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É bom ouvir o presidente Lula fazer uma apologia da liberdade de imprensa, na esteira da prisão de Julian Assange, fundador do WikiLeaks, site que vem expondo os bastidores da diplomacia americana.

Melhor seria se manifestações anteriores do presidente não tirassem a credibilidade do que disse ontem, quando condenou a punição ao mensageiro e não ao autor da mensagem.

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À época da censura ao Estado, não se ouviram senão impropérios de Lula contra a imprensa

O mesmo raciocínio Lula não fez quando saiu a campo para atacar a imprensa em defesa do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), por quem, também ontem, disse ter profunda admiração e deveres de gratidão.

Nada contra as preferências pessoais do presidente. Mas quando a censura se abateu sobre o jornal O Estado de São Paulo, por divulgar fatos apurados pela Polícia Federal em relação ao empresário Fernando Sarney, não se ouviram senão impropérios de Lula contra a imprensa.

O jornal publicou informações do mais absoluto interesse público, envolvendo tráfico de influência do empresário, nepotismo e negociações suspeitas com o governo, sempre escorado no prestígio e poder do pai.

Mas Lula, à época, culpou o mensageiro e não o autor das irregularidades denunciadas pela imprensa. Assim como considerou as denúncias contra a ex-ministra Erenice Guerra armação da imprensa golpista. Da mesma forma como no mensalão.

Não obstante, demitiu Erenice. E o Supremo Tribunal Federal, com maioria de juízes nomeada pelo seu governo, acatou a denúncia do Ministério Público e registrou 40 réus até hoje à espera de julgamento.

No caso atual, o presidente corroborou o pensamento de jornalistas e de juristas, pelo qual o guardião do sigilo – seja ele judicial ou de Estado – não é o jornalista, mas a instituição ou autoridade que o tem sob sua responsabilidade.

O que o WikiLeaks faz é franquear seu espaço para anônimos que têm posse de documentos sigilosos, ou acesso a eles, para que o divulguem anonimamente, sem qualquer esforço jornalístico do site.

Alimenta-se, pois, das indiscrições dos guardiões dessa documentação que, por conveniência política ou pessoal, querem vê-la divulgada desde que não sejam identificados.

Ao defender o site e condenar a prisão do jornalista, Lula vai muito além do que o faria se emitisse a mesma opinião com relação à censura imposta pela família Sarney à imprensa.

O site de Assange ainda carrega uma polêmica por divulgar informações que, teoricamente, podem interferir na segurança do Estado, enquanto no caso Fernando Sarney o sigilo conspira contra os interesses do Estado.

Ainda assim o problema não é de Assange, mas do Estado que não contém o vazamento.

Dessa contradição de Lula se pode concluir que a liberdade de imprensa é boa quando longe de seu quintal, quando serve ao seu estilo irônico sem possibilidade de réplica.

Mas poderia ter lido as críticas à perseguição contra Assange, que julgou inexistentes, se lesse jornais, como repete orgulhosamente que não faz.

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Se confirmados os nomes de Miriam Belchior e Alexandre Tombini para o ministério do Planejamento e Banco Central, respectivamente, alguns movimentos já ganham maior consistência na bolsa especulativa ministerial.

A escolha de Belchior eleva de possível para provável a nomeação do atual ocupante do Planejamento, Paulo Bernardo, para a Casa Civil.

O que põe o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci mais próximo de uma Secretaria-Geral com missão preponderantemente política em linha direta com o Congresso e com setores empresariais.

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Miriam Belchior, cotada para o Ministério do Planejamento

Fica mais nítido também, por esse raciocínio, o papel que pode caber ao atual chefe de gabinete de Lula, o ministro Gilberto Carvalho: a Secretaria de Relações Institucionais, nomenclatura muito mais adequada a uma missão de interlocução com os movimentos sociais, instituições religiosas e outros segmentos da sociedade organizada. Como Lula sugeriu e Dilma acatou.

