Nas histórias de revoluções, guerras e conflitos, há sempre um momento em que a balança acaba se inclinando para um lado e o destino daquele conflito começa a ser definido. Nesta semana, o massacre em Houla, na Síria, pode ter sido um desses momentos decisivos. 108 pessoas executadas, 49 delas crianças de menos de dez anos de idade e uma comunidade internacional que foi obrigada a se deparar com uma pergunta direta: o que fazer agora.
Nesta sexta-feira, diplomatas engravatados tomarão uma das salas da ONU em Genebra para condenar o massacre. Parte da comunidade internacional dirá um sincero “basta” à matança. Outra parte, mais hipócrita, está usando o incidente para pressionar ainda mais pela queda do regime de Bashar Al Assad.
Seja como for, a realidade é que o destino da Síria pode ter começado a ganhar um novo formato diante desse episódio. Ban Ki Moon, secretário-geral da ONU, deu o tom: “mais um massacre como esse e a Síria entra em guerra civil”. Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da Comissão de Inquérito sobre as violações na Síria, também usa Houla como uma referência. Mas para alertar justamente que não existe outra opção senão a negociação. Para ele, o massacre pode ser um recado do que ocorreria de uma forma generalizada no país se a opção for abandonar as negociações de paz. Portanto, melhor apostar na mediação que Kofi Annan está conduzindo e esquecer da ideia de uma militarização.
Se Houla pode ser um divisor de águas para a Síria, a história está repleta de episódios parecidos que definiram o destino de populações inteiras.
Em Sarajevo, no dia 5 de fevereiro de 1994, uma bomba caíria sobre o mercado na praça principal, poucos minutos antes do meio dia. 68 mortos e 200 feridos entre a população muçulmana. Seria necessária mais uma bomba, um ano depois no mesmo mercado, para fazer a OTAN agir.
Nos Balcãs, no século 19, o embate entre o Império Turco-Otomano e Russo também precisaria de um massacre para mudar a história da região. Verdadeiras orgias de assassinatos, estupros e destruição de vilarejos cristãos eram promovidos pelos otomanos. O auge desse momento teria ocorrido na cidade de Batak, hoje na Bulgária. Lá, a estimativa é de que 5 mil dos 7 mil habitantes morreram nas mãos dos soldados turcos. Aqueles que conseguiram escapar do primeiro massacre se refugiaram na única igreja do vilarejo. Mas o local seria incendiado, com os cristãos dentro.
Pouco a pouco, os massacres na Bulgaria ganhavam a atenção do restante da Europa, principalmente por meio de relatos de missionários cristãos que estavam na região. Outro fator que começou a pesar foram os artigos publicados por diversos jornais europeus que haviam enviado seus correspondentes ao front. Um deles, Januarius MacGahan, descreveria com detalhes o que encontrou ao chegar em Batak.
“Do lado oposto à rua estavam esqueletos de duas crianças, parcialmente cobertas por pedras, e com um corte de dar medo em seus pequenos crâneos. O número de crianças mortas nesses massacres é algo de enorme. Eles eram frecquentemente espetados em baionetas e nós temos várias histórias de testemunhas que viram pequenos bebês carregados pelas ruas, tanto aquí como em Otluk-kui, nas pontas das baionetas”, afirmou.
