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O editor-chefe do Diário da Região, de São José do Rio Preto, Fabrício Cacareto, e o repórter Allan de Abreu, foram indiciados pelo promotor Álvaro Stipp, por publicarem trechos de grampos da Polícia Federal que apura caso de corrupção na cidade paulista.

O caso ganhou pouca repercussão na mídia, embora seja mais um vinculado  diretamente à censura no Brasil, onde o Poder Judiciário se recusa a decidir o mérito da questão.

Trata-se de um procurador que, a exemplo do desembargador Dácio Vieira, do Tribunal de Justiça de Brasília, que proibiu o Estadão de publicar matérias da investigação da PF sobre o empresário Fernando Sarney, põe suas convicções – ou interesses pessoais (pessoalíssimos em alguns casos) – acima da Constituição.

Esta determina que o segredo de justiça, sob cujo pretexto ambos escoram suas ações de censura, está limitado pelo interesse público. Excessivo dizer que investigações sobre corrupção no Estado são do mais absoluto interesse da sociedade.

São duas, portanto, as arbitrariedades desses e de outros casos similares. A primeira, em estabelecer segredo de justiça para processos do gênero; a segunda, atribuir ao jornalista a responsabilidade pela preservação do segredo de justiça, dever exclusivo dos agentes públicos.

O dever do jornalista é justamente revelar tais segredos, cuja banalização denuncia a cumplicidade do Judiciário com o desvio de comportamento de autoridades e políticos. Se o interesse público está acima da privacidade do homem público, o jornalista não é – e nem poderia ser- o guardião do segredo de justiça.

E nem o Judiciário, que o faz por escolha monocrática de juízes que deram elasticidade ao conceito nas últimas décadas, a ponto de desmoralizá-lo. Que benefício pode trazer à sociedade um processo que tramita sigilosamente pelo tempo dos mandatos de deputados e senadores, em boa parte renovados em eleições sucessivas?

O chamado espírito da lei é revogado quando o conceito de privacidade é estendido a agentes públicos. Originalmente o segredo de justiça procura preservar interesses familiares e comerciais e não a proteção de comportamentos de homens e instituições cujos orçamentos e remunerações vêm do bolso do contribuinte.

Além disso, a discussão acontece com base numa premissa de censura prévia. Toda censura é necessariamente prévia, o que torna a expressão redundante, se considerarmos que só se pode censurar aquilo de que se tem conhecimento e que não se quer disseminado.

Ou seja, é do conhecimento de alguns que ainda supõem ser possível controlar a informação em benefício de um clube de privilegiados pela impunidade mantida à base da lei do silêncio.

Não são números precisos, mas aproximados, já que até a estatística os tribunais superiores mantêm sob sigilo: no Superior Tribunal Federal (STF) de 153 inquéritos contra políticos, 83 tramitam em segredo de justiça.

Outro tipo de ação comum a deputados e senadores são as ações penais. Em segredo, são 18 de um total de 65 em tramitação no tribunal, segundo avaliação de especialistas.

No Superior Tribunal de Justiça (STJ), que se vangloria de ser pioneiro na informatização do sistema, não se consegue nem saber quantos processos correm em segredo de justiça, quanto mais segmentá-los pela natureza dos casos.  

Então, a cadeia funciona assim: o juiz carimba segredo de justiça na maioria dos processos que envolvem autoridades e políticos, uma parcela inconformada do funcionalismo vaza, o jornalista publica e o promotor manda prender o jornalista. Ou o proíbe de continuar a publicar. Ou ambos.

O funcionalismo inconformado é aquele que antes do advento da informática também passava ao largo das decisões superiores. Hoje é impossível a sobrevivência de sistemas políticos que dependem do controle da informação, o que explica o caso dos atos secretos do Senado, artifício encontrado por políticos da época do coronelismo.

Como o sistema informatizado permite o acesso do funcionalismo a atos de rotina, como nomeações de contratados, o Diretor-Geral do Senado, Agaciel Maia, apadrinhado do senador José Sarney, não os inseria no sistema. Dava-lhes vigência e os engavetava.