Pode haver mudanças de nomenclaturas e diferentes cargos nesse contexto, mas não para as missões de cada um desses personagens.

Por fim, a saída de Meirelles do BC pode ser a sua saída do governo,  já que a versão de sua ida para a embaixada em Washington soa estranha.

Pode até ser verdade,  mas o cargo de embaixador em Washington, mantida a política externa adotada por Lula, não tem em Meirelles o melhor representante.

Uma outra possibilidade aventada para Meirelles foi o Ministério da Infraestrutura, algo que o atrai como desafio, mas que sendo cota do PMDB, esbarra na mesma falta de autonomia que lhe tirou do BC – esta, em relação ao governo; aquela, em relação ao partido.

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Acusar o PT de vínculo com o narcotráfico, como o fez o deputado Índio da Costa, candidato a vice de José Serra, é um reducionismo indevido que compromete a verdadeira crítica a ser feita ao governo Lula – de vista grossa com a ligação entre o movimento e o narcotráfico.

À essa postura é atribuída uma ação insuficiente no policiamento de fronteira, onde em nome de uma causa política a Farc operam de braços dados com o crime organizado.

É a identificação ideológica do PT com as Farc em sua origem que leva o assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, a classificá-la de “movimento insurgente”, quando ela já é considerada um movimento terrorista pela Colômbia, Estados Unidos e União Européia.

Qualquer fator que reduza as dificuldades para o trânsito da droga no País tem efeitos nefastos sobre a Segurança, a Educação e a Saúde. O candidato do PSDB, José Serra, ao propor o Ministério da Segurança, procura desvinculá-lo do contexto de promessas de campanha e elegê-lo como uma prioridade a fazer diferença em um eventual governo tucano.

A tolerância do PT com o papel das Farc nesse contexto, no raciocínio do candidato, abre espaço para mostrar que a Segurança, como política prioritária não frequentou a agenda de governo do presidente Lula, a  não ser como uma preocupação admitida, mas insuficiente para dar forma a uma estratégia de Estado para enfrentamento do crime organizado.

As Farc integraram até 2002 uma entidade política, o Foro de São Paulo, criada, em 1990, por Lula e Fidel Castro – e inicialmente presidida pelo brasileiro. Depois de 2002, ano do seqüestro da então senadora e candidata à presidência da Colômbia, Ingrid Betancourt, desvincularam-se do Foro, mas continuaram a frequentá-lo informalmente. O objetivo declarado do Foro é debater estratégias para tornar o continente sul-americano socialista, o que é perfeitamente legal.

Essa estratégia, uma vez Lula no poder, está em curso através de uma política externa claramente hostil aos Estados Unidos e ostensivamente tolerante com regimes ditatoriais, como os de Cuba e Venezuela. O alinhamento da Colômbia aos EUA para combate ao tráfico, é fator de tensão com governos vizinhos como os de Chávez e Rafael Correa, do Equador. Não por acaso, o foco maior das tensões é a ação das Farc.

Foro de São Paulo

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Lula, Fidel e Chávez, união no Foro de São Paulo. Fotos: André Dusek/AE – 20.07.2010/Reuters/Divulgação

O Foro reúne-se periodicamente com os partidos-membros e simpatizantes para avaliar estratégias e táticas que favoreçam o ideal que o gerou. Lula, que disse mais de uma vez que nunca foi de esquerda – e outras tantas que é -, divide com Fidel Castro as honras de personagem mais ilustre do Foro.

Hugo Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia), Daniel Ortega (Nicarágua) e Rafael Correa (Equador) são outras figuras ilustres a integrá-lo. Nele, debatem-se as conjunturas dos governos do continente: impasses, soluções, ações e reações, de acordo com uma visão estratégica que se afine ao objetivo que o inspira.

