O diretor eleito da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevedo, promete atuar “pelo interesse” de todos os países, superando as divisões entre os governos que vem marcando a entidade nos últimos anos.
Na manhã de hoje, a OMC confirmou Azevedo como seu novo diretor, função que ele assumirá em setembro. Em seu primeiro discurso, o brasileiro fez questão de reforçar a ideia de que, uma vez no cargo, atuará para criar consenso entre os membros e deixou claro que não será um representante de um país emergente ou do Brasil, mas sim de todos os grupos.
Azevedo não teve o voto de EUA e da Europa, mas esses governos também não o vetaram. Para o brasileiro essa situação da “legitimidade” para atuar.
Durante sua campanha, Azevedo insistiu em não se posicionar como um candidato de um país em desenvolvimento e tentou se afastar da posição considerada como protecionista do Brasil.
Mas sua grande base de votos veio mesmo dos emergentes, que garantiram sua eleição. Agora, no cargo, o brasileiro já começou uma campanha para garantir e tranquilizar países ricos de que atenderá o interesse de todos.
Sobre seu trabalho, Azevedo alertou aos países que “não há tempo a perder” diante dos 13 anos de negociações da Rodada Doha e da incapacidade dos governos em superar suas diferenças.O primeiro teste será em dezembro, na conferência ministerial da entidade em Bali.
GENEBRA – “Era logo depois das 6.30pm da tarde de terça-feira e Roberto Azevedo saía da sede da Organização Mundial do Comércio em Genebra, se deparando com um grupo de jornalistas que aguardavam do lado de fora. O embaixador brasileiro para a OMC permaneceu em silêncio. Mas sua expressão de felicidade o entregou. Minutos antes, ele havia sido dito que tinha assegurado a nomeação para substituir a Pascal Lamy”.
A versão quase romântica do dia em que Azevedo foi eleito para comandar a OMC foi publicada no Financial Times, uma espécie de Bíblia da economia mundial e jornal de referência. O artigo estava titulado: “Lacrado com um sorriso: como o Brasil conseguiu colocar seu homem Azevedo na OMC”. “O candidato brasileiro se traiu com um sorriso”, disse.
O problema é que isso jamais ocorreu. O Estado foi um dos cerca de 20 jornais, câmeras e agências de notícias que estavam na porta da OMC quando essa reunião de terça-feira ocorreu.
O próprio Azevedo confirmou que, naquele momento, estava em sua sala no gabinete da missão do Brasil em Genebra, cerca de 15 minutos de distância de carro da sede da OMC.
O novo diretor foi informado pelo telefone e, em sua sala, estavam sua esposa e uma assessora. Ao receber o telefonema, fez um sinal de positivo com o dedo.
Quem de fato foi à reunião da OMC foi o diplomata brasileiro Estanislau Amaral, enviado pelo governo para saber o resultado da eleição. Na reunião, que também contou com um embaixador mexicano representando o candidato Hermínio Blanco, Amaral foi informado da vitória de Azevedo. Saiu feliz e chegou a comentar que seu sorriso “dizia tudo”, o que fez disparar os jornalistas informando seus editores e redações do resultado.
Azevedo jamais pisou os pés na entidade naquele dia. E nem nenhum jornalista do Financial Times.
Volume é inferior ao que ganham diretores do Banco Mundial e FMI e nao pagam impostos
Se nada mudar na forma de pagamento da OMC, Roberto Azevedo deverá receber em seus quatro anos na entidade um total de R$ 3,2 milhões em salários. O dinheiro, porém, é inferior ao que recebem os chefes do FMI e do Banco Mundial, consideradas como organizações irmãs da OMC. O brasileiro terá de negociar com a entidade o pacote de beneficios que terá a partir de 1 de setembro, incluindo moradia. Mas, se o atual salário de Pascal Lamy for mantido para o brasileiro, o pacote envolveria cerca de US$ 400 mil por ano (R$ 800,7 mil).
