Passada a agonia do ex-ministro Orlando Silva, as preocupações do governo se voltam agora para a situação do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT).
Não apenas por conta da mágoa que Silva levou junto com a demissão, potencial fator de vingança contra aquele que considera a origem de seu infortúnio, mas especialmente porque Agnelo tem todas as condições favoráveis para não terminar o mandato atual.
Entre lideranças políticas expressivas já se ouve com freqüência o lamento tardio por terem deixado passar a oportunidade da intervenção no DF na seqüência da queda e prisão de José Roberto Arruda.
Bem que o Procurador-Geral, Roberto Gurgel, tentou. Mas o Supremo Tribunal Federal, na esteira de uma sucessão de equívocos, negou o pedido do Ministério Público.
Evitou-se assim a ruptura necessária com um esquema mafioso implantado e cuidadosamente regado por Joaquim Roriz no espaço de uma década, herdado por Arruda.
Era – e é – uma herança maldita, mas da qual o ex-secretário de Obras de Roriz, uma vez na cadeira do criador, quis usufruir sem a sombra do padrinho político.
O rompimento com Roriz, sem o qual não se elegeria, mas não com seu espólio, custou a Arruda o cargo, os bens bloqueados e a biografia política. Que já não era virtuosa.
Veio o que se já conhece fartamente: a cinemateca do delegado Durval Barbosa, fiel escudeiro de Roriz.
Agnelo também não promoveu a ruptura com o esquema anterior: ao contrário, elegeu-se com sua licença e com as mesmas alianças dos antecessores.
E já tem seu Durval, o mesmo soldado PM, João Dias Ferreira, que infernizou o ex-ministro Orlando Silva. Entre outros.
O governo Agnelo, um neo-petista oriundo do PC do B, é um triunvirato onde, diz-se, quem menos manda é o próprio. Teoricamente divide o comando com seu vice, Tadeu Filipelli (PMDB), outra produção made in Roriz, e com o petista Paulo Tadeu, Secretário de Governo, cuja desenvoltura para nomear e beneficiar parentes é o que tem de mais visível em sua gestão.
Um dos efeitos desse processo é que Brasília continua refém da corporação policial, depositária de informações com potencial para ameaçar o mandato do governador.
Este, por sua vez, já é investigado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) por conta ainda de sua passagem no ministério dos Esportes, onde tinha por secretário-executivo exatamente Orlando Silva, que deu curso ao processo de apropriação do orçamento pelo PC do B.
Ainda ontem, em mesas de políticos distribuídas pela noite de Brasília, o assunto deixara de ser a queda de Silva e passara a ser o futuro de Agnelo.
Em seu governo continuam prósperos os negócios de parlamentares da base com o governo, em contratos sem licitação, denúncias de propinas nas áreas de transportes e de tecnologia, principalmente (mas não só) e convênios que reproduzem o modelo ministerial.
Há uma ampla rede de espionagem montada por adversários, a maioria do ninho rorizista, equipada e operada por policiais, que alardeiam em blogs locais farta munição contra o governador.
O PSB, preventivamente já desembarcou do governo, seguido pelo PDT do senador Cristóvam Buarque.
O secretário da Fazenda, Valdir Simão, pediu abrigo ao governo federal que prontamente resgatou-o e o fez secretário-executivo do ministério do Turismo na gestão de Gastão Vieira, que sucede a Pedro Novaes.
Consta que Simão pediu uma espécie de asilo político para se livrar da pressão da turma de Agnelo por “flexibilizações” na Fazenda. Concluiu que a Pasta transformara-se em risco certo para a sua carreira funcional.
Personagens como o empresário Luís Estevão, condenado pelo desvio de verbas da construção do fórum trabalhista da Barra Funda, em São Paulo, junto com o ex-juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lalau, ainda mantêm influência no contexto político-administrativo da Capital, apesar de viver ameaçado pela decretação de sua prisão, esperada desde sempre.
Há ainda um conluio entre empresários locais da construção civil e a Câmara Distrital pela alteração da destinação de áreas da Capital com as quais obtêm uma supervalorização da noite para o dia, além de ampliar o número de projeções disponíveis para seus projetos.
Um esquema que ainda produz outro efeito colateral que é o de excluir da concorrência as empresas “forasteiras” que só conseguem acesso ao mercado sob a permissão dos “donos”, dos quais recebem as sobras para que não traduzam em denúncias os mecanismos mafiosos que os excluem.
O governador Agnelo Queiroz não reage a qualquer dessas denúncias, não se comunica com a sociedade para prestar contas das péssimas condições da Saúde, Educação e Segurança e jamais as atribuiu a uma “herança maldita”, como poderia tê-lo feito.