MacGahan, que havia nascido em Ohio nos Estados Unidos, contava ainda como os soldados “abriram mulheres grávidas, e mataram as crianças que ainda não tinham nascido”. “Ao aproximarmos do centro da cidade, ossos, esqueletos e crâneos se tornavam mais numerosos. Não havia uma só casa em ruinas em que não viamos restos humanos e as ruas próximas a elas estavam repletas com esses restos. Nas portas de suas casas, mulheres andavam de cima para baixo com seus cantos fúnebres. Uma delas agarrou meu braço e me levou para dentro da casa e, em um dos cantos, cobertos pela metade com pedras e morteiro, estavam os restos de uma outra jovem mulher, com seu longo cabelo mexendo de forma selvagem entre pedras e poeira. E a mãe, em agonia, batia com sua cabeça de forma louca contra a parede. Eu só pude me virar e sair andando sentindo dor no coração, deixando-a sozinha com seu esqueleto. Alguns passos adiante, uma mulher estava sentada nos degraus da porta de sua casa, balançando seu corpo para frente e para traz, emitindo lamentações além do que eu poderia imaginar. Sua cabeça estava enterrada em suas mãos, enquanto seus dedos estavam inconscientemente torcendo seu cabelo que caia sobre seu colo, onde estavam três pequenos crâneos, ainda com um pouco de cabelo agarrado sobre eles. Como é que a mãe se salvou e as crianças foram massacradas? Quem saberá”, afirmou o jornalista em sua crônica.
MacGahan relataria o que viu em uma escola, onde os ossos e cinzas de 200 mulheres e crianças queimadas vivas poderiam ainda ser encontradas. Fora das salas, um pátio era o local onde mais cem pessoas haviam sido enterradas. “Mas os cachorros descobriram parte deles. A água pode entrar e agora o que se ve é uma piscina de horrores, com restos humanos boiando entre a lama”, escreveu.
A descrição chocaria a opinião pública europeia. “O que vimos la era medonho demais. Um número imenso de corpos que haviam sido parcialmente queimados. Eu nunca havia imaginado algo tão horrivel. Andamos pelo local e vimos que essa cena se repetia centenas de vezes. Em todos os lugares, horrores e mais horrores”, disse.
O jornalista não precisava de tradutor ou interprete para determinar o que havia ocorrido naquele massacre, nem de um mandato da ONU. Seu papel contribuiu para trazer para a opinião publica europeia a imagem de uma dissolução moral e psicológica do Império Otomano. A destruição de minorias não era mais que um reflexo da autodestruição que ocorria no seio da elite turca, no comando militar.
Os relatos de MacGahan influenciaram de forma decisiva a emergente opinião pública europeia que começava a surgir, pesando contra os turcos e sua aliança que existia até aquele momento com Londres. Alguns dos jornais mais influentes da época apelaram para que o Reino Unido abandonasse seus compromissos fechados ao final da Guerra da Crimeia com os turcos diante das novas atrocidades, convenientemente se esquecendo dos crimes cometidos pelos cristãos, que foram inúmeros.
Mas seria na Rússia que o apoio por uma guerra para proteger a população búlgara ganharia mais apoio público, de intelectuais da época e da elite após a publicação dos detalhes dos massacres. Grupos de intelectuais e polìticos acreditavam que as atrocidades dos turcos abriam a possibilidade para que o Kremlin finalmente colocasse em prática o que já se fermentava há anos no país: a necessidade de a Rússia Imperial agir, unir todas as nações ortodoxas e eslavas, numa espécia de Destino Manifesto do Kremlin. O movimento não deixava dúvidas de que a Europa precisava ter suas fronteiras e que o mundo ortodoxo não cabia às potências como Paris ou Londres, muito menos aos turcos.
Não há dúvidas de que um massacre não precisa e nem deve ser respondido com novos massacres. Houla não pode e nem deve dar início a uma guerra civil. O momento é o de pressionar Assad, isola-lo e usar a ocasião para mostrar que o próximo passo pode ser desastroso para toda a região.
A única certeza, diante do massacre, é que o silêncio incômodo, como o que está sendo adotado pelo Brasil, é a única resposta que não se pode aceitar, seja em Sarajevo, na Bulgária no século 19 ou em Houla no seculo 21.
O Itamaraty apoiou a convocação da reunião da ONU nesta sexta-feira. Mas isso não é suficiente. Condenar publicamente o massacre de Houla não significa queimar canais de diálogo, que admito que são fundamentais se uma guerra deve ser evitada. Para uma sociedade com valores democráticos, significa ter princípios.