O valor é considerado por negociadores como um salário adequado para garantir quadros de qualidade na entidade e fontes dentro da OMC insistem que se essas mesmas pessoas estivessem no setor privado, ocupariam cargos com renda bem mais elevada. Ainda assim, o valor que Lamy recebe é cerca de 70% superior ao que era pago nos primeiros anos da entidade.
Se Azevedo receber o mesmo salário de Lamy, ele terá uma renda inferior a dos demais diretores de organismos internacionais. No FMI, a francesa Cristine Lagarde ganha US$ 467 mil por ano, além de benefícios extras de mais US$ 83 mil. No Banco Mundial, o presidente recebe US$ 450 mil. Já Azevedo teria um salário de cerca de US$ 400 mil por ano.
Em 2009, Lamy criou uma verdadeira polêmica ao propôr um aumento de 30% de seu próprio salário, no que seria uma forma de garantir uma aposentadoria, já que a entidade não tem tal mecanismo. Em meio a pior crise financeira internacional em 70 anos, o pedido foi categoricament rejeitado pelo governo dos EUA e de vários outros países.
A OMC, justamente por conta da crise, vem adotando uma postura de crescimento zero de seu orçamento e, segundo diplomatas consultados pelo Estado, dificilmente Azevedo teria qualquer benefício extra ao que foi obtido por Lamy. Diplomatas também apontam que o brasileiro será alertado que não poderá trazer para a entidade um número importante de assessores, como fez Lamy.
Oficialmente, Azevedo apenas assumirá suas funções no dia 1 de setembro. Mas, rompendo um tabu, já começará a trabalhar quase imediatamente. Diplomaticamente, Azevedo afirmou que ainda não sabe como será a transição e insistiu que o diretor é Lamy.
Mas o Estado apurou que o novo diretor deverá ocupar um escritório dentro da própria OMC e, ainda neste mês, pode começar a viajar para reuniões ministeriais, acompanhando o atual chefe da entidade e até mesmo se envolvendo em decisões. O objetivo é o de garantir uma transição rápida para que a conferência ministerial da OMC, em novembro, não se transforme em mais um fracasso mundial.
O encontro que ocorrerá na Indonésia terá como missão praticamente definir o rumo da OMC durante todo o mandato de Azevedo. Portanto, se não houver um acordo antes da conferência, o risco é de que o próprio trabalho do brasileiro seja prejudicado. Tanto Lamy quanto Azevedo sabem que a entidade vive um momento crítico e salvar a conferência se transformou em prioridade.
O problema é que, para isso, o brasileiro terá poucos meses entre sua posse e o evento. Em duas semanas, Lamy pretende levar Azevedo para a reunião ministerial da OCDE, em Paris.
Apesar da disposição de Lamy de colaborar, o francês foi um dos poucos no mundo comércio que não pegou o telefone para ligar para Azevedo desde sua nomeação. Lamy apenas mandou uma mensagem escrita.
Diplomatas dos EUA e da Europa apresentaram na manhã e hoje seu voto na Organização Mundial do Comércio na seleção do diretor-geral da entidade. Washington como Bruxelas votarão pelo mexicano Hermínio Blanco. Mas admitem que, se o brasileiro Roberto Azevedo sair como vencedor, não irão se opôr.
A decisão é importante, já que evitaria um impasse. O Brasil afirma ter o maior número de voto entre os países emergentes. Já o México garante que tem o apoio quase integral dos países ricos.
Pelas regras da OMC, não basta apenas um candidato sair com o maior número de votos. O escolhido terá de ter apoio tanto de países ricos como emergentes. Na tarde de hoje, a OMC conhecerá seu novo diretor, depois de quatro meses de um processo que envolveu nove candidatos.
Michael Punk, embaixador ds EUA, foi o último a votar.
