O PSDB e o DEM apresentaram peças de defesa idênticas contra o PSD na ação em que a sigla do prefeito Gilberto Kassab reivindica uma parcela maior do Fundo Partidário junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A sintonia fina entre tucanos e democratas na corte eleitoral deve servir de alerta ao PSD, sigla do prefeito Gilberto Kassab, que disputa com o DEM a vaga de vice de José Serra, em eventual chapa liderada por ele à Prefeitura de São Paulo.
Serra já afirmou a interlocutores que a escolha do candidato a vice depende da decisão do TSE sobre a participação do PSD no Fundo Partidário. Essa mesma decisão valerá para o tempo de propaganda no horário eleitoral gratuito.
A identidade das peças do PSDB e DEM na corte eleitoral não é mera coincidência. Mostra que as duas siglas agem como parceiras no TSE, a fim de liquidar os interesses do PSD, que busca garantir uma fatia maior dos recursos do Fundo Partidário – fixados em R$ 286 milhões neste ano – e do tempo de propaganda eleitoral.
Kassab está tão confiante de que indicará o vice de Serra que já selecionou cinco secretários municipais e pediu-lhes que coloquem os cargos à disposição, a fim de oferecer seus nomes ao tucano. Contudo, sem os minutos garantidos no horário eleitoral gratuito, o PSD perde a chance de indicar o vice na eventual chapa encabeçada por Serra, abrindo caminho para o DEM.
“Legendas partidárias que ainda não participaram de eleições gerais para a Câmara dos Deputados não fazem jus ao rateio dos 95% dos recursos do Fundo Partidário”, alegam DEM e PSDB – com as mesmas palavras – na petição protocolada no TSE.
As defesas de tucanos e democratas contra o PSD são idênticas do começo ao fim, inclusive os precedentes jurídicos invocados para justificar os argumentos. Até mesmo os trechos sublinhados e em negrito são coincidentes!
Para fazer jus a uma fatia maior do bolo, o PSD alega que tem a quarta maior bancada da Câmara (52 deputados) e, como tal, tem direito à divisão do fundo e ao “direito de antena” na mesma proporção que as maiores bancadas (PT, PMDB e PSDB).
Mesmo ainda uma possibilidade, a disposição do ex-governador José Serra de reconsiderar sua posição de não concorrer à prefeitura de São Paulo foi comemorada pelo presidente do PSDB, Sérgio Guerra:
“Um alívio”! – exclamou ao saber da notícia.
Guerra evidentemente vibra porque vê aí o caminho aberto para que o senador Aécio Neves (MG) consolide-se como o candidato do partido à presidência em 2014.
Segundo dirigentes tucanos, se finalmente decidir se candidatar, o próximo passo de Serra será investir todas as fichas na formação de uma ampla aliança, que reúna PSD, DEM, PDT, PSB e PTB, garantindo razoável tempo de TV.
O envolvimento do governador Geraldo Alckmin para viabilizar essa e outras exigências de Serra não é garantia, porém, de êxito pleno.
O tempo perdido até aqui gerou quatro candidaturas tucanas, uma pré-aliança do prefeito Gilberto Kassab com o ex-presidente Lula e o ingresso do PDT no governo tucano.
Além das feridas internas num eventual desmonte das pré-candidaturas do PSDB, o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), presidente da Força Sindical, reafirmou a candidatura à Prefeitura de São Paulo.
“Continuo pré-candidato”, disse ao blog. Ele alega que a secretaria que o governador Geraldo Alckmin deve confiar ao PDT não passa por sua desistência.
Já o líder do PT, deputado Jilmar Tatto (SP) – que renunciou à candidatura em favor de Fernando Haddad – minimizou a possibilidade de perder o apoio do PSD. “Sempre trabalhamos com a possibilidade da candidatura de Serra. O PT assiste de camarote à briga dos adversários”, provocou.
Resta saber como agirá Kassab, que sempre condicionou a candidatura própria do PSD, ou alianças, à decisão de Serra. Se o ex-governador for candidato – disse sempre o prefeito -, estarei com ele.
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Oposição e governo convivem numa espécie de trégua informal com suas crises intestinas – um com falta de programas e preso a um varejo que o torna refém da sede de sua base aliada por cargos e verbas.