Hoje, Brasil e Estados Unidos se enfretam em uma partida que, apesar de amistosa, é considerada como fundamental para a sobrevivência de Mano Menezes como técnico da seleção. Mas, na história recente do futebol brasileiro, ele não é o único que poderá dizer que o “soccer” definiu sua carreira na seleção. Em 1994, o lateral Leonardo passou por uma experiência similar, ainda que bem mais dramática.
Quem conta os bastidores daquele jogo, válido pela Copa do Mundo, é Bebeto, em entrevista que concedeu a esse blog. Foi dele o gol que classificou o Brasil para a próxima fase. Mas foi nos vestiários que o drama era mais explícito. Naquele ano, o Brasil acabaria com uma espera de 24 anos e venceria o Mundial pela quarta vez. Eis a entrevista:
P – Qual foi o jogo mais dificil da Copa de 1994…
R – De longe, o que mais foi complicado e o que mais tivemos à beira de um desastre foi a partida contra os Estados Unidos.
P – Porque…
R – Eles vinham de resultados relativamente positivos, tinham muita garra em campo, jogavam em casa e ainda era dia 4 de julho (independência dos Estados Unidos). Isso tudo os deu muita energia e fizeram de tudo para vencer. Não mediram esforços.
P – Como foi a partida…
R – Foi truncada. O gol não saia e viamos que muitos já começavam a ficar desesperados. Para piorar, tivemos a expulsão de Leonardo, que acertou o rosto do jogador americano. Justo o Leonardo, que jamais faria aquilo. Aquele momento foi duro e colocávamos a mão sobre a cabeça. Ninguém sabia o que ia ocorrer.
P – Como foi o diálogo com Leonardo naquele momento…
R – A expulsão ocorreu ainda no primeiro tempo. Leo foi para o vestiario. Alguns minutos depois, o primeiro tempo acabaria e lembro-me de entrar no vestiário e ver, no fundo de um chuveiro, Leonardo agachado, encolhido, chorando enquanto a água caia sobre ele. Ele ainda estava com o uniforme da seleção. Fui perguntar: Leo, cara, o que foi…Ele não parava de chorar e me dizia que ia ser culpado pela desclassificação do Brasil.
P – E o que você disse…
R – Tentei tranquiliza-lo e o prometi que faria um gol. Eu dizia: vamos ganhar, você vai ver. Não deu outra. No segundo tempo, Romário puxou um ataque e tocou para mim na direita. Consegui fazer o gol. Foi um alívio.
P – E como reagiu Leonardo…
R – Quando o jogo terminou, Leo pulava de alegria e me abraçava no vestiário. “Muito obrigado, muito obrigado”, dizia ele.
GENEBRA – Investigações conduzidas pela ONU revelam que metade dos mortos do massacre de Houla, na Síria, teria sido composto por crianças e que os ataques teriam sido conduzidas por uma milícia próxima ao regime de Damasco. No final da semana passada, o ataque gerou a consternação internacional e escancarou que o plano de paz do mediador Kofi Annan estaria por um fio. No fim de semana, os números mostraram que 85 pessoas teriam morrido e o governo de Bashar Al Assad insistia que não tinha qualquer envolvimento.
Hoje, em Genebra, a ONU revelou que sua investigação apontou para novos fatos. O número de mortos seria de pelo menos 108 pessoas. Dessas, 49 eram crianças e outras 44 mulheres. “Famílias inteiras foram executadas”, confirmou Rupert Colville, porta-voz da ONU.
Segundo ele, pelo menos 90 dos 108 morreram executados, e não vítimas de tanques ou tiroteios. O dado aponta que não teriam sido apenas pego em meio à guerra. Mas claramente visados.
De acordo com a ONU, testemunhas insiste que os autores eram membros da milícia Shahabi, próxima ao governo de Assad. Para a ONU, o massacre é “imperdoável” e a alta comissária de Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, insiste que está na hora de remeter o caso ao Tribunal Penal Internacional, em Haia.
