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Jamil Chade

 

 

 

 

 

Na minha rua, num villarejo próximo à Genebra, um vizinho colocou no portão de sua casa uma placa que chega a valer uma gargalhada. “Não entrar. Violadores serão baleados. Sobreviventes serão baleados de novo”.

O problema é que, na Suíça, essa ironia vai além de uma mera graça de um vizinho espirituoso. A partir de hoje, terça-feira, a Suíça abandonará o princípio da livre circulação de pessoas na Europa e aplicará cotas para a entrada de imigrantes do Leste Europeu. A medida enfureceu a União Europeia, que rapidamente lançou um alerta para que outros governos não seguissem a mesma ideia.

Na Suíça, o governo fez questão de anunciar que tinha o direito de levantar os muros e que precisava controlar a entrada de imigrantes, isso depois de um partido ter espalhado pelo país há poucos anos um cartaz que mostrava uma ovelha negra sendo chutada para fora da Suíça por ovelhas brancas. Mais recentemente, o mesmo partido usou a imagem de mãos negras roubando passaportes suíços para alertar que a nacionalidade suíça estava sendo entregue a estrangeiros de forma descontrolada.

O país não faz parte da União Europeia, mas é parte do Acordo de Schengen, que estipula a liberdade de movimento entre países europeus, o fim das fronteiras e a cooperação entre as policiais. Mas votou em seu Parlamento a imposição de cotas contra trabalhadores da Polônia, Hungria, Lituânia e outros oito países. No total, permitirá a entrada de apenas 2 mil pessoas dessa região. No ano passado, foram 7 mil os cidadãos do Leste Europeus que chegaram na próspera Suíça para trabalhar, um número considerado como desprezível entre especialistas em imigração.

Em Bruxelas, a reação foi de indignação por parte da União Europeia, acusando abertamente a Suíça de adotar políticas discriminatórias. Para a chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, a cota viola a liberdade de movimento de pessoas estipulado pelo acordo. “Essa medida não e justificada economicamente, nem por conta da situação do mercado de trabalho, nem pelo número de cidadãos europeus tentando estabelecer residência na Suíça” alertou.

O porta-voz da UE, Michael Mann, apelou à Suíça para que trate todos os cidadãos da Europa da mesma maneira. “A Suíça não tem o direito de fazer diferenças entre os diferentes estados membros da UE. Somos 27 e ponto final”, declarou. Os governos da República Tcheca, Polônia, Hungria e Eslováquia tambmém criticaram a medida, alertando que a crise não poderia afetar a “liberdade econômica da Europa”.

Mas há ainda outro grupo muito preocupado: a Associação de Fazendeiros da Suíça, que usam a mão de obra barata do Leste Europeu para suas colheitas, embolsando os subsídios milionários dados pelo estado.

Com o fim do fornecimento desses boias-frias da periferia da Europa, o temor dos fazendeiros suíços é de que tenham de pagar salários maiores – e mais descentes – a outros trabalhadores, como os italianos que já começam a chegar em grandes números, ou mesmo suíços. No país, o salário mínimo é de cerca de US$ 3 mil.

O resultado da imposição da cota para os boias-frias do Leste Europeu, segundo a visão da associação, poderia ser um encarecimento dos produtos agrícolas suíços. Enfim, viva os guardiões dos direitos humanos e da liberdade no Velho Continente….

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Durante a Guerra Fria, esporte e diplomacia andavam de mãos dadas. Na realidade, esporte e política nunca deixaram de estar separados, por mais que Fifa, COI e Uefa queiram que acreditemos que não há lugar para a política no esporte. Acusar o esporte de ser politizado é como se um peixe acusasse o outro, em pleno oceano, de estar molhado.

Agora, essa relação íntima entre esporte e política volta a ficar explícita. Líderes europeus anunciaram que ameaçam boicotar o terceiro maior evento esportivo do mundo – a Eurocopa – na Ucrania em apenas poucas semanas. O motivo: o tratamento dado pelo governo de Kiev e Juia Timoshenko, ex-primeira-ministra que promoveu há poucos anos uma verdadeira revolução no país, o tirando da órbita do Kremlin.

Timoshenko acabou sendo presa, sob a alegação de corrupção e abuso de poder. Terá de pagar uma multa de US$ 200 milhões e ficará sete anos na cadeia e, há poucos dias, revelou fotos em que sugere que foi agredida na prisão. Nas capitais europeias, não foram poucos os que temem pela saúde da democracia na Ucrânia e apelam para que a opositora seja liberada.