As Farc, apesar de seu perfil criminoso, sempre foram recebidas como grupo político legítimo no âmbito do Foro, participando intensamente dos debates. O PT diz que as relações das Farc com o Foro foram rompidas depois que abandonaram, a partir de 2002, as negociações para um acordo de paz na Colômbia e enveredaram pelo caminho dos seqüestros e do narcotráfico.

O governo Lula diz jamais ter tido qualquer tipo de contato com as Farc, mas recusa-se a classificá-las como terroristas. Consideram-nas um grupo insurgente. Nada mais.

Mulher de líder refugiado no Brasil trabalha no Planalto

No entanto, há quatro anos, a pedido da ministra Dilma Rousseff, foi requisitada para cargo de confiança na Secretaria Especial da Aquicultura e Pesca, com ônus para a Casa Civil, a professora Angela Maria Slongo, funcionária do Estado do Paraná. Vem a ser esposa de Olivério Medina, que na ocasião estava preso no Brasil, acusado pelo governo da Colômbia de ser um dos dirigentes das Farc.

Hoje, solto, Medina goza do status de refugiado político, não obstante pedido de extradição do governo colombiano, que mantém tratado nesse sentido com o governo brasileiro.

Quando do resgate de Ingrid Betancourt, o PT emitiu nota saudando sua libertação, mas, em vez de pedir a punição dos sequestradores, pleiteou, como desdobramento, uma “negociação que permita a inserção dos guerrilheiros e de seus simpatizantes na vida pública”. Ou seja, em vez da aplicação da lei, o governo colombiano deveria “negociar” a anistia e a inserção dos criminosos no ambiente político.

Farc no Brasil

Em reportagem publicada no dia 06.06 2010, o Estado de S.Paulo traz depoimento de um ex-guerrilheiro das Farc, que trabalhou 15 anos em território brasileiro. Ele diz que o País “é o melhor mercado para a cocaína na região”. E afirma que, em troca da droga, grupos insurgentes colombianos “recebem armas e insumos”. Essa conexão é que o PSDB quer expor.

Ela envolve organizações criminosas como Comando Vermelho e PCC. A fonte do jornal é uma das responsáveis pela venda de cocaína e troca do produto por armas no Brasil. Tinha dezenas de subordinados e morou alguns anos em Manaus a serviço da guerrilha, ocasião em que conheceu o traficante Fernandinho Beira-Mar.

Junto à Polícia Federal, que prendeu um desses traficantes na ocasião, o repórter Rodrigo Rangel apurou que “a base das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), desarticulada em Manaus no mês de maio, é apenas uma pequena ponta da extensa rede que a guerrilha tem mantido no Brasil para vender drogas e abastecer-se de todo o tipo de insumos e produtos – incluindo armamentos, trocados por cocaína com traficantes de São Paulo e Rio.”

Ele conta que teve acesso a um relatório sigiloso produzido pela inteligência da Polícia Federal (PF), afirmando que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) violam a fronteira Colômbia-Brasil e usam o território brasileiro para seus negócios. José Samuel Sanchez, o “Tatareto”, apontado como integrante da comissão de logística e finanças da Frente 1 das Farc, foi preso sob a acusação de operar uma base de rádio e de controlar rotas do tráfico de drogas e suprimentos da guerrilha no Brasil. O governo da Colômbia já pediu a extradição do narcotraficante.”

Na mesma reportagem, uma fonte da PF admitiu que uma ação mais vigorosa na fronteira esbarra na insegurança do órgão por causa da posição tolerante do governo com o movimento, em razão da política em relação aos países vizinhos.

Farc vivem de sequestro, roubo de gado e narcotráfico

A prática das Farcs é essencialmente criminosa. Suas fontes de renda, segundo a Unidade de Informações e Análises Financeiras (UIAF), do Ministério do Interior da Colômbia, são basicamente três.

A primeira é a extorsão mediante sequestro. Essa atividade criminosa rende-lhe anualmente US$ 37,32 milhões. A segunda fonte é o furto de gado, estimado em US$ 22,19 milhões anuais.