Primário assim, a ponto de um senador – Demóstenes Torres (DEM-GO) – decidir ocupar uma vaga em seu gabinete, não preenchida durante anos, e descobrir que já estava ocupada.

Não por ele, mas por um apadrinhado de Agaciel que, sem tremer um músculo, transferiu o afilhado para outro gabinete, através de outro ato secreto, e desocupou a vaga de Torres.

Outro grupo de juízes argumenta  que o jornalista quer imunidade absoluta – e o fazem de caso pensado, para confundir o debate. O que o jornalista, respaldado pela Constituição, não admite é a censura.

Responde pelo que  escreve e publica, assim como todos os cidadãos respondem pelos seus atos. O que pode ser comprovado fartamente pelos processos contra jornais e jornalistas em tramitação no Judiciário.

Entre eles, os que dão entrada com o mesmo texto, advogado e parte, em diversos pontos do país, para onerar o acionado e impor-lhe ônus material e físico, obrigando-o a se defender da mesma acusação em lados opostos do mapa brasileiro. Sob a complacência do Judiciário.

Espera-se que não se chegue ao ponto de uma sentença de U$ 40 milhões, como a  imposta pelo Judiciário do Equador a um jornalista cujo crime foi o de opinar pela responsabilidade do presidente Rafael Corrêa por distúrbios no seu país.

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Sair da base aliada e adotar postura “independente”, como anuncia o PR em retaliação à faxina promovida pelo governo na área dos Transportes, quer dizer… nada.

Não é rompimento, nem é uma virada para a oposição. Se na própria oposição se ouve lamentos entre quatro paredes de como é dura a vida fora do poder, avalie se quem está no poder quer sair.

Muito menos a turma que tem na política um balcão de negócios como é o caso do deputado Valdemar Costa Neto.

Postura independente no Brasil é aquela que um partido adota quando não quer deixar o governo, mas também precisa pressioná-lo para rediscutir a relação.

O problema é que o poder de barganha do PR é ínfimo e se resume àquilo que ele possa denunciar para colocar o resto da base aliada no mesmo barco em que o partido é náufrago.

Numericamente o governo sobra na Câmara e para esse espaço independente conta ainda com o recém-nascido PSD do prefeito paulistano Gilberto Kassab, que enxergou antes do PR o conforto de não ser nem à direita, nem ao centro e nem à esquerda.

E que havia espaço para esse PMDB alternativo que forma hoje uma bancada de, no mínimo, 40 parlamentares, mesmo tamanho do PR. Só no Rio, estima-se que o partido de Kassab terá nove deputados estaduais e oito federais, estimulados à infidelidade pelo próprio PMDB.

“No Rio, o PMDB está com overbooking”, dá a medida um peemedebista.

Em que pesem as denúncias e ações formais do DEM para tentar impedir que o PSD concorra em 2012, a realidade política é mais forte.

Assinaturas falsas são comuns a todos os processos do gênero em que se depende de milhões de adesões formais e se a soma final não depender delas, a correção estará feita.

Um filtro rigoroso resolve o problema e o PSD, hoje sublegenda de quase todos os governadores, apoiado por PMDB, PT e governo, não deverá ter dificuldades para cumprir as formalidades da legislação eleitoral.

O problema maior da presidente Dilma Rousseff não são as ameaças do PR, mas a capacidade de sustentar o padrão de tolerância zero que implantou ao intervir no ministério dos Transportes.

Como a corrupção não é exclusividade da Pasta onde Valdemar Costa Neto fazia a festa, presume-se que a presidente não poderá ter critérios diferentes quando chegar a vez de mexer em outros feudos da sua base de sustentação.

Enquanto a bandeira súbita do combate à corrupção lhe render apoio na classe média poderá impor o método do rito sumário aos flagrados em licenciosidades com o dinheiro público.

O desafio é exatamente o de garantir longevidade a essa aprovação indicada hoje pelas pesquisas. Ela depende da combinação de uma economia estável e uma gestão de resultados em áreas sensíveis como segurança, infraestrutura e saúde.

O cenário externo e um ministério de baixa qualidade, aquém desse desafio, são ameaças na rota presidencial.

No primeiro caso, o governo pode apenas fazer o dever de casa, como tem feito, e torcer para que o imponderável não se apresente. No segundo caso, só com uma reforma ministerial que já se desenha a conta-gotas.

