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Jamil Chade

05.fevereiro.2014 08:29:56

ONU exige que Vaticano entregue à Justiça suspeitos de abusos sexuais contra crianças

Pela primeira vez, Nações Unidas denunciam Santa Sé por violações aos direitos humanos e diz que “dezenas de milhares de crianças” foram vítimas de abusos.

 

GENEBRA – Numa iniciativa sem precedentes, a ONU exige que o Vaticano afaste e entregue para a Justiça todos os padres e funcionários da Santa Sé que sejam suspeitos de terem cometido abusos sexuais contra crianças. O alerta faz parte de um duro informe publicado hoje pela ONU, depois de examinar as políticas do Vaticano sobre a proteção aos menores e que acusa de forma direta a Santa Sé de violações aos tratados internacionais de direitos humanos. Segundo a entidade, “dezenas de milhares de crianças” foram vítimas de abusos sexuais pelo clero.

A ONU não mediu suas palavras na denúncia e alerta que a Igreja está mais preocupada em proteger sua reputação que garantir a proteção às crianças. “A Santa Sé tem de forma consistente colocado a preservação da reputação da Igreja e a proteção dos envolvidos nos crimes acima dos interesses das crianças”, denunciou.

Há menos de um mês, o Vaticano foi convocado para uma sabatina na ONU para explicar o que tem feito para proteger as crianças. O papa Francisco chegou a classificar os problemas de serem uma “vergonha” para a Igreja. Mas a ONU quer mais que apenas palavras. Hoje, o informe representa o resultado do exame e, de uma maneira categórica, condena a Igreja por suas atitudes.

Entre as recomendações, a entidade pede a “remoção imediata de todos os suspeitos de terem promovido abusos sexuais de seus postos e que os casos sejam levados às autoridades policiais competentes para que sejam investigados”.

“Pessoas que cometeram abusos sexuais contra crianças foram transferidos de paróquias ou para outros países como forma de encobrir os crimes”, atacou a ONU. Segundo a entidade, essa prática permite que padres “continuem em contato com crianças e que continuem a abusar delas”. Para a ONU, isso coloca em risco milhares de menores.

Silêncio – A ONU também acusa o Vaticano de ter se recusado a informar à entidade a quantidade de casos que conhece de abusos sexuais. Hoje, a entidade exige da Santa Sé que a “real dimensão” do problema seja tornado público. “Estamos profundamente preocupados”, alerta a ONU em seu informe.

Se a entidade cita “dezenas de milhares de casos” em todo o mundo, o informe soa o “grave alerta” diante da recusa do Vaticano em “reconhecer a extensão dos crimes cometidos e de não tomar medidas necessærias para lidar com os abusos”. Para a ONU, esse comportamento permitiu a “continuação dos abusos e a impunidade entre os autores dos crimes”.

Segundo a ONU, “diante de um código de silêncio imposto sobre todo o clero, casos de abusos contra crianças raramente foram informados às autoridades policiais nos países onde esses crimes ocorreram”. “Ao contrário, casos de freiras e padres afastados ou demitidos por não terem respeitado a obrigação do silêncio foram informados à ONU, assim como o caso de padres que foram felicitados por se recusar a denunciar criminosos”.

“Em muitos casos, as autoridades da Igreja, incluindo altas esferas da Santa Sé, mostraram relutância e se recusaram a cooperar com as autoridades judiciais”, denunciou a ONU.
O Vaticano alertou que não tem jurisdição sobre seus padres, já que eles são cidadãos de outros países e devem responder à Justiça local. Mas a ONU alerta que, justamente pelas leis canônicas, os sacerdotes devem jurar obediência ao papa. A ONU ainda alerta à Santa Sé que, ao assinar os tratados internacionais, o Vaticano “se comprometeu em implementar as convenções não apenas no território da Santa Sé, mas também como o poder supremo da Igreja Católica sobre indivíduos e instituições sob sua autoridade”.

A entidade pede que os arquivos de todos os casos conhecidos em Roma sejam compartilhados e que os crimes sejam publicados.

