O gabinete do senador Alfredo Nascimento (PR-AM), exonerado do ministério dos Transportes na “faxina” da presidente Dilma Rousseff, distribuiu nota oficial desmentindo informação do dia 27/3, deste blog, de que o ex-governador da Bahia, César Borges, que ocupa uma das vice-presidências do Banco do Brasil, seria o novo ministro dos Transportes.
O post , que pode ser encontrado mais abaixo, informava que Nascimento transmitira a seus pares, no café do Senado, que a presidente, com quem estivera dias antes, decidira-se por Borges, a despeito da insatisfação da bancada da Câmara que defendia um deputado para o cargo.
Pois o ex-governador baiano foi confirmado como novo ministro dos Transportes ontem, pondo fim a uma novela cuja longevidade se devia à resistência da presidente em tirar do cargo o técnico Paulo Sérgio Passos.
A nota de Nascimento é exemplar pelo que nega e pelo que não nega: nela, diz nunca ter tratado com Dilma do assunto e que não indicou nomes.
Cuidadosamente não nega a informação do post, de que partilhara com colegas a decisão de Dilma antes do anúncio oficial, pelo risco de ser desmentido.
A posse de Borges será na próxima terça-feira. Espera-se que Nascimento não se diga surpreendido com ela.
Segue a nota do senador, desmentida pelos fatos.
Brasília, 28 de março de 2013.
NOTA DE ESCLARECIMENTO
Em resposta a nota publicada, nesta quinta-feira, 28, pelo colunista João Bosco Rabello, do Jornal O Estado de São Paulo, o senador Alfredo Nascimento afirma que não tratou de cargos, tampouco fez indicações de nomes à Presidenta da República, Dilma Rousseff.
O senador jamais faria tal manifestação por entender que a equipe de governo é uma decisão única e exclusiva da presidenta Dilma.
Alfredo Nascimento, presidente do partido, ressalta ainda que qualquer nome pertencente ao quadro do Partido da República, indicado pela presidenta Dilma terá seu o aval.
Assessoria de imprensa Gabinete do Senador Alfredo Nascimento (PR/AM)
Tags: Alfredo Nascimento, César Borges, Dilma Rousseff, Ministério dos Transportes
O recurso à ênfase serve para sublinhar aquilo que se considera o principal objetivo de uma fala, programa ou discurso. A ressalva faz a exceção a uma parte do todo enunciado, afim de preservá-lo do conjunto da regra. Para que ambos sejam interpretados com o peso que se quer dar a cada um, é preciso hierarquizá-los , ou seja, a ênfase vem primeiro por ser o objetivo central do orador.
Esse é um conceito básico da política e do jornalismo, extensivo à publicidade, ao marketing e a muitas outras atividades que têm na comunicação eficiente com o público-alvo de sua mensagem, o desafio permanente a superar. Não é diferente com a economia, ciência que não combina com a emoção.
A reflexão vem a propósito da irritação da presidente Dilma Rousseff com o que chamou de “manipulação” de sua fala sobre a economia brasileira, à saída de um evento oficial na África do Sul ontem. Debitou ao mercado o efeito negativo dos sinais trocados de seu discurso, em que a inflação foi a ressalva, quando deveria ser a ênfase.
Esta somente apareceu na entrevista convocada às pressas, e, ainda assim, depois da ressalva de que não errara no pronunciamento, mas que fora vítima da má-fé do público-alvo de sua mensagem – de resto, ansioso por uma palavra sobre o controle da inflação. Mas que ouviu uma veemente defesa de sua política de crescimento.
Possivelmente traída pelo inconsciente, a presidente priorizou a resposta aos críticos de sua administração econômica – políticos, jornalistas, economistas e acadêmicos -, que percebem a influência do processo eleitoral antecipado na determinação de seu governo de enfrentar com o rigor desejável – e prudente – a ameaça inflacionária.
Chegou a dizer, ainda na primeira vez, que a inflação é combate diuturno do governo, mas era uma ressalva empalidecida pela primeira parte do discurso. O mercado – que é mesmo manipulador por essência -, leu o que acredita: combate à inflação para valer, só depois de garantida a reeleição, critério que terá produzido então uma conta negativa, a exemplo do que seu antecessor fez para elegê-la.