As drogas ilícitas (cocaína, heroína) representam a terceira fonte de arrecadação. Rendem US$ 11,59 milhões e têm duas subvertentes: taxa revolucionária e participação na comercialização. A taxa revolucionária é paga pela produção de folhas de coca (matéria-prima para a elaboração do cloridrato de cocaína) em áreas controladas pela guerrilha.

A comercialização direta do cloridrato de cocaína, cuja clientela são os cartéis de refino, rende a bagatela de US$ 3,01 milhões. Anualmente, os produtores colombianos ofertam ao mercado mundial de 250 a 500 toneladas de cocaína. Calcula-se que cerca de 80% da cocaína que circula no planeta é de procedência colombiana. As Farc tornaram-se estratégicas nesse processo.

Somadas suas três fontes de receita, o faturamento bruto anual, é de US$ 77,16 milhões. Os gastos com alimentação, uniformes, armas e munições, segundo a mesma UIAF, ficam em US$ 35,63 milhões. Ou seja, sobram-lhes US$ 41,53 milhões. Empreendimento, sem dúvida, dos mais rentáveis.

No Brasil, são notórias as ligações das Farc com organizações criminosas (Comando Vermelho, PCC), às quais treinam e vendem armas e drogas. Um de seus interlocutores era Fernandinho Beira-Mar, que está preso.

Nada disso, porém, constrangeu a presença de gente das Farc no Foro de São Paulo. O desligamento formal não impediu que representantes daquela milícia se fizessem presentes. Na última reunião do Foro, no Uruguai, havia um representante seu.

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O PT abortou ontem uma sessão da Comissão de Relações Exteriores da Câmara na qual seria votada uma moção de solidariedade a Orlando Zapata, o dissidente cubano morto na cadeia e criticado pelo presidente Lula por fazer greve de fome.

Para Lula, não se deve dar importância a tudo que é produzido dentro do PT, porque o partido é uma "feira ideológica". Foto: Clayton de Souza

Para Lula, não se deve dar importância a tudo que é produzido dentro do PT, porque o partido é uma "feira ideológica". Foto: Clayton de Souza

O trabalho sujo coube ao desconhecido deputado do Acre, Nilson Mourão, que conseguiu ser mais realista do que o seu rei (Lula, no caso), e sapecou que Zapata era um preso comum.

Mourão também não deixou ser votado um convite (não era convocação) para que o ministro Paulo Vanucchi explicasse o seu polêmico Plano Nacional de Direitos Humanos.

Mourão está mobilizado para impedir debates inconvenientes ao governo, na contramão da história de um PT que já teve nos debates sua principal arma contra a ditadura.

Eram outros tempos, fora do poder. Hoje, se ocorresse a sessão, o partido teria que explicar como qualifica Zapata de preso comum, se nem Cuba o fez.

E como qualifica Cesare Battisti, foragido da justiça italiana que o acusa de quatro homicídios, como perseguido político. Zapata morreu na cela de uma ditadura. Battisti fugiu de um país onde vigora o regime democrático.

Em recente entrevista ao Estadão, Lula disse que  não se deve dar importância a tudo que é produzido dentro do PT, porque o partido é uma “feira ideológica”.

E que ele, Lula, movido pelo senso de realidade que o exercício do poder impõe, administra esses excessos do partido. Portanto, não há motivo para preocupações com a fábrica de factóides petista, diz o presidente.

Tese furadíssima e preocupante para um futuro próximo que pode ter Dilma Rousseff  na Presidência. A pergunta óbvia é se Dilma, estranha no ninho do PT, terá condições de administrar a fábrica ideológica a que se refere o presidente.

Mas, feito o parêntese, no caso específico do cubano Zapata o excesso é do presidente que diz controlar os excessos. E quem o administra, então? Ninguém, o que o torna um semideus.

