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Num só dia, Lula conseguiu produzir impropérios de toda ordem. Foto: Celso Junior/AE

O presidente Lula não desconhece, mas parece determinado a desconsiderar, que uma eleição não termina com a vitória ou a derrota – de um ou de outro candidato. Ela gera efeitos para quem vem depois.

Entregue ao mais completo deboche e inebriado com a popularidade que as pesquisas lhe atribuem, cria um clima de beligerância na campanha que determinará o grau de civilidade nas relações futuras entre governo e oposição, seja qual for o eleito, após seu retorno à planície.

Retorno com o qual parece inconformado, o que deixa mais claro a cada dia. “Eu preferia que este dia nunca tivesse chegado”, disse ontem, a uma platéia de militantes, antecipando em dois meses a data em que deixará o Planalto.

Num só dia, Lula conseguiu produzir impropérios de toda ordem. Voltou a debochar do adversário político, a quem dá tratamento de inimigo, sugerindo que use capacete para se proteger das “bolinhas de papel” na campanha de rua.

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Foto: Tasso Marcelo/AE – 20.10.2010

Mesmo sabendo que houve um confronto de rua, com pancadaria, provocado por simpatizantes da candidatura do PT. E após o primeiro debate do segundo turno, em que a agressividade de Dilma Rousseff foi explicada pelo seu marqueteiro como uma estratégia para “levantar o ânimo da militância” –  abalada, como a candidata, pela continuidade da campanha.

Debochou do porcentual dos que, nas pesquisas, não aprovam seu governo, reduzindo esse contingente a 3%, num cálculo próprio que afronta a estatística, dizendo que cabem num comitê de campanha da oposição.

Debochou dos que estudam, voltando a fazer a apologia da ignorância, ao defender que a inteligência é suficiente para a ascensão e o progresso pessoal dos cidadãos. “O tempo de escolaridade mostra conhecimento específico de uma matéria. A inteligência você nasce com ela e aperfeiçoa”. E mais: “Se política se aprendesse na escola, bom presidente seria um cientista político e não um torneiro-mecânico. Essa é a lógica”, insistiu.

Em mais um de seus surtos egocêntricos (cada vez mais frequentes) louvou a si próprio como o melhor presidente que o País já teve. “Não sei se já houve na história do Brasil quem pudesse terminar o mandato como estou terminando”.

E registra sua visão de liberdade de expressão, ao elogiar a imprensa pela publicação de…pesquisas! “Fico muito feliz quando a imprensa publica pesquisa, porque ela me dá 84% de bom”, frisa.

Considerando que a imprensa fora demonizada pelo mesmo Lula por “inventar” o caso Erenice, que confessou à Polícia Federal o que antes negara, temos aí que imprensa boa é a imprensa que elogia, numa inversão absoluta da missão jornalística, cuja essência é a crítica e a fiscalização dos governos e governantes.

Debochou outra vez da Justiça Eleitoral, cada vez mais intimidada pela popularidade presidencial, ao dizer tudo isso num ato oficial de inauguração de uma obra portuária em Santa Catarina, Estado que exortou na reta final da campanha a “extirpar” o DEM pelo simples fato de lhe fazer oposição. Não deu certo: a resposta foi uma derrota acachapante imposta pelo eleitorado local.

Por fim, estimulou com discursos contra a imprensa que avançassem as iniciativas de controle da informação patrocinadas pelo PT em assembleias estaduais que aprovam leis nesse sentido fingindo desconhecer a Constituição.

Esse clima beligerante foi criado sob a perspectiva de vitória eleitoral. Se esta não vier, como não veio no primeiro turno, certamente será vivido pelo governo eleito que continuará a receber tratamento de inimigo em guerra.

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Foto: Celso Junior/AE

Se vencer, Dilma encontrará um ambiente permeado pelo ressentimento político, com escândalos que se inserem no contexto da continuidade e uma mídia motivada a se afirmar como fiscal da sociedade e desafiada pelas ameaças à sua plena liberdade de ação.

É o legado que Lula deixará à sua sucessora, se assim as urnas a confirmarem, não bastasse a missão que já lhe impôs de administrar uma aliança com o PMDB que, de tão complexa ele próprio, Lula, rejeitou.