Foi a presidente que construiu a hierarquia de sua fala: primeiro, a defesa de sua gestão econômica, exercida em favor do crescimento, mas que produziu o “pibinho”. Depois – e, portanto, secundário -, o compromisso de combate à inflação, administrada à base de paliativos. Mais tarde – e para o mercado, bem tarde -, a correção com uma frase que soou mais filosófica do que real: o combate à inflação “é um valor em si”.
O componente emocional esteve presente todo o tempo nas falas da presidente ontem, o que acabou traindo sua preocupação com as críticas dos adversários de sua política econômica. Valorizou o que lhe era mais caro: mostrar que está certa. Aí, seu ponto vulnerável.
Pilatos ao lavar as mãos (sem qualquer comparação histórica), entregando à turba a decisão sobre Jesus, traiu seu ponto fraco, a incapacidade de decidir. A referência bíblica, como valor psicanalítico, não é uma homenagem ao pastor Marco Feliciano, mas torna-se válida na medida em que a presidente foi quem admitiu “fazer o diabo” em campanha eleitoral.
A campanha está em curso e, invocado, o personagem das trevas fez lembrar que mora nos detalhes.
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O encontro de governadores com os presidentes da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), hoje à tarde, para discutir o pacto federativo, não contou com os governadores do Rio e do Espírito Santo, Estados produtores de petróleo, Sérgio Cabral e Renato Casagrande, respectivamente.
A ausência foi combinada entre os dois, em protesto pela derrubada do veto presidencial que impedia a mudança nas regras de distribuição dos royalties sobre campos já licitados. Cabral nem enviou o vice-governador, Luiz Fernando Pezão, que pretende eleger seu sucessor. Casagrande faltou estando em Brasília.
Quem ficou à vontade foi o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), que vestiu o figurino de candidato ao liderar a tentativa de acordo entre Estados produtores e não-produtores de petróleo. A preocupação dos governadores é que a derrubada do veto presidencial pelo Congresso não se transforme numa vitória de Pirro, pois ela não gera efeitos antes da batalha judicial encampada por Rio, Espírito Santo e São Paulo, que poderá retardar, por anos, a chegada desses recursos aos cofres estaduais.
A proposta do Campos candidato é a de que a União antecipe a receita esperada pelos Estados não-produtores, estimada em R$ 5 bilhões. Pura provocação para indispor governadores e o Planalto. A proposta do Campos governador, é a de que cada uma das três partes – União, produtores e não-produtores – abra mão de um terço dos recursos esperados. Caberia à União transferir os recursos aos não-produtores em operação financeira. Mas o Planalto recusou as propostas.
Já o governador do Ceará, Cid Gomes, opositor da candidatura de Campos dentro do PSB, discursou como aliado incondicional de Dilma Rousseff. Ele, que recentemente teve os cofres do Ceará engordados com recursos federais, fez questão de homenagear Dilma.
“Minha solidariedade ao governo da presidente Dilma que, entendo, tem feito o melhor para o Brasil”.
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Avaliação suprapartidária corrente nos meios políticos traduz o lançamento da candidatura da presidente Dilma Rousseff à reeleição como um movimento tático restrito à conveniência do ex-presidente Lula de antecipar o debate eleitoral, porém sem excluí-lo como alternativa em 2014, caso as circunstâncias políticas determinem.
A leitura reforça a percepção comum de que Lula mantém as rédeas da estratégia política do governo, atuando como um presidente paralelo, ou adjunto como provocou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Para não desperdiçar a oportunidade de analogia com Roma, uma espécie de presidente emérito, como sugerem os vaticanólogos aspirar o ex-papa Bento XVI.
São de Lula todos os movimentos estratégicos do governo, inclusive o que se refere aos momentos em que a presidente da República dissimula seu notório fastio para o exercício da política, submetendo-se ao script do seu criador para se dedicar à preservação das alianças destinadas a fidelizar sua ampla e heterogênea base de sustentação.
A cara de paisagem da presidente diante da decisão pública de Lula de trocar o vice-presidente Michel Temer pelo governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), com o intuito de evitá-lo como concorrente em 2014, é um sinal ostensivo da submissão do Planalto ao comando político do ex-presidente.
Da mesma forma, a negação pela presidente Dilma do reconhecimento dos êxitos do governo Fernando Henrique, feito no início de seu governo, atende a uma cobrança do PT que jamais engoliu o elogio ao adversário. O momento eleitoral foi a oportunidade para Lula impor a “correção” e deixar o dito pelo não dito.