E que não se consumará sem vítimas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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O foco compreensível na crise do ministério dos Transportes encobre, por ora, os problemas em outras áreas do governo de igual importância estratégica para a Copa do Mundo.

Nos ministérios do Turismo e da Justiça não se percebe qualquer sinal de ação mais efetiva, ou mesmo programas objetivos, que autorizem otimismo maior com relação a estrutura e segurança para receber torcedores de todo o mundo em 2014.

Do Turismo sabe-se apenas o que já se sabia quando assumiu a Pasta o octogenário Pedro Novaes: que ele gosta de cobrar conta de motel ao Estado e que tem aversão assumida à tecnologia. Ou seja, que não há nada acontecendo ali.

Do ministério da Justiça, teoricamente o fomentador de uma política de segurança pública em âmbito nacional,sabe-se um pouco mais depois da entrevista do ministro José Eduardo Cardozo ao repórter Raymundo Costa, do Valor, na última segunda-feira.

Porém, é mais do mesmo, ou seja, pouco além do diagnóstico da segurança no País, que começa na histórica crítica à rivalidade entre as polícias civil e militar, à dificuldade de um trabalho integrado nas fronteiras e segue pela falta do mais elementar sistema nacional integrado de cadastros de criminosos e registros de ocorrências.

O que significa que o PT continua eficiente no diagnóstico, característica adquirida em anos de oposição, mas ineficiente na ação executiva, algo que a experiência de oito anos no Poder ainda não corrigiu.

Ao contrário, é surpreendente como no poder apossou-se do discurso de oposição como se do governo não fizesse parte.

Saudada como a chance de o país produzir uma revolução na  infraestrutura e na segurança, a Copa rendeu até aqui um questionado regime diferenciado de licitação. Nada mais.

Atribui-se nos meios políticos ao método centralizador da presidente Dilma Rousseff parte dessa paralisia, o que fica de certa forma confirmado no trecho da entrevista que Cardozo justifica um silêncio constrangedor sobre o programa do marco regulatório para a Internet como imposição da presidente.

Mas, independentemente do estilo centralizador de Dilma, o fato é que ela mesma parece não ter o que apresentar à nação que se pudesse chamar de um programa ou de metas de governo.

O que significa que por falta de autonomia ou por insuficiência (mais provavelmente por ambos), não é produzido no ministério nada que se possa transformar em uma reclamada agenda positiva que resgate o governo do varejo que é obrigado a operar diariamente.

Trocando em miúdos, não se tem a percepção de um governo com um rumo estabelecido, que saiba onde está e aonde quer chegar. Ele é percebido mais como uma gerência do que como um governo, que se ocupa de administrar um espólio que ajudou a produzir.

Não se pode produzir uma agenda positiva da noite para o dia, a menos que esta seja entendida como um factóide de objetivo diversionista. 

O governo hoje é o governo do ministério dos Transportes., que lhe deu uma bandeira importante, porém única: a do combate à corrupção. Ainda que seja louvável, não deveria ser impeditivo de outras ações que estão na expectativa geral.

 

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No processo de intervenção no ministério dos Transportes, uma informação ficou perdida com o governo, que a guardou como trunfo para justificar a determinação presidencial de isolar o deputado Waldemar da Costa Neto (PR-SP).

Somada a bancada do PR na Câmara e  parlamentares de outros partidos, Costa Neto exerce sua liderança sobre cerca de 70 deputados, formando um comando paralelo dentro da base aliada.

Servia-se do ministério dos Transportes como fonte para manter sob controle quase todo esse efetivo político.

Empreiteiras e fornecedores do ministério financiavam campanhas sob a promessa de titularidade de obras futuras que o ministério lhes garantia sob o comando de Waldemar.

Daí os aditivos contratuais e superfaturamentos, que ressarcem fornecedores e geram sobras para manter a fidelidade da tropa com mandato.

Na verdade, o governo identificou um sistema similar ao mensalão, com parlamentares trocando submissão por vantagens.