Trocou-a pela cooptação dos pequenos e médios partidos, abrindo as portas ao mensalão, do qual jamais soube, apesar de avisado da sua existência por adversários e aliados.

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“Pesquisa não é urna”. A frase, de Ulysses Guimarães, é daquelas que confirmam que o óbvio, às vezes, precisa ser dito.

E se aplica à presente eleição, na qual os institutos de pesquisa foram alçados à condição de vilões por errarem previsões defendidas com uma convicção, por vezes, até intimidatória.

O que se espera de um instituto de pesquisa, sobretudo dada a importância que adquiriu no processo eleitoral – em que passou de mero aferidor a indutor de tendências -, é que se posicione com neutralidade técnica perante candidatos e campanhas.

Nisso reside o que um instituto tem de mais caro – a credibilidade. Funciona como uma vacina que imuniza contra os efeitos de eventuais erros.

Ibope e Vox Populi , este mais que aquele, comprometeram essa credibilidade em momentos distintos da campanha.

Por isso, os erros verificados no primeiro turno provocaram tantas reações de revolta por parte de candidatos – vitoriosos e derrotados.

Logo no início, Augusto Montenegro, do Ibope, repetiu como um  mantra que Dilma Rousseff não tinha a menor chance de vencer a disputa.

Quando ela alcançou os 20%, ele decretou o fim da capacidade de transferência de votos de Lula para a sua candidata.

Mais na frente, quando se admitia como tendência a vitória de Dilma no primeiro turno, ele desculpou-se publicamente e ficou tudo por isso mesmo.

Porém, mais  grave foi Marcos Coimbra, do Vox Populi. Não só garantiu a vitória de Dilma, em cima de números de seu instituto, que mais tarde se mostraram errados, como tripudiou dos jornalistas que ousaram questionar suas previsões.

Em artigo na revista Carta Capital, chamou-os de “jornalistas tucanos, ineptos, autores de uma sucessão de análises erradas, hipóteses  furadas, teses sem pé nem cabeça. Todas inventadas para justificar o favoritismo de Serra, que só existia no desejo de quem as elaborava”.

Coimbra distorceu os fatos: ninguém achava Serra favorito, mas questionava o favoritismo de Dilma para vencer já no primeiro turno, algo que seu instituto garantiu ao seu cliente, o PT, e não aconteceu.

Coimbra foi além: “Se não fossem tão ineptas, essas pessoas poderiam, talvez, ter impulsionado as oposições na direção de projetos menos equivocados. Se não fossem tão arrogantes, teriam, quem sabe, poupado seus amigos políticos do fracasso inevitável que os espera”.

A semelhança entre o texto de Coimbra e o ataque do presidente Lula à imprensa, exatamente nos mesmos termos, não é mera coincidência: o dono do Vox Populi, que previu a vitória de Dilma no primeiro turno com 57% dos votos, reproduzia o pensamento de seu cliente.

Coimbra também condenou candidatos e imprensa por revelarem escândalos administrativos no âmbito do governo. Estranho seria se, diante de tais fatos, nada se dissesse, como se as urnas lhe impusessem uma cortina de silêncio.

Não lhe cabe tal papel, como titular de uma instituição cuja tarefa equivale à de um termômetro: medir a temperatura da campanha, sem pretender influir sobre ela.

O fato se agrava quando se sabe que seu instituto mantém contrato com o comitê de campanha do PT, o que o coloca em situação no mínimo ambígua: de um lado, promove pesquisas independentes, de divulgação pública, registradas na Justiça Eleitoral, que lhes dá o selo de isenção; de outro, presta serviços a um dos partidos e o defende em artigos de jornal e revista.

Por essa razão, o ministro Gilmar Mendes, do STF, considera fundamental que, passadas as eleições, se reavalie  o funcionamento dos institutos de pesquisas. Ou bem eles prestam serviços aos partidos ou ao público. A ambos, parece-lhe impossível. Considera inconstitucional, por ferir o princípio da isonomia, que ajam em ambas as frentes.

A iniciativa já está na agenda de políticos e partidos. O PPS vai pedir investigação das relações entre os institutos de pesquisa e os candidatos.

O deputado Rubens Bueno (PR) já anunciou essa decisão. Ele mesmo, vítima de um erro do Ibope em 2004, pelo qual processa o instituto, registra os erros cometidos agora no Paraná.