Seria natural a movimentação do ex-presidente em favor do que chama de projeto de governo popular que propaga desde sua posse, se desenvolvida dentro dos limites que configurassem a liderança da atividade partidária. Mas o ex-presidente jamais se manteve dentro dessa fronteira, fazendo de seu Instituto Lula, uma base de operações que o mantém na cena como a eminência parda , da qual emana o poder real.
Foi para prestigiar o Fórum pelo Progresso Social, promovido pelo Instituto Lula, que a presidente Dilma adaptou programação oficial em Paris, em dezembro passado, ocasião em que os ministros que a acompanhavam foram chamados para uma reunião com o ex-presidente.
Não foi a única: muitas outras ocorreram ostensivamente, dentro e fora do Instituto, uma delas com o então ministro da Educação, Fernando Haddad, que Lula fez ministro, depois prefeito de São Paulo, condição em que Haddad assistiu passivamente o padrinho político comandar a primeira reunião de seu secretariado.
São muitos os exemplos, importando observar que não há a mais remota preocupação em sequer criar pretextos que pudessem justificar partidariamente os encontros. São reuniões administrativas com objetivo claro de estabelecer diretrizes de gestão.
Seria o caso de lembrar a máxima do Conde de La Rochefoucauld, segundo a qual a “hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”, na medida em que o hipócrita a reconhece ao tentar maquiar suas ações ilegítimas, dando-lhes aparência outra. Lula não está preocupado com liturgias públicas, induzindo a plateia à interpretação de que opera ostensivamente para sinalizar quem manda de fato.
Com esse comportamento, espanta que julgue ilegítimo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se manifestar como presidente de honra do PSDB. “Eu acho que ele deveria ficar quieto”, disse, sem se dar ao trabalho de debater o mérito das questões levantadas pelo adversário.
É o mesmo viés autoritário que promove episódios lamentáveis como o das agressões à blogueira cubana Yoani Sanchez, parcialmente impedida de cumprir sua agenda no Brasil por manifestantes vinculados ao PT, cujo propósito único era o de inviabilizar sua programação. É a ação para calar a boca, DNA da doutrina do pensamento único, que predomina no mundo petista.
Pode se entender por aí, porque Lula concluiu da leitura do livro de Doris Kearns Goodwin, sobre a presidência de Abraham Lincoln à época da guerra civil norte-americana, que tem a mesma estatura do ex-presidente dos Estados Unidos, promotor da luta contra a escravidão.
“Fiquei impressionado como a imprensa batia no Lincoln em 1860, igualzinho bate em mim, porque é uma gente que não gosta de progressista”, disse, comparando-se ao estadista americano para, em seguida, propor a criação de uma mídia própria, para fazer circular sua versão de mundo.
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No xadrez político, o mais recente movimento do governo é taticamente correto. Esgotadas as tentativas de manter a aliança com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), na disputa presidencial de 2014, antecipou a campanha eleitoral, reforçou a parceria com o PMDB e, agora, providencia um “racha” no PSB insuflando a indefectível vocação dos irmãos Gomes (Ciro e Cid) para a intriga política.
A ideia é clara e repete a operação de 2010, quando Lula lançou Dilma Rousseff com um ano de antecedência para ocupar o vácuo deixado pelo PSDB, envolvido numa disputa interna entre José Serra e Aécio Neves, que agora parece não ter força para prosperar.
Com isso, o governo espera dar a largada na corrida sucessória apoiado por uma base ampla, da qual se excluiria apenas três legendas com densidade política entre as quase 30 que compõem o espectro partidário nacional. Cria a expectativa de poder essencial para consolidar alianças políticas e obriga os adversários e indecisos a tomarem posição.
Como em política não existe vácuo, a reação da concorrência foi imediata. O movimento do Planalto precipitou o lançamento, ainda que informal, de Aécio, ungido pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o candidato do PSDB – e sem prévias. Empurra o governador Eduardo Campos também para uma posição mais formal de candidato.
Nesse estágio do processo, portanto, os concorrentes do governo foram levados a uma posição política reativa, que lhes tira a iniciativa das ações num momento em que se beneficiavam da inconveniência da precipitação da campanha para o próprio governo, o que lhes daria amplo espaço para o exercício da crítica de viés eleitoral.
O lance tático do Planalto, porém, não afasta a principal condicionante ao êxito da presidente: a preservação de um bom cenário da economia em 2013, até aqui o pilar de seu alto índice de aprovação. A ampla base de apoio em torno de Dilma, como qualquer outra na história política, consolida-se ou se dissolve a depender dos resultados do governo que a patrocina.