Leis - Para a ONU, o Vaticano precisa ainda reformar suas leis canônicas que simplesmente não respeitam os tratados internacionais de direitos humanos. Nelas, o abuso sexual é apenas um “delito contra a moral”. Na avaliação dos peritos da ONU, elas precisam ser consideradas como crime. A entidade também pede que a Santa Sé reforme a lei que impõe a obrigação do silêncio sobre as vítimas.

“Os casos de abusos sexuais, quando lidados, tem sido considerados como graves delitos contra a moral por meio de processos confidenciais que resultaram em medidas disciplinares que permitiram à maioria dos criminosos escapar dos processos judiciais nos estados onde os crimes foram cometidos”, alertou a ONU.

Brasil - Na denúncia feita pelas Nações Unidas sobre o comportamento do Vaticano em relação às crianças, a entidade ainda usa como exemplo a decisão da Igreja de excomungar uma garota de nove anos no Brasil que, em 2009, havia feito um aborto depois que foi estuprada por seu padrasto. Sua mãe e os médicos que realizaram o aborto autorizado por lei também foram punidos pela Igreja.

O então arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, declarou que as pessoas envolvidas no aborto da menina em Pernambuco cometeram uma penalidade eclesiástica e que seriam punidos com a excomunhão, a penalidade máxima prevista pela Igreja Católica. O então presidente da Comissão Pontifícia para a América Latina, cardeal Giovanni Battista Re, defendeu a excomunhão, mesmo que a interrupção da gravidez tenha sido um ato legal.

Hoje, a ONU condenou a atitude e afirmou estar “profundamente preocupada” com o caso”. Diante do fato, a ONU “apela à Santa Sé para que reveja sua posição sobre o aborto que represente riscos óbvios para a vida e saúde de garotas e que reforme o Canon 1298 relacionado com o abordo tendo em vista as circunstâncias sob as quais o acesso aos serviços ao aborto possam ser permitidas”.

A ONU está “seriamente preocupada sobre as consequências negativas da posição da Santa Sé e práticas de negar às adolescentes o acesso a métodos de contracepção, assim como informação sexual e sobre saúde reprodutiva”.

comentários (16) | comente

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16 Comentários Comente também
  • 05/02/2014 - 10:16
    Enviado por: Sergio Gonçalves

    Infelizmente a ONU não possui poderes para exigir nada do Vaticano: pode e deve acusar, solicitar o direito de investigação, o direito de propor julgamentos e aplicação de penas.
    Quanto à Santa Madre Igreja, ela chega de fato a um ponto lastimável. Que ela enfrente de vez a verdade: ao impor o celibato, ela se tornou o abrigo das aberrações sexuais mais sórdidas.

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    • 05/02/2014 - 11:45
      Enviado por: pedro

      Logo a ONU, que defende direitos sexuais para crianças de 10 anos de idade. Que tem diversos casos de pedofilia comedidos pelos seus agentes na África. Que piada! E de mau gosto!

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    • 05/02/2014 - 12:01
      Enviado por: Ricardo

      O problema ´´e que agora pegaram a Igreja para bode expiatório….Joaõ Paulo e Bento XVI fizeram muito para afastar os culpados, mas isso naõ saí nos jornais nem nos relatórios da ONU….pura falsidade…e politicagem…

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  • 05/02/2014 - 10:26
    Enviado por: edinanci

    seria mais eficaz os católicos que foram molestados informar a ONU esses padres pedófilos.
    essa lista seria mias completa e verdadeira.
    altas patentes da igreja nunca estariam nessa lista.

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    • 05/02/2014 - 16:15
      Enviado por: Luiz

      Mas é claro que altas patentes do VATICANO S/A estão na lista de pederastas-criminosos. Que ingenuidade pensarem que o baixo clero que dita ordens e esconde crimes. Risível !

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  • 05/02/2014 - 11:31
    Enviado por: Claudio Janowitzer

    Concordo integralmente com a atitude da ONU. Seria uma atitude de desfaçatez e de hipocrisia o Vaticano deixar de fornecer a lista à ONU sob a alegação que o castigo será o que Deus determinar.

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  • 05/02/2014 - 11:32
    Enviado por: Nagib Sarraf

    Por acaso a ONU não tem nada mais importante pra fazer? Por que não vai encher o saco de Cuba, da China ou da Coreia do Norte?