Outro, precipitadamente envolvido numa disputa pela candidatura oficial à presidência em 2014. Com a pressa que faltou para definir-se em 2010, José Serra faz discurso solitário contra o governo dentro do PSDB.
Seu rival Aécio, puxa o freio de mão na expectativa de que a própria aliança governamental produza uma auto-combustão, enquanto ele sedimenta as bases para sair vitorioso na disputa interna. Serra agora quer prévias, Aécio tangencia o tema.
No caminho de ambos – governo e oposição – uma eleição municipal com provável protagonista novo, o PSD, que catalisa toda a energia de outro figurante oposicionista, o DEM, concentrado em inviabilizá-lo.
Como o governo é de continuidade, a oposição também o é, dando ao cenário a sensação de nova sessão do mesmo filme. O desgaste precoce do governo não favorece a oposição que também não parece ter programa alternativo para o país.
Neste cenário, a única previsão com risco mínimo de erro é a de que o PSD deverá participar das eleições municipais e tirar dela algum lucro, já que funcionará como sublegenda de muitos governadores.
Nem a Copa escapa: dificlmente o Brasil fracassará no desafio de sediá-la, mas a qualidade dos serviços do anfitrião já é posta em dúvida pelos mais realistas.
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A estratégia de Aécio na tentativa de consolidar-se como candidato do partido em 2014 à sucessão de Dilma Rousseff considera que a candidatura de Gilberto Kassab ao governo paulista “amarrou” o governador Geraldo Alckmin à cadeira, impondo-lhe a reeleição.
Tese reforçada pelo ingresso de seu vice, Afif Domingos no recém-fundado PSD, onde é alternativa à sucessão do atual prefeito de São Paulo.
O ostensivo empenho do ex-presidente Lula em quebrar uma hegemonia tucana de 16 anos no Estado completa a conveniência de Alckmin ficar onde está e de Serra conformar-se em voltar à prefeitura paulista.
Sem perder o foco nas articulações internas, Aécio iniciou uma ponte com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, principal liderança do PSB e passaporte nordestino indispensável a qualquer candidato presidencial.
Campos trabalha para conquistar visibilidade nacional e estabelecer uma autonomia política que o capacite a vôo mais alto ainda em 2014, se as circunstâncias autorizarem. É hoje o vice dos sonhos de qualquer pretendente à Presidência.
Ao mesmo tempo, o senador mineiro quer transformar o Instituto Teotônio Vilela (ITV) no instrumento de uma política de comunicação que lhe dê mais visibilidade nacional e dissemine as idéias e projetos tucanos.
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Não obstante o risco inerente às previsões judiciais, vai parecendo cada vez mais improvável o êxito das ações que visam a impedir a consolidação do novo partido, o PSD, nos tribunais.
É notória a consistência política do movimento iniciado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, deflagrado no contexto de uma crise do sistema político que desenha claramente um rearranjo partidário.
A crise do DEM que lhe deu origem, não responde unicamente pelo veloz e robusto índice de adesões ao PSD.
Como mostram as contas, há gente de todo lado chegando, sob protestos de dirigentes das legendas mais desidratadas, como o próprio DEM e, mais ostensivamente, o PPS.
Impondo-se como realidade política, o partido liderado por Kassab dificilmente terá revés jurídico. No que diz respeito aos dissidentes do DEM, as chances de perda dos mandatos é quase zero.
O prefeito e os ex-demistas têm a materialização da prova de perseguição, que retira de um julgamento sério a dose de subjetividade que geralmente acompanha esses processos de desfiliação partidária.
Sob a presidência do deputado Rodrigo Maia (RJ), o DEM fraudou documento da Executiva Nacional que dava ao Conselho Político a exclusividade para decidir sobre coligações e lançamento de candidaturas em todos os níveis.
Esse foi o ponto de combustão de uma crise que chegou ao auge na campanha presidencial. A fraude retirou da corrente liderada por Jorge Bornhausen, da qual fazia parte o prefeito, o poder exclusivo que respaldou a decisão de apoiar a candidatura Serra, numa coligação com o PSDB, permitindo assim uma parcial cristianização da candidatura oficial.