A consistência crítica de Ciro Gomes também não deve ser avaliada além do limite de seu alcance, hoje apenas o de produzir uma crise passageira nas hostes do PSB, sob controle do governador pernambucano.
A Ciro falta a credibilidade da crítica coerente, que seu perfil verborrágico retira a cada lance que protagoniza, desde sua saída do governo Fernando Henrique até a campanha de Dilma em 2010, quando disse dela o mesmo que agora diz de Campos: que lhe faltava estrada. E mais: que Serra era candidato mais preparado, embora adversário.
Prestou-se aos interesses de Lula ao mudar seu título eleitoral para São Paulo, crédulo da possibilidade de candidatar-se ao governo estadual com apoio do ex-presidente. Entrou em período sabático mais recentemente, quando se ocupou como comentarista esportivo de uma emissora cearense.
Seu irmão, Cid Gomes, é igualmente polêmico na gestão do governo do Ceará. Indiferente às críticas pelo uso familiar de avião fretado pelo governo em viagem internacional, anuncia agora a compra de um jato de autonomia continental, inteiramente dispensável para o exercício do cargo.
Há dias, ainda sob a polêmica de um show para inauguração de um hospital em Sobral, seu berço eleitoral, ao preço de R$ 650 mil, reagiu afirmando que fará outros. Quase como um castigo divino, o hospital desabou parcialmente.
Se faltava a Dilma a estrada que hoje também falta a Campos, ela parece cada vez mais distante dos irmãos cearenses, cujas mostras de provincianismo autorizam a previsão de que se manterão no plano da política paroquial, de lógica própria e, frequentemente, ditada por interesses distantes da vida nacional.
O governo também estará mais vigiado nos seus movimentos, uma vez assumida a candidatura de Dilma à reeleição. Embora a fiscalização da Justiça Eleitoral esteja muito aquém do rigor desejável para candidatos no exercício do cargo, o risco da propaganda dos atos oficiais, daqui em diante, ultrapassar os limites ético e legal, é grande e permanente.
Se, de um lado, está dando as cartas do jogo, de outro o governo ajuda a consolidar a candidatura do PSDB e, possivelmente, a formalizar a do PSB. Este precisará exibir fôlego e determinação: aquele, a unidade partidária jamais exibida. E programa para o País, que acusam faltar ao governo atual.
A situação mais difícil é a de Eduardo Campos. Não por algum “racha” no partido, mas porque precisará demonstrar determinação suficiente para que sua aspiração não se baseie apenas no eventual fracasso de Dilma. Não parece sustentável uma candidatura que se paute simplesmente pelo apoio ao governo que pretende suceder, sem oferecer alternativas que a tornem atraente pela fundamentação pública.
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Não era “rídiculo” o risco de racionamento de energia, como classificou a presidente Dilma Rousseff, no café da manhã de fim de ano com jornalistas no Planalto. A possibilidade é mais concreta do que fez crer a presidente ao tentar desqualificar a pergunta, na resposta em que acrescentou a sugestão de que “gargalhassem” aqueles que ouvissem falar em raios como causas de pane no sistema.
Antes, os raios, suspira o PT. Afinal, o racionamento é evitado pelo uso complementar das usinas térmicas, em caráter emergencial, mas que o governo já admite agora voltar a ser permanente, caso as chuvas não caiam em volume suficiente para elevar em níveis seguros os reservatórios. Temendo o “apagão petista”, o partido torce pela chuva enquanto o governo lança mão da energia suja para reduzir os riscos.
O receio de ver aplicados à sua gestão diagnósticos que imprimiu com êxito eleitoral à era Fernando Henrique - leva o atual governo à adoção do método de comunicação do seu partido, de negação sistemática de problemas ostensivos, sempre desqualificando os críticos ou jornalistas que ousam perguntar aquilo que é de interesse público.
Ocorre assim na infraestrutura, em que a privatização é inevitável; no setor elétrico, em que são notórios os problemas; e, agora, com a frustração das principais metas econômicas. Abre-se, no primeiro caso, negociações envergonhadas e insuficientes com parceiros privados, adotando-se eufemismos para tal; nega-se qualquer problema, no segundo caso; e, maquia-se operações para salvar números não alcançados, no terceiro caso.
