É cedo para estabelecer uma relação de causa e efeito entre o revés imposto pelo julgamento do mensalão ao “projeto nacional” do PT e a mudança de postura percebida nos discursos dos prefeitos eleitos nas principais capitais do país, aparentemente dispostos a adotar gestões inspiradas nos manuais da iniciativa privada.
O espírito de gestão que “baixou” nos prefeitos está associado principalmente à realidade econômica que insiste em contrariar as diretrizes intervencionistas do partido, a impor soluções que vão muito além do assistencialismo e do consumo como alavanca para o crescimento.
Mas não se deve descartar um efeito – indireto que seja – do que representou a decisão histórica do Supremo Tribunal Federal (STF) como freio drástico a desvios de conduta com origem na mistura de politicagem e administração do bem público. Uma dose de didatismo certamente penetrou os poros do corpo político, ainda que em proporção insuficiente para que se espere mudanças drásticas.
De qualquer forma, as posses foram marcadas pelos anúncios de cortes de gastos, promessas de controle rígido do uso de recursos públicos, austeridade e gestão profissionalizada. Apertar o cinto foi a palavra de ordem dos eleitos – no que repetem seus antecessores, a maioria incapaz de cumprir o discurso.
O que parece novidade é a adesão da maioria ao conceito de gestões mais técnicas, com fixação de metas de desempenho, avaliação de resultados, implantação de comitês de gestão integrada, parcerias com o empresariado renegociação de dívidas – um modelo destinado a viabilizar mais investimentos.
Enfatizaram a adoção dessas práticas o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), de São Paulo, Fernando Haddad (PT), de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), do Rio Grande do Sul, José Fortunatti (PDT), de Salvador, ACM Neto (DEM) e o do Recife, Geraldo Julio (PSB), num arco partidário de ideologias distintas.
No segundo mandato, Eduardo Paes parece já ter assimilado parte do conceito profissional, ao vocalizar uma autocrítica e uma promessa: “Governos acumulam gorduras e o meu deve ter acumulado também”; “Vou governar com inquietude, com olha crítico sobre minha administração”.
Levado a sério, isso se traduz por premiação ou demissão de funcionários estratégicos, em caso de êxito ou fracasso no cumprimento de suas metas, como deve ser por parte de qualquer governo efetivamente empenhado em prestar contas à população. Adotado na prática é um antídoto poderoso contra aparelhamentos partidários e afins.
No Rio Grande do Sul, Fortunatti promete o mesmo, acrescentando que vai começar pela gestão privada dos hospitais. ACM Neto anunciou corte de gastos, assim como Geraldo Julio, incluindo redução de quadros comissionados, indiscutível fator de inchaço das máquinas públicas, a começar pela federal.
Mais sintomático, por ser do PT, Fernando Haddad, de São Paulo, vai na mesma linha, com aval do presidente do partido, Rui Falcão, cuja adesão ao modelo precisa ainda ser testada na sua sinceridade. Afinal, ainda prega a inexistência do mensalão como delito penal.
A busca da eficiência não tem outro caminho, cuja interdição se dá pelo compadrio, aparelhamento partidário e todas as outras formas conhecidas de uma cultura política fisiológica, crônica no Brasil, à qual o PT aderiu ao se unir às velhas oligarquias.
A sinalização dos prefeitos para a necessidade de profissionalizar a gestão pública, com a abrangência que o termo implica, é o desafio da presidente Dilma Rousseff nos dois anos de mandato que lhe restam, dos quais apenas um, o que agora se inicia, será completo, desvinculado da campanha presidencial de 2014.
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O contrato entre o Governo do Distrito Federal (GDF) e a empresa de Cingapura Jurong Consultants, para pensar Brasília nos próximos 50 anos, está tomando a forma de escândalo diante da determinação do governador Agnelo Queiroz (PT) de não explicar a iniciativa.
Não explica, não mostra o contrato e chama de obscurantistas os parlamentares da bancada federal do DF que cobram transparência em relação ao assunto.
Essa postura já produziu a ruptura de oito parlamentares da bancada federal com o governador. Um duríssimo discurso do senador e ex-governador, Cristóvam Buarque (PDT), com endosso do senador Rodrigo Rollemberg (PSB), dá ao episódio tintas de crise e deixa o governador numa situação muito desconfortável.