Traindo promessas feitas à presidente Dilma Rousseff, líderes europeus optam por dar seu voto ao candidato mexicano Hermínio Blanco para a direção da Organização Mundial do Comércio e embolam a corrida. Ainda assim, o Itamaraty insiste que os votos obtidos pelo Brasil seriam suficientes para garantir uma vitória do candidato brasileiro, Roberto Azevedo.
Amanhã, a OMC conclui seu processo de escolha e anunciará o nome do vencedor, em uma corrida que contou com nove candidatos e se transformou em uma questão de estado para muitos governos.
Um dos últimos a tomar a decisão de quem apoiaria foi a União Europeia. O bloco decidiu votar de forma conjunta em um nome comum. Na prática, isso significa que 28 votos dos 159 da entidade seriam dados de forma coesa.
Por semanas, o Brasil tentou nfluenciar os europeus, com Dilma recebendo garantias até mesmo do presidente da França, François Hollande, de que Paris apoiaria Azevedo. Portugal chegou a colocar um comunicado de imprensa para anunciar o apoio ao Brasil.
Na tarde de hoje em Bruxelas, porém, os países europeus se reuniram para tomar uma decisão sobre quem recebia seu voto na final. Numa primeira rodada de votações, Blanco saiu com 15, contra 12 de Azevedo.
Países que não queriam o mexicano insistiram que uma nova votação deveria ocorrer. O acordo foi de que o pleito seria refeito. Mas, desta vez, o resultado que saísse deveria ser respeitado por todos. Por algumas horas, manobras intensas ocorreram nos bastidores para tentar reverter a situação.
Mas, quando a votação ocorreu uma vez mais, o resultado saiu idêntico: 15 x 12 para os mexicanos.
A UE, assim, decidiu dar todos seus votos a Blanco, frustrando a indicação que o Itamaraty tinha de que ficaria com pelo menos parte dos votos.
Apesar de ser um duro golpe, a decisão da Europa não significa o fim da campanha do brasileiro, que tem ampla maioria entre os países emergentes. O problema é que, pelas regras da OMC, o candidato escolhido deve ter o apoio de todas as regiões.
Azevedo chega ao último dia com forte apoio na África, Ásia, América Latina e Oriente Médio. Mas sem o apoio dos EUA e da Europa, as duas maiores economias do mundo.
O brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da Comissão de Inquérito criada para ONU para investigar crimes na Síria, desmente a versão de que grupos rebeldes sírios usaram armas químicas durante o atual conflito contra as tropas do regime do ditador Bashar Assad. A denuncia havia sido feita no fim de semana por outra integrante da mesma comissão, a suíça Carla del Ponte.
“Dispomos de testemunhos sobre a utilização de armas químicas, em particular do gás sarin. Não por parte do regime sírio, mas dos opositores”, disse Del Ponte em entrevista a uma rádio suíça, na madrugada desta segunda-feira. Segundo ela, “as investigações ainda estão longe de serem concluídas” e, portanto, não se poderia ainda afirmar se Assad utilizou ou não armas químicas.
Na tarde de hoje, Pinheiro emitiu uma nota para esclarecer que a Comissão “não chegou a resultados conclusivos sobre o uso de armas químicas na Síria por nenhum dos grupos no conflito”. “Como resultado, a Comissão não está em posição de fazer qualquer comentário extra sobre as alegações nesse momento”, disse.
Pinheiro se limitou a insistir que governo e oposição devem ter em mente que o uso de armas químicas é “proibida em todas as circunstâncias”.
O Exército Livre Sírio também negou a acusação de Del Ponte, justificando que se trata de “meras especulações”.
Terça-feira, 18 de maio de 1982. 11 da manhã. Em 10 Downing Street se reuniam a primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher com seu gabinete com 23 ministros. Na agenda, dois pontos fundamentais para o futuro do Reino Unido: a situação nas Ilhas Malvinas diante da guerra e como atuar na Copa do Mundo daquele ano e que começaria poucas semanas depois.