Evitou dar essa proporção ao escândalo porque ele coincidiu com a confirmação da existência do mensalão do PT no governo Lula pelo Procurador-Geral, Roberto Gurgel. A palavrinha se tornou proibida.

Ou seja, por essa versão, Waldemar Costa Neto continuou mensaleiro, agora com seu esquema próprio, ele que já renunciara ao mandato no governo Lula para escapar à cassação durante a CPI do mensalão.

Os números soaram como alarme no Planalto: da bancada do PR só estariam fora do esquema Waldemar os deputados Sandro Mabel (GO), Diego Andrade (MG) e Jaime Martins (MG).

Com apenas seis senadores, a propriedade da legenda por parte de Waldemar Costa Neto deixa de ser uma tese para virar realidade. Ele, de fato, é dono do partido.

O que deflagrou um movimento silencioso pela fundação de uma nova legenda com origem no Senado. Seu principal entusiasta, o senador Clésio Andrade, que sonha com o Partido do Desenvolvimento Nacional (PDN).

 

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O Planalto estabeleceu uma linha direta com a bancada do PR no Senado para consolidar o isolamento do deputado Waldemar Costa Neto (SP), cuja liderança sobre a bancada da Câmara provém dos negócios gerados a partir do controle que exercia no ministério dos Transportes.

Costa Neto bancou muitas campanhas, inclusive a do ex-ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, na disputa que trava com seu principal adversário estadual, o também senador Eduardo Braga  (PMDB-AM). Por isso o tinha na mão.

Essas ajudas são promissórias emitidas em série: Costa Neto emite para empreiteiras e fornecedores através da garantia de obras demandadas pelos políticos e, estes, emitem as suas na forma de apoio e submissão à orientação partidária de Neto.

Todos saem ganhando porque obras não vão faltar, especialmente de infraestrutura, onde transporte é carro-chefe.

Para se ter uma idéia, a Confederação Nacional de Transportes (CNT) estima em 400 bilhões de reais os investimentos necessários no setor num prazo de cinco anos, caso o governo decidisse zerar o déficit que construiu na infraestrutura.

Portanto, o poder político de Neto tem por fonte o ministério, um dos poucos  com dinheiro e chance para maquiar gastos, produzir superfaturamento e aditivos contratuais.

Em pelo menos 10 Estados, o PR, via Dnit, controla  projetos que solidificam o poder político local e, por esse mecanismo,  viabiliza para um só deputado uma bancada de 43 parlamentares, caso de Neto.

O que o Planalto fez foi mostrar ao partido que a base aliada é bem maior do que o necessário para que o governo tenha êxito na Câmara. Sobra apoio e o PR precisa mostrar fidelidade ao Planalto e não a Waldemar Costa Neto.

Por ora, a bancada da Câmara exibe sinais de descontentamento e manifesta isso com atitudes simbólicas, tais como a de não comparecer a regabofes oferecido pelo governo.

Mas aos poucos a tendência é ir lapidando a conformação para não perder completamente para a bancada do Senado as prerrogativas de aliado.

A expectativa dos senadores do PR é a de indicar os futuros diretores do Dnit e da Valec. O senador Clésio Andrade (MG), presidente da CNT, defende que um mineiro ocupe o Dnit. O senador Magno Malta (ES) quer indicar o nome da Valec.

A confirmação de Paulo Sérgio Passos como ministro parece não incomodar à bancada dos senadores, até porque foram informados previamente da decisão de Dilma, ao contrário dos deputados.

A presidente errou a mão ao estender a Luis Antonio Pagot uma responsabilidade que é de um colegiado, mas deve manter sua demissão, embora procure uma saída honrosa para o diretor afastado e em férias – seja lá o que isso signifique.

 

 

 

 

 

 

 

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Depoimentos como o que o ex-diretor-geral do Dnit, Luis Antonio Pagot, prestará amanhã no Senado, não autorizam previsões porque sempre trazem o risco do imponderável.

Mas as benesses do Dnit, ainda que privilegiem o PR, se estendem de forma suprapartidária por Estados e municípios, garantindo eleições e esquemas de poder locais, ainda imunes à crise no ministério dos Transportes, o que pode reduzir o entusiasmo da comissão – e até mesmo da oposição.

