, reagiu afirmando que fará outros. Quase como um castigo divino, o hospital desabou parcialmente.
Se faltava a Dilma a estrada que hoje também falta a Campos, ela parece cada vez mais distante dos irmãos cearenses, cujas mostras de provincianismo autorizam a previsão de que se manterão no plano da política paroquial, de lógica própria e, frequentemente, ditada por interesses distantes da vida nacional.
O governo também estará mais vigiado nos seus movimentos, uma vez assumida a candidatura de Dilma à reeleição. Embora a fiscalização da Justiça Eleitoral esteja muito aquém do rigor desejável para candidatos no exercício do cargo, o risco da propaganda dos atos oficiais, daqui em diante, ultrapassar os limites ético e legal, é grande e permanente.
Se, de um lado, está dando as cartas do jogo, de outro o governo ajuda a consolidar a candidatura do PSDB e, possivelmente, a formalizar a do PSB. Este precisará exibir fôlego e determinação: aquele, a unidade partidária jamais exibida. E programa para o País, que acusam faltar ao governo atual.
A situação mais difícil é a de Eduardo Campos. Não por algum “racha” no partido, mas porque precisará demonstrar determinação suficiente para que sua aspiração não se baseie apenas no eventual fracasso de Dilma. Não parece sustentável uma candidatura que se paute simplesmente pelo apoio ao governo que pretende suceder, sem oferecer alternativas que a tornem atraente pela fundamentação pública.
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É cedo para estabelecer uma relação de causa e efeito entre o revés imposto pelo julgamento do mensalão ao “projeto nacional” do PT e a mudança de postura percebida nos discursos dos prefeitos eleitos nas principais capitais do país, aparentemente dispostos a adotar gestões inspiradas nos manuais da iniciativa privada.
O espírito de gestão que “baixou” nos prefeitos está associado principalmente à realidade econômica que insiste em contrariar as diretrizes intervencionistas do partido, a impor soluções que vão muito além do assistencialismo e do consumo como alavanca para o crescimento.
Mas não se deve descartar um efeito – indireto que seja – do que representou a decisão histórica do Supremo Tribunal Federal (STF) como freio drástico a desvios de conduta com origem na mistura de politicagem e administração do bem público. Uma dose de didatismo certamente penetrou os poros do corpo político, ainda que em proporção insuficiente para que se espere mudanças drásticas.
De qualquer forma, as posses foram marcadas pelos anúncios de cortes de gastos, promessas de controle rígido do uso de recursos públicos, austeridade e gestão profissionalizada. Apertar o cinto foi a palavra de ordem dos eleitos – no que repetem seus antecessores, a maioria incapaz de cumprir o discurso.
O que parece novidade é a adesão da maioria ao conceito de gestões mais técnicas, com fixação de metas de desempenho, avaliação de resultados, implantação de comitês de gestão integrada, parcerias com o empresariado renegociação de dívidas – um modelo destinado a viabilizar mais investimentos.
Enfatizaram a adoção dessas práticas o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), de São Paulo, Fernando Haddad (PT), de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), do Rio Grande do Sul, José Fortunatti (PDT), de Salvador, ACM Neto (DEM) e o do Recife, Geraldo Julio (PSB), num arco partidário de ideologias distintas.
No segundo mandato, Eduardo Paes parece já ter assimilado parte do conceito profissional, ao vocalizar uma autocrítica e uma promessa: “Governos acumulam gorduras e o meu deve ter acumulado também”; “Vou governar com inquietude, com olha crítico sobre minha administração”.
Levado a sério, isso se traduz por premiação ou demissão de funcionários estratégicos, em caso de êxito ou fracasso no cumprimento de suas metas, como deve ser por parte de qualquer governo efetivamente empenhado em prestar contas à população. Adotado na prática é um antídoto poderoso contra aparelhamentos partidários e afins.