No Ibope da véspera da eleição o instituto dava a Roberto Requião 47% das intenções de voto e ao seu concorrente, Gustavo Fruet, 27%. Requião teve 24,8% e Fruet , 23,1%.

Em São Paulo, as pesquisas indicaram empate entre Marta Suplicy e Netinho e excluiram Aloysio Nunes Ferreira da disputa – logo ele que teve nada mais, nada menos, que 11 milhões de votos e elegeu-se em primeiro lugar. Já Netinho, vai continuar cantando.

Na Paraíba,  José Maranhão (PMDB) foi dado como vencedor por larga margem, mas terminou a eleição atrás de seu oponente, Ricardo Coutinho (PSB). Houve mais, bem mais, mas esses exemplos são suficientes para ilustrar o problema.

A vitória de Dilma ou Serra não altera a necessidade de se repensar as pesquisas.

Não necessariamente nos termos do deputado do PPS, que as criminaliza, mas levando em conta que uma etapa já foi vencida: os erros indicam que o eleitor não se deixou influenciar por elas.

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Foto: Celso Junior/AE – 28.09.2010

O segundo turno já não é mais tratado como algo remoto na seara do PT, embora o partido discorde dos números do Datafolha que indicam essa possibilidade.

A direção do partido só diz ter certeza de que, nesta hipótese, a disputa não será entre Marina e Dilma, mas entre esta última e José Serra.

Segundo um dirigente petista, os números do Vox Populi, contratado pelo partido, dão a Dilma, 51%; a Serra, 24%; e a Marina , 12 %. No Datafolha, Dilma caiu para 49%, Marina subiu para 16% e Serra está com 32%.

O debate na Globo, dia 30, poderá influir para desfazer ou consolidar essa nova tendência registrada pelas pesquisas. Mas provável,a julgar pelos debates anteriores, que consolide.

De qualquer forma, pelo seu caráter decisivo, o debate está levando os candidatos a intensa preparação. Rouca, Dilma será poupada amanhã e quinta-feira pela campanha, mas Lula fará comícios em Aracaju, amanhã, e outro na quinta, dia do debate, e na hora do debate, em São Paulo.

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“Quem faz pesquisa independente não deveria trabalhar por encomenda dos partidos e candidatos”, diz Gilmar Mendes

As contradições nos números  e as guerras declaratórias produzidas pelo institutos de pesquisa na atual campanha,  já autorizam a previsão de uma revisão nessa área com vistas às próximas  eleições. À insatisfação de grande número de políticos,  candidatos ou não, com relação ao trabalho dos institutos,  soma-se a preocupação do Judiciário com o assunto.

Além da discrepância registrada no início da presente campanha entre os principais institutos, o País conviveu com troca de farpas – e, em alguns casos, de chumbo grosso  mesmo -, entre os representantes dessas organizações.

Augusto Montenegro, do Ibope, por exemplo, chegou a sustentar que Dilma Rousseff perderia no primeiro turno, a menos que o PSDB se esforçasse para perder. Em que pese os tucanos confirmarem a ressalva, o prognóstico era delirante, como se verificou no curso da campanha.

Não se sabe o que levou Montenegro a tal disparate, mas este jornalista testemunhou suas declarações – e, mais que isso, por dever de ofício, as registrou.

O ministro Gilmar Mendes, do Superior Tribunal Federal (STF), em conversa com este blog, disse que considera inevitável a discussão do tema com vistas à revisão da legislação a respeito.

Gilmar acha que existe um conflito de interesses na liberação dos institutos de pesquisa para realizar consultas  independentes e, ao mesmo tempo, prestar consultoria e assessoria  para os partidos políticos.

“O princípio da igualdade fica comprometido. Deveria haver restrições aí: quem faz pesquisa independente não deveria trabalhar por encomenda dos partidos e candidatos”, diz.

Segundo Gilmar, por comprometer o princípio da igualdade, essa liberdade é inconstitucional. O ministro esclarece que muitos políticos reclamam desse aspecto da prestação dupla de serviços pelos institutos de pesquisa, alegando que, no mínimo, isso autoriza a desconfiança sobre os resultados divulgados.

O principal problema é que as pesquisas têm influência direta no financiamento das campanhas e um erro, ainda que de boa fé, pode determinar a sorte de um candidato. Se bem nas pesquisas, o potencial de patrocínio é grande: se inferiorizado, dá-se o oposto.