“O governador do Distrito Federal, além de não ter mostrado a que veio, em dois anos, tem uma única obra, que herdou do governador Arruda e que está levando adiante quase dobrando o custo de construção e equipamentos”, acusou o habitualmente comedido Cristóvam.
Ele se refere ao estádio mané Garrincha. O senador diz ter ouvido do próprio Agnelo, quando em campanha, considerar o estádio “uma megalomania superfaturada pelo Arruda”.
O mais grave, porém, é a desfaçatez com que Agnelo negou acesso ao contrato, a ponto de Cristóvam e Rollemberg terem obtido uma cópia no Facebook, redigida em inglês. E mais: ele foi examinado e aprovado no tempo recorde de 24 horas, por diversas instâncias do governo, em…inglês.
Os senadores verificaram que a tradução juramentada do documento é de 23 de outubro, posterior à aprovação e assinatura do contrato. Pior: depois dessa informação, o documento reaparece com a data da tradução como sendo 20 de setembro.
O contrato, segundo Cristóvam, foi redigido pela empresa de Cingapura e, ao que tudo indica, a proposta também teve a sua iniciativa. Ou seja, o governo de Brasília sequer teria proposta e aceitou a que lhe foi feita. No contrato a empresa é desobrigada de compatibilizar o projeto que vier a apresentar com a legislação brasileira.
Qual o mistério que explica uma atitude tão defensiva de um governo em relação à sua própria bancada de apoio? Para Cristóvam, uma das hipóteses é a dificuldade em sustentar as obras do estádio Mané Garrincha. O contrato, por autorizar a venda de terrenos do GDF, produziria recursos que supririam o caixa do governo. O que explicaria a urgência oculta no documento que dispensou a licitação.
A irritação do senador é tanta que ele chegou a enaltecer as privatizações ocorridas no governo Fernando Henrique Cardoso, crítica preferida de seu partido, o PDT, e do PT.
“ O Partido dos Trabalhadores critica o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso por privatizar as telecomunicações, mas elas deram um salto, ou seja foi um processo de ganho para a Nação brasileira. Aqui está se privatizando o propósito, o projeto, com desperdício de milhões de reais com a venda de terrenos em momento ruim para esse tipo de operação”, disse.
Positivo até aqui é a constatação de que o bancada federal do DF finalmente se cansou de assistir à paralisia da Câmara Distrital, cujo silêncio sobre o assunto é de uma eloquência cúmplice.
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A censura imposta a este blog pela justiça eleitoral de Macapá se insere no contexto de uma nova aplicação da modalidade: não se trata de censurar mais a informação, porém o fato. A argumentação da advogada do prefeito Roberto Goes (PDT), que logrou censurar notícia aqui publicada, não a nega, mas a considera impertinente por ser veiculada durante a campanha eleitoral de seu cliente.
E o juiz Adão Joel Gomes de Carvalho acatou o argumento, respaldando uma teoria que não se encontra em qualquer regra jornalística ou jurídica: a de que a notícia deve ser “contemporânea” (sic). O juiz agiu como editor e não como árbitro, ao considerar que notícia velha não vale.
Ainda que fosse o caso – e não é -, a premissa que orienta a decisão chega às raias do delírio. A notícia da prisão do prefeito é de amplo conhecimento público, pois ocorreu no contexto de uma operação policial que pôs na cadeia uma penca de servidores públicos dos três poderes municipais, com repercussão nacional.
As consequências jurídicas da prisão de Goes é que permaneceram no âmbito estadual. Entre elas, o acordo judicial que lhe permitiu reassumir a prefeitura, sob condições que restringem sua liberdade de movimentos até outubro de 2013, o que o alcança na prefeitura, se reeleito.
Um prefeito em campanha pela reeleição, nessas circunstâncias, é notícia importante pelo que revela do comportamento de homens públicos que já produz réus políticos e cria a expectativa positiva de que o país entre de forma irreversível num período de saudável assepsia.
O blog trouxe a memória do caso ao noticiar a restrição judicial imposta ao prefeito e candidato à reeleição. Além do mérito já mencionado, a informação levantada pela repórter Andrea Jube Vianna, presta um serviço ao eleitor local que, por outros atos de censura do prefeito, não têm acesso a denúncias e críticas à sua gestão pelos meios jornalísticos estaduais.