Mas pouco podiam fazer para pressionar. Kiev não é Damasco, onde sanções podem ser adotadas. Nem Trípoli, bombardeada. A Ucrânia sequer faz parte da UE e, portanto, Bruxelas não pode ameaçar com uma hipotética expulsão do bloco. Por meses, líderes europeus ficaram de mãos atacadas sobre o que fazer.

Agora, esses líderes encontraram um instrumento de pressão – o Esporte. A pratica era uma velha conhecida de americanos, soviéticos ou chineses durante a Guerra Fria, criando um mal-estar bem maior que qualquer discurso nas salas surdas da ONU.

Angela Merkel já anunciou que poderá não acompanhar a Mannschaft jogar em solo ucraniano na Eurocopa, que começa em pouco mais de um mês. A Ucrânia realiza o torneio ao lado da Polônia. A grande final, no dia 1 de julho, ocorre em Kiev.

Em um símbolo político forte, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, também já anunciou nesta segunda-feira que não irá ao evento continental. Viviane Reding, espécie de superministra da Justiça da Europa,  também promete não aparecer, como um protesto. Vaclav Klaus, presidente da República Tcheca, também não viajará, em uma iniciativa que ganha força pelo continente contra o presidente ucraniano Victor Janukovich.

O governo de Kiev já teme que o vento que serviria para promover a nova fase do país e sua entrada no “concerto das nações europeias” se transforme em um pesadelo de proporções internacionais. “Não queremos pensar que os dirigentes políticos alemães são capazes de reanirmar os métodos da Guerra Fria”, afirmou a chancelaria ucraniana. “O que estão fazendo é tentando transformar o esporte em um refem da política”, acusa.

Já a Uefa vive uma situação delicada. Seu presidente, Michel Platini, levou o evento ao Leste Europeu como um sinal de que confiava no fato de que a Europa não se limita aos grandes países. Agora, é obrigado a reagir. “A Uefa alertou a delegação da Ucrânia sobre as preocupações criadas em torno da situação política no país. Ainda que como organização esportiva nunca interfira em assuntos políticos, o máximo organismo do futebol europeu solicitou à Ucrania que transmita essas preocupações às autoridades competentes”, indicou a entidade em um comunicado.

A Uefa pouco poderá influenciar com sua mensagem. Mas nada mais poderoso que o terceiro maior evento esportivo do mundo para escancarar as graves violações de direitos humanos em um país que esperava usar o evento como uma espelho ao mundo. Esse espelho pode mostrar o que nem sempre governos querem mostrar.

 

 

 

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A ONU se diz “alarmada” pelo número de jornalistas executados no Brasil em 2012 e cobra “medidas imediatas” do governo para garantir proteção. Nesta semana, o jornalista Décio Sá, de 42 anos, foi assassinado no Maranhão. Ele foi a quarta vítima entre jornalistas apenas nos últimos quatro meses, o que coloca o Brasil como o líder por enquanto no número de mortes na América Latina.

Investigações no Maranhão apontam para suspeitas de que a morte de Sá tenha sido encomendada. O jornalista usava seu blog para denunciar atividades de pistoleiros e as principais entidades que representam jornalistas no país e no exterior já reagiram. Na segunda-feira, ele foi executado com seis tiros ao sair de um restaurante em São Luis (MA) onde era cliente.

A onda de mortes de jornalistas no Brasil, porém, chamou a atenção da ONU. “Nós estamos alarmados com o fato de que mais um jornalista foi morto no Brasil neste ano”, declarou Rupert Colville, porta-voz do Escritório da ONU para Direitos Humanos, com sede em Genebra.

A entidade insiste que o que mais a preocupa não é apenas o caso de Sá, mas a sequência de mortes. “Nós condenamos o assassinato de Décio Sá e estamos preocupados de que essa tendêcia mine o exercício da liberdade de expressão no País”, declarou Colville.

A ONU apela agora para que o caso no Maranhão e as demais mortes e ameaças em 2012 sejam alvo de uma investigação aprofundada.

Medidas – A entidade, porém, vai além e numa cobrança clara ao governo brasileiro, exige medidas de proteção. “Pedimos ao governo para implementar imediatamente medidas de proteção para prevenir novos incidentes”, declarou o porta-voz da ONU. Na avaliação das Nações Unidas, a defesa da liberdade de expressão é um dos pilares da democracia.