A constatação revela a predominância da estratégia de comunicação partidária sobre a do governo, misturando objetivos e conveniências dissociados do interesse público e, mesmo, daquilo que poderia ser mais eficaz para o próprio Planalto. O PT quer preservar velhas e abatidas lideranças e manter a fantasia do marketing que o fez, tempos atrás, o único partido ficha limpa do País. É passado.
Já governos lidam com a realidade. Uma coisa é o discurso ideológico surrado, em que divergências são rotuladas de conservadorismo, a serviço de uma eficiência eleitoral. Outra é a capacidade de administrar essa pressão de conteúdo anacrônico e encontrar seu modus operandi para governar “apesar disso”. Essa é a premissa para os avanços pretendidos pela presidente Dilma em 2013.
Trocar o discurso defensivo por uma campanha de educação de consumo de energia, por exemplo, liga o governo de forma mais positiva com o consumidor do que negar a falta de luz no escuro. Uso equilibrado da energia é bem vindo mesmo com redução da tarifa, até para que a medida (discutível pelo seu caráter intervencionista), não provoque euforia consumista. Poderia ter feito tudo isso com a ressalva da mera precaução e criado um vínculo maior com o contribuinte.
Admitir o lucro como fator natural e intrínseco ao sistema capitalista é indispensável para os avanços no campo da infraestrutura, como indicam as falências de gestões públicas, contaminadas pelo aparelhamento sindicalista, em portos, aeroportos e, de resto, nas estruturas diretamente ligadas ao dia a dia do cidadão, como as de segurança, transportes e saúde.
Da mesma forma teria sido mais honesto e eficiente justificar a insuficiência das metas econômicas frustradas, do que maquiá-las ao custo do agravamento da perda de confiança dos investidores – esses seres de que o Brasil mais precisa agora, Dilma especialmente.
Certamente há estratégia de comunicação mais inteligente do que a negação do óbvio e a recorrente mania de atribuir a culpa aos jornalistas. Até porque, esta parece esgotada. O governo teve juízo ao perceber cedo a conveniência de se desvincular do julgamento do mensalão, separando os interesses do partido e os seus, mas erra ao considerar salutar agir assim apenas em situações extremas como no processo que condenou dirigentes do PT à prisão.
O PT prossegue negando o mensalão, com a desfaçatez do personagem adúltero que nega sua condição mesmo nu ao lado da amante. É método assentado na convicção de que eleitoralmente importa a versão, máxima que não serve a governos carentes de resultados.
Como o ser humano guarda em si mesmo os maiores obstáculos à sua transformação, também é no governo que estão os maiores problemas da presidente Dilma. A começar pela dificuldade de escolher a estratégia de se comunicar com a sociedade – – com a qual a mídia é o canal -, se do governo ou do partido.
Se ficar refém da segunda, continuará a desqualificar perguntas e jornalistas com a aversão a entrevistas que exibiu na última, em que chegou ao ponto de recusar respostas para impor a pauta que lhe convinha.
Até porque, como se vê agora, não havia perguntas ridículas, mas temas incômodos.
Mudança de ministros não resulta necessariamente em gestão mais eficiente, embora no caso de alguns a inércia seja menos nociva que a ação. Por isso, talvez seja um erro especular sobre a reforma ministerial esperada após as eleições das Mesas Diretoras da Câmara e Senado, exclusivamente por esse viés.
Melhorar a gestão do governo, ou dar-lhe alguma, é providência indispensável para a presidente Dilma Rousseff, acuada pelos efeitos da crise internacional e o esgotamento do modelo de consumo como fator de crescimento. É preciso uma “virada”, como se diz no meio político.
Mas outro aspecto determinante de mudanças ministeriais é a necessidade de reacomodar as forças aliadas após as eleições municipais que produziram novas dívidas políticas.
Os dois fatores não são excludentes, mas é bem provável que o segundo prevaleça sobre o primeiro, apesar do baixo desempenho do governo, do qual a política econômica de varejo e o passivo acumulado na infraestrutura são exemplos mais notórios.
Feito o preâmbulo, como todo o período que antecede esse tipo de reforma, é legítimo especular. Ou melhor, dar voz às especulações que excitam partidos, políticos e potenciais candidatos ao primeiro escalão governamental. E jornalistas, claro.