O certo é que o movimento em direção a uma ruptura gradual com a tradição diplomática brasileira relativiza perigosamente o conceito de não intromisssão em assuntos internos de outras nações, para submetê-lo a uma seletividade ideológica.

Para não criticar o ditador Fidel Castro, o bordão da não intromissão é levantado e pede-se respeito à soberania cubana. Para Honduras não vale o mesmo e o Brasil vira agente externo ativo em favor de um dos lados do conflito.

Os 80% de popularidade de Lula tornaram o PT e a base aliada uma frente domesticada e a oposição um aglomerado de almas constrangidas pelo patrulhamento ideológico e temerosas de perder votos se exercer seu papel.

Forma-se assim uma falsa unanimidade (que como se sabe é burra), resultante da ação dos militantes que apóiam o governo e da omissão dos que não se comprometem com o saudável exercício da crítica.

É esse constrangimento que explica a uniformização do discurso político, sempre de esquerda, não importa qual o partido, nem  o personagem e nem seu comportamento.

E explica que o maior símbolo do capitalismo, o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, concorra ao governo por um partido socialista, assim como o PT, que se jacta de ser a verdadeira esquerda, condene o aborto e apóie ditaduras notórias, chegando mesmo a esse alinhamento com o Irã.

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06.janeiro.2010 18:35:54

O troco da Aeronáutica

É indiscutível que as razões políticas e estratégicas é que devem orientar decisões importantes como a da compra dos caças pelo governo brasileiro para reequipar a Aeronáutica.

Lula com Sarkozy no dia do anúncio da opção pela França. Foto: Dida Sampaio/AE

Lula com Sarkozy no dia do anúncio da opção pela França. Foto: Dida Sampaio/AE

É, de resto, como funciona em todo o mundo.

Portanto, nada mais  natural que o presidente Lula reivindique sua exclusividade no caso, principalmente sabendo que uma escolha diferente da preferida pelos militares não significará necessariamente dano ao processo.

Pode-se sacrificar o técnicamente ideal em favor do bom que, ao mesmo tempo, contemple interesses estratégicos de governo. Essa é a síntese que se extrai das manifestações do Ministro da Defesa e do presidente da República.

O problema maior é o quadro de subversão hierárquica contida no vazamento antecipado do relatório da Aeronáutica, que tem origem na antecipação, por Lula, da decisão brasileira em favor dos aviões franceses.

O vazamento do relatório é uma clara reação militar pela quebra do sigilo em que as análises se processavam até a incontinência verbal de Lula que, pelas circunstâncias, representou um compromisso público com a França.

O presidente despiu as negociações do mais elementar ritual que sua importância estratégica impõe. Provocou em seus subordinados igual reação.

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06.janeiro.2010 17:59:38

Zelaya, só um sem-teto

No próximo dia 27, termina o mandato que Zelaya estaria exercendo não tivesse sido deposto sob a acusação de descumprir  a Constituição hondurenha. Assume Porfírio Lobo, eleito recentemente.

Zelaya, de presidente refugiado a sem-teto isolado. Foto: Wilson Pedrosa/AE

Zelaya, de presidente refugiado a sem-teto isolado. Foto: Wilson Pedrosa/AE

Zelaya permanecerá na embaixada brasileira,  já na condição de ex-presidente. Será uma voz autista a exigir a renúncia de Micheletti, que não estará mais no cargo.

Resta a hipótese de transferir a exigência de renúncia ao novo presidente, com base na tese da ilegitimidade das eleições.  Será ainda mais quixotesco, para não dizer surrealista.

O subsecretário adjunto dos EUA para o Hemisfério Ocidental, Craig Kelly, está em Tegucigalpa pela quinta vez, mas isso a cada dia parece ter menos importância efetiva no processo.

E o Brasil… bem, o Brasil espera que Zelaya se disponha a sair da embaixada. Mas se não o fizer, não haverá ação de despejo. Fica lá como sem-teto.