As ameaças a jornalistas no Brasil vem ganhando destaque nos debates de entidades internacionais. O Comitê para a Proteção dos Jornalistas, com sede em Nova York, calcula que o Brasil lidera o ranking de jornalistas assassinados na América Latina neste ano.

Segundo o cálculo de outra entidade, com sede na Suíça, a América Latina foi o local mais perigoso do mundo para trabalhar como jornalista em 2011, enquanto governos tanto de direita quanto de esquerda tem lançado duras operações contra a liberdade de expressão na região. A constatação é da entidade suíça Press Emblem Campaing (Campanha para um Emblema de Imprensa), que contabiliza o número de mortes, ameaças, prisões e censura no mundo.

“Na América Latina, não importa o país ou o governo e nem a ideología, o jornalismo independente e o direito à informação está sob fogo cruzado entre a agressão física e ameaças, numa atmosfera de impunidade e corrupção sem limites”, afirma o relatório da entidade.

Pelos cálculos da entidade, a região “tem a triste liderança de violencia e morte” contra jornalistas. Em 2011, foram pelo menos 35, um terço dos 107 registrados no mundo. A liderança é do México, com doze. O Brasil veio no segundo lugar, com seis, mesmo número de Honduras.

No total, a entidade contabiliza 33 agressões contra jornalistas no Brasil em 2011. Além dos seis assassinatos, foram outras duas tentativas de morte, duas prisões, oito casos de agressões físicas, seis casos de censura judicial – uma delas contra o jornal O Estado de S. Paulo e tres abusos de poder. A entidade ainda relata três confiscos de materiais de jornais, além de três acusações de desacato com multas.

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Na data que marca os 75 anos dos ataques aéreos sobre a cidade de Guernica por aviões alemães, vale a leitura do relato do primeiro correspondente estrangeiro a chegar ao local, Noel Monks do “London Daily Express.” Trata-se, no fundo, do relato do ensaio geral para a Segunda Guerra Mundial. Peça a autorização dos leitores para citar os trechos em sua versão original.

“We were about eighteen miles east of Guernica when Anton pulled to the side of the road jammed on the brakes and started shouting. He pointed wildly ahead, and my heart shot into my mouth, when I looked. Over the top of some small hills appeared a flock of planes. A dozen or so bombers were flying high. But down much lower, seeming just to skim the treetops were six Heinkel 52 fighters. The bombers flew on towards Guernica but the Heinkels, out for random plunder, spotted our car, and, wheeling like a flock of homing pigeons, they lined up the road – and our car.

Anton and I flung ourselves into a bomb hole, twenty yards to the side of the road. It was half filed with water, and we sprawled in the mud. We half knelt, half stood, with our heads buried in the muddy side of the carter.

After one good look at the Heinkels, I didn’t look up again until they had gone. That seemed hours later, but it was probably less than twenty minutes. The planes made several runs along the road. Machine-gun bullets plopped into the mud ahead, behind, all around us. I began to shiver from sheer fright. Only the day before Steer, an old hand now, had ‘briefed’ me about being strafed. ‘Lie still and as flat as you can. But don’t get up and start running, or you’ll be bowled over for certain.’

When the Heinkels departed, out of ammunition I presumed, Anton and I ran back to our car. Nearby a military car was burning fiercely. All we could do was drag two riddled bodies to the side of the road. I was trembling all over now, in the grip of the first real fear I’d ever experienced.”

“… I saw the reflection of Guernica’s flames in the sky.”

“…a Government official, tears streaming down his face, burst into the dismal dining-room crying: ‘Guernica is destroyed. The Germans bombed and bombed and bombed.’ The time was about 9.30 p.m. Captain Roberts banged a huge fist on the table and said: ‘Bloody swine.’ Five minutes later I was in one of Mendiguren’s limousines speeding towards Guernica. We were still a good ten miles away when I saw the reflection of Guernica’s flames in the sky. As we drew nearer, on both sides of the road, men, women and children were sitting, dazed. I saw a priest in one group. I stopped the car and went up to him. ‘What I happened, Father?’ I asked. His face was blackened, his clothes in tatters. He couldn’t talk. He just pointed to the flames, still about four miles away, then whispered: ‘Aviones. . . bombas’. . . mucho, mucho.’