No Rio Grande do Sul, Fortunatti promete o mesmo, acrescentando que vai começar pela gestão privada dos hospitais. ACM Neto anunciou corte de gastos, assim como Geraldo Julio, incluindo redução de quadros comissionados, indiscutível fator de inchaço das máquinas públicas, a começar pela federal.
Mais sintomático, por ser do PT, Fernando Haddad, de São Paulo, vai na mesma linha, com aval do presidente do partido, Rui Falcão, cuja adesão ao modelo precisa ainda ser testada na sua sinceridade. Afinal, ainda prega a inexistência do mensalão como delito penal.
A busca da eficiência não tem outro caminho, cuja interdição se dá pelo compadrio, aparelhamento partidário e todas as outras formas conhecidas de uma cultura política fisiológica, crônica no Brasil, à qual o PT aderiu ao se unir às velhas oligarquias.
A sinalização dos prefeitos para a necessidade de profissionalizar a gestão pública, com a abrangência que o termo implica, é o desafio da presidente Dilma Rousseff nos dois anos de mandato que lhe restam, dos quais apenas um, o que agora se inicia, será completo, desvinculado da campanha presidencial de 2014.
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O ex-presidente Lula voltou a usar a imagem do cheque em branco para avalizar um personagem político, desta vez o seu candidato à prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad. A ele, disse ontem no comício no Largo 13, em São Paulo, daria o cheque e “dormiria tranquilo”.
A primeira vez que usou esse expediente foi em favor de Roberto Jefferson, delator do mensalão, cujo fio da meada pode ser estabelecido em 2004, na reunião em que selou acordo do PT com partidos da coligação para pagar suas contas de campanha, e, na saída, disse a frase aos jornalistas.
Desde então, Lula e o PT perderam o sono que hoje , afirma, será tranquilo com Haddad. Não é, pois, um aval promissor. Não que Haddad vá percorrer os (des) caminhos de Jefferson, mas simplesmente porque a ninguém se dá um cheque em branco. Ainda que se admita a metáfora no campo político, é imprópria, arriscada e irreal.
Mas o ex-presidente é pródigo em frases de efeito, ainda que as repita mesmo quando são referencias de más lembranças. Não foi feliz ainda ao dizer que Haddad fará por São Paulo mais do que fez pela Educação, porque a gestão do candidato no MEC deixou como lembrança mais forte a sucessão de problemas na aplicação das provas do Enem.
Conta novamente Lula com a fraca memória política do eleitor. Mas o discurso de ontem tem um efeito positivo: remete de novo à negação do PT como método. Eis que, em 2007, numa entrevista à revista Playboy, reproduzida em seu blog, José Dirceu desmentia a declaração do ainda presidente Lula. Na resposta de Dirceu também uma afirmação sobre o amplo conhecimento de Lula de tudo que se passava em seu governo, muito sintomática para o momento.
Seguem pergunta e resposta da entrevista (os grifos são deste jornalista):
Playboy – Ainda sobre alianças: o presidente Lula errou ao dizer que daria um cheque em branco ao Roberto Jefferson?
Dirceu – Nem sei se ele disse isso. Essas coisas viram dito pelo não dito. Mas o Lula não dá cheque em branco pra ninguém. Não é da natureza dele. Pelo contrário, ele delega, mas controla, cobra. Ele é um presidente da República que tem controle sobre tudo o que está acontecendo. O Lula trabalha, chega cedo e sai tarde. E, quem acha o contrário, ótimo, porque vai subestimar o Lula e vai nos subestimar.”
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O desempenho do candidato Fernando Haddad no recente debate promovido pelo Estadão/Google/ TV Cultura, foi uma síntese infeliz das declarações emitidas ao longo da campanha pelo ex-ministro da Educação de Lula, e provável fator de sua estagnação nas pesquisas.
Haddad não consegue responder de forma minimamente eficiente as principais questões que envolvem a sua candidatura – e quando o faz, sai pior a emenda que o soneto.