O debate não era sobre a tática em campo. Mas como fazer e como agir se, por algum azar, a Inglaterra tiver de enfrentar a Argentina em uma das fases da competição. A Guerra das Malvinas tinha acabado de começar, semanas antes.
Documentos secretos mantidos nos arquivos diplomáticos britânicos mostram que, longe de ser um assunto apenas de especuladores e comentaristas esportivos, um eventual enfrentamento entre os dois times virou assunto de estado. Na realidade, o assunto acabou afetando também as seleções da Escócia e Irlanda do Norte, que também estavam no Mundial da Espanha.
O primeiro a tomar a palavra foi o secretário para Meio Ambiente, Michael Heseltine, que também se ocupava da pasta de esportes. Segundo ele, o governo não deveria apelar naquele momento para o abandono dos times britânicos do Mundial. Mas que deveria estar pronto a faze-lo caso a situação se deteriorasse e a opinião pública demandasse uma atitude do governo.
Segundo os arquivos indicam,a Fifa já teria apontado às autoridades britânicas que caso a Escócia viesse a cruzar com a Argentina na segunda fase da Copa, a entidade estaria disposta a intervir e mudar o jogo. Um confronto com a Inglaterra só ocorreria numa eventual final, o que nunca ocorreu.
Thatcher tomaria então a palavra e alertaria que “muitos no Reino Unido ficariam profundamente ofendidos se um dos times britânicos enfrentasse a Argentina”. Mas também optou pela cautela e não fez um apelo por um abandono da Copa. Apenas pediu que o secretário de Estado para a Escócia, George Younger, e o secretário de Estado para o Meio Ambiente entrassem em contato com a Fifa para garantir que um eventual confronto na segunda fase entre Escócia e Argentina seria evitado.
Num informe paralelo preparado pelo governo, os britânicos apontavam que a Fifa já os havia alertado que não tinham qualquer chance de banir a Argentina da Copa por conta de sua agressão nas ilhas. Não seria por menos. A Argentina era a campeã que defenderia seu título na Espanha e o então presidente da Fifa, João Havelange, não estava disposto a minar seu evento ou enfurecer os militares argentinos.
Mas Londres também admitia que abandonar a competição seria uma “vitória moral para os argentinos”. Mas os britânicos também tinham outras considerações que iam bem além da guerra: as finanças das federações envolvidas no Mundial.
“As consequências financeiras de um abandono poderiam ser consideraveis”, escreveu o memorando. “Poderia haver uma proibição de jogar a Copa de 1986, uma multa pesada pela Fifa, a possibilidade de compensações, o cancelamento de viagens e hoteis, e os contratos dos jogadores teriam de ser atendidos”, alertou.“As Associações de Futebol da Irlanda do Norte e da Escócia decretariam falência”, completou o informe que ainda indicou que o governo teria a obrigação moral de compensar as entidades pelos prejuizos.
Eis um trecho do arquivo diplomático:
THE S E C R E T A R Y OF S T A T E FOR THE ENVIRONMENT said that the countries competing in the final stages of the World Cup includedEngland, Scotland and Northern Ireland, as well as Argentina who was the current holder. None of the United Kingdom teams was in the same f i r s t round group as Argentina, but Scotland could meet Argentina i n the second round. While the Government had discouraged sporting links with Argentina at any l e v e l i n the United Kingdom or i n Argentina, theyhad taken no action to discourage B r i t i s h sportsmen competing with Argentines i n t h i r d countries. Although the Government had no powers to ban sporting contacts, the football authorities had indicated that they would follow a Government c a l l for withdrawal f r om the competition: but they were unlikely, unless the external situation changed considerably, to withdraw on their own i n i t i a t i v e . His present view was that the Government should not yet suggest withdrawal to the football authorities, but that they should be ready to adopt that course if the situation worsened and i n the light of public opinion.