Por isso, o governo mantém a expectativa de que  o PR conduza a crise com a visão política de quem  sabe ter muito mais a perder ainda se levar ao limite o enfrentamento.

Ainda assim, existem os riscos de sempre. 

Quando ministro da Fazenda, Antonio Palocci caiu antes da descoberta de sua freqüência à casa suspeita no Lago Sul, em Brasília, apelidada de “República de Ribeirão Preto”.

Palocci caiu pela primeira vez quando mentiu em depoimento à CPI dos Bingos, à qual comparecera como convidado.

A uma daquelas perguntas que surgem despretensiosas, se ainda se avistava com seus ex-assessores na prefeitura de Ribeirão Preto, respondeu categoricamente que desde sua posse como ministro jamais voltara a vê-los.

Poderia ter dito que limitava seus encontros com os ex-assessores a necessidades ditadas pela ação judicial que respondiam juntos sob acusação de gestão irregular na prefeitura.

Como mentiu, a mansão do Lago Sul, descoberta dias depois, se transformou na casa dos horrores, para o então ministro da Fazenda.

O líder do PMDB à época da CPI do Orçamento, que ficou conhecida como a CPI dos Anões, deputado Genebaldo Corrêa (PMDB-BA), saía-se bem depois de horas de depoimento até que o senador tucano Mário Covas (SP), sacou a única pergunta que avaliou restar-lhe àquela altura.

Indagou a Genebaldo se ele poderia garantir à comissão jamais ter dado um cheque seu ao então deputado João Alves, comandante do processo de corrupção no Orçamento, que costumava justificar sua fortuna com vitórias consecutivas na loteria.

Em dúvida se Covas possuía cópia de um eventual cheque seu a Alves, o pemedebista hesitou e disse que sua memória não permitia, depois de anos de convivência com Alves, dar tal garantia.

Caiu no blefe do astuto Covas e perdeu o mandato. Não havia cheque ou cópia de cheque, apenas uma cartada final de um veterano político que atuou em cima da dúvida do próprio depoente.

“Eu saberia se tivesse dado um cheque meu ao senhor”, disse Covas. E prosseguiu: “Mas se até Vossa Excelência  está em dúvida, o que dirá esta comissão!”.

Roberto Jefferson, cuja performance Pagot ameaça agora repetir, chutou o pau da barraca depois de concluir que perderia menos jogando seu mandato às favas para dar o abraço dos afogados no então ministro da Casa Civil, José Dirceu.

“Sublimou” o mandato quando percebeu que seria entregue às feras, sozinho, acusado do que fez e do que não fez.

O que difere Pagot de Jefferson hoje é exatamente a relação custo/benefício. A menos que o PR tente abandoná-lo à própria sorte, o que equivaleria a um tiro no pé, as ameaças de Pagot parecem ter mais o objetivo de blindá-lo na comissão do que efetivamente produzir um terremoto no governo Dilma.

Pagot ameaça contar o que sabe provavelmente para obter um tratamento político e não de réu durante seu depoimento.

A conferir.

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No calor da batalha, o líder do PR na Câmara, deputado Lincoln Portela (MG), talvez não se tenha dado conta da frase que cunhou para justificar o veto do partido ao seu filiado, Paulo Sérgio Passos, preferido da presidente Dilma Rousseff para substituir Alfredo Nascimento como ministro dos Transportes.

“Ele é competente, sério, probo e íntegro, mas entre isso e ser ministro há uma distância a percorrer”.

O conjunto de virtudes, que vai da competência à integridade, não é suficiente para que Passos assuma o comando da Pasta, pela qual responde interinamente. O que faltaria a ele?

“Envergadura política” é a resposta dos dirigentes do PR. Um sofisma para “capacidade de negociação”, aqui entendida como disposição para manter o ministério a serviço dos interesses do partido.

Falta, pois, a Passos o que sobra em seu antecessor, e vice-versa, já que este último sai sob suspeita de conivência com o ambiente de promiscuidade que se instalou no ministério por todo o mandato do ex-presidente Lula.

É a inversão do conceito republicano de governo: é vetado o perfil virtuoso em favor daquele “aberto a negociações”, ainda que isso se traduza por tolerância com práticas contrárias ao interesse público.