Vale lembrar que essas áreas concentravam a corrupção no governo Arruda quando de sua destituição e nada foi feito para reverter a deterioração provocada por anos de corrupção – desde o desvio de remédios em larga escala, à proliferação dos transportes clandestinos passando pelo envolvimento da corporação policial nos negócios escusos de governo.
Agnelo também parece um governador com prazo de validade. Para alguns, já vencido.
Tags: Agnelo Queiroz, Cristóvam Buarque, Durval Barbosa, Gastão Vieira, João Dias Ferreira, Joaquim Roriz, Luis Estevão, Nicolau dos Santos Neto, Orlando Silva, Paulo Tadeu, PDT, PSB, Roberto Gurgel, STF, STJ, TadeuFilipelli, Valdir Simão
Há ainda uma condenação no Rio de Janeiro obrigando ele a devolver dinheiro. Nem o Arruda nem o Roriz chegou a esse ponto, ou seja, por muito menos…
Muito bom o texto, é a Brasília nua e crua! Triste, cruél mas esta é a realidade de uma cidade roubada, corrupta e esquecida.
E vai pelo ai a fora… Até quando… não se sabe… OU SABE? Sabemos! Sabemos mas não temos pessoas capacitadas (honestas) que queira “peitar”. Quando surge um… a mafia o engole. Aí… Quem vai salvar o BRASIL?
O Distrito Federal não deve ter autonomia política, devendo voltar a ter um governador nomeado pelo presidente da república, pois Brasília precisa ser protegida como a capital do país. Por ser sede do pôder público federal, possui especificidades que justificam um governador nomeado, pois isso faria com que o governo federal voltasse a ter responsabilidade pelo futuro da capital. Daqui não sairá nenhuma solução política que possa livrar a cidade das quadrilhas que se apropriaram de seu orçamento e das corporações de servidores públicos locais que prestam péssimos serviços e fazem a população refém permanente de suas demandas, com greves abusivas, paralisações relâmpagos. Em alguns escândalos as quadrilhas e algumas corporações estão juntas e misturadas. Para quem acha que isso igual em todos os estados, respondo que a diferença é que aqui não é um estado e sim a capital do país, o que justifica que quem dede cuidar dela é o governo do país.Só o governo federal poderá devolver Brasília à maioria honesta de sua população.
A caridade não exclui a justiça no complexo dos sentimentos no trato com uma pessoa, para quem tem consciência para tanto. Duvido que um político imbuído da caridade cristã, mas pleno de consciência histórica, ficaria torcendo pela recuperação de Hitler se esse por acaso caísse enfermo de doença de morte. Não estou falando que Lula é igual ao louco alemão, mas nas manifestações de força e de apoio tudo tem que ser considerado; inclusive é dado para qualquer um se calar no momento.
É claro que uma pessoa sem capacidade de crítica histórica ou moral, teria a obrigação cristã de torcer de todo o coração para sua recuperação física, pois ele estaria no papel do próximo, sem a qual ela seria passiva de julgamento conforme qualquer ética religiosa.
Devemos lembrar que o perdão só pode ser dado para quem reconhece seus erros. Duvido que o Elias Maluco, o doido que ajudou a queimar a Tim Lopes, receberia algum apoio espiritual (dos céus do crente, por exemplo) em caso de doença mortal, sem que no particular pedisse de toda alma, perdão.
O caso do José de Alencar tem muito a ver com comoção estranha. Em um país evoluído, qualquer um teria se afastado dos negócios do estado, mas o mineiro ficou 11 anos nas manchetes, gastando dezenas de milhões de dólares de dinheiro público no seu tratamento. Ele chutou os sentimentos de caridade que por ventura o povo lhe deu, com seu ridículo enfrentamento da morte, essa que apenas é nossa sócia.
Nunca desejei mal para o ex-presidente; apenas a possiblidade de morte é um fato objetivo que altera o espectro politico em qualquer lugar no mundo (Fernando Henrique dizia que o candidato ao seu lugar em 2002 seria o Mário Covas). Mas sei que ele é atraso na política por absoluta incapacidade moral e intelectual de ser corretamente o que a si mesmo propõe. Alguém escreveu que ele mente para si. Não penso que seja desse jeito; ele deve acreditar nas suas abóboras de todo coração. Ele é incapaz de ter consciência histórica, política e moral do papel de um líder político na evolução nacional. Seu grande mérito foi destruir a esquerda brasileira como fator político importante, arrebentando sua aura dourada construída em décadas por nossos meios acadêmicos na área de Ciências Humanas, com embasamento teórico, que a fazia um real risco para nossa pátria, conforme sabemos pela experiência de sua aplicação institucional mundo afora.
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