Hoje, Annan está reunido com Assad em Damasco, no que poderia ser a última tentativa de salvar seu plano de paz.
HAMBURGO – Há doze anos, quando comecei a trabalhar na Europa, era praticamente impossível ver uma pelada de futebol ser disputada sem que pelo menos um dos “jogadores” levasse vestido a camisa da seleção brasileira. Mas nos parques europeus nesta primavera no Velho Continente, confesso que praticamente não vi camisas da seleção brasileira entre os jovens, seja em Hamburgo, Budapeste, Barcelona e nem mesmo nas proximidades de minha casa em Genebra. Confesso também que deixei de usar a camisa da seleção nesses “amistosos”, trocando por uma da seleção palestina…
Enfim, camisas com nomes nas costas como Messi, Cristiano Ronaldo, Drogba e outros craques parecem ser mesmo as preferidas. Confesso também que não vi pelos parques e campos improvisados nenhuma camisa do Santos, com o nome Neymar nas costas.
Nada disso é por acaso e o auge disso foi o que ocorreu do jogo da seleção no sábado, em Hamburgo. Os dinamarqueses agiram como se fossem eles os favoritos, ou pelo menos aqueles com mais experiência. Levaram um susto. O time brasileiro, apesar de ter uma equipe olímpica em campo, de estar sob pressão e de não repetir resultados do passado, assumiu a iniciativa do jogo e partiu para cima, com personalidade.
O próprio tecnico Mano Menezes não esperava pela reação dos dinamarqueses, que entraram em campo na condição de um time que havia terminado a eliminatória da Eurocopa em primeiro lugar.
A situação permitiu que o Brasil transformasse o susto em gols. Mas ela também revela uma outra dimensão que, pelo menos aqui na Europa, poucas vezes foi tão explícita: a de que o Brasil é apenas mais uma seleção no mundo. Colocar o time em campo, com a camisa amarela, não é sinônimo nem de ver o adversário tremendo e nem de arquibancadas lotadas.
Entre cartolas, não são poucos que apontam o fato de que o Brasil deixou de ser favorito automático em torneios e jogos. Na semana passada, Michel Platini insistia que os favoritos para vencer o Mundial de 2014 são as seleções europeias. O alemão Breitner, em uma outra entrevista, chegou a falar em “encruzilhada” para o futebol brasileiro e que o time estava “sem direção”.
Entre os jogadores da seleção, não são poucos os que se queixam dos comentários que recebem de colegas estrangeiros em seus clubes na Europa. “É chato ficar escutando esses comentários”, afirmou o capitâo Thiago Silva. “Obviamente que ficamos magoados, mesmo que eles são feitos de uma forma que pode parecer uma brincadeira”.
Mas as evidências são claras e mesmo Leandro Damião deixa transparecer que até mesmo os jogadores sabem que a posição do Brasil não é a de destaque no cenário internacional hoje. “Nosso objetivo é de voltar a ser a seleção que todos respeitavam e que era a primeira no mundo”, disse. A “falta de respeito” da Dinamarca os custou três gols em 40 minutos. Mas, no caso de uma seleção com craques e de maior porte, essa falta de respeito pode ter um resultado bem diferente.
Só uma atuação convincente contra México, Estados Unidos e Argentina e um desempenho de alto nível nos Jogos Olímpicos poderá começar a resgatar o status do futebol brasileiro e sua admiração. Seja nas arenas sofisticadoa da Europa, seja nas peladas disputadas entre garotos nos parques espalhados pelo continente.
Platini é hoje um cartola de poder. Manda na confederação mais rica do mundo, a Uefa. Mas dificilmente perde seu sentido de humor com jornalistas. Em uma conversa com esse blog em Budapeste, o francês relembrou o México, no ano de 1986. Nas quartas de finais da Copa do Mundo, ele liderou a França contra o Brasil de Zico e Careca. Marcou o gol de empate, perdeu um penalti. Mas foi quem ao final comemorou.