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Está na letra “F”, do artigo 3, do Tratado de Extradição entre Brasil e Itália, a única brecha que restaria ao presidente Lula para usar a autonomia limitada que lhe reconheceu o STF, em favor do terrorista Cesare Battisti. Mas Lula não tem como usá-la sem causar um mal estar ainda maior com o governo italiano, porque precisaria assumir pessoalmente a tese de que Battisti foi condenado em seu país por crime de opinião e que sofrerá perseguição política se para lá voltar.

Voto de Eros Grau mereceu nova interpretação do próprio e restringiu bastante a margem de manobra de Lula. Foto: André Dusek/AE

Voto de Eros Grau mereceu nova interpretação do próprio e restringiu bastante a margem de manobra de Lula. Foto: André Dusek/AE

Diz esse artigo do Tratado que , decidida a extradição, ela só poderá ser evitada” se a parte requerida (Brasil) tiver razões ponderadas para supor que a parte reclamada (Battisti) vá ser submetida a atos de perseguição e discriminação, por motivo de raça, religião, sexo, nacionalidade, língua ou opinião política, condição pessoal ou social”.

Será difícil para Lula bancar isso. Battisti foi condenado por quatro homicídios em plena vigência do regime democrático, num julgamento ratificado posteriormente pela França, pela Corte Européia de Direitos Humanos e, agora, pelo STF brasileiro, todas negando-lhe a condição de ativista político e, portanto, identificando-o como responsável por atos de terrorismo.

Tudo bem, Tarso Genro, o ministro da Justiça de Lula, contestou essas decisões judiciais todas, e a opinião de sua própria estrutura técnica, para considerar Battisti um perseguido. Mas, além de, agradar ao seu público interno, Tarso só conseguiu criar um problema para o presidente da República, porque  a cada dia fica mais difícil vestir esse figurino em Battisti.

Os advogados de Battisti foram pegos de surpresa pela ação de Nabor Bulhões, que representa a Itália. Nem souberam de sua questão de ordem e não conseguiram acompanhar a velocidade com que tudo transcorreu no tribunal. O voto de Eros Grau mereceu nova interpretação do próprio e restringiu bastante a margem de manobra de Lula. Se insistir em manter Battisti no Brasil, Lula estará assumindo o papel de crítico do Judiciário italiano que, até aqui, era de Tarso Genro.

Ou seja, a cada cena dessa novela, o governo italiano vai ampliando, pela via jurídica, o constrangimento que acompanha o governo brasileiro desde que a “esquerda” decidiu blindar Battisti.

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O Supremo Tribunal Federal produziu há poucos minutos uma reviravolta no caso do italiano Cesare Battisti. Um reexame da proclamação do resultado da sessão que optou pela extradição do terrorista, retirou do presidente Lula a autonomia para que possa descumprir a decisão do tribunal.

Pela proclamação anterior,  caberia ao presidente da República a palavra final sobre o assunto. Mas o governo italiano entrou com uma questão de ordem, contestando a intepretação dada ao voto do ministro Eros Grau. E Eros, presente à sessão, confirmou a intepretação dos italianos.

Começa a  ter repercussão internacional a hesitação e a profunda divisão do Supremo. Foto: Marcos de Paula/AE

Começa a ter repercussão internacional a hesitação e profunda divisão do STF. Foto: Marcos de Paula/AE

Eros confirmou que seu voto reconhecia ao presidente da República a autonomia para dar a palavra final, mas desde que submetido ao Tratado de Extradição entre Brasil e Itália. O que equivale a dizer que Lula poderia, no máximo, adiar a entrega de Battisti por este responder a delitos cometidos aqui no Brasil. Mas como não há processo aberto no Brasil, contra Battisti, sua volta à Itália pode estar bem mais próxima.

A sessão encerrada há poucos minutos, foi, para variar, tensa e aguerrida. O ministro Marco Aurélio de Mello protestou contra a mudança na proclamação que já tinha sido feita.