Como até as pedras sabem, a ala de Maia marchou com o então governador de Minas, Aécio Neves, cuja rivalidade com o ex-governador paulista vem de muito antes da campanha presidencial, nela se tornou mais difícil de administrar e, hoje, é um filme exibido em 3D.
Por mais que recuse a fusão com o PSDB não parece restar ao DEM alternativa. Possivelmente a rejeição à idéia é estratégica, vinculada à conveniência de ganhar tempo para operá-la em melhores condições de tempo e visibilidade.
Por isso, entre os que se declaram contra a idéia há aqueles que têm, dificuldades regionais para a fusão – e, nesses casos, o PMDB é o plano B – e os que a preferem para após as eleições de 2012. Estes defendem um regime de coligação congressual enquanto preparam suas bases para aquilo que parece inevitável.
A oportunidade do lançamento do partido deu a Kassab a dianteira sempre importante no contexto político e deixou aos rivais, embora parceiros, como o governador Geraldo Alckmin, o ônus de gerenciar a crise aberta pela entrada em cena do PSD.
Mesmo o ex-governador José Serra está em dificuldades para situar-se no cenário pós-PSD. Na luta pelo comando do PSDB, tem no ex-presidente Fernando Henrique Cardoso a alternativa para um equilíbrio na disputa, da qual participa sem mandato ou cargo, em desvantagem com Aécio.
O mineiro é, hoje, quem produz perspectiva de poder dentro do partido ( desde que renove a carteira de habilitação e se submeta aos próximos bafômetros) e que está na iminência de arrastar consigo a dissidência do DEM, o que colocaria o PSDB numericamente próximo a PT e PMDB, restituindo-lhe a força congressual.
Não é um xadrez simples, mas é o que será jogado até 30 de setembro, três dias antes do prazo final para filiações e outras providências legais com vistas às eleições de 2012.
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Com as pesquisas na berlinda, um clima de suspense em relação ao comportamento do eleitorado de Minas e São Paulo, a incógnita dos indecisos e o risco de abstenções altas em todas as regiões, a eleição chega hoje ao seu final com cenários especulativos sobre o futuro quadro político.
Como a política nem sempre tem leitura linear é o DEM – curiosamente o partido dado como extinto (ou “extirpado”como prefere o presidente Lula) – que centraliza a contabilidade dos especialistas partidários.
Subtraído em mais da metade no Senado e reduzido a 43 deputados na Câmara – o que não lhe dá a possibilidade sequer de pedir verificação de quórum -, o Democratas fez as contas e se dará por extinto em caso de vitória de Dilma Rousseff, para fundir-se ao PMDB.
Uns preferem o termo “incorporação”, o que pouco importa para o objetivo estratégico, que é tornar o partido do vice de Dilma majoritário na aliança com o PT.
Nesse caso, avaliações preliminares internas indicam que 30 dos 43 deputados eleitos migrariam para o PMDB invertendo a supremacia na Câmara, hoje do PT. Os 13 restantes, por razões regionais, tenderiam a juntar-se ao PSDB.
No Senado, os seis Democratas não teriam maiores dificuldades em engordar o PMDB, uma vez aprovada uma decisão majoritária nessa direção.
Em caso de vitória de José Serra, tudo fica como está, na convicção geral de que o PMDB não teria o menor constrangimento em mudar de lado. “Uma metade viria logo, a outra seria só uma questão de tempo”, sintetiza um tucano.
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As repercussões negativas da agressão de militantes ao candidato José Serra, no Rio, e da reação do presidente Lula ao episódio, centralizaram as preocupações do PT nas últimas 48 horas.
Desde a comprovação pelo Jornal Nacional, da TV Globo, de que o candidato do PSDB foi efetivamente atingido na cabeça por um artefato com poder de causar ferimento, caiu por terra a versão jocosa que Lula assumiu publicamente para atacar Serra.
O mau humor do presidente durante todo o dia de ontem é resultado das críticas de parte do PT e da campanha às suas declarações contra o candidato do PSDB.
Alheio à impropriedade da declaração pelo cargo máximo que ocupa, e do mau gosto e deselegância de acusar o adversário de farsante, Lula se sentiu injustiçado pelo partido.