…I was the first correspondent to reach Guernica, and was immediately pressed into service by some Basque soldiers collecting charred bodies that the flames had passed over. Some of the soldiers were sobbing like children. There were flames and-smoke and grit, and the smell of burning human flesh was nauseating. Houses were collapsing into the inferno.

In the Plaza, surrounded almost by a wall of fire, were about a hundred refugees. They were wailing and weeping and rocking to and fro. One middle-aged man spoke English. He told me: ‘At four, before the-market closed, many aeroplanes came. They dropped bombs. Some came low and shot bullets into the streets. Father Aroriategui was wonderful. He prayed with the people in the Plaza while the bombs fell.’..

 

…The only things left standing were a church, a sacred Tree, symbol of the Basque people, and, just outside the town, a small munitions factory. There hadn’t been a single anti-aircraft gun in the town. It had been mainly a fire raid.

…A sight that haunted me for weeks was the charred bodies of several women and children huddled together in what had been the cellar of a house. It had been a refugio.”

Referência:    Monks, Noel, Eyewitness (1955); Thomas, Hugh, The Spanish Civil War (1977).

 

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Em um discurso dedicado à América Latina na terça-feira, o comissário de Comércio da Europa, Karel de Gucht, explicitou a frustração atual que domina a relação entre os dois lados do atlântico e faz ameaças abertas de que o protecionismo de países como Brasil, Argentina e outros será respondido com todas os instrumentos que a Europa tiver ao seu dispor. De Gucht deixou claro a existência de relações históricas entre os dois continentes. Mas escancarou que o relacionamento hoje passa por uma crise e vive um verdadeiro mal-estar.

 “Esse é um tempo de otimismo, mas também de preocupação sobre o futuro da América Latina e sua relação com a UE”, disse o europeu, atacando a nacionalização pela Argentina da YPF e as medidas protecionistas brasileiras. “As escolhas que fizermos hoje determinarão o cursor nas próximas décadas”.

Os europeus não escondem que a região é hoje uma das principais promessas de lucros para as combalidas empresas do Velho Continente, que sofrem para ver suas vendas aumentarem nos países ricos. Em 2011, o comércio entre as duas regiões chegou a 212 bilhões de euros, 15% acima do volume de 2008, antes da crise.

Não por acaso, o principal ataque de Bruxelas se refere ao comportamento protecionista do Brasil, Argentina e outros governos da região. Para a Europa, esse protecionismo está levando a região a um isolamento da cadeia produtiva de alto valor agregado. Segundo ele, a região latino-americana de fato cresceu nos últimos anos. Mas grande parte dessa expansão estaria relacionada à alta dos preços das commodities. Para ele, países precisarão buscar formas de diversificar suas economias se quiserem continuar a se desenvolver.

De Gucht insiste que isso só ocorrerá se a região mantiver suas fronteiras abertas às importações. “A prosperidade vai depender do grau de integração dessas economias”, alertou, apontando para os riscos inflacionários de manter o crescimento dependente da venda de matérias-primas.

Moeda – O europeu também mandou um duro recado ao Brasil. O governo de Dilma Rousseff defendeu na OMC a criação de uma espécie de salvaguardas que poderiam ser aplicadas contra importações cada vez que a valorização cambial resultar em um fluxo de bens do exterior.

Para Bruxelas, a culpa pela valorização do real, de 29% desde 2007, é apenas do Brasil. Na avaliação de De Gucht, o que ocorre com o real não está ligado ao “tsunami financeiro” que Dilma acusa a Europa de promover com a injeção de dinheiro nos mercados, com a injeção de 1 trilhão de euros.

Segundo Bruxelas, o fator que está gerando uma pressão sobre o real é a diferença de taxas de juros cobradas no Brasil, em comparação às da Europa, atraindo capital. Para o europeu, de fato o fluxo de capital ameaça “desestabilizar”economias. Mas o motivo é a altas taxas de juros cobradas no Brasil, criando incentivos para que o capital europeu busque lucros no mercado brasileiro. Na avaliação de De Gucht, é isso que tem feito as exportações de manufaturados e serviços do Brasil “menos competitivas”.