Platini não esconde. “Foi o jogo da minha vida no que se refere à seleção”, disse. “Depois desse jogo, decidi que não valeria mais a pena marcar gols pela seleção”, brincou. “Decidi que, mesmo que estivesse na cara do gol, passaria a bola. Marcar seu último gol contra o Brasil é especial”, insistia.
Na verdade, não era uma brincadeira. Platini nunca mais marcou um gol pela seleção. Foram 41 no total.
Ele também se lembra muito bem da comemoração dos franceses após o jogo, em 1986, ainda no vestiário. “Tigana batucava numa mesa e todos batiam palmas, cantando aquela música famosa do Brasil (Aquarela do Brasil)”, conta. Platini era um dos mais animados, cantando e dançando já sem uniforme da seleção.
Hoje, o cartola Platini não tem mais o mesmo físico de jogador. Mas continua ironizando sempre que pode os confrontos entre Brasil e França.
Só não conta que jamais foi campeão do Mundo e que a França teve de esperar até o surgimento de Zidane para finalmente vencer a Copa. Pena que foi contra o Brasil, de novo.
Leia o que foi publicado na época pelo jornal O Estado de S. Paulo:
http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19860622-34144-nac-0001-999-1-not/busca/Brasil+Platini
BUDAPESTE – Joseph Blatter, presidente da Fifa, não disfarçava o cansaço em sua voz. Em plena semana de Congresso da entidade, o cartola precisa provar que está tentando limpar a Fifa, que sua entidade tem credibilidade e ainda que a Copa do Mundo no Brasil vai acabar dando resutados. Tarefa, para muitos, quase impossível.
Em entrevista a dois meios de comunicação, porém, ele deixou claro nesta quarta-feira: Ricardo Teixeira era um obstáculo e sua saída permitiu que finalmente a Fifa e o governo estabelecessem uma “organização adequada” para a Copa do Mundo de 2014. Mesclando ataques indiretos e elogios rasgados, escolhendo cuidadosamente suas palavras e fazendo de tudo para não citar Teixeira nominalmente, Blatter fez questão de apontar que a saída do cartola da CBF e da organização do Mundial abriu uma nova fase na preparação do País e garantiu um canal de comunicação entre a Fifa e o governo. Suas declarações foram as primeiras de um alto funcionário da Fifa sobre Teixeira após sua saída.
Velhos rivais, ambos travaram uma verdadeira guerra, com o suíço ameaçando divulgar documentos secretos que, segundo a BBC, mostrariam que o brasileiro recebeu subornos. Para o lado brasileiro, a guerra não passava de uma disputa de poder para Blatter abrir caminho para seu aliado, Michel Platini, como presidente da Fifa em 2015, afastando uma eventual candidatura de Teixeira.
Eis alguns trechos da entrevista, concedida em uma das salas de um andar inteiro que a Fifa passou a ocupar em um hotel de luxo em Budapeste, onde ocorre sua reunião anual. A versão completa estará na edição desta quinta-feira do jornal O Estado de São Paulo.
A crise econômica já derrubou 12 governos na Europa. Alguns derrotados nas urnas, outros pelo mercado e outros ainda empurrados para fora de seus tronos por Angela Merkel. Mas nas eleições do dia 17 de junho na Grécia, a Europa irá se deparar com um dilema: respeitar a decisão soberana de um povo ou manter um projeto político de integração que representa o fim de séculos de guerras no continente.
Na Grécia, o líder da Coalizão de Esquerda, Alexis Tspiras, que lidera as pesquisas, insiste que seu partido não quer o fim do euro na Grécia. Apenas quer que as exigências de austeridade sejam repensadas. Seu estilo, porém, fez o chefe dos conservadores, Antonis Samaras, o comparar a Hugo Chavez. Bolivariano ou não, a realidade é que o jovem de 37 anos existe e seu discurso tem encontrado apoio entre os gregos. Bruxelas não como negar isso.