Não é de todo espantoso que assim aja o prefeito, na medida em que o recurso à censura do fato emana das cúpulas políticas, como demonstram os episódios mais recentes da família Sarney – recorrendo ao elástico conceito de segredo de Justiça para impedir informações sobre o processo do empresário Fernando Sarney – e do PT, ao tentar evitar que o noticiário mencione o mensalão.
Espantosa é a aquiescência do juiz ao absorver argumentação tão fajuta a ponto de confessar que o incômodo do prefeito é com a lembrança do fato por um veículo de comunicação fora do alcance de seu poder político de censura própria. Para essa, precisou do juiz eleitoral, mas as tantas outras que impõe à mídia na capital do Amapá dispensaram o Poder Judiciário.
A síntese da reclamação absorvida pelo juiz Adão Joel, é a de que o fato, apesar de incontestável, não deveria ser lembrado na campanha eleitoral. Afinal, prá que lembrar disso agora?
Aplicado em todo o país, o critério do juiz Adão manteria o julgamento do mensalão , e outros, em quatro paredes – o sonho dos petistas e de políticos que insistem em desmentir os fatos.
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Mesmo ainda uma possibilidade, a disposição do ex-governador José Serra de reconsiderar sua posição de não concorrer à prefeitura de São Paulo foi comemorada pelo presidente do PSDB, Sérgio Guerra:
“Um alívio”! – exclamou ao saber da notícia.
Guerra evidentemente vibra porque vê aí o caminho aberto para que o senador Aécio Neves (MG) consolide-se como o candidato do partido à presidência em 2014.
Segundo dirigentes tucanos, se finalmente decidir se candidatar, o próximo passo de Serra será investir todas as fichas na formação de uma ampla aliança, que reúna PSD, DEM, PDT, PSB e PTB, garantindo razoável tempo de TV.
O envolvimento do governador Geraldo Alckmin para viabilizar essa e outras exigências de Serra não é garantia, porém, de êxito pleno.
O tempo perdido até aqui gerou quatro candidaturas tucanas, uma pré-aliança do prefeito Gilberto Kassab com o ex-presidente Lula e o ingresso do PDT no governo tucano.
Além das feridas internas num eventual desmonte das pré-candidaturas do PSDB, o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), presidente da Força Sindical, reafirmou a candidatura à Prefeitura de São Paulo.
“Continuo pré-candidato”, disse ao blog. Ele alega que a secretaria que o governador Geraldo Alckmin deve confiar ao PDT não passa por sua desistência.
Já o líder do PT, deputado Jilmar Tatto (SP) – que renunciou à candidatura em favor de Fernando Haddad – minimizou a possibilidade de perder o apoio do PSD. “Sempre trabalhamos com a possibilidade da candidatura de Serra. O PT assiste de camarote à briga dos adversários”, provocou.
Resta saber como agirá Kassab, que sempre condicionou a candidatura própria do PSD, ou alianças, à decisão de Serra. Se o ex-governador for candidato – disse sempre o prefeito -, estarei com ele.
Tags: Aécio Neves, geraldo Alckmin, José Serra, Lula, Paulinho da Força, Prefeitura de SP, Sérgio Guerra
O episódio do ministério do Trabalho é uma das reprises com que o governo vem brindando a sociedade na série de crises de corrupção na máquina pública.
Instalou-se nesta um vírus cujo antídoto está na mudança de modelo que exclua a chamada ”porteira fechada”, pelo qual um partido político detém todos os cargos e mecanismos de uma Pasta.
E deles se vale para produzir um duto de desvio de verba pública que abastece seus cofres. O sistema é conhecido, mas se repete anos a fio, numa clara demonstração de que fugiu a qualquer controle.
Basta ver que são cerca de 500 as prestações de contas sequer olhadas superficialmente pelas instâncias de fiscalização. No caso do Trabalho, a coisa é mais escancarada: a tal ponto que o plenário do Tribunal de Contas da União (TCU) fez uma moção pedindo providências.
O TCU, aliás, é outro agente que escapou às abordagens do tema: não custa lembrar que o ex-presidente Lula moveu campanha para reduzir seus poderes, numa análise invertida do problema: ao invés de moralizar os ministérios, tentou desmobilizar os fiscais.
Lupi repete seus antecessores até nas bravatas: “sou osso duro de roer e não jogo a toalha de jeito nenhum”, disse. Sente-se, portanto, “indestrutível” como Orlando Silva, ou “sólido como uma rocha”, como Wagner Rossi, da Agricultura.