In discussion the point was made that, while England and Northern Ireland could meet Argentina only in the final or in the play-off for third
place, and it might be possible for the Federation International de Football Association (FIFA) i f necessary to rearrange the second round
of the competition to ensure that Scotland did not meet Argentina i n it, there could be serious disturbances involving B r i t i s h spectators at other
matches. Football supporters from the United Kingdom would t r a v e l to Spain i n any case and disturbances were more l i k e l y i f United Kingdom
teams had been withdrawn f r om the competition. Although the Government’s supporters i n Parliament would be disturbed i f arrangements
could not be made to avoid United Kingdom and Argentine teams meeting, their general view was that the decision on participation should
be left to the football authorities. It was possible that events might lead the football authorities to decide independently to withdraw.THE P R I M E MINISTER, summing up the discussion, said that many people i n the United Kingdom would be deeply offended if United Kingdom
teams were to play Argentina. There was no reason for the Government to intervene with the football authorities at the present time. If
Scotland’s team reached the second round, it would be helpful if F I FA could arrange that they did not then play Argentina’s,
Em campo, todos os times britânicos contribuiram para que o confronto com os argentinos não ocorresse. A Inglaterra fez um início de Mundial exemplar. Venceu seus três primeiros jogos. Mas, na segunda fase, seria eliminada pela Alemanha. Escócia jamais passaria da primeira fase e, no caso da Irlanda do Norte, a seleção acabou também eliminada na segunda fase.
Os confrontos com a Argentina haviam sido evitados. Acima de tudo pela incompetência dos times.
Quatro anos depois, porém, o que muitos temiam iria ocorrer. Argentina e Inglaterra entraram em campo e até hoje aquele jogo faz parte dos debates, seja de torcedores ou de políticos. Maradona faria um gol com a mão e outro antológico, driblando a meio time inglês. Desta vez, Londres não teve como apelar à Fifa para evitar o confronto.
GENEBRA – Num esforço de promoção sua imagem internacional e indicando às principais potências que o Brasil está disposto a pagar o preço de uma liderança, o governo de Dilma Rousseff multiplica suas doações internacionais para crises humanitárias, distribui cheques e faz com que alimentos cheguem principalmente a áreas de interesse político.
Dados internos da ONU obtidos pelo Estado revelam que, em menos de uma década, o Brasil aumentou suas doações em mais de 50 vezes, isso sem contar com doações bilaterais e empréstimos do BNDES, muitas vezes sem um retorno garantido.
O desembarque do País entre os doadores fez com que a ONU, neste ano, transferisse o anúncio de seu apelo mundial por recursos para um evento justamente no Brasil, amanhã. Para isso, a ONU enviará sua coordenadora de Assuntos Humanitários, a baronesa Valerie Amos. O apelo por recursos é uma ação tradicional da ONU que reune os maiores desastres humanitários do mundo e pede que doadores façam suas contribuições.
O costume diplomático é que o lançamento desse apelo ocorra em Nova Iorque, na sede da ONU. Mas, no ano passado e em busca de novas fontes de recursos, a ONU anunciou seu projeto nos países do Golfo Pérsico, de olho nas doações dos ricos emirados da região.
Para 2013, a opção foi a de transferir ao evento a outro potencial doador de peso: o Brasil.“A chegada do Brasil nesse grupo de doadores é um passo importante”, declarou ao Estado Valerie Amos, ex-ministra britânica. Segundo ela, a presença do Brasil no grupo de doadores não é importante apenas por conta dos recursos. “O que queremos é um compromisso com a ideia humanitária”, disse. A ONU não esconde que espera que o Brasil seja uma espécie de representante sul-americano entre os doadores e que convença outros países em desenvolvimento a seguir a mesma linha.
Salvo uma doação pontual de US$ 200 mil para Moçambique em 2000 e o envio de US$ 1,3 milhão em 2005 para as vítimas do Tsunami na Indonésia, o Brasil de fato só passou a ser um doador regular em 2008.