Nesse contexto, fontes do governo indicam que a reforma será “enxuta” e não alcançará pastas mais estratégicas como Fazenda, Desenvolvimento, Justiça, Relações Exteriores, entre outras. Para os parlamentares, por desejo ou sabujice política, ela deverá ser mais ampla um pouco.
A dívida eleitoral começaria a ser paga com a nomeação de Gabriel Chalita (PMDB) para a Ciência e Tecnologia, ocupado atualmente pelo técnico Marco Antônio Raupp, cuja posse ocorrida após a ida de Aloísio Mercadante para a Educação, foi saudada pelo mundo acadêmico como um raro gesto de prestígio de governos à ciência.
Mas o governo tem que saldar o débito com o peemedebista pelo apoio decisivo ao candidato vitorioso do PT à prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad. Como o fez antecipadamente com Marta Suplicy contemplada com o Ministério da Cultura por um apoio que não passou de burocrático.
A opção Chalita, aliás, gera atritos na bancada do partido na Câmara, apesar do aval à sua nomeação pela cúpula do partido. A bancada mineira, Leonardo Quintão à frente, espera algum gesto do Palácio pela sua retirada da disputa eleitoral de Belo Horizonte em favor do candidato derrotado do PT, Patrus Ananias.
Há reserva feita também em nome do PSD pelo ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Esse caso provavelmente será resolvido com o novo ministério da Micro e Pequena Empresa, cujo projeto que o cria já foi aprovado na Câmara e aguarda votação no Senado a um simples sinal de Dilma.
Um dos nomes cotados para a pasta é o do presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, Paulo Simão, que comanda o PSD de Minas, aproximado de Dilma pelo programa Minha Casa, Minha Vida, que ajudou a elaborar. Outro cotado é o vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos.
Se o PMDB do Senado ganhar um ministério, o nome de consenso da bancada seria o do senador Eduardo Braga (PMDB-AM), que desde sua chegada a Brasília, pleiteia o ministério dos Transportes, mas foi preterido pelo PR, alvo da faxina na pasta após os escândalos envolvendo o Dnit.
À época, chegou a lhe ser oferecido o ministério da Previdência Social, cadeira do PMDB, que acabou com o senador Garibaldi Alves (RN), pela recusa de Braga.
Reforça a ideia de mudança na Pasta a avaliação negativa do desempenho do técnico de carreira, Paulo Sérgio Passos, que substituiu o senador Alfredo Nascimento (PR-AM), defenestrado pelas denúncias de corrupção que atingiram a pasta.
Nos bastidores, os relatos são de que Paulo Sérgio Passos tem necessitado do socorro da ministra do Planejamento, Miriam Belchior, para o mínimo de realizações que tem registrado.
Outras especulações dão conta da saída de Gastão Vieira (PMDB-MA, apadrinhado do senador José Sarney, do Ministério do Turismo, que poderia ficar com o PR, agendado para reunião com a presidente Dilma no final deste mês..
Muito se fala ainda na conquista pelo governo da senadora Kátia Abreu (PSDD-TO) para o ministério da Agricultura. Aqui o desejo maior é da presidente, pois a senadora tem sua força política na presidência da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), de onde exerce forte e capilar liderança sobre os produtores rurais, além do mandato político – dois trunfos que a mantêm em confortável situação política. Nesse caso, a especulação de hoje seria mais sólida se pensada para um eventual segundo mandato de Dilma.
Por fim, mesmo o enfático desmentido da presidente Dilma, em recente café da manhã com jornalistas, sobre a saída do ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi suficiente para sustar a especulação.
Como o diabo mora nos detalhes, não se deve desprezar que o desmentido da presidente foi quanto a uma iniciativa do governo em dispensar os serviços do ministro. Com a sutil ressalva de que ele sai, “se quiser”.
Como se trata de um governo em que até os agentes flagrados em falcatruas são demitidos “a pedido”, qualquer um que não interessar mais pode ser convidado a pedir para sair.
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É cedo para estabelecer uma relação de causa e efeito entre o revés imposto pelo julgamento do mensalão ao “projeto nacional” do PT e a mudança de postura percebida nos discursos dos prefeitos eleitos nas principais capitais do país, aparentemente dispostos a adotar gestões inspiradas nos manuais da iniciativa privada.
O espírito de gestão que “baixou” nos prefeitos está associado principalmente à realidade econômica que insiste em contrariar as diretrizes intervencionistas do partido, a impor soluções que vão muito além do assistencialismo e do consumo como alavanca para o crescimento.