Ele achou que ajudava a sua candidata por ter comprado como verdadeira a versão que lhe foi trazida pelo PT com base na edição do jornal do SBT. Falou com aquela certeza que sua experiência política deveria reservar a casos comprovados, mas sentiu-se depois vítima de um erro de informação.
O partido, por sua vez, considerou que independentemente da versão que lhe chegou, Lula deveria ter observado os cuidados que o cargo exige e, pela primeira vez na campanha, ter invertido os papéis, virando o boneco e não o ventríloquo da candidata. Nobal, teve entanto, produziu uma segunda agressão ao candidato adversário que, embora verbal, teve muito mais peso e repercussão do que a física, no Rio.
Dilma repudiara a violência e estava de bom tamanho para a campanha. No episódio, ambos têm razão – Lula e o partido. Ambos fizeram tudo errado: a questão não é a consistência do que foi atirado em Serra, mas a operação de guerra armada para impedir que o candidato do PSDB fizesse sua campanha.
Passada a ressaca, o presidente do PT, José Eduardo Dutra, telefonou para 16 presidentes de diretórios estaduais, com orientação enfática para controlar os militantes. A calma solicitada por Dutra tem sentido exclusivamente pragmático: ele teme que novos embates de rua ofusquem as manifestações pró-Dilma que o partido programa em todo o país para o próximo dia 27, em comemoração ao aniversário de Lula, que também será usado politicamente.
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Marina continuará liderando a causa, mas com um PV que terá o mesmo tamanho com que entrou na eleição. Foto: Tiago Queiroz/AE – 06.10.2010
Parece cada vez mais claro que Marina Silva tem de seus os votos correspondentes aos 10% que carregou até um pouco mais da metade da campanha.
A outra metade é um mix de eleitores insatisfeitos com os dois candidatos mais bem posicionados na disputa, indecisos, e, possivelmente, gente que ia votar em Dilma e recuou para pensar melhor depois que o aborto entrou na pauta.
Já disse aqui que a abordagem plebiscitária do tema favorece o obscurantismo. Por isso, tudo o que o envolve como parte de uma política pública precisa entrar no debate sob pena de a campanha se render ao fundamentalismo religioso.
Falo da espiritualidade, mas também da saúde, educação, planejamento familiar, aspectos historicamente negligenciados por candidatos, governos e instituições religiosas.
Mas voltando à Marina, se for correta a interpretação dessa outra metade de sua votação, que a transformou em fator decisivo para a realização de um segundo turno, melhor será se Serra e Dilma não superestimarem sua liderança sobre os eleitores de última hora.
Os votos que podem ser considerados “verdes”, ou seja, que têm relação com a causa ambiental capitaneada por Marina, migrarão para quem ela ou o PV decidirem.
Os 10% finais têm de ser perseguidos pelos candidatos que disputam o segundo turno, entre indecisos e insatisfeitos com as campanhas de um e de outro.
Passada a eleição, Marina continuará liderando a causa, mas com um PV que terá o mesmo tamanho com que entrou na eleição e precisará de alianças para multiplicar o capital político obtido agora.
Marina teve os votos cativos do eleitor sintonizado com a questão ambiental, mas teve também os votos que não buscou, numa proporção igual. É inútil, pois, assediá-la com uma preocupação ecológica artificial.
O que tem de bom nesse contexto é que o tema ambiental está inserido definitivamente no calendário eleitoral brasileiro e, por extensão, na pauta política dos governos vindouros.
O que reforça a idéia de que a negociação com a candidata do PV deve passar pela absorção da “causa verde” naquilo que ela tem de consistente e equilibrado, sem ceder aos fundamentalismos que também aí inviabilizam conciliações indispensáveis como a explicitada na síntese “desenvolvimento sustentado”.
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Pela voz de Ciro, PT estabelece que o tema aborto na campanha é uma “calhordice”. Foto: Celso Junior/AE
O deputado Ciro Gomes (PSB-CE) acrescentou mais um item à cesta de assuntos que o PT elegeu como de “baixo nível” na sua tentativa de pautar a campanha pelas suas conveniências.