Naquele ano, pelo menos dez países na África, América Latina e Ásia receberam um total de US$ 3,3 milhões. Em 2008, o Brasil fez doações para crises humanitárias tanto em alguns dos países mais pobres do mundo, como Mianmar, Bolívia e Haiti, como também destinou US$ 200 mil para ajudar a China –a segunda maior economia do mundo – a enfrentar um terremoto.
Em 2010, a doação já chegaria a US$ 26 milhões, atingindo desde o Iraque, Ilhas Solomon, Arménia, Coréia do Norte e Mongólia. Em 2011, o volume seria mantido praticamente inalterado, mas com parte do foco sendo conduzido para a Líbia, em plena revolta, e os países vizinhos, como Tunísia e Egito.
Já em 2012, um novo recorde de doações seria obtido, com mais de US$ 54,4 milhões. Grande parte dos recursos faz parte de doações de alimentos que o Brasil prometeu à ONU e não segue em dinheiro vivo. Cabe à ONU encontrar parceiros que possam financiar o transporte dos alimentos.
Metade da doação foi para a Somália, com US$ 26 milhões em alimentos. Uma parte substancial foi focada na África, região que o governo considera como uma de suas prioridades em termos de ampliar sua influência.
Dos 22 países que receberam alimentos ou recursos do Brasil, 15 estão na África. Em 2012, Niger e Quênia chegaram a receber mais recursos que o próprio Haiti, país estratégico para o Brasil na América Latina. Gambia, Mauritânia, Sudão, Angola e Mali estão entre os beneficiados.
Cara Legal – Dentro do governo, diplomatas admitem que a ação é um dos pilares da política externa e da estratégia do Brasil em demonstrar que está disposto a “assumir responsabilidades”.
Para observadores da política externa brasileira, a ação do País pode ser entendida a partir de um discurso que o ex-chanceler e hoje Ministro da Defesa, Celso Amorim, proferiu numa reunião de especialistas em estratégia militar, em 2010. “Generosidade em política externa não pode ser o equivalente a ser um cara legal”, disse Amorim. “Generosidade é atender a nossos próprios interesses no longo prazo e harmonizando esses interesses com interesses de paz e prosperidade para todos. Isso é o que estamos tentando fazer na África”, completou.
Para organizações não-governamentais, o desembarque de países como o Brasil, Índia e China entre doadores é provavelmente “a maior mudança na história recente” da luta contra a pobreza no mundo. Mas isso não vem sem novas preocupações.
“A preocupação que temos é de que a ajuda ao desenvolvimento e o combate à pobreza não se transformem uma vez mais em um instrumento de política externa”, declarou Amy Dodd, da entidade UK Aid Network, em Londres. “Por anos temos lutado contra isso nos países ricos e espero que as lições tenham sido aprendidas”, disse. “A ajuda precisa ser vista apenas pelo o que ela é: uma ajuda ao desenvolvimento”, insistiu.
O resultado da ação do Brasil ainda fez com que uma série de organizações internacionais passassem a colocar o Itamaraty como foco de seu lobby por recursos. Entidades como a Organização Mundial da Saúde, o Fundo Global contra Aids e dezenas de outras entidades passaram a cortejar Brasília em busca de recursos.
Uma delas, o Programa da ONU para o Meio Ambiente, não disfarçou sua frustração. Isso porque, ao final da cúpula Rio+20 em 2012, a presidente Dilma Rousseff anunciou uma doação importante à entidade. Mas, até hoje, o dinheiro não chegou.
Para os países que são tradicionalmente os maiores doadores de recursos, a ação do Brasil alivia o peso de suas responsabilidades financeiras, principalmente em um momento de cortes de recursos e austeridade. “Estamos já colaborando com o Brasil e queremos ampliar essa relação”, declarou ao Estado Nancy Lindborg, administradora do USAID.
