Há poucas horas um casal foi atropelado no eixão norte, em Brasília. Cena cotidiana. A diferença é que não foi uma pessoa, mas duas – e ao mesmo tempo.
A cena nos remete a velha e , até aqui, infrutífera discussão sobre qual o limite entre a estética – marca obsessiva do genial arquiteto Oscar Niemeyer -, e a vida humana.
O comentário está vinculado à intocabilidade do projeto original de Brasília, que estabeleceu uma espécie de ditadura arquitetônica – ou uma ditadura da estética.
Em nome dela, impede-se soluções que adequem o crescimento da cidade – que deveria, o quanto possível, ter sua dose de espontaneidade -, às necessidades básicas de uma sociedade.
Faltam calçadas, esquinas, cultura e prioridade à vida humana. Sobram discussões acadêmicas, governos corruptos e indiferença judicial.
Alguns tentam até agora sustentar que o governo do deposto José Roberto Arruda era bom. E , por isso, deveríamos tolerar seus pecados para que concluísse seu projeto.
O problema é que o projeto Arruda não diferia em nada do projeto Roriz. É feito de obras e tem a alma das empreiteiras.
Era apenas mais organizado o que, de início, deu a impressão de diferenciado.
Nada mais ilusório. Arruda fez apenas obras, assim como Roriz. Seu roubo demorou a aparecer, porque também nele, era mais metódico. Mas era roubo sistêmico.
Caiu pela maior competência do seu antecessor e criador que, afrontado no índice de corrupção, o pôs na cadeia.
Certa vez, levado a comentar a crítica permanente de que suas obras são de uma estética universalmente reconhecidas, mas de pouca funcionalidade, Niemeyer respondeu:
- Meu compromisso é com a estética.
Aos 50 anos, e centenas de mortes de trânsito depois, é de se perguntar se o conceito de Niemeyer deve ser estendido além dos monumentos que nos valem prêmios universais de arquitetura.
O eixão que corta Brasília, de norte a sul, até ao aeroporto, não pode ter passarelas, sinais, defesas físicas para quem o atravessa. Morre-se nele contemplando a obra que salvou vidas.
Mas não dá para sair de casa para o trabalho, contemplar um casal atropelado e morto, numa pista sem qualquer defesa para o pedestre, e dar bom dia à estética.
Tags: Brasília, Estética, Niemeyer, Vida Humana
Algumas observações: o dedo de Niemeyer está apenas nos edifícios de Brasília. O projeto urbanístico é obra de Lúcio Costa. E os dois eixos (Norte e Sul) têm sim passagens subterrâneas para pedestres. A população não as usa porque: a) é ignorante e preguiçosa; b) como não são usadas, estão sempre imundas, sem iluminação e sem segurança.
Itzme,
Não obstante o projeto urbanístico ser do Lúcio Costa, qualquer acréscimo à paisagem de Brasília precisa do aval de Niemeyer. E, embora os eixos sul e norte tenham passagens subterrâneas, elas não são usadas. É difícil concordar que uma das causas seja a ignorância e a preguiça: alguns quilômetros separam uma das outras. A outra causa você aponta corretamente: o descaso do Poder Público que não policia essas passagens. Tanto em um caso quanto em outro, o pedestre é a vítima. Até acho que se as passagens fossem limpas e policiadas, seriam mais usadas, apesar da distância entre elas. Eu não permitiria que uma filha minha usasse uma dessas passagens por uma questão de segurança. Como poderia admitir que os que não as usam pelo mesmo motivo, estão errados? O que tento provocar com o post é a rediscussão desse aspecto da vida de Brasília que tem produzido vítimas às centenas. Não proponho uma solução específica, mas que se busque uma solução.
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Papo de leitores
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- Já pensou usar em casa, na rua e no trabalho?
- Sem qualquer defesa para o usuário?
- E tudo em nome da estética?
- Ainda bem que o Niemeyer não inovou nos vasos sanitários, né?
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A maior porcaria que Niemayer perpetrou.
Do ponto de vista funcional, salvam-se poucos projetos do arquiteto, como o Pavilhao da Bienal no Ibirapuera, em São Paulo.
Agora, alguém já viu o Teatro Estadual de Araras, por exemplo? E o Copan? Bonito, mas ordinário!
Só para explicar: o Teatro Estadual de Araras não tem janelas, pode?
Se Brasília fosse boa o Niemeyer morava aqui, só para começar.
Ter que pedir aval dele pra qualquer coisa é ridículo, afinal ele não é dono da cidade. Concordo com Itzme, a população é preguiçosa sim. As distâncias não são tão grandes assim, as pessoas é que estão acostumadas aqui a apenas andarem de carro e acham tudo longe, por isto têm preguiça de tirar a bunda do banco do carro. Isto é resultado do projeto do Lúcio Costa. Eu ando muito a pé e é difícil, porque não há continuidade direito de calçadas e tudo mais.