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  • 05/02/2014 - 12:08
    Enviado por: Leo Naphta

    Eu queria ver a ONU falar grosso assim para: criticar a ditadura cubana, exigir que o Japão reconheça seus crimes de guerra contra China e Coreia, denunciar o antissemitismo que grassa pela Europa e se oculta por trás dos “boicotes” a produtos israelenses, condenar a perseguição e assassinato de milhares de cristãos no Oriente Médio, fazer com que sejam amplamente conhecidas as barbáries cometidas por regimes comunistas (União Soviética, Camboja, China) que são completamente ignoradas, e por aí vai. A agenda política da ONU é mais do que evidente.

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  • 05/02/2014 - 12:48
    Enviado por: Hedson

    De fato, as vítimas são as melhores fontes para denunciar os abusos. Para isso, deveria se criar uma estrutura formal específica para colher essas denúncias. Certamente, a Santa Sé vai continuar a omitir os fatos, uma vez que isso compromete sua própria sobrevivência, diante da dimensão de casos de abusos.

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  • 05/02/2014 - 13:20
    Enviado por: felipe

    Muito me alegra as notícias incompletas do Estadão e comunicados bizarros da ONU contra a Santa Sé. É sinal de que a Igreja incomoda instituições que apoiam causas contrárias à vida, à família, à dignidade da pessoa humana… Nesses termos o estranho seria o contrário.

    A Igreja é a favor e defende, com unhas e dentes as causas fundamentais à estabilidade social: a vida, a união familiar, a saúde, a educação, a cultura, etc. Que moral tem a ONU para dizer que a Igreja esconde casos de abuso? A ONU?! Ela que defende tantos abusos contra as pessoas? Ela, que faz vistas grossas, dentre inúmeros exemplos, a testes de fármaco feitos por laboratórios na África onde, diga-se de passagem, há incontáveis missões de entidades católicas?

    A generalidade e superficialidade com que essas notícias nos chegam sempre são de uma generalidade risível. O que são milhares de abusos? Mil? Dois mil? Três mil? Cinquenta mil? Oitenta mil? Cento e cinquenta mil? Novecentos mil? O clero é formado por cidadãos comuns. Se abusos há, que sejam julgados e punidos.

    Um estudo da História em fontes verdadeiramente seguras, mostra como a perseguição é sinal de que a barca de Pedro vai de vento em popa. A única grande, grande e grande dor que notícias e artigos como esse trazem é saber que milhares de pessoas estão sendo vítimas do erro e, às vezes, da mentira mais descarada. Talvez não seja a palavra mais adequada, mas a aversão que o próprio Jamil Chade em algumas ocasiões externa quando trata da Igreja e das causas por ela defendidas, tenha, em certa medida, origem nessas calúnias. No mais, viva a perseguição! Nos assemelha ao próprio Cristo.

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  • 05/02/2014 - 13:22
    Enviado por: Ana Maria

    A ONU está de parabéns por sua atitude. É preciso combater todo tipo de corporativismo, que favorece a impunidade de malfeitores, principalmente nesses casos cujas vítimas são crianças.

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  • 05/02/2014 - 15:00
    Enviado por: André

    Apocalípse 18: 2; A profecia citada neste texto já se cumpriu, a moral que ela tinha por séculos, caiu.

    Apocalípse 18: 4 até 8; E esta profecia está perto de ocorrer.

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  • 05/02/2014 - 15:59
    Enviado por: Alexandre

    Isso é um completo absurdo, a Igreja deveria ser obrigada a entregar esses canalhas pra justiça.

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  • 05/02/2014 - 17:47
    Enviado por: Blumenópolis – Blumenau » Blog Archive » www.estadao.com.br - Blumenau

    [...] ONU quer que Vaticano entregue suspeitos [...]

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  • 05/02/2014 - 20:13
    Enviado por: Alexandre

    Pra mim pouco importa se é a ONU ou qualquer outra instituição. O que importa é que existe uma lista de milhares de pedófilos e estupradores espelhados pelas igrejas do mundo todo sendo acobertados pela Santa Sé ou seja lá quem for. Estes nomes precisam ir pra polícia de seus respectivos países e serem investigados criminalmente. Se nada for provado OK, mas se for, cadeia… simples…

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