Protecionismo – A UE fez questão de atacar ainda a nacionalização da YPF pela Argentina, lembrando que essa era “justamente o tipo de medida que precisava ser evitado”, alertando que a iniciativa irá afastar investimentos do país. “Ao tomar essa ação, a Argentina mandou ondas de choques pela comunidade internacional e as consequências para seu desenvolvimento econômico serão sentidos por muito tempo”, alertou. “Posso garantir que faremos tudo que estiver em nosso poder para apoia o governo espanhol a conseguir total compensação”, declarou.

Se os ataques a Buenos Aires foram duros, Bruxelas lamenta que esse protecionismo não se limita aos argentinos. “Essas medidas não ajudarão os países que as aplicam”, declarou. “Elas afetam cadeias de fornecimento, alimentam um setor produtivo não competitivo e freiam investimentos”, disse.

De Gucht ainda alertou que cada nova medida adotada pela região está sendo avaliada pelo bloco e que a UE “não hesitará” em usar ”todas as ferramentas” que tiver a seu dispor para garantir a abertura dos mercados, inclusive recorrer à OMC.  “O pior que qualquer governo pode fazer na região é de abandonar mercados abertos e regra da lei”.

China – Outro alerta da Europa se dirige à relação do Brasil e outros latino-americanos com a China. Nos últimos anos, empresas europeias perderam parte do mercado da região justamente para concorrentes chineses. Segundo Bruelas, apesar de lucrativo para o setor de matéria prima, o comércio brasileiro com a China está impedindo uma maior industrialização do País.

“O aumento dramático de exportações da China está afetando as exportações de manufaturados da América Latina”, alertou De Gucht. “Podemos ver isso concretamente na evolução do comércio entre o Brasil e a China”,disse. “Em 2000, menos de 50% das exportações brasileiras para a China eram de produtos primários. Em 2010, essa taxa chegou a 80%. Isso certamente beneficiou a economia brasileira, mas não contribuiu para a meta importante de subir na cadeia de valor agregado”, alertou.

Em crise, com dez governos já tendo de pedir sua demissão em dois anos e com várias economias em recessão, os europeus sabem que poucas vezes precisaram tanto da América Latina como agora. Mas, justamente nesse momento, terão de enfrentar uma nova realidade na região e na economia mundial.

 

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Pouco resto de Rikuzentakata após o tsunami

 

O tsunami que atingiu o Japão em 2011 ainda gera um grande impacto econômico, social e mesmo emocional no país. No dia 11 de março do ano passado, 19 mil pessoas morreram diante de um dos piores desastres naturais da história do Japão e, desde então, todas as forças do país estão voltadas para a reconstrução, com o governo proliferando mensagens de que é necessário manter a moral e que são testes como esse que marcam uma sociedade.

Um garoto que perdeu sua casa e praticamente todos os bens da família começou nesta semana a entender o que é a reconstrução de sua vida e como o planeta está interconectado.

Na semana passada, um morador no Alaska encontrou em uma praia uma bola de futebol, repleta de mensagens de apoio a um certo Misaki. A bola percorreu 5 mil quilometros entre o Japão e o territorio americano, cruzando o Oceano Pacífico.

Funcionários do Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, dos Estados Unidos acreditam que se trate de um dos primeiros objetos identificáveis a cruzar o oceano depois do desastre natural.

Misaki Murakami, de 16 anos, vivia na cidade de Rikuzentakata, uma das mais afetadas pelo tsunami. Perdeu tudo, inclusive a bola que seus colegas de escolar o haviam presenteado em 2005 quando ele se mudou e foi transferido para outra instituição.

Segundo a rede japonesa NHK, a família americana que encontrou a bola passou a buscar seu dono com a ajuda de jornalistas japoneses. Em fevereiro, um barco de pesca japones foi encontrado à deriva no Golfo do Alaska, mas ainda vários quilômetros distante da costa.

As autoridades americanas acreditavam que os entulhos, pedaços de casas e mesmo roupas de vítimas do tsunami chegariam às contas americanas apenas em 2013 ou 2014, levadas pela corrente marítima. Mas a chegada de objetos com meses de antecipação ao que se estimava é mais uma indicação de que seria ingenuidade ou conveniência política acreditar que fenômenos naturais, climáticos ou o vazamento de materiais poluentes respeitem também fronteiras nacionais.

Que os negociadores do texto da Conferência do Clima no Rio de Janeiro, em meados do ano, se lembrem disso ao começar a debater a fase final do acordo, a partir de hoje (23 de abril) nas salas da ONU, aparentemente isoladas do mundo.