Ambos caíram menos de 48 horas após proferirem as frases. Trata-se, portanto, mais do que uma frase de efeito, uma senha para a queda. É só questão de tempo.
Porque a premissa dos três estava equivocada: um ministro não precisa receber propina ou ser acusado de malfeitos para deixar o governo. O resultado de sua gestão é mais do que suficiente para a queda.
Ou seja, se um ministério comprovadamente produz corrupção, na escala demonstrada, a responsabilidade é do titular da Pasta. Impressionante é que esses titulares não se sintam dessa forma.
Ou melhor: queiram convencer a sociedade de que não é bem assim. E passem a uma estratégia de defesa pessoal da honra quando se está falando de gestão de dinheiro público.
Não há rocha, osso duro ou blindagem possível para tal realidade. E, de um a um, a reforma ministerial mantém seu curso. liás, o osso de Lupi parece mais sintoma de uma osteoporose ministerial.
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O que mais consolida versões e boatos sobre governos e políticos é a falta de reação de seus personagens ao que deles se diz e divulga. Mais ainda, quando tais versões circulam com autores identificados que as assumem.
O silêncio diante de denúncias graves comprometeu a credibilidade do ex-governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, e sua deposição e prisão confirmaram posteriormente as suspeitas de que a falta de reação estava diretamente vinculada ao seu envolvimento com o quadro de corrupção na Capital do país.
Arruda era vítima de chantagem por parte do esquema do ex-governador Joaquim Roriz, cujo personagem central e corruptor-mór era o famigerado delegado Durval Barbosa, cuja cinemateca é o mais completo acervo documentado da corrupção no país. Quiçá no planeta.
Conhecidos os vídeos após acordo de delação premiada de Durval com a Justiça, foi fácil entender a complacência de Arruda com uma máfia tão ostensiva quanto ativa que submeteu seu governo.
Pois o que se dizia de Arruda – desde sua cumplicidade com os criminosos até a existência de vídeos comprometedores de efeito explosivo – ouve-se agora em relação ao seu sucessor, Agnelo Queiroz (PT), aparentemente com exageros.
Mais do que ouvir, é possível ler em blogs de autoria assumida, em entrevistas insinuantes de aliados e em discursos de raros oposicionistas.
Não se conversa mais de dez minutos em rodas políticas locais e mesmo com lideranças partidárias da coalizão que sustenta seu governo, sem que alguém mostre preocupação com a iminência de uma explosão de denúncias comprometedoras.
Sabe-se que partidos que integraram a aliança que elegeu Agnelo, como o PSB e o PDT, preparam o desembarque de seu governo – senão avalizando as denúncias, pelo menos delas se prevenindo.
Mas o governador permanece no mais pétreo silêncio. Talvez apoiado na falsa premissa de que, tendo por origem, em sua maioria, o submundo ligado ao ex-governador Roriz, as denúncias não mereçam credibilidade.
Nada mais falso. Fosse assim, Durval Barbosa estaria preso e Arruda provavelmente reeleito. Mas o único preso, ainda que por pouco tempo, foi Arruda.
E Durval não só permanece livre, leve e solto, como elegendo suas vítimas numa delação premiada seletiva que compromete o Poder Judiciário e o Ministério Público.
Este, aliás, até hoje em dificuldades para concluir o processo que destituiu nada mais nada menos que seu chefe no Distrito Federal, Leonardo Bandarra, envolvido no esquema que levou à queda de Arruda.
Feito o parêntese, voltemos a Agnelo, que parece cada vez mais politicamente com Arruda, salvo pela capacidade de gestão que não se pode negar ao ex-governador do DF.
Omisso diante das acusações, o governador não disse a que veio nem como gestor. Repetiu o arco de alianças que elegeu Arruda “por dentro”, como ele costumava justificar seus acertos com Roriz e periferia.
Governa com uma Câmara Distrital igualmente comprometida com o corporativismo, com relações promíscuas entre alguns de seus integrantes e o governo, projetos suspeitos sem licitação, nepotismo em alto grau, etc,. etc.
A última notícia em circulação dá conta da existência de um vídeo intitulado “torres gêmeas”, referência a duas pilhas de dinheiro repartidas entre autoridades.
O governador Agnelo é o único que teria legitimidade para justificar a demora nos resultados de sua administração com a desgastada tese da “herança maldita”.