Até o dia 17, europeus vão promover um verdadeiro terrorismo do que significaria a saída da Grécia da zona do euro, na esperança de assustar tanto que os próprios gregos passariam a temer o dracma. Na verdade, como disse uma rádio de Atenas, seria o “dragmagedon”, uma espécie de meteorito que atingiria a Grécia e causaria o caos.
Se o terrorismo financeiro não funcionar, a Europa tem sempre outra opção: trocar de povo. Um jornalista indiano e que há décadas acompanha os maiores eventos econômicos mundiais, C. Raghavan, fez bem em lembrar nesta semana um comentário de Berthold Brecht.
Brecht era da Alemanha Oriental e fugiu para o Ocidente, se transformando em um dos maiores críticos do regime comunista de então, alertando para as incoerências entre Marx e os regimes.
Em junho de 1953, depois da revolta na Alemanha Oriental ter sida abafada pela polícia e pelo Exército Soviético, sindicatos ligados ao estado distribuíram panfletos alertando que havia sido a população uem traiu o governo e que poderiam reconquistar a aliança e confiança redobrando esforços.
Brecht respondeu de forma brilhante: “Não seria mais fácil nesse caso para o governo dissolver o povo e eleger outro?”
Jose Maria Marin assumiu a CBF com um acordo tácito com Ricardo Teixeira: não tocaria na organização da seleção brasileira e manteria a estrutura deixada pelo ex-cartola. Mas, cada vez mais, vem impondo seu tom sobre o que quer da seleção.
Hoje, em Budapeste durante o Congresso da Fifa e às vésperas do embarque da seleção para uma turnê de quatro amistosos a partir do dia 26, Marin voltou a mandar seu recado à comissão técnica de que seu objetivo não é apenas de usar os Jogos Olímpicos para preparar a seleção para 2014, mas sim conquistar a medalha de ouro.
“No momento, ganhar a medalha de ouro é a prioridade e nosso primeiro grande objetivo”, indicou. “Não escondo de ninguém: a meta no momento é de conquistar os Jogos Olímpicos”, insistiu.
Originalmente, o plano da comissão técnica era a de usar as quatro datas para a seleção principal. Mas Marin fez questão de colocar suas prioridades. Tem seus argumentos: “Conquistar a medalha de ouro vao dar ao Brasil uma confiança maior. Será um estímulo para a Copa de 2014”, diz.
Sem dúvidas, os próximos quatro amistosos – contra Dinamarca, Argentina, México e EUA – serão fundamentais.
Hoje, a Fifa anunciou o que deveria ser uma decisão histórica. Pela primeira vez em mais de 100 anos, a entidade contará em sua cúpula com uma mulher entre os dirigentes esportivos.
Mas a escolha se transformou em uma guerra política. Joseph Blatter havia feito a promessa há um ano, quando tentou abafar uma crise na entidade. Na época, disse que traria ao Comitê Executivo uma mulher relacionada com o futebol feminino. Não seria por acaso: a modalidade começa a ganhar popularidade e gera já dinheiro para a Fifa, algo que não era o caso nas últimas décadas.
Mas a escolha de Blatter foi política, e não esportiva. A pessoa indicada será Lydia Nsekera, presidente da Federação de Futebol do Burundi. A princípio, uma sinalização com sensibilidade. Uma africana, de um país pobre e fora do eixo Europa-EUA-Japão, onde o futebol feminino ganha força. Melhor ainda: a única mulher presidente de uma federação nacional de futebol.
O problema é que, ao escolher Lydia, Blatter simplesmente dá a maioria absoluta de votos dentro do Comitê Executivo da Fifa para duas confederações:África e Europa. Qualquer decisão que for colocada sobre a mesa, basta o voto das duas confederações e a proposta é automaticamete aprovada. Não por acaso, Michel Platini, presidente da Uefa e protegido de Blatter, se apressou em apoiar o nome da africana.