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Ben Bella, entre Pelé e Garrincha

Ahmed Ben Bella faleceu hoje em Argel com 96 aos. O líder revolucionário foi o primeiro presidente da Argélia independente e comandou a batalha sangrenta contra o então império francês. Mas o que poucos sabem é que parte de seu destino foi traçado por Pelé, ainda que o ex-jogador não tivesse qualquer ideia do que ocorria.

Pelé de fato é sempre lembrado como a pessoa que conseguiu até mesmo parar uma guerra, no caso entre as tropas de Kinshasa e Brazzaville, no ex-Congo Belga em 1969.

Mas revelações feitas pelo presidente da Federação Argelina de Futebol, Mohamed Raouraoua, apontam que o ex-número 10 da seleção e do Santos, sem saber, também foi o pivô de um golpe de estado. O incidente ocorreu em junho de 1965.

Naquele mês, a seleção brasileira comandada por Feola foi jogar na Argélia um amistoso contra a seleção local, que poucos anos antes havia conseguido sua independência. O jogo ocorreu no estádio de Oran, no dia 17 de junho, e atraiu a atenção de todo o país. No estádio de Bouakeul, milhares de pessoas esperaram por horas para ver a entrada em campo de Pelé. Mas o povo não foi o único a enfrentar o calor do verão africano.

No estádio estava também Ben Bella, na época presidente do país. O que ele não sabia era que aquele seria seu último evento público como presidente argelino e o início de um longo calvário.

Em apenas 25 minutos de jogo, os campeões mundiais definiram a partida. Dudu, Gerson e Pelé fechariam o placar. Os astros locais como Zerga, Zitouni, Bourouba, Lekkak, Soukhane, Makhloufi, Oudjani e Mattem nada puderam fazer. Mas seria nas arquibancadas que o destino da Argélia estaria sendo definido. Ben Bella, que havia sido jogador do Olympique de Marselha na temporada de 1939 e 1940 e que atuou pela seleção francesa militar quando seu país era ainda uma colônia, era um fã de Pelé e optou por deixar Argel e viajar até Oran para acompanhar a partida.

“Ben Bella gostava muito da seleção brasileira e de Pelé”, disse Mohamed Raouraoua, o homem forte do futebol argelino.  Mas enquanto o presidente viajava, seu ministro da Defesa Houari Boumediene e seus homens aproveitariam a ausência de Ben Bella da capital para manipular o golpe de estado que derrubaria o presidente e acabaria com a democracia no país que acabava de ganhar sua independência.

Um relato escrito por um coronel leal a Ben Bella revela a tensão nas arquibancadas. “Eu avisei a Boumediene que eu iria me juntar a Ben Bella a Oran para ver o jogo entre o Brasil e com a presença de Pelé”, escreveria duas décadas depois o coronel Bencherif. “Diante da tribuna onde eu estava sentado, logo atras de Ben Bella, Mahmoud Guenez era quem comandava o serviço de segurança e havia colocado uma barreira de sua milícia. Eu havia ordenado o dobro de policiais”, esclareceria o coronel.

No intervalo do jogo, Ben Bella fez questão de ir ao vestiário para saudar Pelé, que já seria substituído. Ganhou uma camisa autografada e explicou ao craque brasileiro que também havia sido um jogador de futebol.

O segundo tempo seria marcado não pelo espetáculo em campo, mas por tentativas de torcedores de acertar o presidente com bolas de papel. A seleção de Feola e Garrincha seguiria para Portugal, onde disputaria outro amistoso contra a seleção local. Já  Ben Bella voltaria para a capital no dia seguinte. Mas seu destino já estava traçado no país que havia servido de inspiração para movimentos de independência em todo o mundo.

Ele havia recebido e ajudado Che Guevara, Nelson Mandela, Malcolm X e Amilcar Cabral. Mas não resistiria à luta de poder dentro de suas próprias fileiras. Na noite do dia 18 para 19 de junho, Argel seria tomada pelo ministro da Defesa. Em plena noite, Ben Bella seria preso ainda vestindo pijamas. Não foi autorizado a levar nenhuma roupa e, anos mais tarde, revelaria que tinha a certeza de que seria executado. Ben Bella seria mantido em uma prisão até 1979 e só nos anos 80 pode sair do país, em m exílio forçado. Voltaria dez anos depois e começaria a romper seu silêncio, criticando o governo local.

