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Um perfil “norte-coreano” de Joseph Blatter

Jamil Chade

27 agosto 2014 | 16:28

Nesta quinta-feira, Michel Platini vai anunciar se será candidato às eleições na Fifa e enfrentando Joseph Blatter nas urnas. Mas o suíço já se antecipou e publicou nesta semana um perfil de sua carreira. Um pérola a ser estudada por marketeiros políticos de todo o mundo.

 

GENEBRA - Papa do futebol, carreira acadêmica fulminante, rápido, visionário, poliglota, extrovertido, coronel do exército, jovial. Na última edição da revista oficial da Fifa, Blatter não é apenas um ser comum. É um verdadeiro herói. Daqueles de dar inveja a qualquer líder…de um regime autoritário pelo mundo.

O perfil traçado do “grande líder” não traz uma só menção aos problemas de corrupção enfrentados pela entidade, não fala que Blatter vetou uma proposta de colocar um limite nos mandatos de cartolas e nem no fato de que seu salário ser “top secret”.

Ok. Não seria o perfil oficial da Fifa que traria essas informações. Mas o texto mais parece uma peça de publicidade tirada de uma cooperação de agências de marketing de Pyongyang e Havana.

Como todo grande herói, até o seu lugar de nascimento passa a ser “especial” e berço de pessoas diferenciadas. O texto aponta a insignificante região do Valais, na Suíça, como a responsável por dezenas de coisas fenomenais, inclusive por ter “as mulheres mais bonitas do país”. Enfim, um excelente início de um perfil de um candidato.

Mas nada supera a frase seguinte. “A única coisa que o Valais ainda não produziu foi um papa, a menos que se descreva Blatter como uma espécie de papa do futebol”. Eu, tolo, pensava que o papa do futebol seria um grande jogador, que inspira multidões. Mas, claro, só poderia ser mesmo um cartola.

O texto revela como o jovem Sepp corria os 100 metros rasos em 11,7 segundos em 1956, como ele foi ao exército e se transformou em coronel, como ele era um brilhante aluno, como ele acumulou cargos dos mais interessantes.

Para falar da chegada de Blatter ao poder na Fifa, a revista não usa meios termos para descrever a eleição de 1998. O suíço, em seu perfil oficial, “acendeu ao trono”. Trono? Como assim? Pensei que eleições e monarquias não andavam de mãos dadas. Devo ter perdido alguma aula de ciência política pelo caminho.

Ah, e quem foi que inventou a tal da globalização? Cristóvão Colombo? Os impérios do século XIX? A Internet? Não. “Graças à Copa do Mundo e os acordos comerciais, a indústria do futebol lucrou milhões pelo mundo. Blatter foi um exemplo vivo da globalização antes de ela se transformar em uma moda econômica”, diz o seu perfil.

Um exemplo de como a vida lhe ensinou coisas que, claro, no comando da Fifa, aplicou de forma “visionária”. Como havia trabalhado na Federação de Hóquei da Suíça, ele conhecia bem os termos usados na modalidade. Quando chegou ao comando da Fifa, optou por não usar o termo “morte súbita”, que existe no hóquei. Magnânimo, ordenou que o nome usado no futebol fosse “Gol de Ouro”. De fato, um visionário que deveria ser considerado para o Prêmio Nobel da Paz.

E porque não comparar o grande líder à solidez do Matterhorn, um dos picos emblemáticos da Suíça? Grande ideia. Ao citar como Blatter defendeu a ideia de que, nos estádios, todos fossem obrigados a se sentar para ver um jogo, a Fifa o compara aos rochedos alpinos. “Apesar de Blatter possuir uma energia natural em seus pés, similar ao Matterhorn, ele foi a favor de abolir ficar de pé nos estádios”. Poético…

O texto conta como Blatter mentiu quando tinha 14 anos a um treinador, dizendo que sabia chutar com a perna esquerda para conseguir um lugar no time. A frase seguinte é magistral: “ele tirou o máximo proveito das oportunidades, dentro e fora de campo”. Opa, espera ai. Mentir vale para “tirar proveito”?

Ao descrever “uma das carreiras mais espetaculares do futebol”, a Fifa apenas deslizou quando falou das mulheres. Em um trecho do perfil de Blatter, a revista insiste que as leis do futebol hoje são obedecidas por todos: zulus, xiitas, judeus e curdos.

Mas e para as mulheres? Não tão rápido. Na Fifa, aparentemente nem todos são iguais. “O futebol é um jogo simples que só fica complicado quando você tenta explicar à sua esposa a regra do impedimento passivo e ativo”, completou o perfil! Que líder! Que exemplo!

Em 2015, a Fifa passa por eleições. Nós, mortais, não votamos. Mas temos a “sorte” de ler perfis fenomenais de homens que, todos os dias, influenciam em nossas vidas. Inclusive mandando um fax de campeão ao Palmeiras pela taça de 1951.