Depois de classificar a quebra de sigilo como crime comum e as denúncias de tráfico de influência na Casa Civil como “baixarias” do candidato José Serra, que a “a mídia tucana” absorveu, o PT agora, pela voz de Ciro, estabelece que o tema aborto na campanha é uma “calhordice”.
Como Ciro sempre se caracterizou por banalizar a ênfase, nada de novo. A não ser pela distorção dos fatos, também um hábito seu quando quer encerrar um assunto.
Quem levantou o tema do aborto não foi Serra, mas a própria Dilma na sua Carta ao Povo de Deus ou coisa que o valha. Também em entrevista ao SBT. O resto a Internet cuidou de fazer.
Ainda que o tema viesse pelo candidato tucano, por que é calhorda? Se a Igreja também o trata abertamente como tema eleitoral de importância para os cristãos, é de se supor que a sentença de Ciro (aliás, como é dado a sentenças!) se estende à Santa Madre.
É indiscutível que não se trata de uma questão afeita à figura do presidente da República e nem de sua estrita alçada como chefe do Poder Executivo. Mas, em qualquer campanha, em qualquer país, o eleitor quer saber a posição dos candidatos em relação a esse e outros assuntos correlatos.
A questão é que Dilma não passa sinceridade ao falar sobre o assunto. Poderia dizer que já mudou de idéia, mas prefere insistir em dizer que “sempre” foi contra o aborto, apesar de desmentida por vídeos em que aparece dizendo o contrário.
Não é a melhor forma de enfrentar a questão, vide os dois fatos anteriores mencionados no início deste post: a quebra dos sigilos e o tráfico de influência na Casa Civil.
Curioso é que os desmentidos à candidata e ao presidente Lula, nos dois episódios, vieram pelo governo. Um deles, pelo próprio Lula que, depois de culpar a mídia pelo problema na Casa Civil, demitiu a ministra Erenice Guerra que, daqui a alguns dias, deverá depor na Polícia Federal.
Ontem, a Receita Federal divulgou a conclusão sobre a investigação da quebra de sigilo do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, incriminando o analista tributário Gilberto Souza Amarante, filiado e militante do PT, do qual foi dirigente em Formiga (MG), onde praticou o crime.
A conclusão é contundente: Gilberto, do PT, violou o sigilo de Eduardo Jorge, do PSDB, com motivação político-eleitoral, estendendo a violação ao cadastro de três empresas da vítima.
E mais: mentiu publicamente ao justificar a quebra de sigilo como involuntária por ter confundido Eduardo Jorge com um homônimo. Impõe-se a pergunta: por que violar o sigilo do adversário, senão para usar algo que pudesse comprometê-lo e que acabou não encontrando?
A estratégia de atropelar os fatos tinha sentido estratégico quando a aliança PT/PMDB tinha como certa a vitória no primeiro turno. Afinal, depois seriam polêmicas de campanha destinadas ao esquecimento.
Com o segundo turno, a aliança precisa administrar melhor suas contradições porque estarão expostas por mais tempo num ambiente em que não haverá mais a possibilidade de tangenciá-las: os debates não terão mais quatro candidatos, mas só Dilma e Serra, e as atenções estarão concentradas apenas nos dois.
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“Pesquisa não é urna”. A frase, de Ulysses Guimarães, é daquelas que confirmam que o óbvio, às vezes, precisa ser dito.
E se aplica à presente eleição, na qual os institutos de pesquisa foram alçados à condição de vilões por errarem previsões defendidas com uma convicção, por vezes, até intimidatória.
O que se espera de um instituto de pesquisa, sobretudo dada a importância que adquiriu no processo eleitoral – em que passou de mero aferidor a indutor de tendências -, é que se posicione com neutralidade técnica perante candidatos e campanhas.
Nisso reside o que um instituto tem de mais caro – a credibilidade. Funciona como uma vacina que imuniza contra os efeitos de eventuais erros.
Ibope e Vox Populi , este mais que aquele, comprometeram essa credibilidade em momentos distintos da campanha.
Por isso, os erros verificados no primeiro turno provocaram tantas reações de revolta por parte de candidatos – vitoriosos e derrotados.
Logo no início, Augusto Montenegro, do Ibope, repetiu como um mantra que Dilma Rousseff não tinha a menor chance de vencer a disputa.