No ano passado, vi Ben Bella sendo ovacionado por políticos locais em um evento em Argel promovido pelo próprio governo, numa espécie de compensação pelo que havia sofrido. Quando o questionei sobre questões políticas, Ben Bella já idoso e com dificuldades para ouvir e se mover, apenas reagiu quando entendeu que a reportagem era de um jornal do “Brasil”. “Ah o Brasil”, exclamou, com um generoso sorriso.

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NYON – O futebol brasileiro « perdeu o rumo »e, da forma que está, dificilmente terá qualquer chance de vencer a Copa do Mundo de 2014 em sua própria casa. O alerta é de Paul Breitner, ex-craque alemão e que viajou ao Brasil com uma delegação oficial do governo da Bavaria para avaliar opções de cooperação entre os dois países.

Antes de embarcar ao Brasil, conversei com o ex-craque e confesso que me surpreendi com sua franqueza. Enquanto tomávamos um café na sofisticada sede da Uefa, Breitner relembrava seus momentos de jogador e falava de sua função como embaixador da Liga dos Campeões da Europa. Mas deixou claro que, mesmo na Europa, está acompanhando de perto o que ocorre com a seleção de Mano Menezes e o próprio futebol brasileiro.

«Há uns quatro anos, o Brasil se perdeu », lançou, logo de cara. « O futebol brasileiro perdeu seu rumo e a realidade é que até hoje não o encontrou mais. É triste, mas é a realidade e as pessoas envolvidas com o futebol no Brasil precisam reconhecer isso », declarou.

 

Sua avaliação é de que, ao tentar imitar o futebol mais físico da Europa, durante a gestão do técnico Dunga, o Brasil « perdeu seu caráter ». « Isso tudo ainda ocorreu justamente num momento que o futebol força já não dava mais o resultado que se esperava », disse.

« O futebol brasileiro está em uma crise. Passa por um momento crítico e agora precisa encontrar um novo modelo de jogo. O que praticava há décadas com seus grandes astros do passado já não existe. O que foi adotado nos últimos anos para se adequar à força física já não da resultado. A realidade é que o futebol mundial mudou e o Brasil não se deu conta disso”, afirmou.
Breitner, campeão europeu pela Alemanha em 1972 e campeão Mundial em 1974, não disfarça a preocupação em relação ao desempenho do Brasil na Copa de 2014 em casa. «Da forma que está, será muito difícil vencer o Mundial », disse, o jogador que fez o primeiro gol da final da Copa de 1974 contra a Holanda.

 

O alemão é ainda, ao lado de Pelé, Vavá e Zidane, um dos quatro jogadores do mundo a marcar gols em duas finais de Copa. Além do gol em 1974, Breitner marcaria mais um na final de 1982, vencida pela Itália.

 

Breitner tem sua receita. Ele estima que o Brasil precisa recuperar seu caráter no futebol. Mas adapta-lo aos novos tempos. « Um modelo para o Brasil poderia ser o atual time Barcelona, talvez um dos melhores times da história”, explicou. “Jogadores brasileiros tem características similares aos do Barça. Mas precisam entender a nova movimentação que foi criada e o jogo coletivo, que é algo que na Alemanha já um padrão »,disse.

« O futuro do futebol não é o que o Brasil está apresentando em campo. É o que o Barça oferece », concluiu. Só falta encontrarmos um Lionel Messi.

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ESPECIAL: Bastidores da Ditadura no Brasil

Documentos do arquivo diplomático suíço revelam que o governo americano apostava suas fichas em uma perda de influência da revolução cubana na América Latina já em meados dos anos 60.

Em encontro entre Lincoln Gordon no dia 6 de julho de 1966  e o enviado suíço Felix Schnyder, embaixador em Washington, o americano insistia que  “esquerda brasileira” havia se decepcionado com Fidel e reconhecido que ele não passava de um « fantoche » da então União Soviética na disputa travada entre as duas superpotências no quadro da Guerra Fria.  

As revelações fazem parte dos arquivos diplomáticos suíços, num telegrama enviado pelo próprio Schnyder no dia 7 de julho de 1966 a seus superiores em Berna.

Naquele momento, Gordon era o sub-secretário de Estado norte-americano, posto que ganhou depois de ter sido o embaixador americano no Brasil justamente no ano do Golpe.