Mas não se deve descartar um efeito – indireto que seja – do que representou a decisão histórica do Supremo Tribunal Federal (STF) como freio drástico a desvios de conduta com origem na mistura de politicagem e administração do bem público. Uma dose de didatismo certamente penetrou os poros do corpo político, ainda que em proporção insuficiente para que se espere mudanças drásticas.
De qualquer forma, as posses foram marcadas pelos anúncios de cortes de gastos, promessas de controle rígido do uso de recursos públicos, austeridade e gestão profissionalizada. Apertar o cinto foi a palavra de ordem dos eleitos – no que repetem seus antecessores, a maioria incapaz de cumprir o discurso.
O que parece novidade é a adesão da maioria ao conceito de gestões mais técnicas, com fixação de metas de desempenho, avaliação de resultados, implantação de comitês de gestão integrada, parcerias com o empresariado renegociação de dívidas – um modelo destinado a viabilizar mais investimentos.
Enfatizaram a adoção dessas práticas o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), de São Paulo, Fernando Haddad (PT), de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), do Rio Grande do Sul, José Fortunatti (PDT), de Salvador, ACM Neto (DEM) e o do Recife, Geraldo Julio (PSB), num arco partidário de ideologias distintas.
No segundo mandato, Eduardo Paes parece já ter assimilado parte do conceito profissional, ao vocalizar uma autocrítica e uma promessa: “Governos acumulam gorduras e o meu deve ter acumulado também”; “Vou governar com inquietude, com olha crítico sobre minha administração”.
Levado a sério, isso se traduz por premiação ou demissão de funcionários estratégicos, em caso de êxito ou fracasso no cumprimento de suas metas, como deve ser por parte de qualquer governo efetivamente empenhado em prestar contas à população. Adotado na prática é um antídoto poderoso contra aparelhamentos partidários e afins.
No Rio Grande do Sul, Fortunatti promete o mesmo, acrescentando que vai começar pela gestão privada dos hospitais. ACM Neto anunciou corte de gastos, assim como Geraldo Julio, incluindo redução de quadros comissionados, indiscutível fator de inchaço das máquinas públicas, a começar pela federal.
Mais sintomático, por ser do PT, Fernando Haddad, de São Paulo, vai na mesma linha, com aval do presidente do partido, Rui Falcão, cuja adesão ao modelo precisa ainda ser testada na sua sinceridade. Afinal, ainda prega a inexistência do mensalão como delito penal.
A busca da eficiência não tem outro caminho, cuja interdição se dá pelo compadrio, aparelhamento partidário e todas as outras formas conhecidas de uma cultura política fisiológica, crônica no Brasil, à qual o PT aderiu ao se unir às velhas oligarquias.
A sinalização dos prefeitos para a necessidade de profissionalizar a gestão pública, com a abrangência que o termo implica, é o desafio da presidente Dilma Rousseff nos dois anos de mandato que lhe restam, dos quais apenas um, o que agora se inicia, será completo, desvinculado da campanha presidencial de 2014.
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Não obstante a postura evasiva adotada mais recentemente, a chave para eventual candidatura do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB) continua sendo o desempenho do governo Dilma no primeiro semestre de 2013. A senha dada por Campos desde o início falava em 90 dias, mas é provável que precise mais para uma avaliação sem riscos.
A rendição do PT ao modelo econômico deixado por Fernando Henrique Cardoso, essencial para a eleição e reeleição de Lula, não foi total e, na fase Dilma, esteve mais vulnerável a experimentações e pressões partidárias, do que é exemplo mais cabal a crítica às privatizações como mote de sua campanha vitoriosa.
Esgotado o modelo de consumo adotado para enfrentar a crise econômica mundial de 2009, a presidente precisa desesperadamente de investimentos para viabilizar a retomada do crescimento, cuja receita impõe uma relação fluida com o capital privado, hoje o principal obstáculo a desafiar a ideologia estatizante do governo petista.
O governo passou a conviver com a realidade dos apagões, desconfiança do empresariado, ao qual acena com margens de lucros rejeitadas, má gestão (que desmistifica a presidente–gerente) e perda de capital político do partido majoritário na aliança.
Não é pouco e, se superar seus próprios demônios nesse campo, a presidente Dilma terá de conquistar um grau mais impositivo junto ao seu partido para melhorar o desempenho do seu governo e preservar os patamares de aprovação que hoje ainda a mantêm como favorita em 2014.