“Estamos atuando em diversos países do mundo e, diante da crise, as responsabilidades financeiras pesam”, admitiu Nancy. “Por isso, contar com um número maior de doadores é algo necessário”, indicou.
Há poucas semanas, a OCDE revelou que, em 2011, as doações de países ricos caíram em 3% ao mundo em desenvolvimento, no que seria a primeira redução em 15 anos. “A queda de doações é uma grande preocupação”,indicou Angel Gurria, secretário-geral da OCDE. Os americanos continuam sendo os maiores doadores, com US$ 2 bilhões apenas para emergências humanitárias. No total, em ajuda ao desenvolvimento, os americanos destinaram US$ 30 bilhões em 2011, 1% a menos que em 2010.
Já países como o Japão cortaram suas doações em mais de 10%, contra uma retração dramática de 32% nas ações da Espanha.
Claus Sorensen, diretor do Escritório Humanitário da União Europeia, não esconde que espera que a participação do Brasil ganhe novas dimensões nos próximos anos. “Até agora grande parte da ação brasileira era a doação de alimentos. Agora, começamos a discutir a possibilidade de que o Brasil também pague pelo frete para transportar essa comida”, indicou. Segundo ele, a Europa pagou pelo transporte de alimentos doadores pelo Brasil ao Mali. “Vamos tentar repetir a operação”, insistiu.
Novos dados divulgados hoje pela ONU revelam que o conflito na Síria já matou pelo menos 60 mil pessoas. As informações foram divulgadas em Genebra pelo Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos e apontam que, ainda que essa seja uma estimativa baseada em nomes de pessoas comprovadamente assassinadas, o número real dé vítimas do conflito seria ainda maior.
“O número é bem maior do que se imaginava. É realmente chocante”, afirmou Navi Pillay, comissária da ONU para Direitos Humanos.
Os números incluiram as mortes entre março de 2011 e novembro de 2012, quando as manifestações contra Bashar al Assad começaram. Na avaliação da ONU, porém, o conflito que tinha como meta derrubar o presidente sírio hoje já ganhou contornos sectários e religiosos. Até mesmo iraquianos que estavam vivendo como refugiados na Síria estão optando para retornar a seu país de origem e que é considerado como um dos mais perigosos do mundo.
Pillay deixa claro que, ainda que rebeldes estejam cometendo crimes contra a humanidade, a responsabilidade pelo conflito é de Assad, que optou por uma “repressão violenta”.
As maiores economias do mundo atacam a manutenção da redução do IPI no setor automotivo no Brasil, os programa INOVAR do governo e temem que Brasília possa ampliar o benefício fiscal para outros setores da economia no futuro. A queixa foi levantada hoje na Organização Mundial do Comércio e envolveu mais de 30 países que questionam a legalidade da política brasileira.
A principal queixa veio da União Europeia. O bloco se diz “cada vez mais preocupado pelo uso do Brasil de taxas para proteger o setor automotivo doméstico”. Pelas regras estipuladas pelo governo, empresas com um grau de produção nacional mínimo teriam uma redução de impostos, ganhando competitividade perante o consumidor.
O tema vem preocupando parceiros comerciais. Hoje, foi a vez da UE atacar a política brasileira, acusando as regras de “favorecer os produtores domésticos”. A preocupação é de que esse sistema seja “replicado em outros setores da economia do Brasil”.
O Japão saiu ao ataque também, alertando que as medidas estão desenhadas para “proteger a indústria nacional” e são “inconsistentes” com as regras da OMC. Australia, Coreia, Canadá, EUA, Taiwan, China e Hong Kong também criticaram o Brasil pela redução do IPI.
O Itamaraty foi obrigado a se defender, alegando que as medidas visam a encorajar o desenvolvimento técnico, aumentar o padrão ambiental e elevar a qualidade dos carros no Brasil.
Na avaliação do governo, as leis brasileiras estão de acordo com as regras da OMC.
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