Porque, de fato, recebeu-a. Mas a assume como parte de um espólio porque assim decidiu. Ou porque não pode fazer de forma diferente.
Deveria se manifestar sobre o que se escreve a respeito (ou em desrespeito) de seu governo
Até porque, sua biografia já inclui uma condenação, com bloqueio de bens, pela gestão no Ministério dos Esportes.
Mas, ao invés disso, lê-se no noticiário local que já discute a reeleição em 2014 com seu círculo político mais próximo, boa parte espólio da era Roriz/Arruda.
É de espantar, não só pelo fato de mal ter completado seu primeiro semestre no Palácio do Buriti, mas também porque indica ausência completa de autocrítica.
E ausência suicida de qualquer temor.
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Pela leitura dos especialistas, a queda do índice de aprovação da presidente Dilma Rousseff guarda mais relação com uma certa percepção de paralisia na gestão de governo do que com os escândalos de corrupção que se sucederam nos dias anteriores às pesquisas.
Faz sentido, até porque a visibilidade da presidente com os fatos nos ministérios dos Transportes e Agricultura (o do Turismo ocorreu após as consultas), foi positiva: ela assumiu o combate às irregularidades o que soma e não subtrai.
Mesmo não vinculada aos episódios a queda nos índices reforça o ânimo de resistência da base aliada ao padrão Dilma de governar e fragiliza mais a presidente no seu enfrentamento do sistema político.
Não obstante seus índices historicamente serem altíssimos tanto para os padrões nacionais quanto internacionais. Ela tem muito capital ainda, mas já se depara com a materialização das ameaças de sua base de sustentação.
A formação do bloco de 201 deputados de PMDB, PR, PTB e PP para efeito específico de obstrução da pauta da Câmara é, por ora, resultado do não preenchimento de cargos do segundo escalão e do represamento das verbas de emendas parlamentares do exercício anterior e do atual.
Mas pode evoluir para mais que isso a partir da operação da Polícia Federal no ministério do Turismo. Não pelo mérito da investigação e do cerco à quadrilha que desviava dinheiro público, mas pela forma, que indiscutivelmente ficou comprometida por uma motivação ainda pouco clara da PF.
A súmula do Supremo Tribunal Federal (STF) é clara quanto ao uso de algemas em operações policiais e não o restringe com base em critérios sociais, de renda, cor, sexo ou qualquer outro. O STF estabelece que o uso de algemas deve ser exclusivamente associado à periculosidade do detido, use ele terno ou bermuda, represente este ou aquele segmento, esteja no morro ou no palácio.
A insubordinação policial à regra fica clara no episódio pelas declarações não só do diretor-geral da PF, Leandro Daiello, que deu interpretação pessoal à súmula ao dizer que o uso das algemas teve o objetivo de “dar segurança ao conduzido”.
Esse tipo de comportamento conspira contra a credibilidade da PF. Abre espaço à exploração política e multiplica o discurso populista do qual a atual direção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) parece refém.
São declarações oportunistas que pregam igualdade no uso das algemas para ricos e pobres como se a questão fosse essa. Uma autoridade do primeiro escalão de um governo, detida numa sala de aeroporto, sem oferecer resistência, não representa risco à integridade física de ninguém.
Basta conduzi-la ao carro e levá-la. Já um traficante em perseguição num morro ou em qualquer outro lugar, que oferece resistência armado, é risco grande para a comunidade. Uma vez preso, é natural que seja algemado e escoltado até a prisão. Um é elite e o outro povo. Devia-se, então, pela lógica da OAB, algemar o executivo e ser cordial com o traficante.
O ex-deputado Colbert Martins , além de algemado, foi fotografado para as primeiras páginas dos jornais baianos, seu domicílio eleitoral, o que elevou do grau de insatisfação para o da revolta o clima no PMDB. Ainda mais porque o responsável pelo ministério à época das fraudes era o PT.
O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, sai mal do episódio, questionado pela presidente da República e pela base política quanto ao efetivo controle hierárquico sobre a Polícia Federal.
Seu desgaste não se deve à falta de aviso quanto a uma operação policial em curso, mas por ele próprio não estar informado sobre ela. A ponto de não fazer as recomendações de praxe quanto aos excessos que, afinal, aconteceram.