A Concacaf questionou a decisão em uma reunião ontem, por conta do desequilíbrio nos votos futuros da entidade. Questionei então a um delegado da Fifa que estava na sala para saber qual havia sido a posição da Conmebol diante da perda de poder diante da aliança Europa-África. O delegado apenas comentou: Nicolas Leoz, presidente da entidade sul-americana, não estava sintonizado no debate no momento.
BUDAPESTE – Na sala onde os cartolas máximos da Fifa se reunem esta semana em Budapeste, uma enorme janela garantia uma vista privilegiada ao rio Danúbio. Na pauta, a reforma da entidade, diante de um dos piores escândalos de corrupção de sua história recente. Nos próximos dias, Blatter e sua turma fariam de tudo para mostrar ao mundo que limparam a Fifa de corruptos, que estabeleceram um tribunal, um código de ética e passarão a exigir até mesmo “ficha limpa” dos futuros cartolas.
Nas ruas do centro de Budapeste, carros negros blindados, motoristas impecavelmente vestidos e um protocolo rigoroso parece estar servindo a uma reunião de cúpula do G-20. Mas não. São apenas cartolas. (Ainda que um deles seja da família real jordaniana, uma tradicional potência do futebol mundial…..) Apenas no saguão de entrada do local onde nesta segunda-feira ocorria a reunião do Comitê Executivo da Fifa, com 24 membros, contei 13 seguranças. Blatter percorre Budapeste escoltado por dois carros de polícia, com sirenes ligadas. Dificil saber qual o motivo…
A proposta de reforma também vem revestida com uma aura de uma revolução interna. Limite de mandato para o presidente da Fifa –oito anos – limite de idade para cartolas e até mesmo uma mudança na forma de escolher as próximas sedes de Mundiais.
Mas a revolução interna não é bem assim e muito menos um golpe de estado orquestrado por parte da elite já no poder. O limite nos mandatos, se for aprovado, começará a valer a partir de 2015, quando os atuais “velhinhos” da Fifa já estarão fora da entidade, aposentados. O limite de idade também só vale para os novos recrutas, e não aos atuais cartolas – Julio Grondona e Nicolas Leoz tem ambos mais de 80 anos.
A forma mais democrática de se selecionar um local para realizar a Copa do Mundo também é uma reforma para as gerações futuras. A primeira Copa a ter essa nova regra será realizada e 2026, quando Leoz teria quase 100 anos de idade. Para completar, nenhum dos escândalos passados serão tratados, na esperança de que se coloque uma pedra definitiva sobre o passado – não tão distante – de polêmicas.
Bastava aos cartolas olhar ao Danúbio e sua poluição para entender que não é suficiente adotar apenas medidas cosméticas para acertar uma situação que se acumula por anos e anos – ou por quilômetros e quilômetros.
Se os húngaros quisessem limpar seu rio sozinhos, estariam literalmente jogando dinheiro no esgoto. O Danúbio nasce na Floresta Negra, na Alemanha , passa por algumas das regiões mais industrializadas da Europa e quando chega em Budapeste e cruza a cidade pelo meio, suas águas estão turvas, por mais que se deixe de jogar lixo na capital húngara. No total, são 2,8 mil quilômetros até chegar ao Mar Negro. Se na Alemanha o Danúbio abastece de água parte da população, na Hungria isso é praticamente impossivel por conta da poluição acumulada.
Se a Fifa quisesse fazer uma reforma de fato, adotaria medidas que seriam implementadas imediatamente, e não no futuro. Além disso, adotaria medidas para limpar seu passado, e não apenas adotando o princípio de que o que vale é a transparência de agora em diante. Por mais que se esforcem esta semana em dar ares de transparência, as águas continuarão turvas.
Pior. A semana que seria de reuniões acabou mais cedo. Na verdade, durou apenas quatro horas. A coletiva de imprensa de Blatter na terça foi cancelada e se limitará em apenas um breve comunicado de imprensa. E depois criticam a preparação do Brasil para a Copa…
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