A começar pela tentativa de desfazer semelhanças entre a ida de Marta Suplicy para o ministério da Cultura e a renúncia de seu principal adversário, José Serra (PSDB) ao governo estadual para concorrer à presidência da República.
Instado a explicar como faz do caso tucano mote de sua campanha, levando ao eleitor a mensagem de que pode elegê-lo e não tê-lo , como da primeira vez, e não aplica o mesmo princípio a Marta, simplesmente disse que ao Senado ela pode voltar. Sabe-se que não voltará, a menos que seja demitida e, para isso, é preciso surgir o imponderável, temor secreto de todo político.
Ainda nessa hipótese, trata-se da mesma coisa: eleito para um cargo, o político interrompe o mandato para assumir outro. Vale para Serra, Marta, Manoel ou Felisberto. É rigorosamente o mesmo caso. Mas o apoio de Marta ainda encurralou Haddad no debate: impossível desdenhar a relação de causa e efeito entre o apoio antes negado por ela com requintes de ironia dirigidas ao candidato, e o aval entusiasmado logo após a nomeação para ministra.
Outros apoios constrangidos, como o de Paulo Maluf, mereceram de Haddad resposta defensiva, como a de que, se eleito, ao ex-adversário nada dará. É dizer, mais ou menos: “Ele está comigo, mas eu não o terei por perto”. Mas, escárnio mesmo com o eleitor, é dizer que a aliança com Maluf só produzirá benesses ao PP, base aliada do governo, como se o ex-prefeito e o seu partido não estivessem na mesma cruzada.
E o mais estapafúrdio tiro no pé: rejeitar José Dirceu, dizendo que a associação dele ao ex-ministro e réu no mensalão, “é degradante”. Quanto mais conserta essa declaração, mais Haddad perde votos entre os eleitores petistas e não petistas. Afinal, a frase não teria pior efeito se proferida pelo adversário.
O problema de Haddad é que Marta, Maluf, Zé Dirceu, Lula e outros aliados e padrinhos, são a antítese diária do “novo”, carro-chefe de uma campanha que tenta passar a ideia de que o ex-ministro de Lula salvará São Paulo da “velha política”.
Afinal, a juventude do PT há muito se foi, porque o tempo é inexorável para todos, mesmo que essa realidade incontornável faça parte do rol de negações do partido, que recusa a terceira idade – em que chega com todos os vícios que atribui apenas aos outros.
Se negar diariamente o mensalão por quase uma década não o tornou a ficção pretendida e nem gerou as absolvições impossíveis, o que dirá negar o tempo e os vínculos políticos consolidados no seu curso.
Não se arrisca prognósticos em eleição, ainda mais uma tão complexa como a de São Paulo, mas o fôlego de Haddad diminui em momento decisivo porque o conceito de “novo” não pode ser etário, mas de transformação.
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O ritmo frenético de viagens do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, tem despertado ciúmes na Esplanada. Em todos os finais de semana deste mês, Padilha visitou municípios do interior de São Paulo. Em fevereiro, cumpriu agenda com o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab.
Segundo fontes petistas, incomodado com a desenvoltura de Padilha, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, teria pedido a intervenção da presidente Dilma Rousseff para que o colega de Esplanada reduzisse as agendas no interior paulista. Padilha e Mercadante podem vir a disputar a vaga de candidato do PT ao governo de São Paulo em 2014.
Desde o início do mês, Padilha já visitou sete municípios do interior paulista, em agendas pelo Ministério da Saúde. Foi a Barretos duas vezes, nos dias 3 e 24 de março. Também neste sábado (24), encontrou-se com o pré-candidato do PT a prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. Ainda neste mês, o ministro da Saúde fez escalas em Amparo (dia 3), Guarulhos (dia 9), Embu das Artes (dia 10), Mauá e Guarujá (dia 17). Ainda no dia 17, almoçou com o prefeito de São Bernardo de Campo, Luiz Marinho. E no dia 17 de fevereiro, visitou a Santa Casa de São Paulo na companhia de Gilberto Kassab.
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