Quando ela alcançou os 20%, ele decretou o fim da capacidade de transferência de votos de Lula para a sua candidata.
Mais na frente, quando se admitia como tendência a vitória de Dilma no primeiro turno, ele desculpou-se publicamente e ficou tudo por isso mesmo.
Porém, mais grave foi Marcos Coimbra, do Vox Populi. Não só garantiu a vitória de Dilma, em cima de números de seu instituto, que mais tarde se mostraram errados, como tripudiou dos jornalistas que ousaram questionar suas previsões.
Em artigo na revista Carta Capital, chamou-os de “jornalistas tucanos, ineptos, autores de uma sucessão de análises erradas, hipóteses furadas, teses sem pé nem cabeça. Todas inventadas para justificar o favoritismo de Serra, que só existia no desejo de quem as elaborava”.
Coimbra distorceu os fatos: ninguém achava Serra favorito, mas questionava o favoritismo de Dilma para vencer já no primeiro turno, algo que seu instituto garantiu ao seu cliente, o PT, e não aconteceu.
Coimbra foi além: “Se não fossem tão ineptas, essas pessoas poderiam, talvez, ter impulsionado as oposições na direção de projetos menos equivocados. Se não fossem tão arrogantes, teriam, quem sabe, poupado seus amigos políticos do fracasso inevitável que os espera”.
A semelhança entre o texto de Coimbra e o ataque do presidente Lula à imprensa, exatamente nos mesmos termos, não é mera coincidência: o dono do Vox Populi, que previu a vitória de Dilma no primeiro turno com 57% dos votos, reproduzia o pensamento de seu cliente.
Coimbra também condenou candidatos e imprensa por revelarem escândalos administrativos no âmbito do governo. Estranho seria se, diante de tais fatos, nada se dissesse, como se as urnas lhe impusessem uma cortina de silêncio.
Não lhe cabe tal papel, como titular de uma instituição cuja tarefa equivale à de um termômetro: medir a temperatura da campanha, sem pretender influir sobre ela.
O fato se agrava quando se sabe que seu instituto mantém contrato com o comitê de campanha do PT, o que o coloca em situação no mínimo ambígua: de um lado, promove pesquisas independentes, de divulgação pública, registradas na Justiça Eleitoral, que lhes dá o selo de isenção; de outro, presta serviços a um dos partidos e o defende em artigos de jornal e revista.
Por essa razão, o ministro Gilmar Mendes, do STF, considera fundamental que, passadas as eleições, se reavalie o funcionamento dos institutos de pesquisas. Ou bem eles prestam serviços aos partidos ou ao público. A ambos, parece-lhe impossível. Considera inconstitucional, por ferir o princípio da isonomia, que ajam em ambas as frentes.
A iniciativa já está na agenda de políticos e partidos. O PPS vai pedir investigação das relações entre os institutos de pesquisa e os candidatos.
O deputado Rubens Bueno (PR) já anunciou essa decisão. Ele mesmo, vítima de um erro do Ibope em 2004, pelo qual processa o instituto, registra os erros cometidos agora no Paraná.
No Ibope da véspera da eleição o instituto dava a Roberto Requião 47% das intenções de voto e ao seu concorrente, Gustavo Fruet, 27%. Requião teve 24,8% e Fruet , 23,1%.
Em São Paulo, as pesquisas indicaram empate entre Marta Suplicy e Netinho e excluiram Aloysio Nunes Ferreira da disputa – logo ele que teve nada mais, nada menos, que 11 milhões de votos e elegeu-se em primeiro lugar. Já Netinho, vai continuar cantando.
Na Paraíba, José Maranhão (PMDB) foi dado como vencedor por larga margem, mas terminou a eleição atrás de seu oponente, Ricardo Coutinho (PSB). Houve mais, bem mais, mas esses exemplos são suficientes para ilustrar o problema.
A vitória de Dilma ou Serra não altera a necessidade de se repensar as pesquisas.
Não necessariamente nos termos do deputado do PPS, que as criminaliza, mas levando em conta que uma etapa já foi vencida: os erros indicam que o eleitor não se deixou influenciar por elas.
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