Na verdade, Nabor Bulhões explora o precedente aberto pelos ministros quando rediscutiram um acórdão já publicado no Diário da Justiça, sobre a sessão que extinguiu a Lei de Imprensa. Foi onde se escudou uma maioria de seis ministros para manter a censura ao jornal O Estado de S.Paulo, alegando erro processual, mas, ao mesmo tempo, opinando sobre o mérito. Esses seis juízes justificaram a revisão do acórdão com o argumento de que o relator, Ayres Britto, não transcrevera fielmente os votos do plenário.

O acórdão resultante da sessão que optou pela extradição de Battisti, também padeceria do mesmo mal, quando sustenta a concessão ao Presidente da República de autonomia para homologar, ou não, a decisão do Judiciário. De fato, houve momentos de tensão naquela sessão em razão de interpretações que os ministros faziam dos votos de seus pares.

O caso mais explícito foi exatamente o de Eros Grau, que teve que interromper a fala do presidente do STF para dizer: “Eu acho que a melhor pessoa para dizer como eu votei, sou eu mesmo”.  Naquele instante estava em discussão exatamente a concessão da autonomia ao presidente da República para seguir o STF ou decidir pela permanência do condenado italiano.

Começa a ter repercussão internacional a hesitação e profunda divisão do STF.

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03.dezembro.2009 22:49:22

O “mico” Zelaya

O processo eleitoral em Honduras está consolidado à revelia de Zelaya e do Brasil e com apoio da comunidade internacional. A posição brasileira no episódio rendeu ao país, além de um inquilino incômodo, um mico para a nossa diplomacia. O novo presidente, Porfírio Lobo, está lá, eleito com o reconhecimento de todas as instituições de seu país, que jamais estiveram paralisadas ou sob intervenção durante “o golpe” da direita hondurenha.

Fotos: Wilson Pedrosa/AE

Manuel Zelaya tentou um último movimento que acabou tendo efeito bumerangue entre os hondurenhos. Fotos: Wilson Pedrosa/AE

É provável que os defensores dessa posição brasileira argumentem com o alto índice de abstenção (deve ficar em torno dos 50%), que seria uma prova incontestável da insatisfação popular com a condução dada ao processo. Mas, esse índice é histórico e o próprio Zelaya foi eleito com 25% dos votos, num universo de 50% dos votantes. Em Honduras não há sanção para quem não votar, o que torna o sistema facultativo na prática.

Zelaya tentou um último movimento que acabou tendo efeito bumerangue: exortou os 15 mil candidatos às eleições gerais a boicotarem o pleito, mas apenas 0,5% seguiram suas orientações. As eleições para a Assembléia Nacional (unicameral), 128 prefeituras e para presidente e vice-presidente, transcorreram sem maiores problemas.

Michelleti, acusado de golpista, deixa o cargo no prazo constitucional, com eleições livres. Todas as instituições hondurenhas, incluindo a Corte Superior de Justiça (o STF de lá), consideram que Zelaya deu causa constitucional à sua deposição.

“Esperamos que em algum momento ele próprio queira sair, mas não forçaremos nada”, diz Celso Amorim

"Esperamos que em algum momento ele próprio queira sair, mas não forçaremos nada", diz o chanceler Celso Amorim

O Brasil mantém uma postura hostil a um país que nunca esteve na sua zona de influência, com o qual tem relações comerciais insignificantes, e se coloca na contramão dos mais importantes atores envolvidos no contexto, que já anteciparam o seu reconhecimento ao processo eleitoral e à legitimidade do novo presidente.

Com relação a Zelaya, faz parte agora  da história, de final bizarro. O Brasil não sabe o que fazer em relação a ele, como reconhece o próprio chanceler Celso Amorim. “Esperamos que em algum momento ele próprio queira sair, mas não forçaremos nada”.

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