Só agora, depois de cobrado, Cardozo redigiu uma burocrática cobrança à PF que respondeu com outro ofício burocrático. Como quase metade dos detidos já foi solta por ordem judicial, fica claro que a operação foi marcada por uma ostensividade não justificável.
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A campanha do chamado “fogo amigo” contra a ministra da Cultura, Ana de Holanda e o adiamento da votação do Código Florestal, repõem na cena política a relação do PT com o governo ao qual dá sustentação há oito anos.
Nos anos Lula, a relação do PT com o governo foi de submissão a uma liderança maior que o partido e com a popularidade em alta permanente.
O ex-presidente tinha tanta segurança de sua liderança que impôs aos petistas uma candidata sem vínculo histórico com o partido.
Que esperou, desde então, o momento de tentar impor-se à presidente Dilma Rousseff, meta anunciada pelo ex-ministro José Dirceu ainda durante a campanha presidencial.
“O governo Dilma será o verdadeiro governo do PT”, disse ele, ao pregar a um só tempo a hegemonia do partido na aliança governista e a tese de que Lula não foi o governo do partido.
Recentemente eleito por obra e graça do mesmo José Dirceu, o novo presidente do PT, Rui Falcão, disse ter chegado o momento anunciado pelo seu cabo eleitoral: “Até aqui foi por Dilma; daqui em diante será pelo PT”, sentenciou.
Foi a senha para despertar as diversas correntes em que se divide o partido, que Lula, em entrevista ao Estadão, em 2010, chamou de “feira ideológica”. Que não deveria ser levada a sério.
Para Lula, o PT que chegou ao poder com sua primeira eleição, em 2002, foi o “PT maduro” e que, sob sua liderança e mediação, se imporia aos “aloprados”, outro termo que ele encontrou para (des) qualificar os militantes capazes de tudo.
Indagado na mesma entrevista se sua sucessora teria condições de exercer o mesmo poder moderador, ele deu duas respostas: 1) Com certeza, porque ninguém vai achar que pode governar com o PSTU e jogar tudo o que foi conquistado fora; 2) E eu não morri.
Não morreu e está mais presente do que possam supor os que investem na suposta deterioração de suas relações com Dilma. Ele entra em ação quando é necessário controlar a “feira ideológica”.
Não por acaso foi o Secretário-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho – o assessor mais próximo de Lula em sua gestão e seu canal dentro do governo atual -, o porta-voz do “enquadramento” da militância que tenta desestabilizar a ministra da Cultura.

O líder do PMDB, Henrique Alves, o relator do projeto, Aldo Rebelo, e o líder do governo, Cândido Vaccarezza, após acordo para votar o Código
Já na madrugada de hoje, o governo jogou fora o acordo pela aprovação do texto do relator do Código Florestal, Aldo Rebelo (PC do B-SP), sacrificou a credibilidade de seu líder, deputado Cândido Vaccarezza (SP) e ainda assim provavelmente será derrotado na votação dessa questão.
Encerrada a sessão, lideranças do PMDB e PDT, da base aliada, identificaram imediatamente os reflexos de uma disputa interna do PT no impasse que levou à obstrução da votação para livrar o governo de uma derrota acachapante por mais de 400 votos.
Quem deu a senha a uma base desorientada com o repentino rompimento do acordo foi o experiente deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) que alertou o líder do PMDB, Henrique Alves (RN): “Se não obstruir, vocês vão para a caçapa”.
O impasse começa no Planalto com a idas e vindas de um processo de hesitação que ignora uma maioria suprapartidária pelo texto de Rebelo.
E se conecta com a crise reprimida desde a destituição de Vaccarezza do posto de candidato à presidência da Câmara em favor de Marco Maia (SP), com apoio do ex-presidente da Casa , Arlindo Chinaglia (SP), entre outros.
Vaccarezza era o candidato de Dilma à presidência da Câmara, assim como o deputado Humberto Costa (PE), à presidência do PT. Nenhum deles vingou.
Ana de Hollanda é a ministra da Cultura escolhida pessoalmente por Dilma, mas não é a dos sonhos do PT.
Está, pois, aberta a temporada de queda de braço entre o partido e o governo, que testará a liderança política da presidente em momento especialmente estratégico.
Por ora, está exposta a vulnerabilidade do governo no Congresso – e não por obra da oposição, que parece em estado de coma, mas pela tentativa do PT de consolidar sua hegemonia na aliança e, conseqüentemente, impor-se ao governo.
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