Seu capital está preservado, pois apesar do baixo crescimento, o nível de emprego é bom. Mas se a economia não decolar, o que vai bem tende a piorar com a estagnação. Seu principal problema é político, pois os resultados ruins são produção própria e pouco vinculados à crise externa.
E é a capacidade da presidente de superar os desafios políticos que aparecem aos candidatos visíveis, Aécio Neves e Eduardo Campos, como incógnita em 2013. O que explica a cautela e o ritmo que imprimem aos seus projetos.
No caso do governador de Pernambuco, o pragmatismo que o caracteriza indica um compasso de espera, em que mantenha acesa a chama da candidatura, sem queimar as pontes com o governo cuja base integra.
Campos sabe que o acenado apoio do PT à sua candidatura em 2018 tem porcentual zero de chance. O que pode adiar seus planos até lá é somente o êxito de Dilma em 2013, com a consequente preservação de suas invejáveis condições de reeleição registradas hoje.
Não torce contra, apenas aguarda os acontecimentos para definir seu rumo. Aécio faz o mesmo com a diferença de que será candidato em qualquer circunstância, mas o cenário econômico instável recomenda avaliação diária do melhor momento para estabelecer o tom de sua campanha E montar suas propostas em cima dos erros da adversária.
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Se comparadas as informações da Polícia Federal sobre a ex-chefe de Gabinete da Presidência da República, Rosemary Noronha, e seus cúmplices na máquina pública, com as declarações dos porta-vozes do governo e do PT, conclui-se que o país desconhecia um novo tipo de “aloprado” – aquele com DAS, cargo estratégico e intimidade com o Poder.
O Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e o presidente do PT, Rui Falcão, concordam na tese de que as ações de Rosemary, do ex-diretor da Agência Nacional de Águas, Paulo Vieira, e do segundo homem da Advocacia Geral da União (AGU), José Weber Holanda, são isoladas e não comprometem nem governo e nem partido.
Falcão chegou a classificá-los de “militantes” sem importância e sem respaldo do PT. Cardozo sustentou em depoimentos no Congresso que não havia motivos para indiciar a ex-chefe de Gabinete de Lula e Dilma por formação de quadrilha, ainda que àquela altura a operação já tivesse produzido 23 indiciamentos e 40 mandados de busca e apreensão.
Por mais boa vontade, não há como atribuir à fala do ministro simples precipitação. A dimensão do cargo e a experiência política de seu ocupante conspiram contra o benefício da dúvida e apontam mais para uma postura partidária de blindagem de Lula, Dilma e governo. De Falcão não se esperaria nada diferente do que disse. Foi até moderado, parecia mesmo enfastiado com coisa tão menos importante que o mensalão.
Rosemary foi indiciada por formação de quadrilha menos de 24 horas após o depoimento do ministro, quase ao mesmo tempo em que seu cúmplice, José Weber de Holanda afirmava ao jornal O Globo, que há mais procuradores do Estado envolvidos na rede criminosa de venda de pareceres. Primeira declaração típica de quem não se mostra disposto a pagar o pato sozinho.
Afora a confissão que a declaração de Falcão encerra de que o governo adota o critério da militância para preenchimento de cargos estratégicos, a tentativa de desqualificar os três principais indiciados como “mequetrefes”, acrescenta ao episódio o pouco caso com que partido e governo tratam a esfera pública.
Os “aloprados” de ontem – violadores de sigilos, autores de dossiês falsos, operadores de caixa-dois e outros “malfeitos” -, eram ilustres desconhecidos, personagens do submundo do crime, das quais o partido lança mão historicamente para o chamado trabalho sujo.
Mas, agora, não. Mequetrefes ou militantes de vôo próprio, batem as asas no céu do poder, embalados pelo prestígio da funcionária fisicamente mais próxima da presidente e de seu antecessor, ainda que no escritório de representação em São Paulo.
Considerado o contexto, é legítima a conclusão de que o PT traduz aloprado por todo aquele militante cujo mal não está em fazer a coisa errada, mas fazê-la de forma errada. Ou seja, o que vacila e é apanhado com a boca na botija.
Tanto faz se opera no submundo ou em cargos estratégicos de governo. Com relação a esses últimos, porém, a velha saída de abandoná-los à própria sorte, exige mais que frases de efeito: é preciso blindá-los para sustentar o discurso da negação – o de sempre.
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