Passos não tem o aval de seu partido por dispor de um “nada consta”. Por essa estranha ética, é preciso que conste algo.

Isso explica a sobrevivência e a força de um político como o deputado Waldemar da Costa Neto (PR-SP), de tantos similares no Congresso, com a prerrogativa de despachar do gabinete do ministro.

Por certo, pela sua “envergadura política”.

Poucas afirmações sintetizaram melhor as relações entre governo e base política no chamado sistema presidencialista de coalizão, que transformou, no Brasil, a atividade congressual em mera ficção.

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Consumada a inevitável demissão do ministro Alfredo Nascimento, começa agora a queda de braço entre a presidente Dilma Rousseff e o PR pela nomeação de seu substituto à frente dos Transportes.

A presidente tem ostensiva preferência por Paulo Sérgio Passos, atual Secretário-Executivo da Pasta, com perfil mais técnico, mas o PR não quer, embora ele seja filiado à legenda.

Dilma, aliás, reuniu-se ontem com Passos quando a demissão de Nascimento ainda não ocorrera. Fato que precipitou-a, inclusive. Oficialmente, discutiam projetos ferroviários.

Aqui, um problema: ao optar por Passos, a presidente está preservando a Pasta para o PR , mantendo o compromisso com o aliado, mas tentando impor critério técnico à nomeação.

O PR quer continuar fazendo do ministério uma extensão de seus domínios, uma filial de seus interesses, conforme deixou cinicamente claro o deputado Waldemar Costa Neto (SP), ao confirmar que despachava dentro do prédio ministerial.

Tem força política para barganhar com o governo: entre senadores e deputados, soma 46 votos, mas as alianças com legendas nanicas, pode elevar esse numero a 64 parlamentares.

Mas é uma força vulnerável a investigações mais consistentes. Elas devem continuar após as demissões e delas se valerá o governo para conduzir as negociações de forma mais impositiva.

É preciso ir além, porque há muito mais por aparecer. Se a cúpula estava comprometida no nível em que se descobriu agora, a estrutura certamente está contaminada.

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As primeiras 48 horas após as demissões no ministério dos Transportes, indicam a dificuldade para sustentação de Alfredo Nascimento no cargo, único sobrevivente da tsunami que atingiu a cúpula do ministério, demitida diretamente pela presidente da República.

A denúncia do jornal O Globo sobre o enriquecimento vertiginoso da empresa do filho do ministro, Gustavo Moraes Pereira, obtido com repasses indiretos da Pasta, já compromete seriamente sua condição de árbitro – ou interventor de si próprio – na administração da crise.

Segundo a reportagem, a empresa de Gustavo registrou, em dois anos, um aumento superior a 80.000% no seu patrimônio, que subiu de R$ 60 mil para R$ 55 milhões, no período. É uma denúncia grave e bem fundamentada.

O apoio da base aliada à permanência de Nascimento torna-se bem mais difícil, na medida em que não se trata mais de reivindicação política, mas de pressão para a continuidade de um processo onde a corrupção está constatada. É pedir à presidente que faça vista grossa a desvio de dinheiro público.

Ainda mais quando se sabe que esse tipo de processo costuma produzir denúncias diárias, indicando que a de hoje pode ser a primeira de uma série. Aconteceu assim com tantos outros que antecederam Nascimento em circunstâncias semelhantes, caso mais recente de Antonio Palocci.

O comportamento do diretor-geral do Dnit, Luis Pagot, resistindo à demissão com o artifício de entrar em férias, exibe a confiança desse tipo de agente público na chamada blindagem política, além de agravar a situação de Nascimento, seu superior hierárquico, ao sugerir que não tem controle sobre seus subordinados.

O temor no meio político é que o episódio se traduza por uma determinação da presidente de adotar o rigor como método para produzir as mudanças que deseja e ter seu ministério próprio. O fato é que ela se mostra disposta a impor seu estilo e autonomia para governar.

Dilma se distancia das pressões do PT, mantém o PMDB desinformado de decisões como a intervenção no ministério e se aproxima do PSDB permitindo a leitura de que estabelece alianças pessoais que possam minimizar as pressões de sua própria base no futuro.