Além disso, a influência se estende às alianças – mais ou menos viáveis conforme a dança dos números. Num ambiente eleitoral, a prestação dupla de serviços põe em dúvida a isenção dos institutos, alegam os reclamantes.

“O disciplinamento da matéria se impõe independentemente da ação da justiça eleitoral, mas ela também é parte e deve participar da discussão”, disse Mendes.

Segundo o ministro, a revisão desse aspecto do processo eleitoral é inevitável e seu ponto central é a liberdade dos institutos de trabalharem para partidos, candidatos e, alegadamente de forma isenta, para o público em geral.

“Não se pode pôr em dúvida a idoneidade desses institutos, mas também não se pode negar aos que se sentem atingidos, o direito da desconfiança, na medida em que o conflito de interesses está amplamente caracterizado”, diz.

Como já existe no Congresso propostas para regulamentar essa questão, é bastante provável que na reabertura do ano legislativo, já renovados Câmara e Senado, o tema seja ressuscitado, com as feridas geradas na campanha.

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A se confirmarem a reversão do quadro sucessório em Minas e a solidez de Geraldo Alckmin em São Paulo, os dois Estados dão o oxigênio necessário à recomposição do PSDB após as eleições, numa eventual vitória de Dilma Rousseff.

aecio_neves_AE antonio-anastasia1Geraldo Alckmin - Valter Campanato-ABr

Aécio Neves pode encerrar hegemonia paulista no PSDB

O raciocínio é comum aos aliados do governo e à oposição e projeta a figura do ex-governador de Minas, Aécio Neves, como o líder político em torno do qual se reunirão os tucanos no futuro.

O cenário – tão hipotético quanto a vitória eleitoral de Dilma, é bom que se frise -, não exclui a força de Alckmin, se eleito governador de São Paulo como tudo indica que será. Mas o processo político que inferioriza Serra na disputa presidencial e fortalece Aécio na estadual, pelo conflito que precedeu a escolha do candidato tucano, já cumpriu o papel de quebrar a hegemonia paulista no PSDB.

Essa foi sempre a meta de Aécio, da qual jamais fez segredo. Ao exigir as prévias para a escolha do candidato do PSDB seguia o script traçado quando ainda presidia a Câmara dos Deputados.

Por isso, a recusa às prévias por parte de Serra é considerada hoje a “falha trágica” da ópera tucana, como sintetizou o deputado Miro Teixeira (PDT), da coligação adversária.

Dificilmente Aécio venceria as prévias, mas uma vez realizado o ritual democrático da escolha, teria como justificar ao seu eleitorado a prevalência do candidato paulista e garantido seu engajamento numa campanha que não teria Minas como a protagonista principal.

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Os especialistas sempre terão explicações para a flutuação das pesquisas como a que agora ocorre na disputa presidencial.

Mas o fato é que o resultado do Datafolha, na sequência de duas pesquisas imediatamente anteriores, que registraram queda de Serra, comprova que o País está dividido eleitoralmente, clima que deverá prevalecer na campanha.

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Ascensão de Dilma e a permanência de Marina na casa dos 10% eram previstos. Fotos: Dida Sampaio

Os 39% de José Serra registrados pelo Datafolha indicam que o candidato do PSDB  tem uma votação sólida e um eleitorado fiel, que o mantém nesse patamar desde antes de seu lançamento formal.

O que reforça a solidez da candidatura é também o fato de a pesquisa ter sido feita em momento negativo da  campanha do PSDB, de que a crise do vice foi o melhor retrato.

A ascensão da candidata Dilma Rousseff e a permanência de Marina Silva na casa dos 10% eram previstos. O que deixou de ser dúvida é a capacidade do presidente Lula de transferir votos em proporção suficiente para consolidar uma candidata sem qualquer recall político.

Lula levou Dilma ao patamar de Serra e agora a disputa é pelo eleitor que não se decidiu ainda. É quando ganham importância os debates que a candidata do PT/PMDB tem evitado por estratégia de seus marqueteiros.

As pesquisas no contexto da atual disputa serão importantes como termômetro para que os partidos avaliem as situações regionais, façam ajustes naturais de campanha, porém não servirão para sustentar teses sobre definição de tendência, como se tem observado em algumas avaliações.

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