Dá para perceber que você João Bosco, fala do que não conhece e não entende muito a questão de Brasília. Em toda extensão do Eixão tem passarelas subterrâneas e os pedestres se recusam a utilizar. Seguindo o seu reaciocíno se fosse proibida e produção, venda e circulação de veículos ninguém mais seria atropelado. O pedrestre também deve seguir algumas regras. Pena que não foi aprovado um projeto de lei que definia como suicídio os atropelamentos no Eixão.
O que daria resultados para mudanças no projeto pelo arquiteto seria pressão política e popular, agora adotar elementos das cidades ditas tradicionais também não resolvem o problema. Esquina pra que ? Bons resultados proveriam de concursos arquitetonicos com sugestões contemporâneas, interagindo e discutindo com a população de Brasília.
Brasília é uma Cidade muito diferente e vira e mexe alguém quer mudar para que ela fique comum. Quem é de lá e vive lá que tem opinar e não ficar colocando a Cidade em debate com idéia de jirico ou abordagens inadequadas.
responder este comentário denunciar abusoSiou a favor de uma cerca metálica dividindo o Eixão, eletrificada, e com alta voltagem. Pedestres e veículos que encostassem na cerca virariam churrasquinho. Talvez fosse um mecanismo para impor respeito às leis de trânsito.
Niemeyer falando em um documentário sobre o início em
Brasilia: “levei um amigo médico que não entendia nada de
medicina mas era divertido, levei 4 amigos sem profissão
que era o momento de poder ajudá-los e levei 15 arquitetos”
ou seja 25% ….
Caro Jornalista João Bosco,
Para início de converso comungo da mesma opinião refletida por este artigo. Na minha opinião até poderiam ser mais duras, as observações. Mineiro de coração, sinceramente acho que meu conterrâneo, o ex-presidente Juscelino Kubitschek, ao qual parabenizo pela atitude de transferir para o planalto central, a capital do Brasil. Entretanto, reconheço que cometeu dois grandes erros. O primeiro deles, o de aceitar Lúcio Costa como projetista de Brasília. Nesse aspecto por desenvolver um projeto urbanístico nem um pouco usual. Brasília não foi pensada para abrigar pessoas, mas para servir de “modelo”, e que modelo. A cidade evidencia as distâncias entre as classes até mesmo pelo seu projeto arquitetônico. Como muito bem colocou Bosco, cadê as simples e usuais calçadas? Tudo aqui (Brasília) parece seguir um sistema engessado de administrar e corrupto. Há alguns meses, o Eixão ficou repleto de novos ônibus. Bonito isso. Mas, cadê essa frota? Nunca vi nesse país, um sistema de transporte tão arcaico e burro. Isto mesmo, burro. As palavras são essas. Mas, Brasília é isso, com administradores que eternizam suas inviabilidades. Mas, voltemos ao segundo erro de JK. Juscelino errou ao se comulnar com Oscar Niemeyer. Novamente, este respeitado arquiteto desenhou, desenhou e brincou com as formas em Brasília. Mas, ora será que arquiteto tem a função de pensar na usuabilidade de suas criações? Parece que não. Bem, mas, vou abreviar e fazer minhas as palavras de João Bosco, quando o assunto é Niemeyer. Tenho mais a dizer dessa cidade Brasília. Mas, vamos deixar para uma próxima ocasião.
Errata:
Onde se lê: comulnar; leia-se: macomunar.
Meu amigo,
O problema está na não utilização das passarelas subterrâneas. Acho que devemos sempre repensar a cidade, e Niemayer também acha, e adaptá-la aos novos tempos. Mas para conter os problemas no Eixão não precisamos do projeto burro do coronel Fraga (do Arruda), mas de revitalizar as passalelas subterrâneas, higienizá-las e dar segurança. Além delas, as passagens do metro, somente na Asa Sul, também permitem a passagem de pedestres. Ou seja, nada tem relação com a estética do Niemayer, mas com condições de uso da cidade. Resumindo, não é o caso de colocar um muro burro no meio do Eixão, educar, estimular e propiciar perfeitas condições na utilização das passarelas. Simples assim. Pode parecer complicado, mas lembram-se que ninguém utilizava cinto de segurança nos carros, e ninguém parava nas passagens de pedestres? Hoje é diferente.
ab,
marcelo feijó
Marcelo,
A sua ponderação é lúcida e reconheço que meu post pode ter sugerido uma indignação com Niemeyer. Longe disso. Me incomoda o fato de a cidade não perceber que nasceu antes da população, ao contrário do que ocorre em todo o País e no mundo. Esse aspecto impõe um monitoramento permanente para adaptações que mesmo um gênio não poderia prever, porque decorrem do crescimento populacional. Concordo que a não utilização das passarelas é o problema… principal. Mas não o único. Uma administração não pode se pautar apenas pela racionalidade, porque mesmo as vítimas de sua propria desobediência, são vítimas. Não proponho também muretas de proteção, coisas do gênero. Mas é freqüente – e bem freqüente – carros particulares, de polícia e ambulâncias trafegarem a velocidade acima da permitida na via, dentro da faixa amarela, onde pedestres (inclusive crianças), ficam à espera de uma oportunidade para atravessar. Não tenho uma fórmula para sugerir, mas é difícil passar indiferente por uma cena cada dia mais comum. Obrigado pelo comentário.
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