A presidente certamente não se animará a abrir uma crise com o PR, numericamente consistente para criar dificuldades ao governo no Congresso, mas avançou o suficiente para não poder recuar.

Se a preservação de Nascimento, ainda que vista como uma forma de evitar uma crise aberta com o PR, mereceu crítica unânime dos analistas e da oposição, sustentá-lo em meio a uma onda de novas denúncias, é praticamente inviável.

Sua permanência manterá o ministério – e, por extensão, o governo -, na defensiva, abrindo amplo espaço para a exploração política pela oposição, inclusive com a possibilidade de uma CPI.

Nascimento, que ontem se mostrava determinado a dar todas as explicações possíveis no Congresso, terá de acrescentar a elas, agora, a questão do filho, de difícil defesa.

Resta saber como se dará a troca para que ela não seja a de seis por meia-dúzia, o que ocorrerá se a escolha do substituto de Nascimento, assim como dos seus principais auxiliares, ocorrer dentro dos mesmos critérios que orientaram suas escolhas: o de fazer do ministério base política para os negócios partidários e pessoais dos dirigentes do PR.

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As demissões na cúpula do ministério dos Transportes devem alcançar o ministro Alfredo Nascimento, ainda que se cumpra o prazo político necessário à sua remoção.

Ao conceder ao titular da Pasta a chance de explicar as irregularidades ocorridas bem embaixo de seu nariz, a presidente Dilma Rousseff deve ter poucas expectativas de que, ao final, o ministro convença.

Dilma parece cumprir um ritual que contempla o ministro com o benefício da dúvida, porque precisa administrar politicamente sua demissão, neutralizando as reações do PR, partido de Nascimento, e evitando que sua intervenção na Pasta tenha como efeito colateral uma crise política.

Um sinal claro de que o ministro não está seguro é a determinação presidencial à Corregedoria Geral da União para promover uma devassa nos órgãos mais importantes do ministério – o Departamento Nacional de Infraestrutura (Dnit) e a Valec, empresa responsável pela administração da malha ferroviária.

Esta última com um desvio já apurado de R$ 70 milhões nas obras da ferrovia Norte-Sul, agravados pela influência ostensiva do deputado Waldemar Costa Neto (PR-SP) no setor – ele, réu do mensalão que renun ciou ao mandato para escapar da cassação, depois de desmoralizado pelo então deputado e presidente do PTB, Roberto Jefferson (RJ).

Se Nascimento fosse, de fato, o interventor em sua própria Pasta – o que seria surrealismo puro -, caberia a ele acionar a CGU para ampará-lo nas apurações que, sérias, alcançarão outras legendas.

O comportamento da presidente sugere que ela pretende fazer do limão uma limonada, aproveitando a oportunidade para dar mais um passo na mudança do mapa ministerial, alterado por impulso das crises.

Se não pôde evitar nomeações mesmo daqueles que apresentavam problemas antes da posse, como Pedro Novaes, do Turismo, conhecido por cobrar à Câmara ressarcimento de despesas em um motel, Dilma demonstra que não perderá oportunidades de promover uma reforma ministerial gradual, justificada pelas faltas dos próprios ocupantes dos cargos.

Palocci já foi, Luis Sérgio também, agora pode ter chegado a vez de Nascimento. Dilma não gostava, pelo menos, da turma que o cercava, a começar por Waldemar Costa Neto.

Com perdão do trocadilho, a demissão de Nascimento pode ser um parto político, mas uma vez em gestação dificilmente será abortada.

Até porque a razão de não ter ocorrido prende-se à conveniência de manter no Senado o suplente, João Pedro, responsável pela nomeação e pela permanência de Nascimento no ministério dos Transportes.

João Pedro é amigo pessoal do presidente Lula, que impôs a nomeação de Nascimento para efetivá-lo no Senado, numa costura que a corrupção na Pasta ameaça desfazer.

Vale lembrar que o outro candidato ao cargo, à época da formação do ministério, foi o senador Eduardo Braga (PMDB-AM), a quem foi oferecido – e recusado – o da Previdência, como forma de preservar o interesse do ex-presidente Lula.

E tudo se deu assim, como num clube de amigos.

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