Para o americano, o que minou o prestígio dos cubanos na América Latina e no Brasil foi o episódio da crise dos mísseis, em 1962, um dos momentos de maior tensão na Guerra Fria. “Eu estava no Brasil nesse momento”, disse o americano ao enviado suíço. “Eu pude constatar como a esquerda brasileira ficou consternada (dismayed) de ver que Castro era apenas um fantoche nas mãos de Nikita Khrushchev e que ele (o russo) havia retirado os mísseis de Cuba sem consultar a Castro », disse.

Segundo Gordon, outro « golpe no prestígio de Castro foi o desaparecimento de Che Guevara ». Naquele momento, o sub-secretário de Estado norte-americano mantinha a percepção de que seu desaparecimento era ainda um mistério. Mas sua avaliação pessoal era de que o argentino estava morto « ou preso em um instituto psiquiátrico ».

ORIGINAL DO DOCUMENTO:

Archives:   Schweizerisches Bundesarchiv, Bern (CH-BAR)
Cote:   E 2300-01(-)1973/156/10
Nouvelle cote:   E2300-01#1973/156#71*
Titre dossier:   Washington (Berichte, Briefe)
Période:   1966–1966
Numéro de référence des archives:   A.21.31

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ESPECIAL: Bastidores da Ditadura no Brasil

O governo dos Estados Unidos justificou seu apoio aos militares brasileiros em 1964 alegando que João Goulart e seus aliados estavam « prestes a instalar um regime ditatorial » no Brasil. Essa foi a explicação que Lincoln Gordon deu em uma reunião em Washington no dia 6 de julho de 1966 com enviado suíço Felix Schnyder, embaixador em Washington. Mas admitiu que o governo americano se sentiu frustrado pelos militares quando os Atos Institucionais ganharam força.

Veja também:
Telegramas questionam neutralidade suíça
Militares teriam planejado golpe já em 1961

As revelações fazem parte dos arquivos diplomáticos suíços, num telegrama enviado pelo próprio Schnyder no dia 7 de julho de 1966 a seus superiores em Berna.

Naquele momento, Gordon já era o vice-secretário de Estado norte-americano, posto que ganhou depois de ter sido o embaixador americano no Brasil justamente no ano do Golpe.

Na conversa, o suíço questiona Gordon sobre o motivo pelo qual Washington apoiou os militares brasileiros e foi muito mais hesitante em apoiar o golpe na Argentina. O americano insistiu que, na visão da Casa Branca, os militares brasileiros deram sinais no começo do regime que rapidamente iriam reinstalar a democracia em pouco tempo.

“No Brasil, o sr. Goulart e seu governo estavam prestes a instalar, apesar da constituição, um regime ditatorial. Já os militares se mostraram, pelo menos no começo, relativamente respeituoso em relação à constituição, já que o presidente provisório Marzili (sic) foi eleito, no dia 2 de abril de 1965, pelo Congresso, o que fez o presidente Johnson enviar a ele um telegrama de felicitação », diz o texto, citando a explicação de Gordon. O vice-secretário de Estado chega a alertar na conversa que Goulart « não respeitava os procedimentos constitucionais ».

Ranieri Mazzilli era presidente da Câmara dos deputados e teve a função de presidente brasileiro entre os dias 2 e 15 de abril de 1964. No dia 15, Mazzilli entregou o cargo ao marechal Humberto de Alencar Castelo Branco e ao Comando Supremo da Revolução.

O americano, porém, admitiu abertamente que se o Ato Institucional tivesse sido anunciado nos primeiros dias do Golpe, a Casa Branca não teria dado o mesmo respaldo aos militares brasileiros. « É verdade que o Ato Institucional de 9 de abril (de 1964) concede um número de limitações e é possivel que, se os militares tivessem promulgado isso desde o começo (do regime), os Estados Unidos seriam obrigados a se mostrar mais reticentes », declarou.

Gordon lamenta. «Mas, depois de sido acordado, o reconhecimento (a um regime), não pode ser mais retirado », disse ao suíço.

O Ato Institucional de 1964 desmontou o cenário político brasileiro. O AI 1 permitiu o governo cassar mandatos legislativos, afastar funcionários que fossem vistos como ameaças e suspender direitos politicos. Outros Atos Institucionais acabariam sendo decretados no Brasil nos anos seguintes.

Amanhã neste blog: Para Casa Branca, esquerda brasileira estava decepcionada com Che Guevara.

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